quarta-feira, 18 de Novembro de 2009



AS PALAVRAS



O que dizem as palavras? As palavras são apenas

palavras; não interessa o que dizem, mas sim o que

nos dizem (ou nos fazem dizer). As palavras não são

certezas, as palavras são _______ possibilidades.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009



Percorro
o mesmo caminho
uma e outra vez


e o mesmo caminho
uma e outra vez
conduz-me


a diferentes
e estranhos
locais

O bloqueio do escritor [ainda mais uma versão...]



Leu o que tinha escrito na noite anterior e, mais uma vez, não era o que ele tinha escrito, nem no conteúdo nem na forma.

Gostava de afirmar que não era ele que escrevia o que escrevia, mas nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim: o que escrevia era substituído e nada restava que lembrasse, ainda que remotamente, o que ele escrevera.

Leu mais uma vez o que tinha escrito e mais uma vez concluiu que não era em nada parecido com o que costumava escrever.

Já tinha tentado de várias formas controlar esse estranho fenómeno, mas sempre sem sucesso. Fez cópias digitais e em papel, mas todas elas apresentavam as mesmas alterações. Chegou mesmo a escrever à mão, o que há muito tempo não fazia, mas o texto que depois surgiu, exactamente com a sua letra, era outro, em tudo diferente.
Na maior parte das vezes, bastava que se afastasse do acto de escrever, que o interrompesse ainda que por breves instantes, para que o texto fosse já outro quando o retomava. Aliás, tudo o que escrevia se transformava em algo que ele não escrevera, apresentando no entanto uma continuidade singular: era um romance que se escrevia, percebeu pouco tempo depois de aquele estranho fenómeno ter começado a acontecer.

A primeira vez que tal aconteceu, atribuiu o facto a um qualquer mistério informático, talvez um vírus, talvez um hacker. Como vivia sozinho e ninguém o visitava essa pareceu-lhe a única explicação possível. Por essa altura estava convencido que tinha voltado a escrever, que ia finalmente começar a escrever depois de vários meses de inactividade, e aquelas eram as primeiras palavras que escrevia, pelo que o desaparecimento de quase duas páginas o deixou bastante sobressaltado, nem tanto pelas duas páginas em falta, mas sobretudo pelo mau presságio que lhe parecia constituir o seu desaparecimento.

Dessa primeira vez limitou-se a apagar o ficheiro, com o mesmo nome do anterior, mas agora metamorfoseado num texto apócrifo. Tinha lido o texto de relance, mas quando aconteceu pela segunda vez, não teve dúvidas que era o mesmo texto que agora reaparecia. Foi o primeiro sinal de que era sempre o mesmo texto que substituía tudo aquilo que escrevia, um texto de uma dimensão desconhecida, mas que adivinhava longo, e na verdade em pouco tempo tinha quase uma centena de páginas.

Quando se convenceu que tudo o que escrevia se transformava noutra coisa, pensou em parar de escrever, mas há muito tempo já que não escrevia, e agora, ainda que de uma estranha forma, estava a fazê-lo, e continuou ainda a escrever.

Não tentava dar qualquer continuidade ao que escrevia, o que lhe parecia tarefa impossível, uma vez que nada do que escrevia se mantinha, e por isso tudo o que escrevia tinha um carácter fragmentário e não sistemático. Escrevia sobre o presente, sobre o passado, sobre o que lhe estava a acontecer e sobre o que gostaria que acontecesse. Escrevia sem preocupações, sem prazer nem angústia, como se traçasse, foi o que pensou, riscos na areia de uma praia. Fosse como fosse, tudo o que escrevia, desaparecia mal ele voltava costas à escrita. E se num primeiro momento se sentiu quase inebriado com esta sensação de escrever apenas por escrever, sem se preocupar com o resultado, não demorou muito tempo até que começasse a exasperar-se com o facto de tudo o que escrevia desaparecer e ser substituído por aquele texto que não lhe pertencia.

Foi por acaso que descobriu a relação entre o que escrevia e o que depois aparecia escrito. Na verdade, já tinha desistido de tentar encontrar alguma relação quando finalmente a descobriu. Inicialmente esforçara-se por perceber se algumas das palavras que escrevia permaneciam no texto, ou se de alguma forma o que escrevia influenciava o que aparecia escrito, mas não encontrara qualquer relação e concluiu pela sua não existência.

E um dia contou as palavras do que escrevera e do que apareceu posteriormente e verificou que o número era idêntico. Aliás, não só o número de palavras era o mesmo, como o mesmo era o número de caracteres, de parágrafos e até de linhas.

Esta descoberta deixou-o ainda mais inquieto e reforçou a sua ambiguidade para com a escrita. Se por um lado o que aparecia escrito parecia ter uma ligação directa com o que escrevia, por outro lado o resultado sempre lhe escaparia por completo. E a vontade de escrever, como há muito lhe acontecia, era naquele momento tão intensa como era intensa a vontade de não escrever.

Sempre fora metódico no que se referia à escrita ou, pelo menos, disciplinado, e não lhe fora difícil sentar-se para escrever todos os dias, sempre à mesma hora. O que sempre fazia quando estava a escrever, como ele dizia, pois os períodos em que não estava a escrever sucediam-se cada vez mais, e chegou uma altura em que tinha tanto medo de escrever como de não escrever. E depois deixou mesmo de escrever. Já não escrevia quando aquilo lhe começou a acontecer, mas não tinha consciência disso.
Depois de meses em que a única coisa que escrevera tinham sido intermináveis listas de razões que o impediam de escrever, abandonara-as dizendo a si mesmo que era finalmente capaz de voltar a escrever. E escrevera aquelas primeiras palavras, aquelas primeiras linhas, aquelas primeiras páginas.

Acreditava assim que tinha voltado a escrever e que depois lhe acontecera aquilo, mas foi exactamente ao contrário, aquilo aconteceu-lhe e então ele voltou a escrever, voltou a sentar-se para escrever, todos os dias, à mesma hora, como há muito não lhe acontecia, apesar de tempos a tempos fingir que tentava a sério voltar a escrever.

A partir da centena de páginas deixou de tentar perceber o que estava a acontecer e limitara-se a escrever, fazendo assim avançar o texto. Quando não estava a escrever, dava longos passeios pela cidade e demorava-se nas praças e nos cafés. Lia sempre o que escrevera, antes de retomar a escrita, mas nunca tentara exercer qualquer influência sobre o que leria mais tarde, limitando-se a cumprir esse ritual, em tudo semelhante ao seu próprio ritual: parava de escrever e, quando retomava a escrita, normalmente no dia seguinte, lia primeiro o que escrevera da vez anterior.

Um dia sentiu que estava a chegar ao fim, e a vontade de não continuar a escrever aumentou ainda mais, e durante dias não escreveu, lendo e relendo as páginas que durante meses escrevera cada vez mais contra a sua vontade.

