sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Não me perguntem porquê [1]



Perguntavas-me o que faz de alguém um escritor. Bastará ser publicado? É preciso ser reconhecido pela crítica? Vender muitos livros?

Eu dizia-te que não era nada disso, que era algo pessoal, íntimo, mas a verdade é que eu ainda não tinha respondido a essa pergunta.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

poemas instantâneos (6)



Poema pernicioso

perigoso é
tentar
dizer

não existem
palavras para
o nocivo

o mal é
sempre
plural


pequenas histórias digitais (5)



Uma lagoa comeu uma nuvem. Foi assim que aconteceu.


Uma caneta bebeu uma rua. Ficou tudo na mesma.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

pequenas histórias digitais (4)



Um muro apunhalou um gato. Foram infelizes para sempre.


Uma pedra desejou uma flor. Depois nada foi igual.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

poemas instantâneos (5)

Todo o poema é o resultado de uma construção que se oferece ao leitor para que o reconstrua.

Já o processo de construção do poema, e há sempre um processo, consciente ou inconsciente, é outra coisa, e pode ou não ser visível e evidente.

Leia-se o que foi escrito a propósito do poema construido a duas mãos entre mim e o Gavine Rubro.


Os designados poemas instantâneos que tenho aqui publicado são produtos finais, mais ou menos conseguidos, mas são também resultado de um processo simples que pode ser reproduzido.

Deixo aqui o processo, para que o experimentem, se quiserem (podem enviar-me os resultados), e para que se interroguem por momentos se a poesia não será (também) jogo e divertimento.

Começou quando me interroguei sobre a diferença entre belo e bonito e, como muitas vezes faço, fui procurar o seu significado num dicionário on line. Foi então que olhei para o resultado como material poético e resolvi construir com ele um poema, interferindo o menos possível com o material e a ordem em que se apresentava.

Exemplifico com o primeiro dos poemas, mas podia ser qualquer um dos outros.

bonito

adj.

adj.

1. Agradável à vista ou ao ouvido.

2. Digno de menção.

3. Irón. Em bons lençóis, bem-arranjado.

s. m.

4. Brinquedo, boneco.

5. Espécie de atum.

fazê-la bonita: fazer um disparate.


Fazê-la bonita


Nem tudo o que é agradável

à vista ou ao ouvido

é digno de menção.

Quando em bons lençóis

até um atum parece

um brinquedo.



------------------------------------>Experimentem.


pequenas histórias digitais (3)



------> Um homem matou uma cegonha, e mais não sei.

------> Umas calças amaram um cão. Desapareceram sem deixar rasto.

Escusado será dizer...


... e ainda bem que assim é ... mas como há sempre quem se esqueça.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

poemas instantâneos (4)

Amor, - oris


Sentimento intenso

paixão

entusiasmo delicado

brandura

(faz isso com mais amor)

pode-se ou não

morrer de amor(es) e

por amor à arte

fazer amor

livre ou cortês

(vem cá amor)

com grande dedicação

ou cuidado

(se tens amor

pensas melhor)

Uma rosa




'Rose is a rose is a rose is a rose'


SUL

Apresentaram-me ao João Filipe Marques e a conversa (breve) levou-nos à revista Sul e ao blogue Um Pouco Mais de Sul que era, à data da sua criação, uma extensão da revista Sul e daí o nome de nascença.
Lembro-me de alguns detalhes da ascensão e queda da revista, contados pelo José Carlos Barros, mas não o suficiente para os reproduzir aqui.
Fica aqui o desafio a quem possa contar a história, que vale a pena ouvi-la.

pequenas histórias digitais (2)

5 813 512 222

Uma flor amou um homem. Um gato desejou um homem. Um cão amou um cão. Foi assim que tudo começou.


1 642 357 448

Um homem apunhalou uma pedra. Um cão bebeu uma flor. Uma nuvem matou uma pedra. É sempre a mesma coisa todos os dias.

domingo, 24 de outubro de 2010

Estamos tão sós





O que nos afasta
uns dos outros
é o que nos aproxima
uns dos outros. Este
ser ao mesmo tempo
um e outro. Este ser
ao mesmo tempo
todo e parte desse
todo. Estamos tão
sós quando nos
bastaria apenas ser.

Eu sei quem é o Homem do Fraque



O Homem do Fraque é... quem me fez esta entrevista.

pequenas histórias digitais



1 123 245 365
Um homem comeu um cão. Um gato amou uma pedra. Uma flor bebeu uma lagoa. A moral desta história fica por tua conta, leitor.

1 948 571 627
Um muro matou uma rua. Uma cegonha desejou uma nuvem. Uma caneta apunhalou umas calças. Juro que foi isto que aconteceu.

poemas instantâneos (3)

Causa oculta

Todo o poema é inexplicável
a poesia é um culto secreto
toma as tuas precauções
avança em segredo e
à cautela
reza dez ave-marias
e um pai-nosso

sábado, 23 de outubro de 2010

poemas instantâneos (2)

adjectivo

feito num
instante
repentino
rápido
assim é
o poema

Sugestão para hoje

poemas instantâneos (1)

Fazê-la bonita

Nem tudo o que é agradável
à vista ou ao ouvido
é digno de menção.
Quando em bons lençóis
até um atum parece
um brinquedo.


Belo!

Nem tudo o que é belo
é aprazível deleitoso ameno

Nem tudo o que é belo
é perfeito para o fim a que se destina

Nem tudo o que é belo
nos satisfaz completamente

Nem tudo o que é belo
é nobre generoso certo

Nem tudo o que é belo
é perfeitamente belo

só o sexo
é excelentemente
belo

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Conversas de passagem

Tomei a liberdade de juntar alguns textos do Luís Alberto (olá Luís) apresentados um por um no seu blogue com uma mesma etiqueta. Apresentá-los assim reunidos levanta na minha opinião uma pergunta e as mais que daí decorrem. O que se ganha (em literatura) juntando (combinando) diversos elementos?


Conversas de passagem

...vi-me aflita para ir buscar o bâton pra pôr...
...diz que a Tania disse que ele é um larilas...vai! vai!...
...na é?...é por aí...na é?...
...esprimido...só lhe pagam porque... enfim...
...é verdade que tenho uma divida que não sou eu que a tenho...
...são paneleiros... é o que é...são paneleiros...já os conheço...
...have you got enough money left to pay the check in?...
...mas Paris não entendo...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

lido por aí

Lido por aí podia perfeitamente ser o titulo de uma nova rubrica [etiqueta] e aí incluiria esta referência, mas como o que o Henrique Manuel Bento Fialho escreve tem tudo a ver com "a construção do poema" é nessa rubrica que a vou depositar. Vão ler e depois digam-me.

Hoje

Paleta

Tens uma paleta
a que faltam
algumas cores. Talvez
porque há substâncias
a que não soubeste
dar expressão. Ou porque elas
são incolores. Ou porque
em toda a realidade
há fendas
que nem pela palavra
nem pela cor
alguma vez
saberás preencher.


Albano Martins
Escrito a vermelho
Campo das Letras
1999
1ª edição

arte combinatória

Toda a arte é combinatória e a literatura não foge à regra e elege mesmo a combinação como pedra de base, desde a poesia ao romance. Os textos, por exemplo, que caem normalmente na definição de microficção vivem muito da combinação de elementos díspares, são textos marcadamente híbridos. Mas esta conversa terá de ficar para outra altura. Por agora fica criada uma nova rubrica: arte combinatória.

