quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Em legítima defesa

Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um perigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais


Ruy Belo

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Crónica publicada hoje, dia 12 de janeiro de 2017, no Jornal Barlavento

Da minha janela vê-se o Algarve


A um amigo

Deixa-me dizer-te que me é muito difícil dizer-te morto quando estás tão vivo em mim. Já sabia que assim seria, mas confirmo agora que as pessoas que amamos continuam a viver em nós, são parte de nós, e tu fazes sem dúvida parte de mim. Continuas a caminhar ao meu lado, alto e magro, o cabelo despenteado, o andar desconjuntado, o riso solto e os olhos e os ouvidos muito abertos.

Não era tão próximo de ti quanto outros, não fizemos muitas coisas juntos, mas poderia alguém que te conhecesse não se sentir próximo de ti? Eras um ser humano completo, contraditório e complexo, e é assim que vives em mim. Os paradoxos e os sonhos nunca foram estranhos para nós.

Quando soube como tinhas morrido, senti ao mesmo tempo a intensa dor da tua morte e o obnóxio alívio de que a decisão tivesse sido tua. Outros amigos se me morreram como tu, não foste o primeiro, e todos estão ainda vivos em mim. Não quero explicar nem justificar a tua morte, tudo isso seria literatura e tu és real e é assim que eu quero que continues. Sei que esta frase espúria te faria rir e apetece-me ouvir a tua gargalhada.

Escrever é a minha forma de estar em silêncio, a minha forma de alcançar alguma serenidade que agora não estou já a conseguir manter. Deixa-me assim, querido amigo, que não fale muito muito mais e deixe o mais importante por dizer, que o mais importante é sempre o que não conseguimos dizer.

Quanto maior é a intensidade com que vivemos maior é o controlo que necessitamos e menor é o controlo que temos. Desculpa-me, meu querido, se não te escrevo um obituário; só o faria se acreditasse que no final tu ressuscitarias.

Escrevo-te. Telefono-te. Nunca respondes. Sei que estás morto, mas a morte não é desculpa.

Era vez um homem que já não amava aquela sua forma de existência. Ele queria ser flor, ele queria ser árvore, pássaro, até pedra ele queria ser; tudo menos ser homem, que para ser homem nunca basta ser homem, é sempre preciso ser mais alguma coisa, nunca basta afinal e tão só ser. Era assim que ele era e talvez por isso tenha deixado de ser.


Até à próxima, querido Rui!



Fotografia de Bruno Filipe Pires

domingo, 8 de janeiro de 2017

A OLIVEIRA DO CENTRO COMERCIAL (3)


A OLIVEIRA DO CENTRO COMERCIAL

 


            Eu precisava de ajuda, precisava mesmo. Pela primeira vez na minha longa vida precisava de ajuda e precisava dela com urgência, com extrema urgência. Porém depressa descobri que não ia ser fácil. Para obter ajuda é preciso pedir ajuda e para pedir ajuda é preciso primeiro que nos ouçam, e eu não conseguia que me ouvissem ou, melhor dizendo, às vezes até conseguia que me ouvissem, mas não conseguia que ouvissem o meu pedido. Estava ali, atenta, à espera que alguém passasse, e quando tal acontecia, dizia com suavidade, “Olá, desculpe incomodar, posso falar consigo só um bocadinho?”, mas a maior parte da pessoas nem parecia ouvir, continuavam o seu caminho como se nada fosse, sem qualquer sinal de terem ouvido o meu pedido. É verdade que alguns olhavam à volta desconfiados, como se estivessem a ouvir, mas penso que eram mesmo assim, desconfiados, e muitas vezes olhavam à sua volta como se tivessem medo de ser surpreendidos por alguma coisa. Só as crianças pareciam ouvir-me, mas não tinha a certeza, porque algumas paravam e chegavam a olhar e até apontar para mim, no entanto os pais logo as puxavam sem cerimónia e levavam-nas com eles. As mais pequenas pareciam ouvir-me melhor e entre elas mais as meninas do que os meninos, vá-se lá saber porquê. Por isso passei a dar-lhes mais atenção, mas nem por isso conseguia melhores resultados, porque ainda que tivesse a certeza que algumas meninas me ouviam, não conseguia que parassem para me ouvir, porque os adultos, e elas estavam sempre acompanhadas de adultos, adultos que não me ouviam nem ouviam as meninas quando estas lhe diziam que eu estava a falar com elas. A maior parte zangava-se com elas, alguns riam-se, outros pareciam ficar intrigados, mas todos sem exceção, apenas variando o pouco tempo que demorava, se apressaram a puxar pelas meninas e a ir-se embora. Já estava tão desesperada que um dia, um homem parou mesmo à minha frente, a olhar-me, e eu concentrei-me tanto e fiz tanta força que quase gritei: “Olá, desculpe incomodar, posso falar consigo só um bocadinho?” Qual não foi o meu espanto quando percebi que o homem me ouvira, era um homem velho, pois abriu muito os olhos, resmungou entredentes alguma coisa que não percebi, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, já ele se afastava, resmungando e deixando-me ali a falar sozinha. Bem que me apeteceu ir atrás dele, mas não podia e por ali fiquei, dizendo a mim mesma que alguns adultos até me conseguiam ouvir, talvez os mais velhos, talvez aqueles que ainda mantinham viva em si a criança que um dia tinham sido. Tentei outras vezes, com os mais velhos, alguns tão velhos que tinham grande dificuldade em andar, mas os resultados foram os mesmos, ficar a falar sozinha, coisa que há muito estava habituada, mas que se torna desagradável quando precisamos de ajuda e ninguém nos ouve. Então um dia, quando estava quase a desistir, e já há muito que estava quase a desistir, ainda que muito faltasse para eu deveras desistir, uma menina parou à minha frente, de costas para mim. Estava sozinha. Não lhe conseguia ver o rosto mas parecia perturbada. Dava murros e pontapés à sua volta, como se estivesse a defender-se, mas não estava ali mais ninguém a não ser ela e eu. E depois ficou quieta e pareceu soluçar, estava a chorar.
 
 

            “Olá”, disse eu, quase num sussurro, como uma brisa suave a agitar mansamente as folhas. A menina passou as mãos pela cara e deixou-se ficar onde estava, mas eu sabia que me tinha ouvido, tinha sentido a sua curiosidade e até o seu medo, ainda que este fosse bem menor que a sua curiosidade. “Olá”, repeti ainda com maior suavidade, “estás bem?” E então a menina voltou-se e olhou na minha direção e senti a sua curiosidade aumentar ainda mais, de tal forma que o seu medo quase desapareceu. “Olá”, disse eu mais uma vez, “estás a ouvir-me bem?”

            “Sim”, disse a menina,” mas…”, e levantou muito as sobrancelhas, mais uma do que outra, e eu senti de imediato que tinha de explicar-me.

            “Preciso de ajuda, preciso mesmo de ajuda e não tenho ninguém a quem recorrer. É que eu não posso sair daqui, sou uma oliveira, tenho muitos recursos mas nenhum que me possa ajudar na situação em que me encontro. Preciso de ajuda e ainda que consiga falar com outras árvores e até com animais, eles não me podem ajudar, tem de ser um humano, estou convencida, mas os humanos não me ouvem e se não me ouvem como podem ajudar-me?”

            A menina olhava para mim e sorria e o seu sorriso era como a primeira luz do dia.