Aquele texto não era seu, não o ia continuar. Ainda que só dele dependesse, não o faria. Não voltaria a escrever.

Abriu uma última vez o ficheiro e, para sua surpresa, o texto apresentou-se completo.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

O bloqueio do escritor [uma outra versão]



Leu o que tinha escrito na noite anterior e, mais uma vez, não era o que ele tinha escrito, nem no conteúdo nem na forma. Gostava de afirmar que não era ele que escrevia o que escrevia, mas nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim: o que escrevia era substituído e nada restava que lembrasse, ainda que remotamente, o que ele escrevera. Leu mais uma vez o que tinha escrito e mais uma vez concluiu que não era em nada parecido com o que costumava escrever.

Já tinha tentado de várias formas controlar esse estranho fenómeno, mas sempre sem sucesso. Fez cópias digitais e em papel, mas todas elas apresentavam as mesmas alterações. Chegou mesmo a escrever à mão, o que há muito tempo não fazia, mas o texto que depois surgiu, exactamente com a sua letra, era outro, em tudo diferente. Na maior parte das vezes, bastava que se afastasse do acto de escrever, que o interrompesse ainda que por breves instantes, para que o texto fosse já outro quando o retomava. Aliás, tudo o que escrevia se transformava em algo que ele não escrevera, apresentando no entanto uma continuidade singular: era um romance que se escrevia, percebeu pouco tempo depois de aquele estranho fenómeno ter começado a acontecer.

A primeira vez que tal aconteceu, atribuiu o facto a um qualquer mistério informático, talvez um vírus, talvez um hacker. Como vivia sozinho e ninguém o visitava essa pareceu-lhe a única explicação possível. Por essa altura estava convencido que tinha voltado a escrever, que ia finalmente começar a escrever depois de vários meses de inactividade, e aquelas eram as primeiras palavras que escrevia, pelo que o desaparecimento de quase duas páginas o deixou bastante sobressaltado, nem tanto pelas duas páginas em falta, mas sobretudo pelo mau presságio que lhe parecia constituir o seu desaparecimento.

Dessa primeira vez limitou-se a apagar o ficheiro, com o mesmo nome do anterior, mas agora metamorfoseado num texto apócrifo. Tinha apenas lido o texto de relance, mas quando aconteceu pela segunda vez, não teve dúvidas que era o mesmo texto que agora reaparecia. Foi o primeiro sinal de que era sempre o mesmo texto que substituía tudo aquilo que escrevia, um texto de uma dimensão desconhecida, mas que adivinhava longo, e na verdade em pouco tempo tinha quase uma centena de páginas.

Quando se convenceu que tudo o que escrevia se transformava noutra coisa, pensou em parar de escrever, mas há muito tempo já que não escrevia, e agora, ainda que de uma estranha forma, estava a fazê-lo, pelo que não conseguiu tomar essa decisão, e continuou ainda a escrever.

Não tentava dar qualquer continuidade ao que escrevia, o que lhe parecia tarefa impossível, uma vez que nada do que escrevia se mantinha, e por isso tudo o que escrevia tinha um carácter fragmentário e não sistemático. Escrevia sobre o presente, sobre o passado, sobre o que lhe estava a acontecer e sobre o que gostaria que acontecesse. Escrevia sem preocupações, sem prazer nem angústia, como se traçasse, foi o que pensou, riscos na areia de uma praia. Fosse como fosse, tudo o que escrevia, desaparecia mal ele voltava costas à escrita. E se num primeiro momento se sentiu quase inebriado com esta sensação de escrever apenas por escrever, sem se preocupar com o resultado, não demorou muito tempo até que começasse a exasperar-se com o facto de tudo o que escrevia desaparecer e ser substituído por aquele texto que não lhe pertencia.

Foi por acaso que descobriu a relação entre o que escrevia e o que depois aparecia escrito. Na verdade, já tinha desistido de tentar encontrar alguma relação quando finalmente a descobriu. Inicialmente esforçara-se por perceber se algumas das palavras que escrevia permaneciam no texto, ou se de alguma forma o que escrevia influenciava o que aparecia escrito, mas não encontrara qualquer relação e concluiu pela sua não existência. E um dia contou as palavras do que escrevera e do que apareceu posteriormente e verificou que o número era idêntico. Aliás, não só o número de palavras era o mesmo, como o mesmo era o número de caracteres, de parágrafos e até de linhas.

Esta descoberta reforçou a sua decisão de parar de escrever e despertou-lhe, talvez pela primeira vez, o desejo de preservar a todo o custo o que escrevia, de fazer prevalecer a sua escrita sobre o que aparecia escrito.

Sempre fora metódico no que se referia à escrita ou, pelo menos, disciplinado, e não lhe fora difícil sentar-se para escrever todos os dias, sempre à mesma hora. O que sempre fazia quando estava a escrever, como ele dizia, pois os períodos em que não estava a escrever sucediam-se cada vez mais, e chegou uma altura em que tinha tanto medo de escrever como de não escrever. E depois deixou mesmo de escrever. Já não escrevia quando aquilo lhe começou a acontecer, mas não tinha consciência disso.
Depois de meses em que a única coisa que escrevera tinham sido intermináveis listas de razões que o impediam de escrever, abandonara-as dizendo a si mesmo que era finalmente capaz de voltar a escrever. E escrevera aquelas primeiras palavras, aquelas primeiras linhas, aquelas primeiras páginas.

Acreditava assim que tinha voltado a escrever e que depois lhe acontecera aquilo, mas foi exactamente ao contrário, aquilo aconteceu-lhe e então ele voltou a escrever, voltou a sentar-se para escrever, todos os dias, à mesma hora, como há muito não lhe acontecia, apesar de tempos a tempos fingir que tentava a sério voltar a escrever.

A partir da centena de páginas deixou de tentar perceber o que estava a acontecer e limitara-se a escrever, fazendo assim avançar o texto. Quando não estava a escrever, dava longos passeios pela cidade e demorava-se nas praças e nos cafés. Lia sempre o que escrevera, antes de retomar a escrita, mas nunca tentara exercer qualquer influência sobre o que leria mais tarde, limitando-se a cumprir esse ritual, em tudo semelhante ao seu próprio ritual: parava de escrever e, quando retomava a escrita, normalmente no dia seguinte, lia primeiro o que escrevera da vez anterior.

Um dia sentiu que estava a chegar ao fim, e combateu ainda mais a vontade de continuar a escrever, lendo e relendo as páginas que durante meses escrevera cada vez mais contra a sua vontade.

Sentiu pela primeira vez o texto como seu, ainda que continuasse convencido que muito pouco dele, quase nada, dependia de si, quer no seu desenvolvimento quer no seu desenlace.

E então convenceu-se que podia fazê-lo seu, passando a escrevê-lo a partir desse momento, fixando definitivamente na folha aquilo que escrevia. Sentou-se e continuou a escrita do romance, acrescentando-lhe uma frase, intensa e poderosa.