O DOM DA PALAVRA (fim)

[QUASE FELIZ]


Hermínio Campânula era um homem simples, mas nem por isso era menos sensível aos paradoxos, e sabia que muitas vezes o que nos preocupa mais é o que menos nos devia preocupar, assim como as coisas que menos importância deviam ter são as ganham muitas vezes uma importância desmedida e sem controlo. Por isso percebeu com facilidade que tinha de tomar uma decisão sobre o que lhe acontecera e, se não tinha dúvidas que o melhor era ignorar o que lhe acontecera, a verdade é que não sabia qual a forma que essa ignorância devia tomar. Podia simplesmente continuar a falar, como sempre fizera, ignorando dessa forma não só o que lhe acontecera mas também aqueles que insistiam em não compreender o que ele dizia; ou podia continuar calado, o que lhe parecia sem dúvida mais prudente e não contrariava a sua natureza silenciosa e contemplativa, ainda que a vontade de falar como os outros, como já tivera ocasião de perceber, não desapareceria com facilidade e poderia fazê-lo infeliz e miserável. Perdido nestes pensamentos e incapaz de tomar uma decisão sobre um assunto tão delicado, resolveu ir passar uns dias junto ao mar, numa pequena aldeia habitada quase em exclusivo por estrangeiros.

Depois de muitas horas de passeios solitários e de ruidosos convívios nos cafés e bares Hermínio Campânula decidiu finalmente que ficaria por ali, iria viver ali, onde podia falar sem que ninguém o percebesse e sem que ele, na maior parte das vezes, percebesse o que lhe diziam.

Sentia-se quase feliz e isso era muito mais do alguma vez esperara sentir, como não se cansava de repetir a quem o quisesse ouvir.

“Quase feliz, sim, quase feliz, onde é que se viu uma coisa assim!”

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

poema é a flor abrupta

O Francisco Coimbra (Olá Francisco) entrou no tema. AQUI
A porta continua aberta.

Filtro

O poema
filtra
cada imagem
já destilada
pela distância,
deixa-a
mais límpida
embora
inadequada
às coisas
que tenta
captar
no passado
indiferente.

Carlos de Oliveira, in 'Micropaisagem'

BIS

O poema é a forma da poesia (daqui).

o primeiro dia

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A virgindade das palavras - Manoel de Barros

Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens.

Poema e Poesia

POEMA E POESIA: TENTATIVA DE DISTINÇÃO
contributo pessoal



É curial a distinção nos dias de hoje, mais do que antigamente, entre poema e poesia. Costumo distinguir estas duas realidades tomando a análise dos versos do poema (o poema enquanto conjunto de versos). Para mim um poema contém poesia se cada um dos seus versos, tomado isoladamente, de certa forma contrariar o tema do poema e conseguir ter uma existência autónoma. Caso não o consiga, muito provavelmente esse verso terá uma linha muito recta entre si e o seu único significado e a probabilidade de não conter poesia é grande.
Gosto de entender a poesia, separando-a definitivamente da prosa, enquanto contraficção. O que quero dizer é tão-somente isto: a vida impõe-nos uma ficção mais ou menos consciente: vamos para o trabalho, deparamo-nos com as mais variadas situações do dia-a-dia, há uma gestão pessoal que nos é, mais ou menos, imposta, há gente bem intencionada, gente mal intencionada no nosso caminho, etc. A poesia, enquanto momento de libertação, pode ser uma contra-resposta pessoal em termos de reequilíbrio do cérebro e emoções. Será essa contraficção. Mas esta contraficção pode e deve fugir à frieza da realidade em estado puro; pode e deve, também, conter elementos de nova ficção, de fantasia, do poético como o defini acima, da realidade que se superioriza em altura, dentro de uma linguagem que pretende descobrir o oculto, o longínquo. Talvez a diferença entre poema e poesia se resuma, afinal, a um «ver ao perto», no caso do poema que não participa da poesia como a configurei, e a um «ver ao longe», no caso da poesia propriamente dita, a mesma que pode ser encontrada no interior de um poema ou noutro qualquer texto.

Sylvia Beirute

O DOM DA PALAVRA (4)


[FOI UMA VEZ]


Um dia, uma mulher dirigiu-lhe a palavra, em inglês, e ele respondeu-lhe também em inglês. Não era bela, pelo menos de uma beleza convencional, mas tinha um olhar intenso de um estranho azul, e ele sentiu-se bem em responder-lhe. Ela sorriu e ele sorriu-lhe de volta. Tinha um mapa da cidade na mão e apontava para onde queria ir, a pouco mais de quinhentos metros de onde estavam. Hermínio Campânula começou a explicar-lhe com gesto simples e inequívocos como poderia chegar lá, mas ela sorria-lhe e ele sorria-lhe e, sem dar por isso deu por si a levá-la onde ela queria ir, ao mesmo tempo que iam tagarelando incessantemente, um e outro, sem saber o que cada um ia dizendo. Talvez fosse sueca ou de um outro qualquer país do norte, ele não sabia, e estava certo que ela também não sabia que língua ele falava, mas isso pouco importava, porque pela primeira vez há muito tempo ele falava com alguém que não se admirava por não compreender o que ele dizia. Pensou por breves instantes que talvez tivesse passado a falar uma qualquer língua rara e fosse por isso que ninguém o entendia, mas depressa esqueceu essa ideia e limitou-se a saborear aquele prazer inusitado de falar com alguém que lhe respondia sem espanto. Também não deu grande importância à descoberta que fizera, que também em inglês não era percebido, porque depois lhe ter feito a primeira pergunta em inglês, ela passara a falar na sua própria língua, sinal de que não entendera e ele fez o mesmo, falando também na sua própria língua, tanto mais própria quanto ninguém o entendia.

Acompanhou-a à igreja que ela procurava, entrou com ela e percorreram-na sem falar, o silêncio quebrado apenas e ali por alguns risos discretos. Depois saíram e vaguearam pela cidade sem destino, olhando em redor e dentro dos olhos de cada um, sorrindo sempre muito. Ao fim da tarde ele levou-a à estação dos caminhos-de-ferro, que ela indicou no mapa com um sorriso, e beijaram-se sem deixarem nem por um instante de sorrir, até que ela entrou para o comboio, a sorrir, e ele viu o comboio afastar-se, a sorrir.

A partir dessa altura sentiu pela primeira vez que lhe era muito difícil suportar a solidão, de que a impossibilidade de compreenderem o que dizia, era sem dúvida uma das facetas mais evidentes e dolorosas, ainda que na generalidade ele não lhe atribuísse grande importância.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Toda a gente sabe que o Sócrates mentiu...

até o Leonard Cohen sabe

o barco mete água
o capitão mentiu

contributos para pensar a construção do poema

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens.

[ Depois da discussão que se esboçou aqui sobre a construção do poema apeteceu-me recolher alguns textos que abordem a questão da criação do poema e da sua natureza. Começo então por este fragmento de Arte Poética II, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Quem quiser participar faça o favor de me enviar o que quer publicado aqui nesta rubrica.