            “Estou a ouvir-te”, disse a menina, os pequenos braços cruzados sobre o peito. E por instantes eu não soube o que dizer-lhe, mas o melhor era começar pelo princípio e foi o que fiz.

            “ Eu sou uma oliveira, como tu bem sabes, e a minha família, por assim dizer,  é há muito tempo conhecida dos humanos. Somos apreciadas pelo óleo que o homem aprendeu a extrair dos nossos frutos e que utilizou como unguento, combustível e também na alimentação. Por isso fomos veneradas desde a antiguidade por diversos povos. Fomos sempre associadas à força e à vida e por esses facto respeitadas e louvadas. Mas tu deves saber isto, tu andas na escola, não andas?”

            A menina abanou a cabeça numa clara afirmativa, mas continuou calada. Estava muito atenta e concentrada e senti sem qualquer sombra de dúvida que queria que eu continuasse.

            “Vim do Alqueva, com as outras árvores que aqui estão no parque de estacionamento, fomos realojadas por altura da construção da barragem, antes que morrêssemos todas afogadas.”

            “Espera só um pouco, se faz favor”, interrompeu a menina, colocando educadamente a mão no ar.

            “Tu também vieste do Alentejo, não é?”, afirmei, e a menina voltou a abanar a cabeça numa clara afirmativa. Esperei um pouco e como ela nada mais disse, continuei.

            “Vim para a cidade contra a minha vontade e contra a minha natureza. Fui trazida do campo, onde sempre vivi e cumpria as minhas funções, e colocada neste centro comercial para mero embelezamento do espaço e recreio dos visitantes que mal me olham. A mim e às minhas companheiras, claro está, que quando falo de mim falo afinal de todas, apesar de eu ser a mais velha.”

            A menina tinha de novo levantado o braço.

            “ Eu sei que, ao contrário de nós, tu vieste porque quiseste, não é? Os teus pais separaram-se e tu ficaste a viver com a tua mãe, não é? Mas agora vives com o teu pai e...”

            “Sim, é tudo verdade, mas conta lá porque precisas de ajuda, estou curiosa. E sobretudo como é que eu te posso ajudar”, interrompeu a menina, desta vez sem levantar a mão.

            “Tal comos humanos, ainda que de forma diferente, também nós estamos em rede...”, interrompi-me ao ver a menina sorrir mas senti que não era nada importante e continuei, “ou seja, dependemos muito umas das outras, pois estamos de alguma forma ligadas como se fossemos uma só oliveira. Não te consigo explicar melhor, porque com os humanos é muito diferente, mas estamos todas ligadas umas às outras e perdida essa ligação não conseguimos sobreviver durante muito tempo, pois como que uma grande tristeza toma conta de nós e já não queremos viver. Sinto que me estás a perceber, apesar das nossas diferenças, e isso é a primeira coisa que eu queria, que me acreditasses e que confiasses em mim.”

            “Mas como te posso ajudar?”, interrompeu-me a menina, que estava a ficar impaciente.
 
 

            “As oliveiras estão sempre ligadas em rede a partir da oliveira mais velha e por aí abaixo, como uma pirâmide, até às oliveiras mais novas, e quando essa ligação se perde, por exemplo com a morte de uma de nós, que até as mais velhas de nós morrem, essa rede restabelece-se por si mesma, e tudo volta ao normal, ainda que aqui e ali já tenham existido casos em que demorou mais tempo para que a rede se reconstruísse, mas neste caso parece ser diferente, talvez porque fomos mudadas de lugar e isso não é frequente, não sei. Só uma oliveira muito antiga, uma oliveira de topo da pirâmide poderá restaurar a ligação e eu, como é evidente, não consigo contactá-la e não tenho meios de a procurar.”

            Estava a sentir-me um pouco desanimada e não queria que a menina percebesse, mas também eu estava a pensar como poderia ela ajudar-me, tão pequenina e frágil, por isso calei-me um pouco a pensar o que devia dizer, mas a menina já ia um passo à minha frente.

            “Olha, estou aqui a ver que perto da cidade de Tavira, no aldeamento turístico de Pedras d’el Rei existe uma oliveira que tem mais de 2000 anos e julga-se que foram os fenícios que a teriam trazido da Mesopotâmia. É contemporânea da civilização romana e para abraçar o seu tronco são necessários cinco homens.” Fez uma pequena pausa dramática e concluiu, antes de eu dizer fosse o que fosse. “Esta oliveira pode resolver a tua situação! O que é preciso fazer?”

            A menina parecia muito admirada por poder contribuir para uma solução e eu ainda estava ainda mais admirada, que se pode ser muito velha, como eu sou, e ainda nos surpreendermos. A verdade é que eu não sabia bem o que era preciso fazer e não estava habituada a tomar decisões. A minha recente autonomia, que me levara a pedir ajuda, crescera na medida em que a minha ligação diminuíra e eu ficara cada vez mais isolada até ficar completamente sozinha pela primeira vez. Olhei as árvores mais novas, incrustada nos muros do parque de estacionamentos que formavam os vários compartimentos que acolhiam os muitos automóveis, e não as senti, era como se não existissem, ou como eu não existisse. Nunca me tinha sentido assim e pela primeira na minha longa existência senti-me triste. A menina estava ainda a olhar para mim e esperava uma resposta. Tentei acalmar-me e comecei a falar muito devagar, à espera de saber afinal a resposta àquela pergunta, como sempre soubera até então a resposta a todas as perguntas a que precisava de responder.

            “O importante é que vás até à oliveira, ela saberá a que vais e saberá obter a informação de que precisa para refazer a rede e voltarmos a ligarmo-nos todas umas às outras.” Acabei de dizê-lo e soube de imediato que essa era a solução, mas senti a perturbação da menina e percebi que nada estava ainda resolvido.

            “Eu não posso fazer isso sozinha, preciso de contar ao meu pai e, ainda que ele acredite que não é um capricho meu, está zangado comigo e não sei se corresponderá ao meu pedido.”

            Estive para lhe dizer alguma coisa mas fiquei calada, à espera que ela tomasse uma decisão, e não tardou muito até que me disse: “Vou contar ao meu pai, ele vai perceber que precisas de ajuda e não te vai dizer que não! E não me vai dizer a mim que não, tenho a certeza, só preciso de lhe explicar tudo muito bem explicado.” Já se ia embora, mas parou e terminou o que tinha para me dizer: “Disse ao meu pai que o esperava no carro. Insisti tanto que ele disse que sim e me deu as chaves. Não o vi passar mas estive distraída, até pode já ter ido ao carro e não me encontrou. Vou até lá e depois telefono-lhe. Espera por mim aqui!” E foi-se embora com o pedido absurdo de que eu esperasse ali, como se eu pudesse ir a algum lugar. Esperei e pouco tempo depois a menina voltou com o pai. Fiquei muita surpreendida quando percebi que o pai da menina conseguia ouvir-me, ainda que fizesse de conta que não e perguntasse sempre á menina o que eu lhe tinha dito. Fosse como fosse o que é certo é que ele disse que iria procurar a oliveira e levaria a filha consigo.
 
