terça-feira, 23 de agosto de 2016



Humorismo + metáfora = greguería.

A morte é hereditária.

A água não tem memória, por isso é tão limpa.

O café com leite é uma bebida mestiça.

O perfume das flores é o seu eco.

O livro é um pássaro com mais de cem asas para voar.

O mal do desejo é que regressa sem avisar.
(tradução minha)





segunda-feira, 22 de agosto de 2016

9 - O QUE PODEMOS SABER/FAZER? (sobre lições de vida e sabedoria)

Era uma vez um homem a quem nada corria bem. Como era dado à reflexão, passava muito tempo a pensar na sua vida. Disciplina e persistência é tudo o que é preciso para obter o que desejamos: foi a esta conclusão que ele chegou finalmente. E se assim o pensou mais depressa o fez. Mas não havia nada a fazer. A disciplina e a persistência foram inúteis no seu caso. Escreveu um livro sobre o assunto, que se tornou um campeão de vendas, e foi feliz para sempre. Morreu, sem que se saiba porquê, num sete de Outubro.

O mestre zen tinha dois alunos que estavam sempre em desacordo. Se um afirmava alguma coisa logo o outro a negava e as discussões nunca tinham fim. Numa discussão mais acesa, um deles empurrou vigorosamente o outro, que caiu no chão desamparado. O mestre ia a passar e assistiu a tudo. Aproximou-se do aluno caído e ajudou-o a levantar-se. Depois, dirigindo-se aos dois, censurou-os com rudeza: quem não sabe dominar o seu discurso não sabe dominar as suas consequências. Os alunos olharam um para o outro, e depois para o mestre, e deram-lhe uma tremenda sova que o deixou prostrado.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016



Há dias que o poema
me pedia que o escrevesse
Há dias que o poema
se nutria do meu sangue
Há dias que o poema
me oprimia como uma pele
E eu nada podia fazer
Lembrava-me que falaria
de um intenso momento
de felicidade
Lembrava-me que falaria
do inevitável retorno
da infelicidade
Lembrava-me que seria
um poema tranquilo e luminoso
como um sorriso triste
Mas por mais que o tenha
desejado escrever
não lhe consegui dar outra forma
a não ser esta.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Why I Still Write Poetry - Charles Simic