AO RUBRO


Excelente entrevista a Gavine Rubro [Diogo Leal] no Homem do Fraque. Sigam já a ligação e demorem-se na leitura.

[...]


As meninas


Foder? Foder é coisa de meninas!

Homem que é homem tem mais que fazer

Fazer a revolução, mudar o mundo,

salvar a nação Isso e o mais que

seja, talvez futebol, TV, pizza e muita

muita cerveja E as meninas? As meninas

que se fodam, tá-se mesmo a ver

O que as meninas melhor fazem

é foder foder Foder é para meninas!

domingo, 17 de outubro de 2010

as restrições libertam

É possivel escrever sob um propósito oculto sem que o leitor tome dele conhecimento...

mas quando se quer falar de constrangimentos e restrições é muito dificil não utilizar a letra “a”, como fiz na primeira linha. No entanto, George Perec escreveu um romance, La disparition (1969) em que não utilizou a vogal mais usada na lingua fancesa: o “e” e que constitui um exemplo extremo de lipograma, ou seja, um texto em que o autor se impõe não usar uma ou mais letras. Experimentem com uma qualquer vogal e verão que não é fácil.

A revista Minguante, por exemplo, após o seu número 0, foi sempre temática e nunca deixei de acreditar que o tema, mais do que restringir, permitia uma certa concentração, que funciona como uma forma de libertação.

E a restrição é motivadora. Desafia.

Os oulipianos pelos menos acreditaram (e acreditam ainda) nisso e fizeram da restrição a sua pedra de toque, criando ainda hoje novas “contraintes”.



O poema aberto e nu

... a poesia é a abertura nua que não se pode delimitar, a intimidade mais pura e mais selvagem de algo que não podemos traduzir ou determinar segundo os esquemas da compreensão racionalizante. Todavia, o poema não é um enigma. Ele é evidente na sua obscuridade ou na sua claridade ofuscante. O poema é uma manifestação da origem ou, por outras palavras, da Vida absoluta, e por isso mesmo é um mistério real. O leitor, tal como o poeta, é um ego que não tem outra luz além daquela que o poema projecta sobre si."

António Ramos Rosa
A Parede Azul - Estudos sobre poesia e artes plásticas
Caminho - colecção universitária

pingue-pongue literário

Gosto do pingue-pongue a quatro, ainda que não propriamente a pares, que tem acontecido entre blogues:

Dueto entre Luis Ene e Gavine Rubro: o Poema

A construção do poema

A construção do poema – reflexão

O processo

Sobre a poesia escrita a duas mãos

O homem do Fraque dixit


Apeteceu-me, por ora, continuar assim:


Tudo sem assim é


tudo está

aquém e além

das palavras


estou eu

estás tu e

está o mundo


que sem as palavras

não existiria

assim pois


o poema é

ao mesmo tempo

um grito e um eco


[Mais tarde, talvez, acrescentarei algumas palavras sobre o constrangimento ou a restrição como elemento fundamental do processo criativo na escrita]

UM POETA: Herberto Helder




sábado, 16 de outubro de 2010

O DOM DA PALAVRA (3)


[EM VOZ ALTA]


Nunca lhe passou pela cabeça consultar um médico, pois se um por lado não saberia como lhe dizer o que se estava a passar com ele, por outro não gostava muito de médicos e só recorria a eles quando a sua condição não podia ser ultrapassada de outra forma, ou seja, não propriamente em caso de vida ou de morte, mas quando a coisa o incomodava de verdade e se obstinava em não passar. Na presente situação não se sentia muito incomodado, ainda que, pouco a pouco, lhe crescesse, pouco a pouco, a vontade de falar.

Nunca falara sozinho, nunca tivera esse hábito, que lhe parecera sempre um sinal de perturbação mental, mas sempre gostara de se ouvir e, embora falasse pouco com os outros, gostava de ler em voz alta e fazia-o com alguma regularidade, quer se tratasse de um romance, um poema ou mesmo um artigo de jornal.

E por esses dias que deixou de falar com as pessoas, começou a ler mais em voz alta, mas quando saia à rua, hábito que nunca abandonou, o silêncio custava-lhe mais e várias vezes lhe apeteceu dirigir a palavra aos outros, pois se não o compreendessem, afinal o problema era deles e não seu que continuava a expressar-se com clareza.

Mas esse desejo raramente passou disso mesmo, de um mero desejo à espera de concretização, ainda que uma ou outra vez não tenha aguentado e tivesse chegado a cumprimentar uma ou outra pessoa com um simples bom dia ou um como vai isso, ao que os outros respondiam ou não, de uma forma ou outra, mas sempre sem darem mostras de terem realmente compreendido.

No entanto, na maior parte do tempo, não falar com os outros não lhe pesava, esquecendo-se até das circunstâncias que o haviam conduzido a essa situação.

“Não me percebem, pois bem, isso pouco me importa. Na verdade nunca quis ser compreendido pelos outros e tenho dúvidas que os outros alguma vez me tivessem compreendido.”

Mas ainda que assim pensasse, também sabia que não era nada disso e que, ainda que o que tivesse perdido não fosse grande coisa, a verdade é que lhe sentia a falta, ainda que não percebesse bem que falta sentia, se a de falar com os outros ou a de ser compreendido por eles, porque quando pensava nisso percebia que não era bem a mesma coisa, ainda que a diferença pudesse ser subtil. Mas durante algum tempo continuou ainda calado, assaltado apenas aqui e ali por esse estranho desejo de voltar a falar com os outros.

UM POETA: Mário Cesariny





sexta-feira, 15 de outubro de 2010

arte combinatória


O livro Cent mille milliards de poèmes de Raymond Queneau, foi publicado em 1960. É uma espécie de máquina de fazer poemas, permitindo a qualquer um compor o número de poemas anunciado no título, a partir de apenas dez poemas de 14 versos cada. Podem espreitar o livro na imagem acima e podem, com o auxílio dos meios informáticos, criar os poemas que quiserem, aqui ou aqui.
leia mais aqui e aqui.

A minha querida pátria



A MINHA QUERIDA PÁTRIA

a pátria
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos

a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal

a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas traduções
de mau latim
da Eneida

enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida

Mário-Henrique Leiria

O BRANCO DA FOLHA

se eu quisesse



Obrigado Diogo. Mais um conto do mesmo livro:


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O DOM DA PALAVRA (2)


[INCOMPREENDIDO]


Os outros não percebiam o que ele dizia, mas ele sabia o que dizia e não só sabia o que dizia como ouvia o que dizia. No princípio ainda pensou que fosse apenas uma ou outra palavra que não era percebida, mas quando repetiu o que dissera ou pedira explicações, não viu nos outros qualquer sinal de compreensão. A verdade é que não percebiam nada de nada do que ele dizia, pois não só não percebiam nada do que ele dizia como nada lhe podiam realmente dizer sobre isso uma vez que não o compreendiam. É claro que ainda falavam com ele, apesar de não o perceberem, perguntando se estava a brincar ou o que se passava com ele que não dizia coisa com coisas ou até se falava inglês, tudo isto perante a óbvia impossibilidade de o compreenderem.

Talvez porque não falasse com muita gente e porque com aqueles que falava se limitasse sempre a umas poucas palavras de circunstância, a verdade é que Hermínio Campânula não se preocupou muito que não o compreendessem, até porque ele continuava a compreender tudo o que lhe diziam e, conhecendo as pessoas como conhecia, o melhor era mesmo que não percebessem o que lhe acontecera.