 
            Disse-lhes que agradecia muito, que eram muito simpáticos, e eles sorriram os dois o mesmo sorriso feliz e foram-se embora de mãos-dadas. Nesse mesmo dia, depois do almoço, a menina e o pai foram ao aldeamento das Pedras d'el Rei, junto a Tavira, à procura da  oliveira milenar . Estacionaram junto à receção do aldeamento, porque não sabiam ao certo onde estava a oliveira, e o pai disse que ia perguntar a alguém, mas a verdade é que não se via quem quer que fosse. Ao lado do carro, um gato malhado, sem coleira, chamou a atenção da menina, que se baixou para lhe fazer festas. Era amarelo e cinzento e castanho e branco, numa profusa e invulgar mistura de cores. Quando o pai disse para a menina ficar ali que ele ia ver se encontrava alguém, logo o gato se afastou alguns metros, voltou-se para trás, e começou a miar, como se estivesse a chamá-la. A menina aproximou-se do gato e este voltou a fazer o mesmo, e ela não teve qualquer dúvida que o gato os levaria à arvore. Chamou o pai e disse-lhe que deviam seguir o gato. O pai olhou-a surpreendido e deu-lhe a mão, o que o gato só parecia esperar para se pôr em movimento, parando aqui e ali só para confirmar que eles ainda estavam a segui-lo. A oliveira ficava logo ali, duas ruas acima, e tinha uma placa, não deixando qualquer dúvida sobre a sua identidade. Parecia a soma de várias oliveiras e o tronco era larguíssimo, oco e torturado. A menina pegou o gato ao colo e deu-lhe mimos, enquanto o  pai fotografava a oliveira e falava dela com respeito e admiração. A menina continuou com o gato ao colo e passado um bocado o  pai aproximou-se e fez-lhe também festas. Não sei como, mas logo tiveram a certeza de que estava tudo bem, que tudo tinha acontecido como eu tinha previsto e que eu e as oliveiras do parque estacionamento estávamos de novo em rede, como se fossemos só uma.

            Esqueci-me de dizer à menina e ao seu pai que, muito provavelmente, se tudo corresse bem, eu deixaria de ser ouvida por eles, mas sinto que eles souberam isso naquele momento em que tudo voltou ao normal e não me levaram a mal por eu não falado com eles quando me vieram cumprimentar e perguntar se estava tudo bem. Estavam de mãos dadas e o mesmo sorriso feliz iluminava-lhes o rosto.




 
 


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A OLIVEIRA DO CENTRO COMERCIAL (2)