[...]

Quando mais tarde tentou ler o que escrevera, essa pequena frase não só não estava lá como nem sequer fora substituída por outra.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

O bloqueio do escritor [uma versão...]




Leu o que tinha escrito na noite anterior e, mais uma vez, não era o que ele tinha escrito, nem no conteúdo nem na forma.

Gostava de afirmar que não era ele que escrevia o que escrevia, mas nunca lhe tinha acontecido uma coisa assim: o que escrevia era substituído e nada restava que lembrasse, ainda que remotamente, o que ele escrevera.

Leu mais uma vez o que tinha escrito e mais uma vez concluiu que não era em nada parecido com o que costumava escrever. Já tinha tentado de várias formas controlar esse estranho fenómeno, mas sempre sem sucesso. Fez cópias digitais e em papel, mas todas elas apresentavam as mesmas alterações. Chegou mesmo a escrever à mão, o que há muito tempo não fazia, mas o texto que depois surgiu, exactamente com a sua letra, era outro, em tudo diferente.

Na maior parte das vezes, bastava que se afastasse do acto de escrever, que o interrompesse, ainda que por breves instantes, para que o texto fosse já outro quando o retomava.

Aliás, tudo o que escrevia se transformava em algo que ele não escrevera, apresentando no entanto uma continuidade singular: estava a escrever um romance, percebeu pouco tempo depois de ter começado.

A primeira vez que tal aconteceu, atribuiu o facto a um qualquer mistério informático, talvez um vírus, talvez um pirata informático.

Como vivia sozinho e ninguém o visitava essa pareceu-lhe a única explicação possível. Por essa altura tinha voltado a escrever, depois de vários meses de inactividade, e aquelas eram as primeiras palavras que escrevia, pelo que o desaparecimento de quase duas páginas o deixou bastante sobressaltado, nem tem tanto pelas duas páginas em falta, mas sobretudo pelo mau presságio que lhe parecia constituir o seu desaparecimento.

Dessa primeira vez limitou-se a apagar o ficheiro, com o mesmo nome do anterior, mas agora metamorfoseado num texto apócrifo. Tinha apenas lido o texto de relance, mas quando aconteceu pela segunda vez, não teve dúvidas que era o mesmo. Foi o primeiro sinal de que era sempre o mesmo texto que substituía tudo aquilo que escrevia, um texto de uma dimensão desconhecida, mas que adivinhava longo, e na verdade em pouco tempo tinha quase uma centena de páginas.

Quando se convenceu que tudo o que escrevia se transformava noutra coisa, pensou em parar de escrever, mas como há muito tempo já que não escrevia e agora, ainda que de uma estranha forma, estava a fazê-lo, não conseguiu tomar essa decisão, e continuou a escrever.
Não tentava dar qualquer continuidade ao que escrevia, o que lhe parecia tarefa impossível, uma vez que nada do que escrevia se mantinha, e por isso tudo o que escrevia tinha um carácter fragmentário e não sistemático. Escrevia sobre o presente, sobre o passado, sobre o que lhe estava a acontecer e sobre o que gostaria que acontecesse. Escrevia sem preocupações, sem prazer nem angústia, como se traçasse, foi o que pensou, riscos na areia de uma praia. Fosse como fosse, tudo o que escrevia, desaparecia mal ele voltava costas à escrita.

Foi muito mais tarde e completamente por acaso que descobriu a relação entre o que escrevia e o que depois aparecia escrito. Na verdade, já tinha desistido de tentar encontrar alguma relação quando finalmente a descobriu. Inicialmente esforçara-se por perceber se algumas das palavras que escrevia permaneciam no texto, ou se de alguma forma o que escrevia influenciava o que aparecia escrito, mas não encontrara qualquer relação e concluiu pela sua não existência. E um dia contou as palavras do que escrevera e do que apareceu posteriormente e verificou que o número era idêntico. Aliás, não só número de palavras era o mesmo, como o mesmo era o número de caracteres, de parágrafos e até de linhas. Repetiu a experiência várias vezes, sempre com o mesmo resultado. Esta descoberta reforçou a sua decisão de continuar a escrever e despertou-lhe, talvez pela primeira vez, o desejo de levar aquele texto até ao fim.

Sempre fora metódico no que se referia à escrita ou, pelo menos, disciplinado, e não lhe fora difícil sentar-se para escrever todos os dias, sempre à mesma hora. O que sempre fazia quando estava a escrever, como ele dizia, pois os períodos em que não estava a escrever sucediam-se cada vez mais, e chegou uma altura em que tinha tanto medo de escrever como de não escrever. E depois deixou mesmo de escrever. Já não escrevia quando aquilo lhe começou a acontecer, ainda que não tivesse uma real consciência disso. Acreditava que tinha voltado a escrever e que aquilo lhe acontecera, mas foi exactamente ao contrário, aquilo aconteceu-lhe e ele voltou a escrever, voltou a sentar-se para escrever, todos os dias, à mesma hora, como há muito não lhe acontecia, apesar de tempos a tempos fingir que tentava a sério voltar a escrever.

A partir da centena de páginas deixou de tentar perceber o que estava a acontecer e limitava-se a escrever, fazendo assim avançar o texto, sua única preocupação durante aqueles dias que o aproximavam do fim. Quando não estava a escrever, dava longos passeios pela cidade e demorava-se nas praças e nos cafés. Lia sempre o que escrevera, antes de retomar a escrita, mas não tentava exercer qualquer influência sobre o que leria mais tarde, limitando-se a cumprir esse ritual, em tudo semelhante ao seu próprio ritual de escritor: parava de escrever e, quando a retomava, normalmente no dia seguinte, lia primeiro o que escrevera da vez anterior.

Um dia sentiu que estava a chegar ao fim, e combateu a vontade de continuar a escrever, lendo e relendo as páginas que durante meses ajudara a escrever. Sentiu pela primeira vez o texto como seu, ainda que continuasse convencido que muito pouco dele, quase nada, dependia de si, quer no seu desenvolvimento quer no seu desenlace.

Talvez não se estivesse a sentir escritor, mas apenas leitor, disse a si mesmo, e o leitor escreve o texto ainda que não o escreva, acrescentou.

Sentou-se e escreveu uma pequena frase.

(...)

Essa pequena frase não sofreu qualquer transformação.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

escreve...

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

19 palavras

Só vivo porque posso morrer quando quiser: sem a ideia do suicídio já me teria matado há muito tempo.

Emile Cioran - Silogismos da Amargura


[A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade.]

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

rua do imaginário/minguante/micronarrativas

Tendo-me sido perguntado qual o tema para as novas participações referidas na entrada anterior, achei por bem escolher um tema/ponto de partida.

À ESPERA

será então o tema/ponto de partida para as micronarrativas que, como habitualmente, não deverão ultrapassar as duzentas palavras.