Foi assim pensando que não deu muita importância ao que lhe acontecera e que levou a sua vida quase sem alterações, calando-se a maior parte das vezes e usando gestos discretos quando tal se tornava completamente necessário, sorrindo muito e abanando a cabeça de várias formas sempre que falavam com ele.

Surpreendeu-se com a variedade e a eficácia desses gestos e tomou consciência pela primeira vez de quanto eram diversos e plenos de significado. Só movimentos de cabeça possíveis eram mais que as mães, como Hermínio Campânula disse a si mesmo com um sorriso aberto, desde os comuns abanar a cabeça de cima para baixo e de um lado para o outro, os quais podiam, descobriu então, mudar facilmente de significado consoante a expressão facial, transformando por exemplo uma simples negativa num mais profundo não faço a mínima ideia, até um ligeiro oscilar com a cabeça que podia significar que quem lhe perguntava o que quer que fosse estava muito perto de acertar ou que ele mesmo não tinha a certeza sobre alguma coisa.

Não tentou usar a escrita para se fazer entender, talvez por medo que também não compreendessem o que escrevia, apesar de ele continuar a perceber o que escrevia, da mesma forma que percebia o que dizia e, se de certa forma tinha aceitado que não percebiam o que dizia, a verdade é que não se achava capaz de aceitar que não percebessem as suas palavras escritas.

Podem achar estranho que assim pensasse, mas ele não era um homem complicado e olhava o mundo de forma prática, nunca duvidando muito das suas decisões depois de tomadas e, tal atitude, pensava ele, tinha-lhe facilitado mais a vida do que lhe tinha dificultado. E também lhe parecia ridículo andar com bilhetinhos, como um mudo, ele que deixara de ser compreendido mas que nem por isso deixara de ser capaz de usar a voz.

É claro que ás vezes usava as palavras escritas para se fazer entender, apontando-as, como fazia nos restaurantes, apontando na lista o que lhe apetecia comer, e quando o criado lhe perguntava o que queria beber, se não lhe desse logo uma opção, como muitas vezes acontecia, “Quer uma cerveja?”, Hermínio Campânula, fazia um ar pensativo e nove em cada dez vezes o empregado sugeria alguma coisa, “Quer um jarrinho de vinho? Tinto?”, e quando assim não acontecia ele abanava a cabeça dizendo que não queria nada e arrumava a questão.

Mas a maior parte das vezes não precisava de usar quaisquer estratégias pois bastava-lhe pegar nas coisas que queria e pagar, tarefa que não lhe exigia em quase todos os casos quaisquer competências de comunicação, podendo executá-la no mais perfeito silêncio e sem precisar de se relacionar com quem quer que fosse, como podia fazer nas suas idas ao supermercado em que, desde o agarrar no que queria até pagar na máquina com o cartão, não precisava falar com quer que fosse. O que, diga-se, ele sempre preferira.

Foi desta forma que não só passou a falar com menos pessoas, chegando mesmo a evitá-las, como percebeu que já antes falava afinal muito pouco e com muito poucas pessoas.

Foi também por essa altura que passou a apreciar ainda mais estar em silêncio, não tanto pelo que lhe permitia ouvir-se melhor a si próprio, mas pelo que lhe permitia ainda mais ouvir os outros.

Hermínio Campânula sempre gostara de ouvir os outros e por isso sempre preferira locais públicos, com quanto mais gente melhor, em que pudesse ouvir os outros e passar despercebido. Era uma mania que tinha, como ele dizia a si próprio, não tanto para a justificar mas sobretudo para sublinhar a si mesmo quem era. Mania que o levava aos centros comerciais, às feiras e mercados, ao centro da cidade e aos cafés, de que era cliente habitual. E também às salas de cinema, preferindo, por motivos óbvios, o intervalo e a saída, em que se misturava com os outros e escutava com atenção o que diziam. Em tempos frequentara também reuniões e manifestações políticas mas concluíra que as conversas eram sempre as mesmas e muitas vezes exigiam a sua participação, e ele queria estar calado e ouvir. Pelo mesmo motivo deixou de frequentar concertos, qualquer que fosse a música, pois se nuns se falava de mais de coisa nenhuma, noutros se falava de menos de coisa alguma.

Agora que ninguém o compreendia e que tudo o aconselhava a calar-se, abraçou ainda mais o silêncio que sempre amara, num casamento que lhe pareceu perfeito; pois se ninguém o percebia e ele continuava a ouvir os outros, nada melhor do que concentrar-se nessa tarefa que podia agora desempenhar melhor do que nunca, completamente concentrado a ouvir os outros, desviado afinal de si próprio e de qualquer veleidade de comunicar com os outros.

Sentia-se quase feliz, como disse a si mesmo, mas esta era uma forma de dizer a si próprio que se sentia bem e que ele utilizava muitas vezes, mesmo quando os outros ainda o compreendiam.


O PROCESSO

Já vem sendo hábito, não sei se bom ou mau, concordar com as observações da Sylvia sobre o que aqui se escreve e publica, e desta vez não foi diferente.
Optei pela apresentação do que chamei A Construção do Poema para dar ênfase ao processo de construção do poema sobre o seu resultado, neste caso uma criação colectiva.
E confesso que fiquei fascinado pelo processo em si que, para além do seu aspecto colectivo, funcionou (lembrando-me o Oulipo) como um verdadeiro pretexto para o texto.
Já tinha escrito contos a duas e mais mãos (ou teclados) e aí a regra era simples: continuava-se o texto (podendo ou não haver acordo sobre o tema), continuava-se o que estava escrito (podendo haver ou não limitação sobre o quanto se podia escrever: um parágrafo, x linhas...). Quanto a poemas, foi a primeira vez.
A regra fixada, de forma não restritiva, foi que cada um poderia escrever os versos que quisesse, continuando o poema ou intercalando-os nos já existentes. Esta regra, a par do facto de ser uma criação colectiva e cada autor não ter controlo sobre a escrita do outro, surge como uma verdadeira restrição que vai determinar a estrutura do texto.
Quebrei a regra (ou inovei-a) apagando um verso que tinha escrito e o poema desenvolveu-se desde o princípio apesar das restrições ou por causa delas.
Chegados ao poema, quando olhei o produto final e o registo do processo, encontrei mais mistério e força no registo da construção do poema do que no poema final. Talvez se deva ao meu profundo gosto pela narrativa, ao gosto por contar histórias. O texto (o poema) tal como o apresentei conta, além do mais, uma história: a história da sua construção, a história de um encontro.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Construção do Poema

[A prática colectiva da escrita não é tão praticada como poderia. A desafio de Gavine Rubro, escrevemos um poema a dois teclados. Como guardei e ordenei os vários passos do processo pareceu-me curioso deixá-los aqui por inteiro.]

1.

é dificil começar um poema
rasgar o silêncio da folha
como se o mundo nos falasse
pela primeira vez
num dueto impossível

2.