A OLIVEIRA DO CENTRO COMERCIAL
Luís Ene




No parque de estacionamento ao ar livre do centro comercial, situado na entrada oeste da cidade, a duzentos metros da prisão regional e do centro de saúde mental, existe um olival com cerca de duas dúzias de oliveiras, que ali chegaram vindas do Alqueva, no Alentejo, face à mais que certa inundação dos terrenos onde estavam, devido à construção da barragem com o mesmo nome. Mais de metade dessas oliveiras, as mais novas e mais franzinas, estão espalhadas pelo parque, em pequenos compartimentos individuais, como se fossem flores em vasos, incrustados nos muros que dividem o parque, como linhas paralelas num rectângulo distendido, criando desta forma várias zonas de estacionamento. Num dos lados desse rectângulo, oposto à estrada e ao longo de uma das paredes do centro comercial, um longo e estreito canteiro acolhe as oliveiras maiores e mais antigas. Não são árvores muito grandes, parecem até atarracadas, ainda que pela largura torturada dos troncos devam ser sem dúvida árvores centenárias. É junto a uma dessa árvores, a que está mais perto da entrada do centro, mesmo em frente à passadeira dos peões, que podemos ver uma menina, de uns nove ou dez anos de idade, não deve ter mais, em nada diferente de uma qualquer outra menina da mesma idade, pelo menos para uma oliveira, que as oliveiras, mesmo as centenárias, sabem muito pouco ou quase nada sobre meninas com nove ou dez anos de idade e todas lhes parecem mais ou menos iguais: têm longos cabelos, são pequenas e muitas vezes usam saias.
Na verdade, as oliveiras distinguem com muita dificuldade as meninas dos meninos e até as meninas e os meninos dos homens e das mulheres, porque as oliveiras, mesmo as mais sábias, sabem muito pouco ou quase nada sobre homens e mulheres, apesar de com eles se relacionaram há muito tempo. É claro que a menina à frente da oliveira não sabia nada disso e nem sequer dava conta da oliveira atrás de si. Estava aborrecida, muito aborrecida, e zangada, muito zangada, não sabia bem porquê nem com quem, mas estava mesmo muito aborrecida e muito zangada, e quando deu por uma garrafa de plástico vazia no chão, mesmo ali à sua esquerda, não hesitou, nem por um momento; virou-se na sua direcção, girando sobre si mesma no sentido dos ponteiros do relógio e com o pé direito pontapeou a garrafa que levantou voo em linha recta, acertando em cheio no tronco da oliveira com um crepitar roufenho.
A menina nem gostava de futebol e a garrafa nada tinha de bola e ela até estava sempre preocupada com o lixo nas ruas e com o facto de os portugueses serem muito porcos e deitarem muito lixo para o chão, mas deu-lhe para ali, é que deu-lhe mesmo para ali e não se estranhe que o tenha feito, que o aborrecimento e a ira leva até os adultos mais sábios a fazer os maiores disparates. O que era de estranhar, e a menina estranhou, foi a voz que se fez ouvir quase ao mesmo tempo e que, entre o ríspido e o divertido, lhe perguntou o que se passava ou, nas exactas palavras que a menina ouviu: “ Mas o que é que se passa?”
A menina olhou à volta e não viu ninguém. Quem é que estava a falar? Talvez tivesse sido um estranho eco da garrafa de plástico a bater no tronco de árvore! Avançou à árvore e rodeou a oliveira com cuidado, não estivesse alguém atrás do tronco, que era largo e bem podia esconder um adulto, ou até duas ou três crianças, todavia não estava lá ninguém. Voltou para a frente da oliveira, apanhou a garrafa do chão para a deitar no lixo e deu um salto que nem um macaco quando de novo ouviu a voz que de novo dizia:
“Mas o que é que se passa?”
“O que é que se passa? O que é que se passa?”, repetiu a menina, entre o grito e o sussurro, enquanto olhava de novo à sua volta.
“ O que é que se passa? Sim! O que é que se passa? O que é que se passa para me atirares com lixo? Senti muito bem a pancada e sei que foste tu pois não está aqui mais ninguém.”
A voz vinha da oliveira em frente à menina, não podia vir de outro lado, e parecia um sussurro longo, como se fosse produzido pelo vento a repercutir-se nas pequenas e alongadas folhas da árvore.
A menina ficou calada, um olho na entrada do centro comercial e outro na árvore. Que palermice, as árvores não falam, onde já se viu uma coisa assim? Isto pensou a menina e se assim o pensou assim o disse, dirigindo-se à oliveira e olhando-a no centro da copa, onde sem dúvida estariam os olhos se ela os tivesse; ou seria no tronco, também podia ser, e assim pensando a menina fixou os olhos no tronco da oliveira, que lhe dava mais jeito, mas em nenhum local conseguiu ver ou pressentir quaisquer olhos ou pelo menos uma boca.
“Não me estás a ouvir?”, disse a voz. “Que interessa se tenho boca ou não?”
A menina olhou de novo a árvore, desconfiada, mas desta vez respondeu: “Estou a ouvir-te perfeitamente. O que é que se passa?”
“Eu é que te pergunto o que é que se passa! Porque é que me atingiste com a garrafa de plástico?”
“Não te queria acertar, apeteceu-me apenas dar um pontapé na garrafa.”
“Mas porquê? Não compreendo.”
“Porque estou aborrecida. Porque estou zangada.”
“O que é que queres dizer com isso? Não compreendo.”
A menina calou-se, passou a mão direita várias vezes pelo cabelo longo e só então falou.
“Tu nunca ficas aborrecida, tu nunca te zangas?”
“As árvores são muito diferentes dos humanos, acredito que pensamos e sentimos como vocês, nisso somos iguais, mas pensamos e sentimos de modo muito diferente. Já nos conhecemos há muito tempo, é verdade, a nossa ligação é antiga e íntima, mas arrisco-me a dizer que conhecemos muito pouco dos humanos, conhecemos mesmo muito pouco, talvez porque somos muito diferentes, talvez porque a comunicação entre nós nunca é fácil.”
A menina sentou-se no chão, à frente da oliveira, olhou a garrafa que ainda tinha na mão, pousou-a a seu lado e, olhando para a oliveira, num ponto do tronco à altura do seu olhar, pediu desculpas por a ter incomodado. Nada se alterou na árvore, mas de novo a menina ouviu a voz.
“Estar aborrecida e zangada não é agradável, é isso? Não é como sentir o vento a soprar-nos de leve as folhas, pois não? É mais como quando as nossas raízes não encontram água por mais que se esforcem, é isso?” A voz pareceu ir calar-se, mas continuou ainda, após uma curta pausa. “É como não podarem as nossas folhas nem colherem as nossas azeitonas, é isso? É como nos sentimos quando não cuidam de nós, quando não se preocupam connosco?”
“Estar aborrecida e zangada não é mesmo nada agradável, dá vontade de ir para outro lugar ou de ali nunca ter chegado.”
“Sobre isso nada sei, não poderia sair daqui, ainda que quisesse, e não estou muito certa do que é querer. Mas tu podes ir de um lado para o outro e parece que tens querer. Não queres vir mais para o pé de mim? Senta-te debaixo da minha copa, encostada ao meu tronco, lembro-me que isso às vezes alguns humanos o fizeram, em dias mais quentes, ou apenas para descansar. As mulheres novas faziam-no muito, é verdade.”
A menina levantou-se, deu três pequenos passos em frente e sentou-se no chão, encostada ao tronco, que era rugoso e a incomodou um pouco a princípio. Mexeu-se um pouco, ajustou-se, aninhou-se e pareceu ficar satisfeita, pelo menos foi o que a oliveira sentiu, pois embora soubesse pouco sobre humanos sabia muito sobre sentir.
“Mas tu não estiveste sempre aqui, pois não?”, disse a menina, voltando-se um pouco para a árvore, habituada que estava a olhar na direcção de quem falava.
“Não precisas olhar para mim”, disse a oliveira, e a voz soava divertida, ou pelo menos foi o que a menina sentiu e pensou, pois pouco a pouco tinha-se acostumado àquela voz e já quase lhe adivinhava emoções. “Na verdade, até podias fechar os olhos” continuou, “e a boca, e mesmo assim poderíamos continuar a conversar.” A menina fechou os olhos, pensou agora a pergunta, os lábios cerrados, e qual não foi o seu espanto quando ouviu a árvore responder-lhe de imediato.
“Já tinha ouvido, não sou surda. Eu estou sempre aqui, ligada ao solo e ao sol e ao vento e aos pássaros e também aos humanos que têm sempre cuidado de mim. Já estive noutro lugar, mas estive sempre aqui e sempre serei quem sou onde quer que esteja. Isto também deve acontecer contigo, ainda que de outra forma, pois vocês andam sempre de um lado para o outro. Tu não estás também ligada a tudo o que te é essencial?”
A menina continuava de olhos fechados e estava a sentir-se sonolenta. Pensou um pouco e respondeu sem falar: “Acho que estou ligada aos meu pais e aos meus avós, aos meus amigos e ao lugar onde vivo, mas é muito diferente porque tudo muda e tudo pode ser muito assustador. Às vezes tenho medo, acho que é medo, de perder o que tenho e às vezes tenho dificuldade em perceber o que tenho, o que posso esperar, não sei, e muitas vezes fico aborrecida e zangada, faço birra e o meu pai diz que não me compreende e fica zangado comigo. Tal como tu, eu também vim do Alentejo para o Algarve, foi uma decisão que tomei, e os meus pais concordaram. Eles estão separados, vivem longe um do outro, e eu decidi vir viver com o meu pai. Há seis anos que vivia com a minha mãe e...”
“O teu pai também faz birras?”, interrompeu a oliveira, que e até então só falara na sua vez.
A menina abriu um pouco os olhos, virou a cabeça para a oliveira com esforço, era mais fácil assim, e ficou a pensar se teria havido algum troça na voz. A oliveira voltou a perguntar: “E o teu pai também faz birras?”, e o tom, se algum tom havia, era de pura curiosidade. A menina recostou-se de novo e voltou a fechar os olhos. Uma brisa suave agitava agora de leve as folhas da oliveira e ela ficou a ouvir por momentos aquela música de um quase silêncio.
“E o teu pai também faz birras?”, insistiu a árvore. “É que somos muito mais iguais do que pensamos, ainda que talvez muito mais nós do que vocês. Eu não sou muito diferente das outras oliveiras e tu de certeza que não és muito diferente do teu pai; também ele se deve aborrecer e zangar, porque muitas coisas o assustam e de muitas coisas sente medo, medo de te perder, medo de não te entender, medo de não te conseguir agradar, medo de não te conseguir fazer feliz, medo de te magoar, medo, medo, medo... Mas ele gosta muito de ti, gosta mesmo muito de ti e tu tens de confiar nele e no seu amor por ti...”
Os carros continuavam a entrar e a sair do parque amiúde, mas a menina não os ouvia, aninhada no tronco da oliveira, quase invisível para quem passava. O tufo florido que rodeava o tronco da oliveira, reforçando a sua natureza ornamental, reforçava também a quase invisibilidade da menina adormecida e só quem olhasse de perto a poderia distinguir.
Um homem parou à frente da árvore, como se ali tivesse materializado, e por instantes ficou apenas a olhar a árvore e a menina e a menina e a árvore, os olhos muito abertos de espanto de alegria.
Depois avançou com cuidado em direcção à menina e passou a mão pelos seus longos cabelos. A menina abriu um pouco os olhos e sorriu.
O pai abraçou-a, levantou-a do chão e apertou-a contra si, e assim ficaram durante muito tempo, abraçados um ao outro, como se ali fossem ficar para sempre.
“Pai, a árvore falou comigo!”, disse a menina e o pai perguntou-lhe: “E o que te disse?” Continuavam abraçados e tinham fechado os dois os olhos.
“Disse-me que não somos muito diferentes, eu e tu, que gostamos muito um do outro e que muitas vezes temos medo e às vezes fazemos birras.” A menina falou muito depressa e no final abraçou o pai ainda com mais força. O pai continuou a abraçar a filha, e passado algum tempo colocou-a no chão, agachou-se à sua frente, olhou-a nos olhos, depois olhou para a oliveira e disse: “Obrigada, muito obrigada. És uma árvore muito sábia.”
A menina abraçou de novo o pai e depois foram-se embora, sem olhar para trás, mas quando estavam quase a deixar de ver a oliveira, voltaram-se os dois para trás ao mesmo tempo e acenaram-lhe um prolongado adeus.