Fico então À ESPERA.

rua do imaginário/revista minguante/micronarrativas



A partir do próximo programa e até ao final do ano, na Rua do Imaginário lê-se a Revista Minguante, começando pelo número 0.
Quem quiser enviar micronarrativas que cumpram os requisitos da revista, pode fazê-lo, e as mesmas serão também lidas nos próximos programas.
Voltarei a este tema, fica aqui a chamada de atenção.
Digam coisas.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

BÓLIDE



BÓLIDE


O automóvel negro desaparece
na curva do ser. Eu
apareço na planura:
todos vão morrer, diz o velho
que se apoia na fachada.
Não me contes mais histórias:
o meu caminho é o caminho
da neve, não é o de parecer
mais alto, mais bonito, melhor.
Morreu Béltran Morales,
ou assim o dizem, morreu
Juan Luis Martinez,
Rodrigo Lira suicidou-se.
Morreu Philip K. Dick
e já só necessitamos
do estritamente necessário.
Vem, mete-te na minha cama.
Acariciemo-nos toda a noite
de ser e do seu negro carro.

Los Perros Românticos, Roberto Bolaño
[vertido por mim para português]

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

aviso à navegação



Este blogue encontra-se suspenso, até "post" em contrário :)

Queda Livre (fim)

13

Tu não és capaz de amar, diz Gelo.
Talvez não seja capaz de amar, de te amar, mas desejo-te.
Desejas-me. Sim, eu sei que me desejas. Mas não me amas. Não és capaz de me amar.
E tu, tu és capaz de me amar?
Não, não sou capaz. Sou como tu. Não sou capaz de amar, conheço apenas o desejo e, mesmo assim, apenas o desejo dos outros, o desejo que provoco nos outros.
Sentes o meu desejo?
Sim, sinto o teu desejo, mas preferia o teu amor.
Mas disseste que não és capaz de amar.
Disse que não era capaz de amar, não disse que não queria amar, que não queria ser amado.
Mas eu desejo-te.
Eu sei. Eu sei. É tão cansativo ser desejado.
Mas tu fazes tudo para despertar esse desejo nos outros, diz João Oliveira, e Gelo sorri. E sorri. E sorri.

Não tem outra resposta a não ser sorrir. Há tantas perguntas para as quais a resposta só pode ser um sorriso, digamos assim, um sorriso enigmático, e nada mais.

Voltaste para ficar.
Sabes que sim.
Vais continuar a fazer o mesmo?
Sabes que sim, diz Joana, e sorri um sorriso doce, um sorriso que diz que o ama, que sempre o amará, e Joaquim sabe-o, mas não consegue retribuir o sorriso, o rosto fechado. Fechado.

Porque perguntamos ainda quando já temos a resposta? Por que perguntamos mesmo quando já sabemos a resposta? Porque não aceitamos as coisas como elas são?

As coisas são como são.
E isso quer dizer o quê?
Quer dizer isso mesmo.
Mas quem diz o que as coisas são?
Não é preciso que alguém o diga. As coisas são como são. Apenas isso.
Palavras. Mero jogo de palavras.
É exactamente isso que te estou a tentar dizer.
Que as coisas são como são!
Sim, já as palavras, são outra coisa. O que se diz das coisas é sempre outra coisa.
João Oliveira olha para Gelo e este para aquele. Quem terá dito uma coisa e outra? Quem falou o quê? Será que interessa? Talvez sim e talvez não. Mas para que não fiquem dúvidas, talvez seja melhor que o narrador o esclareça.
As coisas são como são, diz Gelo, e eu sou como sou. E sorri.

Chico fica muitas vezes calado, a fitar o seu interlocutor, o que incomoda muitos e irrita a maior parte, pouco habituados a serem ouvidos em silêncio. Fala-se de mais, diz Chico, mas a si mesmo, e fica a escutar as palavras que soam apenas em si. Gosta cada vez mais de se escutar, em silêncio. Aprendeu com o Calado, como ele lhe chama. No princípio, Chico falava muito com o Calado. Sabia então, e ainda hoje sabe, que ele não só percebe tudo o que lhe dizem, como toma sempre muita atenção ao que lhe dizem, mas, com o tempo, começou a sentir cada vez menos necessidade de falar com ele, e ficavam cada vezes a olharem-se em silêncio. Foi assim que Chico aprendeu a ouvir e, desde então, sente que aprendeu muito, aprendeu a ouvir para além das palavras. As palavras dizem muitas coisas, mas muitas vezes são como alguém que só conseguisse falar alto, tão alto que ninguém afinal conseguisse perceber o que ele dizia. O Calado não fala, não porque não consiga, mas porque deixou de acreditar nas palavras, isto pensa Chico quando olha para ele e ouve claramente o seu silêncio.

O que é o amor? Será que existe uma resposta? Cecília acha que sim. Cecília tem a certeza. Mas não é uma resposta que possa ser dada com palavras. Cecília ama Mário, logo o amor existe. Mas o que é o amor? É o que Cecília sente. Ela sente amor por Mário. Vão casar, vão ser felizes. Cecília tem a certeza, a certeza absoluta.



14

Sente só, sente-se sempre muito só; mas essa solidão, embora lhe pese, é um fardo que ele carrega com um orgulho triste e desesperado. Não é fácil para ninguém ser quem se é, pelo menos é assim que ele pensa, sobretudo quando se é diferente, quando ser diferente é afinal o que faz de nós quem somos. Acordou há pouco, acorda sempre cedo, e deixa que a luz que entra no quarto o desperte pouco a pouco. Ainda tem sono, mas sabe que já não adormecerá, e deixa-se ficar na cama, os olhos semicerrados, pensando em tudo e em coisa nenhuma. Está nu e tem plena consciência do seu corpo duvidoso, da sua sexualidade ambígua, da certeza da sua diferença. Criou essa diferença, acentua-a, usa-a. Não é uma coisa nem outra e, no entanto, é isso que ele é. Homens e mulheres sentem-se atraídos por ele, pela contradição entre os seios perfeitos e o pénis que ostenta sem vergonha. Quando se despe em público, sente o desejo dos homens e das mulheres, esse desejo que faz o seu sucesso. Olham-no com estranheza, alguns até com desprezo, mas todos o olham com desejo, com o mesmo desejo que ele não conhece a não ser nos outros. João Oliveira deseja-o, mas não o ama, e no entanto isso quase que não o incomoda, quase que não lhe dói, uma vez que João Oliveira não conhece o amor, conhece apenas o desejo, e mesmo assim apenas de uma forma perturbada e sublimada. Passa a mão pelos seios, sente-lhes a perfeição da forma e a maciez da pele, perfeição só perturbada pelo corte no mamilo direito, que lhe dá uma estranha forma de fruto demasiado maduro. Passa a mão pelo pénis erecto, sente-o duro, sente a sua urgência de carne. Não sente desejo ou, se o sente, não é em si, mas nos outros, o desejo dos outros. É esse desejo que o faz despir-se em público, é esse desejo que o faz ser quem é.