é difícil começar um poema
foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
rasgar o silêncio da folha
torcer hirtas, as sílabas
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e piscasse-nos o olho
pela primeira vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
num dueto impossível

3.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil começar
rasgar o silêncio da folha
torcer hirtas, as sílabas
escutar os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
num dueto impossível

4.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil começar
esta tinta, das árvores ao manuscrito das linhas,
como se ziguezagueassem no colo das malas,
as interrogativas
rasgar o silêncio da folha
pseudo-assassinar os idosos cânones cépticos gramaticais, decrépitos
torcer hirtas, as sílabas
contra o opulento fundamentalismo da orto-cali-grafia
escutar os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
segundo o empenho das veias e do oxigénio
conforme a mão, o miolo desassombrado
Como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
Insuportáveis são os não esforços, vãos
num dueto impossível

5.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil
começar
esta tinta, das árvores ao manuscrito das linhas,
como se ziguezagueassem no colo das malas,
as interrogativas
rasgar
o silêncio da folha
pseudo-assassinar
os idosos cânones cépticos gramaticais, decrépitos
torcer hirtas, as sílabas
contra o opulento fundamentalismo da orto-cali-grafia
escutar
os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
segundo o empenho das veias e do oxigénio
conforme a mão, o miolo desassombrado
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
começar
e seguir em frente
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
insuportáveis são os não esforços, vãos
num dueto impossível
é difícil começar assim como é difícil
terminar
que o diga o Herberto Helder
...
o poema não tem
princípio nem
fim

Queneau:Si tu t'imagines

Queneau:Si tu t'imagines

HOMEM DO FRAQUE

Por princípio não sou muito a favor do anonimato. Em geral serve para nos escondermos e, nos dias de hoje, demonstra muitas vezes alguma falta de coragem. Tal se tem visto nos blogues, quer nos seus autores quer nos seus comentadores. Mas se este era o princípio, no final podem haver sempre excepções.
O Homem do Fraque parece ter intenções sérias (no bom sentido) e o anonimato não parece servir fins menos próprios.
Anuncia-se como um blogue sobre livros, espaços e escritores que promete especial atenção ao Algarve.
Tenho gostado de o ler e vou continuar a fazê-lo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A GAVETA DA PEDRA



DIA 14 DE OUTUBRO A GAVETA CHEGA AO PÁTIO

veja mais aqui

O DOM DA PALAVRA (1)

[A PRIMEIRA VEZ]


A primeira vez que lhe aconteceu foi numa manhã como outra qualquer e Hermínio Campânula nem se apercebeu do que lhe estava a acontecer. Atravessava a praça em direcção ao café da esquina, como fazia todos os dias, pelo menos uma vez por dia, quando alguém lhe perguntou onde ficavam os correios.

Já não se recordava da pessoa que lhe fez a pergunta, mas ainda se recordava da surpresa que lhe atravessou o rosto e da forma como a pessoa se afastou sorrindo e abanando a cabeça, como se o que ele dissera a tivesse ao mesmo tempo surpreendido, desiludido e divertido.

Ainda esteve para lhe lançar alguma ironia ou mesmo algum insulto, mas achou que não valia a pena e seguiu o seu caminho até ao café, onde pediu uma bica ao empregado atrás do balcão, com o gesto habitual, unindo o polegar e o indicador e levando-os à boca, para não ser forçado a elevar a voz sobre o barulho reinante.

Hermínio Campânula não era um homem de muitas palavras e dificilmente se poderia dizer que tivesse o dom da palavra, mas era capaz de expressar-se com facilidade e nunca tivera dificuldades em se fazer entender e, além disso, era ao mesmo tempo bastante tímido e bastante seguro de si, o que talvez possa explicar que não tivesse percebido logo o que lhe acontecera.

A segunda vez que lhe aconteceu foi no talho, em que entrou apenas para comprar meio quilo de carne picada, como enunciou de forma clara quando lhe perguntaram o que queria, mas como o talhante olhasse para ele com cara de quem não tinha percebido nada, apontou para a carne picada, o dedo colado ao vidro, e pouco depois levantou a mão direita indicando que era suficiente, o que na verdade foi mais do que suficiente para ser entendido. Ao sair, a menina da caixa sorriu-lhe, e ele respondeu-lhe com um sorriso.

Na semana que se seguiu aconteceram-lhe outros pequenos incidentes que o levaram finalmente a concluir que as pessoas não compreendiam o que ele lhes dizia; não compreendiam nada do que ele lhes dizia, e isto apesar de ele as compreender perfeitamente e se compreender perfeitamente a si mesmo. Não parecia ter qualquer dificuldade em dizer as palavras nem em articular o seu discurso mas a verdade é que ninguém o entendia quando falava e não o escondiam, rindo e abanando a cabeça. Os que o conheciam pensavam talvez que ele estava a brincar ou que tinha enlouquecido e os que não conheciam pensavam talvez que ele era louco ou estrangeiro.

A sua primeira reacção foi deixar de falar e ficou surpreendido com o pouco incómodo que lhe causava o silêncio, quer porque conseguia o que queria sem falar, quer porque ninguém parecia importar-se que ele não falasse. A verdade é que ele queria sempre muito pouco e falava com muito pouca gente, mas mesmo assim admirou-se que fosse tão fácil ficar em silêncio.

Quantas vezes não tinha dito a si próprio que até agradecia se nunca mais fosse capaz de dizer uma só palavra! Não era o caso, porque ele era capaz de falar, mas era como se não fosse, porque ninguém o entendia.

Mas antes de se calar e aceitar o que lhe acontecera ou, se preferirem, porque não tenho bem a certeza da ordem, antes de aceitar o que lhe acontecera e se calar ainda tentou investigar e perceber o que lhe tinha acontecido.


domingo, 10 de outubro de 2010

folhetim

A Perda do Dedo Mínimo não foi escrito à medida da sua publicação, estava já escrito, mas tinha sido escrito em fragmentos, o que permitia a sua publicação assim, sem mais. Os títulos são os que então usei.
Já escrevi noutras ocasiões à medida que publicava, mas desta vez foi porque reparei que se prestava muito bem a isso.
No entanto, esta análise não perde validade, antes pelo contrário.
Na escrita de contos, no geral, embora não seja o mesmo, gosto de interromper a escrita, de deixar espaços em branco, como silêncios mais ou menos prolongados, a serem ocupados pelo leitor.

paixão e alegria

A propósito do estado da literatura e do rescaldo (confesso que prefiro a palavra balanço, mas quero respeitar-lhe a escolha:) que o Valter fez (esquecendo-se de se indicar como participante) quero repetir aqui, sem quaisquer comentários, algumas palavras de Jorge Luis Borges que então li. No restante, vou continuar a frequentar as noites de poesia do Draculea (ou DracuLeia:) e enche-me de alegria que aconteçam.


"(...) Passei a minha vida a ler, a analisar, a escrever (a tentar escrever) e a divertir-me. Acho que esta última coisa é a mais importante.
(...) escrevem sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa e não o que realmente é: uma paixão e uma alegria.
(...) a vida é, tenho a certeza, feita de poesia."