*

Quando a menina despertou o pai estava sentada na cama a olhar para um ponto situado entre os dois, ligeiramente à sua direita. A menina soergueu-se e olhou na mesma direcção. Em cima da cama estava um gatinho malhado, numa mistura derramada de branco, preto amarelo, cinzento e castanho. A menina sorriu e disse olá, primeiro ao gato e depois ao pai. O pai sorriu, deu-lhe um beijo, e saiu do quarto sem dizer nada.
Era o mesmo gato que a menina tinha visto com o pai no centro comercial e que ele se tinha recusado a trazer para casa. Na verdade, recusar ele não tinha recusado, tinha era dito que ia pensar no caso, e foi então que ela fugiu, logo que apanhou o pai distraído.
O gato miou um miado fino e a menina olhou-o ainda com mais atenção. Era tão fofo. Somos todos iguais, somos todos iguais, pensou ainda ao mesmo tempo que agarrava o gatinho e o enchia de beijos. Ergueu o gatinho à frente da sua cara e disse-lhe num quase sussurro, soprando-lhe ao mesmo tempo no focinhito preto: “Precisamos todos de carinho, não é verdade, Oli? Precisamos todos de alguém que cuide de nós!”

sábado, 31 de dezembro de 2016

NOVE ANOS DEPOIS


Correu o mundo à procura da verdade. Quando regressou finalmente a casa, nove anos depois, encontrou a verdade sentada no velho sofá da sala. Há nove anos que o esperava.

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

(...)

A OLIVEIRA DO CENTRO COMERCIAL
Luís Ene



Ao fim-de-semana costumo ir com o meu pai ao supermercado que fica no centro comercial junto à entrada oeste da cidade. Os meus pais separaram-se e eu fiquei inicialmente a viver com a minha mãe, no entanto, alguns anos depois, decidi viver com o meu pai e os dois concordaram. A minha mãe voltou a casar e o meu pai não, mas isto não vem ao caso, é outra história completamente diferente.
No parque de estacionamento ao ar livre existem várias oliveiras que o meu pai me garantiu, quando ali fomos pela primeira vez, terem vindo do Alqueva, no Alentejo, por ocasião da construção da barragem. Na altura não liguei muito, eram apenas árvores, e o meu pai, apesar de estar muitas vezes mal-humorado , também gosta de dizer piadas, algumas, verdade seja dita, sem piada absolutamente nenhuma.
Olhei as oliveiras espalhadas pelo parque, aprisionadas em pequenos compartimentos murados e pensei se ele não estaria a fazer uma comparação mais ampla do que a minha simples origem comum com as árvores. Eu tinha deixado o Alentejo para vir para o Algarve, mas a decisão tinha sido minha, ao contrário das árvores, e sorri, pois por momentos pensei nas árvores a deslocarem-se para o Algarve em carros próprios ou mesmo de autocarro e nem digo a pé porque é muito longe. Às vezes dou por mim a imaginar coisas impossíveis, completamente estapafúrdias, como o meu pai gosta de dizer, mas isso é outra história.
Ao longo da entrada do parque de estacionamento, num largo canteiro que acompanha uma das paredes do centro comercial e que conduz à entrada principal, alinhavam-se várias oliveiras, maiores e com melhor aspeto, pareceu-me, do que as outras que se misturavam com os carros estacionados. Tinham a folhagem mais compacta e brilhante e pareciam ter umas saias vestidas, e sorri outra vez, que afinal não eram mais do que uns tufos floridos que lhes rodeavam os troncos curtos, ideia decorativa que eu não estava certa que as oliveiras apreciassem, mas que era sem dúvida divertida.
A oliveira é uma planta de folha persistente, o que significa que nunca perde totalmente a sua folha; em vez disso, as folhas mais velhas vão caindo ao longo do ano. As folhas, pequenas e luzidias, são verde acinzentadas na frente e de um cinzento prateado e brilhante por trás. Na parte de trás têm pequenos pelos, que protegem a árvore da desidratação recapturando a água e conduzindo-a de novo para a folha. Não pensem que sabia isto; procurei na Internet informação sobre as oliveiras e esta foi uma das que obtive e pude até confirmá-la observando as folhas das oliveiras do parque de estacionamento do centro comercial. A verdade é que passei a olhá-las com mais atenção, especialmente a que ficava mais perto da entrada, mesmo ao lado da passadeira.
O meu pai nem sempre deixava o carro no estacionamento exterior, embora o preferisse, e por isso muitas vezes eu só via as oliveiras da estrada, quando nos dirigíamos para o parque subterrâneo, ou de relance, por uma das grandes vidraças, ao subir as escadas rolantes. Num dos dias em que o meu pai tinha deixado o carro no parque exterior e estávamos quase a entrar, mesmo ao lado daquela primeira oliveira, ele disse que se esquecera de não sei do quê no carro e pediu-me para esperar. Aproximei-me da oliveira, olhei-a com redobrada atenção e disfarçada reverência e disse-lhe: “Olá, como estás?”
Não sei porque é que o fiz! Nunca tinha feito uma coisa assim. Onde já se viu falar com uma árvore? Mas por mais estapafúrdio que fosse, a oliveira respondeu-me, numa voz que mais parecia um murmúrio, como uma brisa suave que lhe agitasse de mansinho as folhas estreitas e pontiagudas.
“Vim para a cidade contra a minha vontade e contra a minha natureza. Fui trazida do campo, onde sempre vivi e cumpria as minhas funções, e colocada num centro comercial para mero embelezamento do espaço e recreio dos visitantes que me mal me olham.”
A voz parecia triste, pelo menos foi o que eu pensei, a própria oliveira parecia triste, e o tom era claramente de lamento, mas a voz era sussurada e, talvez por isso, a emoção revelava-se atenuada. Pensei se devia dizer alguma coisa, mas a oliveira parecia falar para si mesma.
“Não sei ao certo a minha idade, mas algumas das minhas irmãs têm hoje mais de dois mil e quinhentos anos. Uma oliveira, perto da cidade de Tavira, no aldeamento turístico de Pedras d’el Rei tem mais de 2000 anos e julga-se que foram os fenícios que a teriam trazido da Mesopotâmia. É contemporânea da civilização romana e para abraçar o seu tronco são necessários cinco homens.”
A voz deixou de se ouvir por uns instantes, mas logo recomeçou, e o tom era agora manifestamente de orgulho, ainda que, tal como antes, surgisse sempre mitigado.
“ Eu vim do Alqueva, com outras árvores realojadas por altura da construção da barragem. Somos há muito apreciadas pelo óleo que o homem aprendeu a extrair dos nossos frutos e que utilizou como ungento, combustível e também na alimentação. Por isso fomos veneradas desde a antiguidade por diversos povos. Fomos sempre associadas à força e à vida e por esses facto respeitadas e louvadas, mas aqui, onde agora estou, sou apenas ignorada.”
E de novo parou e de novo recomeçou.
“O maior olival do mundo é o da empresa Sovena, produtora de azeite do grupo português Mello. São 9.700 hectares. A sede do grupo é em Ferreira do Alentejo, Beja, Alentejo e seu mais famosos azeites são Andorinha e Oliveira da Serra, de Portugal; Soleada - Espanha; Olivari - Tunísia. A maior parte de seus olivais são intensivos, com 1600 oliveiras por hectare.”
Fiquei admirada com esta última fala, cheia de informações tão detalhadas que me perguntei como poderia ela saber tudo aquilo e senti uma vontade urgente de a interpelar. Acho que ia mesmo a abrir a boca para fazer a pergunta quando de repente me senti puxada por um braço e ouvi a voz do meu pai a perguntar-me se estava outra vez com a cabeça na lua. Disse-lhe para esperar, interroguei a árvore com uma mirada firme, mas percebi de imediato que toda a magia tinha desaparecido.
Apanhei uma azeitona do chão, das várias que ali estavam caídas e estendi-a ao meu pai que a olhou meio desconfiado. Ele viveu em cidades desde que nasceu e, embora seja sensível ao mistério e à atracção da natureza, diz sempre que não percebe nada das coisas do campo.
Cheirou a azeitona, esmagou-a um pouco e cheirou-a de novo, entre o surpreso e o sorridente. “Cheira a azeite”, disse, “é um aroma muito ténue mas cheira ao azeite extra-virgem, que resulta da primeira pressão a frio das azeitonas, assim como se fosse um sumo suave.” Cheirei também a azeitona, mas nada disse e limitei-me a sorrir também.
“Se quiseres podemos comprar azeite daquele melhor”, disse ele e soltou uma pequena gargalhada. O meu pai gosta de comer torradas com azeite, diz que é à espanhola, e eu habituei-me também, embora prefira de longe pão com um doce qualquer. Compramos sempre um azeite melhor e mais caro, apenas para temperar e colocar no pão.
Não lhe contei que a oliveira tinha falado comigo, no entanto contei-lhe o que ela me tinha dito, como se fosse alguma coisa que eu tivesse lido ou ouvido. Fiz-lhe também algumas perguntas e pareceu-me que ele ficou contente por me ver interessada por alguma coisa, mesmo que fossem apenas oliveiras. Acho que andava preocupado comigo e se interrogava também sobre se estaria a relacionar-se comigo da melhor maneira e a conversa pareceu amenizar por momentos essas preocupações.
Perguntei-lhe se as oliveiras do centro comercial tinham mesmo vindo do Alqueva e se para lá voltariam, e ele respondeu-me que lhe tinham dito que sim, que num dado momento foram redistribuídas porque as terras em que se encontravam iam ser inundadas, o que veio mesmo a acontecer. Disse-me ainda que achava que estavam de novo a desenvolver o olival naquela região, mas que agora usavam uma espécie de oliveira diferente das anteriores, mais pequena e jovem, que produzia azeitona de forma super-intensiva; se com melhor ou pior qualidade não sabia, mas achava que só podia ser pior.
O meu pai é mesmo assim, sempre disposto a acreditar em tudo e ao mesmo tempo sempre disposto a duvidar de tudo. Se lhe tivesse contado que a oliveira do centro comercial, a primeira a contar da entrada principal do centro, tinha falado comigo, ele estaria sem dúvida disposto a acreditar, mas também estou certa que logo duvidaria e diria certamente qualquer coisa do tipo como é que oliveira podia falar se não tinha boca ou talvez me perguntasse desde quando é que eu falava oliveirês. Ou ainda, talvez me tivesse piscado o olho e convidado a contar a história da oliveira do centro comercial.
Quando tinha nove anos escrevi várias pequenas histórias que o meu pai se encarregou de fazer publicar numa revista e muitas vezes disse a quem o quis ouvir que eu escrevia muito melhor do que ele. Acho que ele gostaria que eu voltasse a escrever mas nunca mais o fiz. Seja como for, não lhe contei que tinha ouvido a oliveira falar.
Algum tempo depois o meu pai levou-me ao aldeamento das Pedras d'el Rei, junto a Tavira. Disse que íamos à procura da tal oliveira milenar de que eu lhe tinha falado, e eu concordei. Estacionámos junto à recepção do aldeamento e o meu pai perguntou a um homem que por ali passava se conhecia a oliveira, ao que o outro respondeu que sim, que era logo ali, duas ruas acima, que tinha uma placa, que era muito fácil de encontrar.
Ao lado do carro, um gato malhado, sem coleira, chamou-me a atenção. Era amarelo e cinzento e castanho e branco, numa profusa e invulgar mistura de cores. Era muito manso, fiz-lhe duas ou três festas e ele seguiu-me como se fosse um cão, quando fui atrás do meu pai, que queria chegar à árvore antes que se fizesse noite e já ia lá à frente. Era Dezembro, o dia mais curto do ano estava próximo e já passava um bom bocado das cinco da tarde. Curiosamente, o gato seguiu-me até à oliveira, como se também estivesse interessado em vê-la, mas quando lá chegámos não lhe ligou nenhuma. O meu pai ainda o colocou em cima da oliveira para lhe tirar uma fotografia, mas o gato esquivou-se sem cerimónias.
A oliveira milenar parecia a soma de várias oliveiras e o tronco era larguíssimo, oco e torturado. Peguei o gato ao colo e dei-lhe mimos, enquanto o meu pai fotografava a oliveira e falava dela com respeito e admiração. Continuei com o gato ao colo e passado um bocado o meu pai aproximou-se e fez-lhe também festas. Ainda pensei que me ia perguntar porque me interessava tão pouco pela oliveira, dizer-me que tinha vindo ali de propósito para que eu a visse, e outras coisas assim, porém ele ficou calado, a fazer festas ao gato e a olhar a velha oliveira.