Abre-lhe a porta e regressa para a sala, para a mesa redonda, perto da janela, e fica ali, as mãos apoiadas no tampo, de costas voltadas para a entrada a olhar para fora. Ele entra, e olha-a por momentos, breves momentos, muito perto dela, até que as suas mãos lhe tocam as ancas, sobem-lhe a saia, baixam-lhe as cuecas, e ela o sente dentro dela, a entrar e a sair dela, de cá para lá, determinado mas sem pressas. Apoia-se mais sobre o tampo, oferecendo resistência, e depois dobra-se, os seios espalmados, a cabeça repousando sobre a mesa. Ele não pára, está excitado, excitado por ela se ter submetido, excitado por a ter sentido logo húmida, logo disposta, logo aberta para ele, como se o esperasse, como se lhe tivesse pedido que viesse, e, no entanto, fora o contrário, exactamente o contrário, ela tinha-lhe pedido, sim, tinha-lhe pedido que nunca mais a procurasse, que nunca mais, nunca mais, e isso excita-o, excita-o ainda mais, e quer fodê-la, e fode-a, e quer humilhá-la, e diz, puta, grande puta, muito gostas tu de ser fodida, muito gostas tu, e fode-a, e olha pela janela, onde uma vizinha estende a roupa, do outro lado da rua, e bastaria olhar em frente e poderia vê-los, e ele diz, puta, grande puta, gostava que todos vissem como és, e não pára, de cá para lá, dentro e fora, fora e dentro, e repete, puta, grande puta, gostas de ser fodida, não é, gosta de ser fodida, e fode-a e fode-a. Ela sente-o dentro de si, sente o seu desejo e a sua raiva, e isso excita-a, excita-a ainda mais, abre os olhos e vê a vizinha do outro lado, e quase lhe apetece que ela olhe e a veja assim, a ser fodida, assim, a ser fodida, mas soergue-se, levanta-se, ele a entrar e sair de dentro dela, ele a fodê-la, sempre a fodê-la, e vai ajoelhar-se no sofá, ali mesmo ao lado, mas já abrigada de olhares indiscretos. Ele ainda a fode, fode-a sempre, e diz, ainda diz, puta, grande puta, e ela diz-lhe, sabes, sabes que é a última vez, e ele ouve-a, e sabe, mas não lhe responde, fode-a e fode-a e fode-a, puta, grande puta. A última vez, a última vez, a última vez.

É Cecília? É Joana? É Virgínia? Que importância tem isso? E ele, quem é ele? Mas isso ainda tem menos importância. Não percebem? E no entanto é fácil, muito fácil. E difícil, muito difícil.

Mais tarde, muito mais tarde, ele escreverá um poema sobre aquele dia, sobre aquele amor breve e intenso, mas será muito mais tarde, quando finalmente o conseguir dizer, e não será um poema sobre aquele dia, mas um poema sobre o amor, sobre o único amor que conhece, o amor terno e triste que sente por todos as mulheres que amou, ou, o que para ele é o mesmo, por todas as mulheres que nunca foi capaz de amar verdadeiramente, a não ser desta forma, distante e longínqua, que é a única de que é capaz. Ela nunca lerá o poema ou, pelo menos, ele não lhe dará nunca a ler o poema, nem mesmo lhe dirá que o escreveu, que o escreveu para ela, porque embora tenha pensado muitas vezes fazê-lo, ele sabe que não o escreveu para ela, escreveu-o para si, escreveu-o porque acredita no amor, acredita na sua possibilidade.

Quem é ele? Uma das personagens? O narrador? O autor ele mesmo? Que importa isso? Não percebem? E no entanto é fácil, muito fácil. E difícil, muito difícil.

João Oliveira deseja Gelo, deseja-o muito. Gostaria de o desenhar, de o pintar, de o esculpir, mas as suas mãos querem tocá-lo, querem acariciá-lo, insistentemente, directamente, só assim as suas mãos, os olhos, os seus lábios, todo o seu corpo se saciaria e, no entanto, sabe que não o fará, sabe que só muito mais tarde o fará, quando for capaz de o desenhar, de o pintar, de o esculpir, e não agora, não agora, e pensa matá-lo, pensa fazê-lo sofrer, pensa e não pensa, atormentado pelo desejo que ele lhe desperta, um desejo tão forte e tão insaciável como nunca sentiu, como nunca mais sentirá.

Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz alguém, se é homem ou mulher o narrador não sabe nem lhe interessa, e muito menos quem é, que isso não é importante, isso não tem qualquer importância. Não percebem? O que é importante não são as coisas mas as relações entre elas, as relações que se criam entre as coisas.

Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz Cecília.
Cabrão, cabrão, grande cabrão diz João.
Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz ele a si mesmo.
E as palavras assim ditas, assim repetidas, nunca dizem o mesmo mas falam afinal da mesma coisa. Não percebem? Não tem importância, não tem importância nenhuma.



15

Cecília sai do café e desce a avenida em direcção à estação de metro. Não olha para as lojas de móveis e de electrodomésticos. Recordará o homem, imóvel, calado, que encontrou ali uma vez? É a mesma mulher e no entanto é outra, diz a si própria. Pensa no que estará Mário a fazer e quase que lhe telefona, mas desiste. Ele que fique sossegado, diz ela, lá onde está, a trezentos quilómetros de distância, no seu novo trabalho. No fim-de-semana irá ter com ele, e em breve ficarão juntos de vez. Já estão casados, amam-se, são felizes; as coisas vão dar certo, ela tem a certeza, a certeza absoluta.





— Já foste amada? Já foste amada incondicionalmente?
— Não sei? Penso que sim... Mas acredito que é mais importante perguntar se já amámos. Se continuamos a ser capazes de amar. Os outros. Nós mesmos.

— Não concordas?
— Haverá maior tristeza que amar e não ser amado?
— Sim. Muito mais triste é nunca ter amado. Tenho pena de quem nunca amou. É como se nunca ter vivido.

— Algumas pessoas nunca serão capazes de amar. Dentro delas existe um vazio que nunca conseguem preencher.
— Não é o meu caso! Eu sou capaz de amar!!
— Às vezes chego a duvidar, apesar de tudo o que te ouvi. Precisas tão desenfreadamente que te amem... fazes disso uma exigência feroz... não sei...