Jorge Luis Borges, Este Ofício de Poeta, editorial teorema

sábado, 9 de outubro de 2010

Manifesto em forma de assim



Eu sou da literatura assim

como sou do Benfica

com bons resultados maus resultados

sem resultados alguns

desde pequenino tal qual meu pai

eu sou assim

sou assim e não quero mudar

a não ser pra continuar a

sim


A PERDA DO DEDO MÍNIMO IX


[PONTO FINAL]


Um dia, uma mulher num bar agarrou-lhe a mão direita e acariciou-a exactamente no local onde lhe faltava o dedo mínimo e ele sentiu que, se fosse preciso alguma razão para justificar aquela perda, essa carícia seria sem dúvida razão mais do que suficiente para justificar a perda do dedo mínimo.

A partir desse momento passou a dar mais importância à falta do dedo do que ao próprio dedo e, dessa forma, separou-se finalmente do dedo mínimo da mão direita de uma vez por todas.

ainda Ruy Belo

Ontem, num documentário sobre o Japão, falava-se de como os japoneses têm mantido a tradição, inovando-a, o que, apesar de aparentemente contraditório, me faz todo o sentido. Agora, ao googlar Ruy Belo e o poema O Valor do Vento, reencontro de certa forma essa ideia, a propósito da construção dos seus poemas - aqui

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

imagine john lennon

A PERDA DO DEDO MÍNIMO VIII


[APONTAR]


Perdera o dedo mínimo mas, por estranho que parecesse não conseguia ver-se livre dele de uma vez por todas porque, a verdade é que nunca ele recebera tanta atenção quanto a que passou a receber depois que desapareceu sem qualquer explicação de um dia para o outro.

Às vezes fechava os olhos, concentrava-se, e tentava sentir todos os dedos das mãos e quase ia jurar que sentia o dedo mínimo da mão direita no exacto lugar onde agora não estava.

Tinha ouvido falar em pessoas que haviam perdido braços e pernas, ou apenas parte deles, e continuavam a senti-los, a experimentar dor nesse braços e pernas perdidos, chamavam-lhes membros fantasmas, e com certeza que isso se aplicava a um dedo, ainda que fosse o menor de todos, mas a verdade é que só sentia o dedo, ou julgava senti-lo, quando se esforçava por senti-lo, e dificilmente poderia dizer que o dedo, ainda que ele não o conseguisse esquecer, de alguma forma o assombrava.

Não dera inicialmente qualquer importância à perda do dedo, mas esse mesmo dedo que já não existia ganhara cada vez maior importância e agora, por mais que quisesse, não conseguia esquecê-lo.

Ignorou o exterior, onde tinha a certeza não encontraria respostas e voltou-se para dentro de si, onde sabia que encontraria a pergunta certa.

“Que importância tem a perda de um dedo mínimo? Será que tem mais ou menos importância do que outra perda qualquer? O que é importante e o que não é importante?”

Continuou a fazer perguntas mas não encontrava respostas ou, quando as encontrava, elas não o satisfaziam, como aliás lhe acontecia muitas vezes que procurava responder com palavras a perguntas que estavam para além delas.

Há pessoas que acreditam que as palavras podem dizer o mundo e há outras que acreditam que o mais simples dos eventos é completamente indizível. Como é fácil de perceber, ele acreditava nas palavras mas apenas como meio de apontar para o que estava para além delas.

“É preferível ter uma luz fraca a não ter luz nenhuma, sobretudo se não conseguimos ver no escuro.”

As perguntas que fazia agora a si mesmo eram as mesmas que sempre fizera e a perda do dedo mínimo não tinha nada a ver com isso, porque se não tivesse acontecido, ele estaria agora a fazê-las na mesma, pois sempre se questionara sobre o que era verdadeiramente importante e sobre quem ele verdadeiramente era e, quando percebeu isto, foi como se tivesse perdido de novo o dedo, pois voltou a não dar-lhe qualquer importância e quase se esqueceu que alguma vez o perdera.

“Mas afinal que falta me faz o dedo mínimo da mão direita?”

Olhou a mão direita e sentiu-a incompleta, e era afinal dessa sensação que ele não se conseguia libertar, da sensação de incompletude. Riu-se quando essa ideia lhe surgiu e afastou-a de imediato porque, ainda que se tivesse rido, a verdade é que essa ideia não tinha graça nenhuma, era pelo contrário a ideia mais sem graça que alguma vez tivera. Mas depois de pensar um pouco mais, voltou a rir-se, e agora com muito mais vontade.

“Já percebi, é o dedo que agora me falta que aponta para a minha incompletude e é isso afinal que me incomoda e não a perda do dedo em si.”

E riu ainda mais, soltou gritos de alegria e bateu palmas, tendo verificado, não sem espanto, que as palmas soavam da mesma maneira do que antes de perder o dedo, ou pelo menos assim lhe parecia.

A partir desse momento deixou de olhar para a mão direita e passou a metê-la no bolso das calças ou do casaco, sempre que não estava a usá-la, prática que só abandonou por achar que lhe conferia um certo ar napoleónico, personagem por quem ele tinha tanto de embirração cega quanto tinha de admiração esclarecida por Dom Quixote. Mas esconder a mão direita era afinal chamá-la para o centro da sua atenção e mais valia que estivesse à mostra, para que ele mais facilmente a pudesse ignorar, e foi o que ele fez durante muito tempo.


O ESTADO DA LITERATURA - DIZ O QUE TENS A DIZER

3 comentários:
Valter Ego disse...
Luís, fazemos "aquilo" na sexta? Exportamos a discussão do Ene Coisas para o DRACULEA?
Abraço, V.

7 de Outubro de 2010 03:22
luís ene disse...
Valter.
Sim, fazemos. Tenho estado a pensar nisso. Mas em vez de abrir a discussão logo de entrada, lembrei-me de dar espaço para cada um dos presentes, escritor ou não, dizer de suas palavras qual é, por assim dizer, a sua posição perante a literatura e perante as questões do inquérito. Faço-me entender? Eu poderia dizer de mim mesmo que sou escritor, que fui publicado, o que me aconteceu, o que senti, que outros escritores conheci em Faro, o que fizemos... como estou hoje e onde quero ir.
Uma espécie de sessão dos alcoólicos anónimos. Sem prejuízo de discussão e debate.
Ofereço-me para começar e proponho que tu vás a seguir.
Se concordares diz e passa-se este texto, melhorado, para os blogues.
um abraço

7 de Outubro de 2010 05:59
Valter Ego disse...
Parece-nos muito boa ideia; força nisso!

O ESTADO DA LITERATURA - HOJE SEXTA-FEIRA NO DRACULEA BAR - A PARTIR DAS 22:30 - VEM DIZER O QUE TENS PARA DIZER

lucian freud

Factory in North London - 1972
Oil on canvas
71x71cm
Private collection

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

zeí & cia


Mudo as Maria

Bafo de Baco . 09 Out 10
23h30

RUY BELO

Cinco Palavras Cinco Pedras

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
e delas vem a música precisa
para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

A PERDA DO DEDO MÍNIMO VII


[ACIDENTE DE TRABALHO]


Um mês depois, estava Rui Medonho sentado numa esplanada, esquecido do seu dedo mínimo, quando reparou num homem sentado numa mesa perto de si e que, tal como ele, não tinha o dedo mínimo da mão direita. A sua primeira reacção foi esconder a sua mão direita, como se quisesse cortar qualquer contacto com aquele homem, mas fez exactamente o contrário, pois levantou-se e dirigiu-se ao outro, a mão direita estendida à sua frente, ostentando o dedo em falta, e perguntou-lhe o que lhe tinha acontecido ao dedo. Ainda esperou que o outro lhe respondesse que um dia acordara assim, mas a resposta, ainda que igualmente lacónica, foi outra. “Acidente de trabalho”, disse o outro, não acrescentando mais nada e desinteressando-se por completo de Rui Medonho, que regressou à sua mesa. Não voltou a olhar para o homem sem o dedo mínimo e aquele acabou mesmo por se ir embora sem que ele desse por isso.