O meu pai consegue à vezes ser um grande chato, mas gosta muito de mim e tenta agradar-me sempre que pode. É claro que isso nem sempre lhe é fácil e muitas vezes eu também não ajudo nem um bocadinho.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Crónica publicada hoje no Barlavento - Semanário Regional do Algarve

DA MINHA JANELA VÊ-SE O ALGARVE

Quem te critica teu amigo é!


Existe uma ideia amplamente difundida em Portugal de que criticar é sempre falar mal de algo ou de alguém e também que é sempre mais fácil dizer que se gosta do que dizer que não se gosta. São duas ideias diferentes mas que em muito convergem.

Consulto um dicionário comum e ele parece confirmar que criticar é “dizer mal de”e “pôr defeitos”, mas uma das suas entradas, a última, diz que também pode ser “exercer a crítica”, e se procurarmos o significado de crítica ficamos a saber que se refere a uma análise, feita com maior ou menor profundidade, de qualquer produção intelectual. 

Criticar reconduz-se ainda, no seu sentido mais geral, à actividade de apreciar, avaliar e outras semelhantes. Criticar só será assim dar uma opinião desfavorável num sentido figurado e restrito, pois é óbvio que é muito mais do que isso. Não será também, tão só, falar bem, elogiar, dizer que se gosta, que se gosta muito, que se gosta bastante, pois assim se cairia no extremo contrário, na bajulação, que é uma designação possível para tal atitude e uma palavra de que gosto muito.

É mais politicamente correto, direi ainda, afirmar que se gosta, ou mais fácil, arriscarei, do que dizer que não se gosta. É que em Portugal não gostamos de criticar, desde logo porque não queremos ser criticados. Mas se criticamos, então o que fazemos em regra é apenas dizer mal, pôr defeitos, pequeno mas eficaz poder que desta forma exercemos sobre os outros.

A prática ainda não extinta de avaliações muito mais por favor do que por merecimento também não ajuda e por isso muitos fogem como o diabo da cruz de avaliar e/ou ser avaliados.

Mas se queremos criticar – e é importante que se critique - e se a crítica é uma análise, deveremos não só tentar explicar porque gostamos ou não gostamos, mas também tentar ver o conjunto e apontar os pontos positivos e os negativos, realçando uns e outros. Muitos fracassos são muito mais honestos e esforçados do que muitas vitórias fáceis e previsíveis.

Criticar exige que pensemos e pensar exige alguma honestidade, quer com os outros quer com nós próprios, e mesmo assim erramos e mesmo assim mudamos de opinião.