When my mother was very old and in a nursing home, she surprised me one day toward the end of her life by asking me if I still wrote poetry. When I blurted out that I still do, she stared at me with incomprehension. I had to repeat what I said, till she sighed and shook her head, probably thinking to herself this son of mine has always been a little nuts. Now that I’m in my seventies, I’m asked that question now and then by people who don’t know me well. Many of them, I suspect, hope to hear me say that I’ve come my senses and given up that foolish passion of my youth and are visibly surprised to hear me confess that I haven’t yet. They seem to think there is something downright unwholesome and even shocking about it, as if I were dating a high school girl, at my age, and going with her roller-skating that night.
Another question poets old and young are typically asked in interviews is when and why they decided to become poets. The assumption is that there was a moment when they came to realize there can be no other destiny for them but to write poetry, followed by the announcement to their families that had their mothers exclaim: “Oh God, what did we do wrong to deserve this?” while their fathers ripped out their belts and chased them around the room. I was often tempted to tell the interviewer with a straight face that I had chosen poetry to get my hands on all that big prize money that’s lying around, since informing them that there was never any decision like that in my case inevitably disappoints them. They want to hear something heroic and poetic, and I tell them that I was just another high school kid who wrote poems in order to impress girls, but with no other ambition beyond that. Not being a native speaker of English, they also ask me why I didn’t write my poems in Serbian and wonder how I arrived at the decision to ditch my mother tongue. Again, my answer seems frivolous to them, when I explain that for poetry to be used as an instrument of seduction, the first requirement is that it be understood. No American girl was likely to fall for a guy who reads her love poems in Serbian as they sip Coke.
The mystery to me is that I continued writing poetry long after there was any need for that. My early poems were embarrassingly bad, and the ones that came right after, not much better. I have known in my life a number of young poets with immense talent who gave up poetry even after being told they were geniuses. No one ever made that mistake with me, and yet I kept going. I now regret destroying my early poems, because I no longer remember whom they were modeled after. At the time I wrote them, I was reading mostly fiction and had little knowledge of contemporary poetry and modernist poets. The only extensive exposure I had to poetry was in the year I attended school in Paris before coming to the United States. They not only had us read Lamartine, Hugo, Baudelaire, Rimbaud, and Verlaine, but they made us memorize certain poems of theirs and recite them in front of the class. This was such a nightmare for me as a rudimentary speaker of French—and guaranteed fun for my classmates, who cracked up at the way I mispronounced some of the most beautiful and justly famous lines of poetry in French literature—that for years afterwards I couldn’t bring myself to take stock of what I learned in that class. Today, it’s clear to me that my love of poetry comes from those readings and those recitations, which left a deeper impact on me than I realized when I was young.
There’s something else in my past that I only recently realized contributed to my perseverance in writing poems, and that is my love of chess. I was taught the game in wartime Belgrade by a retired professor of astronomy when I was six years old and over the next few years became good enough to beat not just all the kids my age, but many of the grownups in the neighborhood. My first sleepless nights, I recall, were due to the games I lost and replayed in my head. Chess made me obsessive and tenacious. Already then, I could not forget each wrong move, each humiliating defeat. I adored games in which both sides are reduced to a few figures each and in which every single move is of momentous significance. Even today, when my opponent is a computer program (I call it “God”) that outwits me nine out of ten times, I’m not only in awe of its superior intelligence, but find my losses far more interesting to me than my infrequent wins. The kinds of poems I write—mostly short and requiring endless tinkering—often recall for me games of chess. They depend for their success on word and image being placed in proper order and their endings must have the inevitability and surprise of an elegantly executed checkmate.
Of course, it is easy to say all this now. When I was eighteen years old, I had other worries. My parents had split up and I was on my own, working in an office in Chicago and attending university classes at night. Later on, in 1958, when I moved to New York, I led the same kind of life. I wrote poems and published a few of them in literary magazines, but I didn’t expect that any of that activity would amount to much. People I worked with and befriended had no inkling that I was a poet. I also painted a little and found it easier to confess that interest to a stranger. All I knew with any certainty about my poems is that they were not as good as I wanted them to be and that I was determined, for my own peace of mind, to write something I wouldn’t be embarrassed to show my literary friends. In the meantime, there were other more pressing things to attend to, like getting married, paying the rent, hanging out in bars and jazz clubs, and every night before going to bed baiting the mousetraps in my apartment on East 13th Street with peanut butter.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016


Pela terceira ou quarta vez
no espaço de meia hora
o avião atravessa a janela do meu quarto
da direita para a esquerda
elevando-se no azul
como se fosse sempre o mesmo avião
inconveniente e teimoso
e eu rio-me de mim mesmo
eu o mesmo que a cada passagem
do impertinente avião
pensou incluí-lo num poema
mas não se decidiu
e que o faz agora
dias depois
quando já não pensava escrevê-lo.
Mas talvez eu seja outro!

sábado, 13 de agosto de 2016

o neon vermelho

beijo apaixonado
palmadinha nas costas
insistente pincelada de cor
altas horas da noite
o neon vermelho
pisca-me o olho
na escuridão
anunciando-me obstinado
a vitória definitiva
do desespero
da esperança
do desespero
da esperança

quarta-feira, 10 de agosto de 2016


É bem verdade que escrever é reescrever, assim como é bem verdade que há um momento em que se tem de considerar a obra (por ora) terminada.
Retomo um livro já com alguns anos, que considerava terminado e, por imperativos de leitura em voz alta, troco-lhe as voltas e reordeno profundamente os textos.

Deixo-vos aqui uma meia dúzia, ainda sujeita a reordenação.


Só nove anos depois de terem casado é que percebeu que o marido estava morto. Ainda viveram juntos mais dois anos.

Primeiro casou por amor e um ano depois já estava divorciado. Depois casou por dinheiro e nove anos depois ainda estava rico.

 Para lhe provar o seu amor, arrancou o coração do peito e entregou-lho. Só o recuperou nove anos depois.