— Estás a ouvir-me?
— Sim.
— Não fiques zangado comigo. Digo o que penso. Sou assim mesmo.
— Um dia ainda vou encontrar o amor. O amor perfeito.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

12

No dia seguinte, ao congresso, ao dia de sexo, como um eco de tudo o que aconteceu nos últimos dias, nas últimas páginas, a cidade amanheceu cheia de cartazes, colados nos postes de iluminação, nas portas das garagens da baixa, por todo o lado, fotocópias cinzentas que ostentam a foto de uma mulher e um pedido: se virem esta mulher telefonem-me, e um número de telemóvel, e um título, a encimar o cartaz, história de amor. Um homem procura uma mulher, uma história de amor; mas o amor tem muitas formas e muitos nomes. O amor pode ser sempre o amor, mas se não sabemos o que é o amor, ele pode ser muitas coisas. O que nos diz então o cartaz? Aquele homem que procura aquela mulher, será que ele a ama? Mas ainda que possamos responder que sim, que a ama, o que diz tal afirmação do amor que ele tem por ela? Espalhou pela cidade, aquela cidade onde vem pela primeira vez, o retrato da mulher que ama e aquele apelo que só a ela se dirige. Amo-te, não fujas de mim, sempre te amarei. Porque é apenas a ela que o cartaz se dirige. Podia ter feito como os adolescentes e escrito o seu amor em letras de forma numa parede em branco da cidade velha. Na verdade foi isso que fez, é isso que o seu cartaz é, uma declaração de amor. Mas será amor? Sim, mais uma vez se responde, é amor. Mas o que é o amor?

Sabes o que me contaram ainda há pouco? Uma história incrível.
O que foi?
Falei com a colega de Évora, do lar de mulheres maltratadas. Aquilo são só histórias, nem me passava pela cabeça as coisas que ali acontecem. As mulheres são todas doidas. Refugiam-se ali mas estão mortinhas para voltar para os maridos.
Pode parecer-te estranho, mas o amor é estranho, tem dessas coisas, é liberdade e submissão ao mesmo tempo.
Virgínia olha-a, bem que gostava de saber o que se passara em Évora com Cecília, mas ela fechou-se em copas e nada dissera. Ando a ser fodida, a ser bem fodida, tinha ela dito, e não fosse o tom em que o disse, e poderia ter sido outra coisa bem diferente. Ando a ser fodida, podia ela ter tido, e ter ficado Virgínia preocupada, como aliás ficou, mas de uma forma bem diferente. Mas Cecília parece a mesma de sempre, determinada, convencida que o amor existe, mesmo que não saiba muito bem o que é; mas isto diz Virgínia e não Cecília.

A mulher nunca viu os cartazes, nem então nem depois, mas nem por um momento duvidou do amor dele, sabia muito bem que ele a amava, era desse amor que fugia, desse amor cego e doentio que a assustava de morte. E, no entanto, não se imaginava a viver sem aquele amor. Ele moveria céus e terra, é assim que ela diz a si mesma, moveria céus e terra para estar com ela, e algo assim não pode ser senão amor, não pode ser senão belo. E ela pensa nisso e chora. E ele pensa nisso e ri.

Joana voltou para casa. Joaquim sabe e está feliz, mas continua a vaguear pela cidade, não consegue voltar para casa. Lembra-se do vagabundo, daquele que não dizia uma palavra e sente-se como ele, sente que é ele, sente que o amor o sufoca, que o enche de felicidade ao mesmo tempo que o embrutece. Pensa em ligar ao Mário, pensa em ir ter com ele, os seus passos levam-no em direcção a casa, onde está Joana, onde ele quer estar. A Joana voltou. Foda-se.

Isso não é amor, é dependência!
Mas não é todo o amor uma dependência?

Chico olha Calado. Olha-o muitas vezes. Como se olha um mistério, como se olha alguém que se ama, porque o amor é sempre um mistério, poderia dizer-se, ou apenas, como se começou, dizer-se que Chico olha Calado, olha-o muitas vezes. Tirar daí conclusões, tecer considerações sobre esse facto, é já o narrador que o faz, tentando assim que o leitor o faça também e não se fique pelo óbvio, que, mais uma vez, como o faz com frequência, Chico olha para Calado. Interrogar-se-á se o ama? Ou dirá apenas que o ama? Porque ele ama-o, disso não tenho dúvidas e não as tenha o leitor, mas o que é o amor, essa dúvida primeira, para isso continuamos sem resposta. Talvez a resposta seja o próprio amor. O amor é pergunta que se responde a si mesma. Mas está outra vez o narrador a tropeçar nas palavras, o que sabe que ser próprio das palavras, e por isso continuará a fazê-lo.

Durante uma semana dormiu num carro abandonado, mesmo em frente à casa onde ela está. Deixou-se ficar por ali, olhando, olhando, esquecido da vida de todos os dias. Não tem comido, tem dormido muito pouco, tem vestida a mesma roupa com que chegou à cidade, com que saiu de casa. Não arreda pé dali. Foi essa a sua expressão quando lhe vieram dizer que se fosse embora. Não arredo pé. Só saio daqui com a minha mulher. É louco, dizem uns. É o amor, dizem outros. E uns e outros têm razão, que se enlouquece de amor, que o amor é louco, diga-se o que se disser.

O polícia fala com ele, pausadamente, com um olhar firme mas não isento de doçura. É capitão, razão pela qual uma das suas apaixonadas lhe chama carinhosamente, mas não sem malícia, capitão romance. Não tem grande simpatia pelos homens que batem nas mulheres, nem pelos homens que alguma forma se acham superiores às mulheres, mas tem um grande respeito pelo amor, um enorme respeito pelas mulheres. Queria amar todas as mulheres, queria perder-se no seu amor por elas. Mas ainda outra vez é o narrador que tece considerações, que tira conclusões, sem que o leitor tenha elementos para o fazer, o que pode parecer desonestidade, mas o leitor possui uma experiência de vida, a sua e a de outros, e entrando o narrador em dissertações poderá sempre o leitor segui-lo, concordando ou negando o que ele diz.

Quer que a sua mulher volte para si, é isso que me está a dizer?
Sim, preciso dela.
E fará tudo para que ela volte?
Sim, diz o homem, mas sabe o que o capitão dirá a seguir, já o disse antes, e ele sabe que não o fará, já o disse antes, já o fez antes. E chora. E chora. E acompanha o capitão. Mas ele sabe, sabe-o o capitão, sabemo-los todos, que mais tarde voltará ali, talvez ainda nesse dia, talvez no dia seguinte, um dia voltará.

Este polícia, de que agora se falou, o capitão, não é, como é óbvio, o mesmo polícia de que antes se falou, uns capítulos acima, escusa o narrador de dizer exactamente em qual deles, podendo o leitor, se quiser, procurar com facilidade onde afinal se escreveu sobre o primeiro polícia. Se este a que chamei Capitão Romance, por que assim o designou uma apaixonada, acredita no amor, já o outro, o João Oliveira, acha o amor uma enorme xaropada e é-lhe imune, por assim dizer. Mas isso não quer dizer que não se apaixone. Quisesse o narrador complicar as coisas e talvez dissesse, com a sua queda para as dissertações, que mais facilmente se apaixonaria João Oliveira que o Capitão Romance, porque enquanto o primeiro não acredita no amor o segundo é todo ele amor. Mas não leve o leitor a sério o narrador, raras vezes ele sabe o que diz, ainda que isso não queira dizer que ele não sabe do que fala.