Quem nunca se engana e raramente tem dúvidas (ou será ao contrário?) não é certamente humano. Eu erro muito e tenho sempre dúvidas;se me criticarem ficarei sem dúvida mais forte, aceitando ou negando as vossas críticas. Por isso e pela liberdade de opinião, estejam à vontade, critiquem-me!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

sábado, 26 de novembro de 2016

RESPOSTA TARDIA


 
CATARINA EUFÉMIA
Sophia de Mello Breyner Anderson

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
 
 


 


Ontem, depois da peça, na frente do teatro, perguntaram-me o que tinha achado. Respondi que não sabia, que tinha de deixar passar mais tempo. A pessoa insistiu, disse que se sentira desiludida, que não correspondera às suas expectativas, que não vira a ligação com a Antígona. Perguntou-me também se me sentira agarrado, pediu de novo a minha opinião, queria mais do que um gostei ou não gostei. Continuei calado.

Quando à ligação com a Antígona nada sabia, não tinha lido as páginas do programa que a essa intenção se referiam, ação aconselhada pelo Luís Vicente antes de a peça arrancar e não dera atenção a essa referência no poema lido no final, indicado como ponto de partida e de chegada. No entanto tinha sentido algo de clássico, algo de inevitável, algo de trágico, algo de coro, que me agradou e me desagradou, talvez me tenha incomodado, na rigidez e intensidade excessiva da voz e dos gestos. E fiquei agarrado, sim, fiquei agarrado, não me entediei, não desejei que tudo passasse mais depressa. Gostei do quase círculo dos espectadores, como num anfiteatro, gostei do movimento quase mecânico das mulheres e do seu continuo ir e vir, gostei dos guardas monstruosos cujos pés não tocavam o chão. Interroguei-me sobre a necessidade do cavalo em cena (cavalo que era uma égua, diga-se), esperei o poema que só surgiu no final, quase me entediei aqui e ali com o que me pareceu demasiada simplicidade e o gosto por metáforas fáceis, a criança, a faixa vermelha. Estranhei o latifundiário que repreende os guardas e carrega Catarina morta.

 Não entrei em êxtase, não exultei, mas fiquei agarrado, sim, fiquei agarrado e deixou-me a pensar, ainda estou a pensar. O que aqui escrevo é apenas uma resposta tardia à pergunta que me fizeram ontem e que ontem poderia ter respondido como agora o fiz, com muitas dúvidas.

PS Também gostei bastante do boneco Salazar e da forma como foi manipulado. 

 



CATARINA EUFÉMIA
Sophia de Mello Breyner Anderson

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

murmúrios

Ninguém vive numa ilha deserta.
Os poemas erguem-se como ilhas num mar de silêncio.

Luís Ene


Fotografia de Alexandre de Maia Cabrita


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

PUBLICAR OU NÃO PUBLICAR?

Este ano de 2016 voltei a experimentar a sensação agridoce que a publicação de um livro sempre me traz, o que aconteceu novamente com "Escrever é dobrar e desdobrar palavras à procura de um sentido", editado pela Lua de Marfim, a convite da mesma através do escritor Fernando Esteves Pinto.
Como já disse antes, o escritor escreve, é isso que ele faz, e se o convidarem ou surgir uma oportunidade, poderá decidir publicar em livro, pelo menos é o que eu penso. Porém, se publicar é colocar à disposição de um público, a publicação de um livro não é hoje a única alternativa para completar o ciclo autor-obra-publicação-leitor. Na coluna da direita, com o título BAÚ poderão encontrar alguns textos que escrevi, com destaque para as minhas últimas obras não editadas em livro. São duas obras distintas em registos distintos mas que têm sem dúvida traços em comum. A primeira, O que não consigo explicar posso sempre escrevê-lo", está completa, tão completa quanto uma obra pode estar; a segunda, A vida entre parênteses, ainda beneficiaria de uma revisão e de alguma eventual reescrita, pelo que peço que a considerem ainda nesse estado.
O que me move ao colocar estas duas obras à disposição do público é não só o desejo de as partilhar mas também o desejo de regressar à folha em branco, terminando o ciclo.



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ESCREVER E PUBLICAR

Escrever e publicar são dois momentos e duas realidades diferentes.
O escritor escreve, é isso que ele faz, e é isso que o torna escritor. Assim, se não publicar não deixa de ser um escritor: um escritor que nunca tenha publicado é um escritor não publicado.
Eu sou um escritor, para falar apenas de mim. Escrevo e isso basta. Escrevo por necessidade. Não necessito de publicar para me considerar escritor. Ser escritor é uma condição anterior à publicação, logo anterior ao eventual reconhecimento público. É isso que acredito.
Mas talvez me possa interrogar sobre que é publicar, e a verdade é que me interrogo. Publicar é colocar à disposição de um público, geralmente obras literárias, normalmente em livro. E existirão outras formas de colocar obras literárias ao alcance de um público? Acredito que sim! E tenho-o feito! A questão é se devo continuar a fazê-lo.
Colocar o que escrevo à disposição de um público não me faz mais escritor e até talvez confunda o meu papel ou missão, que é tão só escrever, pelo menos como eu o entendo. No entanto, a vontade de completar o ciclo, e colocar o que escrevo à disposição do público, tem-me levado  a ler o que escrevo em voz alta, muitas vezes material inédito, com ou sem músicos, e a publicar na Internet, sobretudo através de blogs.
Sou um escritor, não um editor ou agente e talvez me deva limitar a escrever. Muitas vezes acredito que é isso que deveria fazer, apesar de também sentir que tenho de fazer o que sinto em mim necessidade de fazer.
Procuro-me e perco-me nas palavras, penso ou tento pensar. Sou um escritor e um escritor escreve. Mas talvez eu não seja apenas um escritor ou seja afinal uma nova forma de escritor. Sorrio e deixo de escrever. Mais tarde voltarei a este texto.



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

DA MINHA JANELA VÊ-SE O ALGARVE (10 CRÓNICAS BREVES)


 
 
 
Da minha janela vê-se o Algarve
Luís Ene
 
CRÓNICAS PUBLICADAS NO JORNAL BARLAVENTO DE JUNHO A OUTUBRO DE 2016
 

[publicado em 16/06/16]

 

Caro leitor

 

Fernando Cabrita, poeta que vive em Olhão, a nove quilómetros de onde eu próprio vivo, costuma dizer que existe uma genealogia na escrita (na verdade ele diz poesia) que leva a que na escrita de um escritor sejam sempre acolhidos muitos outros escritores. Isto porque o escritor escreve o que é, mas também o que lê. Assim, o que eu escrevo, o que qualquer escritor escreve, tem sempre raízes numa literatura que lhe é anterior e que lhe serve de estrume, porque o escritor é sempre e antes de mais um leitor. Se chegaste até aqui, caro leitor, tem paciência e segue-me até ao próximo parágrafo.

 

Ainda estás aí, leitor? Sim? Está bem. Dá-me então mais um pouco de atenção, para que tente explicar-te porque te considero tão importante. A língua define-nos como ser humanos, e o mesmo vale para a arte, comum a todos nós, que é a arte de contar histórias. Eu sou escritor, daí esta familiaridade contigo, leitor, daí a importância que te dou, porque só em ti o que escrevo se lê e existe verdadeiramente. Um grande escritor, Jorge Luís Borges, que cito de cor, correndo o risco de errar, disse que as bibliotecas são cemitérios. Na verdade um livro que não é lido está morto e só o leitor pode dar-lhe de novo vida. Daí a tua enorme importância, leitor, daí a tua enorme responsabilidade. Permiti-me então que te convide para um novo parágrafo.