“Acidente de trabalho. Soa bem… e talvez seja melhor do que dizer a verdade.”

Nessa altura lembrou-se de uma história que o fazia sempre sorrir, nem sabia bem porquê, talvez pelo inesperado, e que lhe contara um conhecido seu, sobre um homem a quem um cão arrancara um dedo.

Supostamente tratava-se de um amigo do seu conhecido, que fora convidado para jantar em casa também de um amigo e que, ao entrar no pátio dessa casa, se tinha sentido intimidado por um enorme cão que o olhou em silêncio. Estava parado, a olhar para o cão que o olhava também, quando o amigo apareceu e o sossegou dizendo que o cão, apesar do mau aspecto, era dócil e que até lhe podia fazer uma festa, se quisesse. Sossegado pelo amigo e porque não queria dar parte de fraco, o homem avançou a mão na direcção da cabeça do cão, para lhe fazer uma festa, e o cão, num movimento rápido e inesperado, arrancou-lhe um dedo com uma só dentada.

Não sabia se tinha sido o dedo mínimo, mas estava convencido que tinha sido um dedo da mão direita.

“Talvez possa dizer que um cão me arrancou um dedo.”

“Talvez possa dizer que sofri um acidente de trabalho.”

Mas as pessoas deixaram de lhe perguntar o que lhe acontecera ao dedo, o que fez que ele não tivesse que voltar a decidir o que responder, ainda que o mais certo fosse ele dizer a verdade, porque assim era a sua natureza e por nenhuma outra razão a não ser essa.



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO VI


[RIR DE SI PRÓPRIO]


Por esses dias, a primeira coisa que fazia quando acordava, era olhar a mão direita, para ver se tinha ou não tinha o dedo mínimo, e só então esfregava os olhos com dois dedos, como era seu hábito logo que acordava, e quando esfregava os olhos nenhuma diferença sentia afinal, mas o dedo mínimo continuava a faltar-lhe e não havia maneira de ele se esquecer dele de uma vez por todas.

“Nunca dei muita atenção ao dedo mínimo, porque há se ser diferente agora?”

Às vezes quase lhe apetecia que lhe desaparecesse a mão toda, para deixar de se preocupar com o dedo, mas depois ria-se e dizia a si mesmo que mais valia ir o braço todo, e ria-se ainda mais.

Há pessoas que se riem de si próprias e outras que nunca se riem de si próprias. Ele ria-se de si próprio, mas esse riso aproximava-se normalmente demasiado da tristeza para que ele pudesse ser incluído sem mais no primeiro grupo. No entanto, seja como for, ele ria-se de si próprio. E ria-se também dos outros, sobretudo quando se descobria neles. A perda do dedo mínimo não modificara de forma significativa o seu carácter, da mesma forma que não parecia ter trazido alterações de relevo no seu comportamento.



terça-feira, 5 de outubro de 2010

HÁ DIAS


Há dias em que quero meter tudo dentro do poema
A loura magra de passo duro que caminha à minha frente
O sol de Outono que me cega por instantes
A música retro de um grupo português de rock alternativo
O vagabundo de blusão de couro com apenas meia gola de pele
E mais e mais e mais Muito muito mais
Mas tudo está fora do poema Tudo é já poema

estado 1 literatura 4

A investigação sobre o estado da literatura que se desenvolve neste blog iniciou-se no dia 18 de Agosto deste ano e ainda continua. Expliquei a entradas tantas a origem da investigação e avancei com algumas linhas de discussão, que se transformaram numa espécie de inquérito. Só queria dizer que estou contente não só por ter desenvolvido esta investigação mas também por ela me ter trazido onde me trouxe. Passado pouco mais de um mês conheço muito mais escritores do que conhecia, o que escrevem e como são, restabeleci alguns contactos que estavam adormecidos, tenho alguns coelhos na cartola e...
vou estar pela terceira vez nas terças de poesia do Draculea.
Obrigado a todos.

A PERDA DO DEDO MÍNIMO V

[QUEM SABE SE UM DIA]


Ainda não tinham passado duas semanas desde que perdera o dedo mínimo da mão direita quando, ao olhar a mão, sentiu vontade de voltar a ter esse dedo e, no entanto, nunca nem por um momento deixara, durante esse período, de pensar que esse dedo não lhe fazia qualquer falta e de sentir exactamente a mesma coisa, ao ponto de quase se esquecer que alguma vez tivera esse dedo.

“Mas que porra é esta, não dei qualquer importância à perda do dedo e só não me esqueci por completo dele porque me lembraram a sua falta, e agora dou por mim a querê-lo de volta?”

Há pessoas que se queixam constantemente da vida e recusam sempre o que lhes acontece e outras que aceitam sem reservas o que vida lhes traz e tentam tirar disso o melhor partido. Ele era diferente, como já devem ter percebido, pois embora não aceitasse sem reservas as coisas como elas eram, também não as negava pura e simplesmente. Ele já não tinha o dedo e o mais provável é que nunca o voltasse a ter, mas era ainda mais improvável que o tivesse perdido como o perdeu, e a verdade é que o perdera.

“Quem sabe se um dia não acordo com cinco dedos na mão direita?”



segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO IV

[UM HOMEM SEM]


Uns dias antes de perder o dedo mínimo da mão direita, só então se lembrou, falara com um indivíduo sem um braço, ou parte dele, porque a manga dobrada do blusão de ganga não permitia avaliar com exactidão a extensão da perda, que se sentara no café numa mesa ao lado da sua e lhe pedira um cigarro. Não lhe despertara especial interesse, mas o facto de não ter um braço, o direito, não lhe passara despercebido, ainda que não se tivesse interrogado na altura como acontecera e que diferenças lhe trouxera à sua vida de todos os dias.

Um braço, ou parte dele, não é o mesmo que um simples dedo, ainda por cima se for o menor deles, mas naquele momento, ao pensar na perda do braço direito do homem a quem dera um cigarro, não conseguiu deixar de pensar que também ele, ainda que só tivesse perdido um dedo mínimo, tinha-se tornado outro, tal como o homem que perdera o braço, porque ninguém que perde um braço ou um dedo pode continuar o mesmo depois disso.

Pensou em como seria agora fácil descrevê-lo como o homem a quem faltava o dedo mínimo da mão direita, pois mesmo aqueles que nada soubessem dele poderiam facilmente descrevê-lo dessa forma, o homem sem dedo mínimo na mão direita, e essa simples menção seria mais do que suficiente para o identificar, assim como ele se referia ao homem que lhe pedira um cigarro como o homem que não tinha um braço. Mas que significado teria o facto de agora a sua mão direita não ostentar um dedo mínimo?