Se está disposto a fazer tudo para que ela volte, então deixe que seja ela a decidir.
(…)
Volte para casa e espere por ela.
(…)
O amor não se impõe, diz para si mesmo. O amor não se impõe, cala. O amor, diz, sei lá o que é o amor.
E diz apenas, Venha comigo, e o outro segue-o, lentamente.

Não é por acaso que te chamam Gelo, diz João Oliveira, e o outro sorri.
Não, não é por acaso, nada acontece por acaso, mas também não tem nada a ver com o que estás a sugerir.
E que estou eu a sugerir?
Tu sabes bem o que estás a sugerir.

E assim se passou, sem esforço, de um polícia para outro, colocando-os em relação, polícias e homens, diferentes e iguais, todos eles em queda, mais livre do que pensam, menos livre do que julgam. E assim se termina o capítulo.

Queda Livre (cont.)

11


Depois do pequeno-almoço, Cecília encontra um colega que lhe tinha sido apresentado num anterior congresso, nem se lembra do nome dele, mas não lhe pergunta, porque ele sabe o seu; mais tarde, se for o caso, tentará sabê-lo, sem dar nas vistas. Sobrancelhas espessas e porte atlético; foi assim que o descreveu, era assim que o recordava, ainda que pela ordem inversa, que a descrição é dela e fui eu que inadvertidamente a troquei. Retomemos então. Porte atlético e sobrancelhas espessas, que a ordem dos factores não é irrelevante, nunca é, pelo menos na construção da frase. Ele também está a sair, porque não vão os dois? Só precisa ir ao quarto, e ela também, claro, podem ir os dois juntos, e sorriem. Sobem no elevador, param no mesmo piso; os quartos, sim, os quartos, verão pouco depois, são mesmo um ao lado do outro. Sorriem. Serão completamente iguais? – pergunta ela, e entra com ele, atrás dele. Olha primeiro em redor e só depois para ele, quase perfilado, à entrada do quarto. Olha para ele e vê que ele está com uma erecção, uma enorme erecção, e não consegue desviar o olhar. Não sabe que ele sorri, que ainda sorri, que não deixou de sorrir; olha apenas para aquele caralho enorme que facilmente adivinha por debaixo das calças de ganga. E sabe que basta ela querer, e ela quer, e ele a encherá dele, a fará gritar de dor e de prazer, encher-lhe-á a cona e o cu com ele, com aquele caralho enorme. Sem desviar o olhar da enorme erecção, do enorme caralho, puxa-o para si, para a cama, do outro lado da cama, e ele segue-a, docilmente. Sorri ainda. Cecília senta-se na cama, puxa-o ainda mais para si, as mãos nas suas ancas, as mãos nas sua nádegas, e desaperta-lhe as calças, puxa-as para baixo, as cuecas também, num só gesto, o olhar preso naquele caralho enorme. E agarra-o com as duas mãos, e lambe-lhe a glande, percorrendo cada milímetro, cada contorno, e enche a boca com ele, e chupa-o vigorosamente, quase se engasgando, quase se esquecendo de respirar, pensando apenas em vencê-lo, em derrotá-lo. Ele pôs-lhe as mãos nos ombros e ela sentiu-lhe os dedos hirtos, sentiu-lhe as pernas que tremem ligeiramente, sente-o dentro de si, dentro e fora de si, sente-o gemer, ouve o seu grito de renúncia, sente-o na boca, a enchê-la, a esvaziar-se, e fica a olhá-lo, vencido, envergonhado, ainda nas suas mãos, ainda na sua boca, e apetece-lhe rir, apetece-lhe dizer que o venceu, mas fica apenas a olhá-lo, divertida, a olhar aquele enorme caralho derrotado. Mais tarde ele a fará gemer, gritar, desfalecer de prazer e de dor, encher-lhe-à a cona e o cu, e ela fará tudo, fará tudo o que ele lhe pedir, e não se limitará a submeter-se, mas a fazer o que ele lhe pedir, a fazer com ele, a levar ainda mais longe o que ele lhe pedir, mas isso será mais tarde, ainda naquele quarto de onde só muito mais tarde sairão. Mais tarde ela fará tudo o que ele pedir; mas nunca tomará a iniciativa, fará, apenas, tudo o que ele lhe pedir. Ele revelar-se-á um amante meigo e competente, meigo e exigente, e ela obedecer-lhe-á em tudo, fará tudo o que ele lhe pedir, desfalecerá de dor e de prazer, repetidamente, mas nunca tomará outra vez a iniciativa. O que ele lhe pedir, ela fará, fará tudo, com entusiasmo e competência, tudo o que ele lhe pedir, na sua voz meiga e firme. Só mais tarde, muito mais tarde, quando ele estiver a dormir, ela sairá do quarto, do hotel, da cidade. Antes, muito antes, ainda pela manhã, telefonou à sua colega Virgínia, que lhe trouxesse o certificado e, quando ela lhe perguntou, onde está, por anda, respondeu-lhe, ando a ser fodida, a ser muito bem fodida.

Chegada a casa, tomou banho, deitou-se no sofá da sala e adormeceu. Acordou sobressaltada. Era o Mário, que vinha ver se tinha corrido tudo bem, e ela disse-lhe que sim, que tinha tudo corrido bem, e acariciou-o, empurrou-o para a cama, despiu-o e montou-o vigorosamente, fazendo-o vir-se ainda mais depressa do que o costume. Então abriu as pernas e masturbou-se vigorosamente à sua frente, sentindo-se desfalecer de prazer e de dor. Cecília geme, grita, agita-se, os olhos fechados, está fechada em si mesma. Mário pensa que ela o faz para si, que o faz para ele, mas ela está sozinha, sozinha com o seu prazer e a sua dor.

Acorda e não a vê a seu lado. Queria dizer o seu nome, mas não o soube Cecília, nunca o chegou a saber, e também eu não o sei nem quero inventá-lo. Por isso digo apenas que acorda e não vê a seu lado. Mas sei quem ele é e o leitor também sabe. Que me desculpe então esta explicação, mas o trabalho do narrador é muito solitário, não admira que de vez em quando não aguente e meta conversa com o leitor.

Acorda e não a vê a seu lado. Sabe de imediato que ele se foi embora. Que terminou. Fica deitado. De barriga para cima. Não se mexe. Está com uma erecção enorme, quase dolorosa. Acaricia-se, masturba-se e… fode, fode-a uma última vez.