Roubou-lhe o coração e nunca mais o devolveu. Nove anos depois ele cansou-se de esperar e fez um transplante.

Divorciaram-se e mudaram ambos de sexo. Nove anos depois encontraram-se e voltaram a casar. Há coisas que nunca mudam.

Desistiu de cortejá-la nove anos depois de ter começado, já ela estava casada pela segunda vez.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016


Aqui e ali consulto o I Ching e ele foi uma das influências para os 64 textos que compõem o Guru de Algibeira, pequeno livro que, em conjunto com outro, integra o próximo livro que pretendo publicar.

32 A melhor pergunta

Pergunto-me o que quero, inquieto, mas logo a resposta me surge, tranquila: nunca perguntes a ti mesmo o que queres, pergunta sempre quem és. A melhor pergunta é a que se responde a si mesma.

terça-feira, 2 de agosto de 2016


Cosmos, Maçadora obra-prima

Li por aí que esta era uma maçadora obra-prima e concordo, é mesmo maçadora. Mas a bem da verdade, todos temos o direito a ser maçadores e muitos de nós o são pelo menos uma vez por outra. Mas há os que abusam. A arte pode ser maçadora e ser arte mas não deixa de ser maçadora.
Há uma coisa boa no regresso após 15 anos sem filmar, do polaco Andrzej Zulawski: a irredutibilidade absoluta da sua atitude, a liberdade com que fez o filme que quis, como quis, fiel a si próprio e à sua reputação.

Cosmos, adaptação do romance de Witold Gombrowicz rodada em Portugal, é um filme consistente com a imagem irredutível do cineasta, como se se tivesse recusado a abandonar a aldeia gaulesa em que instalou definitivamente o seu cinema histriónico e epiléptico. Isso, no entanto, não torna Cosmos mais do que uma reiteração da fórmula em que Zulawski se instalou a dada altura - uma cansativa parada de sarcasmos irrisórios e grotescos datados, cujas tentativas de provocação niilista e sátira surrealista se perdem pelo meio de um frenesi histérico de non-sequiturs escarninhos e tiques formais.
Ainda a procissão vai no adro e já nos sentimos esgotados. Honra lhe seja feita, Cosmos é fita coerente com o que ele fez antes, mas essa coerência é também sinónimo de um cineasta prisioneiro do seu próprio sistema – o de A Fidelidade (2000) ou As Minhas Noites São Mais Belas do que os Vossos Dias (1989), mais do que o do sublime O Importante É Amar (1975). 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016


De um conjunto de textos reunidos em 2005 com o título O ESSENCIAL destaco o número 7 (em 10).

7 – A VIDA TEM UM SENTIDO? (sobre o que parece não ter explicação)

Levantou-se e permaneceu sentado, fechou o livro e continuou a leitura. Desde que se levantara da cama, manhã cedo, tudo lhe saíra ao contrário, sem que conseguisse, no final do dia, encontrar uma única explicação para tudo o que acontecera. Levantou-se e de novo permaneceu sentado, voltou a fechar o livro e leu-o até ao fim. Durante algum tempo pensou em tudo o que fizera nos últimos anos, a vida tinha-lhe corrido bem, a sorte nunca lhe tinha faltado, a sublinhar, é certo, opções correctas. Levantou-se e mais uma vez permaneceu sentado, fechou o livro e foi deitar-se, convencido de que amanhã seria outro dia e talvez tudo voltasse ao normal, afinal só a morte não tinha remédio. Nada disso, nada mas mesmo nada disso, adormeceu e nunca mais acordou, saiu-lhe tudo ao contrário, menos a morte, que é astuta e maliciosa e não gosta de contradições.