As pessoas são muitas vezes o que parecem e outras vezes parecem o que são, o que embora parecendo o mesmo, nem sempre é o que parece. E no entanto, mudando de aspecto, talvez mudem sempre quem são, porque os outros e eles mesmos se vêem como parecem e assim se vendo o mais certo é que sejam mais quem parecem do que quem na realidade são.

“Será que a perda do dedo mínimo da mão direita me alterou mais do que sou capaz de perceber?”

Há pessoas que se conhecem bastante bem e outras que se desconhecem de um todo. É fácil perceber que Rui Medonho não pertencia a nenhuma dessas categorias, ainda que não lhe faltasse vontade de se conhecer e tivesse uma consciência de si que poderia sem dúvida servir esse fim mas, acima de tudo, gostava de divagar, e esse gosto afastava-o quase sempre de si.

estado 1 literatura 3


O Draculea continua a marcar a favor da literatura: Exposição de Poesia de Margarete Silva.
E amanhã, feriado à parte, há mais uma terça de poesia.

domingo, 3 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO III

[O QUE LHE ACONTECERA]


No dia seguinte, a primeira coisa que fez quando acordou foi olhar pela janela para ver como estava o dia. Só depois olhou para a mão direita. Olhou-a ao pormenor, girando-a para a poder observar de vários ângulos, mas a conclusão era sempre a mesma: parecia que nunca tivera um dedo mínimo na mão direita.

Depois fechou a mão direita num punho, as unhas enterradas na carne, uma dor ténue na palma da mão, e esqueceu-se por completo que lhe faltava o dedo mínimo.

Na semana que se seguiu, não fossem os outros e Rui Medonho nunca se teria lembrado que alguma vez tivera cinco dedos na mão direita, mas os olhares mal disfarçados e alguns comentários que lhe lançaram, impediram-no de se desligar, de uma vez por todas, do seu dedo mínimo da mão direita, dedo que lhe faltava, é verdade, mas de que, e também não era menos verdade, ele não sentia falta alguma.

No café, na mercearia, sentiu que olhavam para a sua mão direita e tomou consciência, novamente, que não só lhe faltava o dedo mínimo nessa mão, como não tinha qualquer explicação para esse facto. O primeiro comentário que lhe fizeram tomou uma forma ambígua – “Nunca me tinha apercebido que só tinha quatro dedos na mão direita!” - e ele respondeu com um sorriso igualmente ambíguo, mas da segunda vez perguntaram-lhe directamente o que lhe tinha acontecido ao dedo, e ele olhou também para a mão direita, para o lugar onde devia estar o dedo mínimo, tentando ganhar tempo, mas achou melhor dizer a verdade.

“Acordei um dia destes e dei por mim sem o dedo mínimo da mão direita.”

O seu interlocutor sorriu, fez um ar surpreendido, e mudou de assunto, o que voltou a acontecer quando respondeu da mesma forma a outras pessoas que também lhe perguntaram o que lhe acontecera ao dedo.

Mas estes acontecimentos levaram-no a pensar não só na perda do seu dedo mínimo, mas também para além dessa perda.

Pensou que aquele acontecimento não era diferente de muitos que lhe tinham acontecido toda a sua vida, pois também nunca os conseguira explicar a si mesmo, ainda que muitas vezes os tivesse explicado aos outros, mas isso não era muito diferente do que tinha feito agora dizendo a verdade, ou seja, fugir afinal a qualquer explicação. Dizer a verdade sobre o que aconteceu é muito diferente de explicar o que aconteceu, e por isso ele continuou a dizer a verdade a quem lhe perguntava o que acontecera ao seu dedo mínimo. Mas começou a pensar na perda do seu dedo mínimo, em como isso o poderia ter alterado.

“Quem sou eu afinal? O que posso ainda perder sem deixar de ser quem sou?”

Disse isto e ficou a pensar quem era, o que lhe acontecia muitas vezes, tantas que nunca sabia afinal quem era, tornando essa pergunta, já de si inútil, completamente inútil. E durante muito tempo pensou no que poderia ainda perder e de que forma alteraria quem afinal era.

Finalmente, olhou a mão direita e começou a rir.


sábado, 2 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO II

[A FALTA]


Ao longo do dia, a estranheza que sentiu perante a perda do dedo mínimo da mão direita foi substituída pela estranheza perante a pouca falta que lhe fazia o dedo mínimo da mão direita, sentimento que foi crescendo à medida que ia desenvolvendo a sua rotina diária.

“Afinal o dedo não me faz falta nenhuma, é que como se sempre tivesse tido apenas quatro dedos na mão direita.”

Cortou uma fatia de pão, tirou o pacote de leite do frigorífico, pôs o pão a torrar, encheu um copo de leite, barrou o pão com manteiga e não sentia a falta do dedo, sensação que se prolongou durante a manhã mas, no entanto, quando olhava a mão, via com clareza o lugar onde o dedo tinha estado.

Não conseguia explicar o que sentia quando olhava para o dedo em falta, mas quando olhava para a mão direita era sempre para o dedo em falta que olhava, como se apenas pensando no dedo que uma vez tivera conseguisse ver a ausência desse dedo. Quanto mais tentava lançar luz sobre o que sentia perante a falta do seu dedo mínimo, mais as sombras aumentavam, impedindo-o de ver com clareza, uma sensação que na verdade lhe era bastante familiar.

Não conseguia perceber que, não sentindo a falta do dedo, não conseguisse olhar para a mão sem ver o dedo em falta.

“Mas por que raios me incomoda a perda de um dedo mínimo? Ainda se me fizesse alguma falta!”

Tamborilou, com a mão direita, como era seu hábito, sobre o tampo da mesa, e nem nessa altura sentiu falta do dedo mínimo mas, no entanto, não conseguia deixar de pensar nele, mesmo que fosse apenas sobre a pouca falta que lhe fazia o dito cujo.

Continuava a não se interrogar nem porque perdera ou dedo nem como tal acontecera, e isso dizia muito dele, porque a verdade é que não era pessoa que gastasse muito tempo a perguntar a si mesmo porque é que a sua vida era como era ou se esforçasse por perceber como as coisas tinham acontecido na sua vida.

Há pessoas que se limitam a ser, sem nunca ou quase nunca se interrogarem, seja o que for que sejam, e há pessoas que se interrogam tanto que se esquecem quase sempre de ser. É fácil de ver que ele não pertencia a nenhuma dessas categorias; talvez fosse apenas preguiçoso, demasiado preguiçoso para se interrogar, ou não estivesse para se chatear e lhe fosse muito mais fácil aceitar.

“Afinal o que me importa a perda de um dedo! E ainda por cima a perda de um dedo mínimo!”

Ensaiou vários gestos e concluiu com facilidade que o dedo mínimo da mão direita era o que menos falta lhe fazia, ainda que fosse dextro. O polegar ou o indicador da mão direita, esses sim, que lhe fariam falta, mas mesmo assim ainda lhe restaria a mão esquerda.

Olhou as mãos ainda durante algum tempo, ora uma ora outra, e decidiu não dar mais importância à perda do dedo mínimo, que afinal não lhe servia para nada, mas foi então que sentiu mais a sua falta, não porque precisasse realmente dele, mas porque se sentiu incompleto sem ele.

“Um dedo mínimo, que se foda o dedo mínimo!”

Fechou as mãos em punhos e mais uma vez confirmou que o dedo mínimo não lhe fazia falta nenhuma.