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

10



Antes da primeira bica nunca acordo, dizia sempre Cecília, como uma senha, uma promessa ou um talismã, nem ela o sabe, a frase pontuada com um sorriso reflexo. Dizia-o a si mesma, dizia-o a quem estivesse com ela, dizia-o ao empregado que se afastava já mas que a brindava ainda com um sorriso. E enquanto sorvia o café em pequenos goles escaldados, pensava no dia que a esperava. A que horas tinha ela combinado encontrar-se com Mário? Às sete? Talvez devesse telefonar-lhe. Ele andava esquisito. Ou seria ela? E o trabalho? O trabalho, que se fodesse o trabalho. E ri alto. E ri por ter rido. E ri ainda mais. Ainda ri quando sai do café. Marca o número de Mário, ele responde de imediato.
“Está.”
“Sou eu.”
“Olá amor, estava a pensar em ti.”
“A que horas é que combinámos?”
“Às sete. Onde andas com a cabeça?”
“(…)”
“Vamos ver algumas coisas para a casa, lembras-te, e podemos jantar, numa qualquer das cervejarias que por ali há. Nada de vegetariano…”
E ri, mas Cecília está séria.
“Amanhã saio cedo para o congresso, não te esqueças.”

domingo, 11 de Outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

9


Posso continuar a contar?
Claro, estava à espera que o fizesses.
E por onde devo começar?
Começar? Mas a história já vai a meio.
Talvez tenhas razão, mas quando se recomeça uma história é como se ela começasse de novo.
Então começa-a de novo, pelo princípio, que é pelo princípio que todas as histórias começam.
Mas a história já vai a meio, não posso começar pelo princípio.
Então recomeça-a, ou começa-a, tanto faz, que no fundo talvez seja a mesma coisa.
(…)
Talvez as histórias não tenham fim, talvez as histórias não tenham princípio. Estás a ver?

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

8


[…]

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

7


Olhou o bife, entre o desprezo e a ironia, e disse:
— Isto é um bife de quê? Não parece nada carne.
— Está descansado que nenhum animal teve de morrer para que tu o comas. Não gostas?
— Há pessoas que gostam disto?
— Cala e come-te. Só te faz bem. Precisas de te alimentar convenientemente. Estás a ficar gordo e mal-encarado.
— Acho que estou a trabalhar de mais e a dormir de menos. Isso é que dá cabo de mim, não é o que eu como.
Suspendeu o bife com o garfo e observou-o com mal contida antipatia.
— A seguir vou mas é comer uma bifana e uma cerveja preta, senão não vou aguentar.
— Não queres trocar? Tu gostas de massa! — respondeu-lhe ela com um sorriso divertido.
Ele relanceou o olhar pelo prato dela com desconfiança e começou a comer os vegetais em volta da fina fatia que dava pelo nome de bife.
— Deixa estar, vou comendo a salada, que até não está nada mal. Agora o bife é que sabe a mofo. Não sei mesmo como alguém pode gostar disto.
— Come e cala-te.


Cecília não era autoritária mas possuía uma gentil rudeza, desarmante e eficaz — pelo menos assim o pensava Mário. Uma das suas recordações mais marcantes, aquela que sempre primeiro evocava quando pensava neles, quando procurava o sentido da relação deles, estava ligada à primeira vez que fizeram amor. Ela queria fazer amor com ele, ela sabia que o queria, preparou tudo, mas ele foi adiando, cercando-a pouco a pouco, quando ela já estava decidida e pronta. Mais tarde, muito mais tarde, nesse dia, ele beijou-a e disse que a desejava, ela riu-se e afastou-se para o quarto. Ele fez amor com ela, cavalgando-a com excessiva energia, cavaleiro a galope com pressa de chegar ao seu destino. Ela riu-se, empurrou-o para o lado e fez dele a sua montaria. Mas o que ele verdadeiramente recorda, o que foi na verdade o facto mais extraordinário, resume-se à frase que ela então proferiu, montada nele, no rosto um esgar sorridente de prazer:
— Olha que isto não é como tu queres!
É esta frase que ele recorda, e também o que a seguiu, e o que a antecedeu, mas ela, só ela, lhe dá um cunho singular. O que se faz nada significa sem o que se diz, os actos são vazios enquanto as palavras não lhe insuflam o sopro do sentido. O que é que queres dizer com essa atitude não é talvez uma pergunta que se faça com muita frequência, mais se pergunta o que é que querias dizer quando disseste o que disseste; mas se o discurso precisa muitas vezes de ser explicado pelo discurso, o acto sem o discurso, e este sem aquele, estão irremediavelmente mutilados.
— As coisas não são como tu queres. — responde-lhe ele às vezes, mas não o fez naquela noite em que por resposta só teve o riso e uma ejaculação, precoce mas intensa. Naquela noite adormeceu contente ao lado dela e jurou a si mesmo que iriam casar e ser felizes.


Mário come devagar, introduzindo na boca pequenas porções que são mastigadas com método e vagar. Quem o observar pode julgá-lo um vegetariano consciente, triturando com fervor os alimentos até os transformar numa papa homogénea e de fácil digestão. Os seus gestos parecem precisos e ordenados, obedecendo a uma estrita disciplina alimentar, mas na verdade, sabemo-lo, são ditados pelo desinteresse e pelo fastio. Quem vê caras não vê corações, talvez dissesse Mário, caso se descobrisse alvo de tão fantasiosas lucubrações, mas se estaria certo ou não, ele e o povo, é coisa que aqui não cabe, embora seja fácil de ver que o coração está bem escondido no peito, ao abrigo de olhares indiscretos, difícil será saber o que lá nele vai. Mário gosta de desenhar pequenos corações atravessados por setas, aos pares, os corações, e uma única seta, longa como um espeto, unindo-os sem dor, um nome em cada um. Muitas vezes distraiu-se, traçando a sua ingénua mas sentida declaração de amor em papéis importantes, originais, e depois viu-se forçado a apagá-los com corrector, envergonhado, como se estivesse a renegar o seu amor. Felizmente apercebeu-se sempre do facto, o seu segredo não foi desvendado, nem Cecília sabe disso, e ele nunca lhe dirá. Há coisas que ele nunca lhe diria, não sabe bem porquê, que afinal esconder não é mentir, descobrisse ela e ele nunca negaria. Não que tenha muito coisa para esconder, tem muito pouco, talvez por isso queira manter alguns pequenos segredos. No amor devemos manter aceso um certo mistério, tinha lido numa revista, e embora tivesse achado a frase pretensiosa, encontrou-lhe um certo encanto e recorda-a ainda. À maior parte das vezes sente que Cecília lê nele como num livro aberto, e isso assusta-o. Sente-se que o seu peito está aberto e o coração lhe revela tudo o que vai lá dentro, porque nem só de puro e casto amor está cheio, isso sabe ele, ainda que nada veja. Já falta pouco para viverem juntos, para partilharem ainda mais os bons e maus momentos.


— Sabes uma coisa? Estive com o Joaquim hoje de manhã, estava desesperado. A história do costume. Estás a ver o filme, não estás?