Ontem, cerca das 21 horas,  um homem matou a mulher por causa de um iogurte. Ele queria comer iogurte mas a mulher queria que ele comesse sopa. Eram horas de jantar, disse-lhe ela, comer iogurte estava fora de questão. Discutiram durante muito tempo, em voz alta, quebrando copos e pratos. A dada altura o homem agarrou um garfo, avançou lentamente em direcção da mulher, e espetou-lho com força na jugular. Depois foi para a varanda comer o iogurte. Era um iogurte cremoso e com pedaços de pêssego amarelo. O homem adorava aqueles iogurtes e comeu-o com prazer. Interrogados os vizinhos, aqueles foram unânimes, todas as horas são boas para se comer iogurtes.

domingo, 31 de julho de 2016

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Eu, a literatura, os leitores, o mercado editorial e os blogues

Poderia dizer-se que desisti praticamente de publicar após a edição do meu primeiro romance A Justa Medida, publicado pela Porto Editora em 2003. Este desistir teve muito de desencanto no panorama editorial português. Mas a verdade é que não desisti de um todo, antes resisti, apenas deixando progressivamente de contactar as editoras para que me publicassem.

Na base desta atitude estava a ideia de que ainda que me editassem me editariam mal, se é que alguma vez conseguiria ultrapassar os portões das editoras. Assim, resolvi ir por outros caminhos, passando por edições independentes e edição de autor.

Coloquei-me assim à margem do mercado editorial, não sem aqui e ali, confirmar a apatia e o ensimesmamento desse mesmo mercado. É preciso notar que o facto de ter um primeiro romance publicado não me serviu de nada.

Talvez não tenha feito o suficiente, mas sou escritor e não agente literário. Mesmo mais tarde, reconhecido como representante da Microficção que se fazia em Portugal, sempre que abordei o mercado editorial tradicional só obtive indiferença e recusas. Mas o que eu queria dizer é que posso ter desistido do mercado editorial mas nunca desisti de partilhar o que escrevo e apanhei para o efeito a boleia da internets e dos blogues.

“Um dos meus objetivos”, escrevi em 2011, “ao criar/manter blogs - aquele que identifico como principal – sempre foi partilhar o que escrevo. O que sentia - e ainda sinto - é que desta forma aquilo que assim publico sempre pode - potencialmente - chegar a alguém. Neste aspeto o blogue parece-me um livro aberto, ainda mais aberto que qualquer livro, pois sempre aberto ao leitor e à leitura.”

Deste sentir nasceu um blog que seria o primeiro e o mais conseguido dos meus projetos literários digitais e que se repercutiu em papel, o blog Mil e Uma Pequenas Histórias. Outros se seguiram, mais ou menos conseguidos, mais ou menos falhados, como Na  Estrada de Damasco e Infinitésimo. Refiro também o meu mais recente projeto/experiência, o blog Diário Mais Que Improvável. E claro, existe ainda este blog que reflete o mesmo desejo.

Por tudo isto, e mais haveria para dizer, posso afirmar que nunca desisti de fazer chegar o leitor aquilo que escrevo, apenas me desiludi com o mercado editorial.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

quarta-feira, 27 de julho de 2016

terça-feira, 26 de julho de 2016




Procura a verdade na simplicidade óbvia do mistério; deixa que as palavras se escrevam no silêncio emocionado da tua perplexidade; não tentes explicar o que quer que seja.
Talvez então, quem sabe, o poema verdadeiramente te diga.





Filme visto com agrado e surpresa.


21 Acreditar

Acredita em ti, acredita sempre em ti, sobretudo quanto mais duvides de ti. Acredita nessa tua capacidade de duvidar de ti, nessa tua maravilhosa capacidade que te permite ser vários sem nunca deixares de ser tu.

segunda-feira, 25 de julho de 2016


Oh meu Algarve, crónica publicada no Barlavento de 21 de Julho do corrente.
A foto utilizada é de Isabel Brinca.

Peter Brook

a ouvir...

domingo, 24 de julho de 2016


Esta é a mensagem número 1074 deste blog, tendo a primeira sido publicada em 02/01/2009.
Este blog onde tenho publicado irregularmente e de forma algo caótica é o lugar onde coloco material que me interessa, próprio e de outros, para mim e para quem quiser, sendo assim um verdadeiro diário partilhado.
Que fique isto dito, não sei bem porquê, e que o blogue continue.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016


Prefiro acordar cedo

Prefiro amar

Prefiro o azul

Prefiro escolher

Prefiro preferir


Não confunda as palavras com as coisas de que as palavras falam. Mesmo quando usas as palavras como coisas é sempre das coisas que elas falam. Mesmo que nada tenhas para dizer as palavras sempre se dirão.