 

Procuro ainda um ponto de partida comum para estes textos, escrevo, mas na verdade já o tenho, ainda que só agora me tenha apercebido. É assim a escrita, cheia de dúvidas e de revelações. Escreve-se, escrevendo; e é assim que escreverei estas rubricas. Sei que o que escreverei estará à sombra de uma verdade que é a de que da minha janela se vê o Algarve, título e tema que afinal escolhi para estas conversas com o caro leitor.

 

Qualquer mentira deve, já dizia certeiro o poeta António Aleixo, trazer à mistura qualquer coisa de verdade. E é o que acontece neste caso. Da janela (do meu quarto) vê-se realmente o mar, vê-se o azul, e o Algarve é azul, disso não tenho eu dúvidas. Assim,  da janela que será esta rubrica poderemos, eu e tu, caro leitor, espero eu, ver sempre o Algarve, o Algarve em letras, porque eu sou um escritor e estou no Algarve.  Mas, caro e paciente leitor, tal como agora me seguiste parágrafo a parágrafo; se me quiseres continuar a ler, e ver o que escreverei, terás de me seguir até uma próxima vez, que agora vou ficar por aqui.

 

Desculpa-me ter dito tão pouco, é o que sinto, mas acredita que quanto mais eu me calar mais tu te dirás.

 

Até à próxima.


 

 

[publicado em 06/07/16]

 

Escritores Algarvios?

 

Resido em Faro, no Algarve, e ainda que essa circunstância em nada influencie a minha escrita, é muito provável que a mesma tenha mais reflexos em Faro e no Algarve do que em qualquer outro lugar onde não resido e não intervenho. Assim, ainda que me afirme, acima de tudo e tão só escritor, a circunstância (desejada) de viver em Faro não é certamente de desprezar e, nesse sentido, não rejeito nem desprezo a designação de escritor algarvio, exatamente porque aqui resido e intervenho com mais frequência.

Não pretendo aqui, longe de mim, discutir ou defender a existência de uma literatura algarvia ou mesmo a sul. Outros já o fizeram muito melhor do que eu o faria! Leia-se por exemplo “A criação literária e o Algarve, no Algarve ou do Algarve? – Reflexões sobre literatura regional(ista), de Adriana Nogueira.

Mas aqui estou eu, em Faro, no Algarve, e relaciono-me e agrupo-me com outros escritores e editores que como eu aqui residem, como Fernando Esteves Pinto ou Pedro Jubilot, ambos escritores e editores algarvios, ambos olhanenses, atrevo-me a dizer, o primeiro por escolha e o segundo por nascimento.

Por mim, ainda que nascido na Damaia, e algarvio apenas por circunstância e escolha, aceito e agrada-me ser descrito como um escritor farense, como o diretor deste jornal em que escrevo me designou, e a verdade é que aqui e ali Faro entra na minha escrita. Deixa-me, caro leitor, que traga para aqui um texto que é exemplo disso, retirado de um pequeno livro inédito, com o titulo genérico de “O meu café”.

 

“Na cidade onde vivo é tão fácil encontrar o seu café como é fácil encontrar o meu café, e não é que eu queira dizer com isto que na cidade onde vivo qualquer um pode encontrar um café que seja seu.

A verdade é que na cidade onde vivo existe um café que se chama O Seu Café, e, embora O Seu Café não seja o meu café, ficam os dois no mesmo largo, um opondo-se ao outro.

Assim, posso dizer que o meu café fica no largo em questão e é aquele que não é o seu café, não só localizando-o assim na perfeição, como fazendo-o ainda mais meu.”

 

Claro que só quem conheça o café em questão sabe do que falo, mas quem não souber não fica em nada prejudicado na sua leitura.

O leitor que me desculpe pelo facto de me citar e também de trazer aqui a questão (sem dúvida inócua) da existência de escritores e editores algarvios, porque pode ou não acreditar-se nisso, mas que existem, existem, e estão por aqui, pelo Algarve, e querem (e devem) ser levados em conta.

Até à próxima leitor, e toma atenção aos escritores perto de ti.


 


[publicado em 21/07/2016]

 

Oh meu Algarve

 

Oh meu ardente Algarve impressionista e mole, canta João Lúcio, com palavras que muitos conhecerão de cor, no seu poema O Meu Algarve, de 1905. O Algarve visto pelo poeta é um Algarve belo, um Algarve vibrante, um Algarve em que os seus contemporâneos se teriam certamente revisto (ou admirado) mas que hoje (quase) já não existe.

Numa altura em que se discute o petróleo no Algarve e em que parece renascer a discussão sobre o impacto ambiental do turismo na região, as palavras de João Lúcio já não nos servem, a não ser pela sua beleza intrínseca, porque pouco se vê nelas do Algarve de hoje.

Os tempos mudam, é verdade, porém, para nossa felicidade, arrisco-me a dizer que existem escritores (e aqui incluo os poetas) que continuam a olhar o mundo (e o Algarve) e a abrir-nos os olhos. A verdade é que Portugal sempre foi um tema privilegiado dos escritores portugueses, como facilmente concluímos quando olhamos a literatura portuguesa. Se os portugueses (nós todos) os temos escutado essa é outra história, como se costuma dizer.

João Bentes, nascido na ilha de Faro, recupera um século  depois o verso de João Lúcio, e diz (acusa) por exemplo, “oh meu algarve impressionista e trágico”. O Algarve, ainda impressionista, já não é agora mole, mas trágico. O tom adivinha-se outro e é realmente outro; o Algarve (ou o algarve) que este outro João nos dá a ver é outro Algarve e vale a pena o confronto com essa visão que nos escancara os olhos para uma nova realidade que teimamos em ignorar. Mas felizmente o poema está aí para ser lido com olhos de ver.

De um texto de Henrique Manuel Bento Fialho sobre o livro que contém o poema, reproduzo um pequeno excerto que não dispensa a leitura do todo: “Distante da comunidade lisboeta, (João Bentes) coloca no centro das suas atenções a paisagem algarvia. É muito pertinente esta opção, não só pela ligação às origens geográficas, mas por poder ser hoje o Allgarve um símbolo da degenerescência portuguesa que nos trouxe ao estado de histeria nacional em que vamos andando, paradoxalmente, cada vez mais conformados com a miséria alheia.”

Gostaria de reproduzir aqui todo o poema, mas não o farei, não só porque não pedi autorização ao poeta, mas sobretudo porque gostava, caro leitor, que o procurasses e o lesses com a atenção que merece.  O livro chama-se Odes e foi publicado por uma editora algarvia, a 4 águas, em 2012. Deixo aqui, a terminar, uma das suas estrofes, a inicial, porque o poema é tão bom que hesito escolher uma.

 

oh meu algarve cimentado em prol

da luxúria verde dos “resorts”

deu-te deus um mar azul e tépido

onde lavas a cara à sombra das concessões

nos três meses que te salvam da fome

 

Convido-te pois, caro leitor, a olhares para o Algarve (ou algarve) com os olhos do poema. E até à próxima.



 

Deixa-te intrigar, o que nos intriga é bom!

publicado em 04/08/2016

 

Espreito o novo livro de Adão Contreiras e confesso-me intrigado. Se o titulo já era intrigante – Mostruário de Títulos para Poemas – o conteúdo não lhe fica atrás. Adão Contreiras realizou inúmeras exposições de pintura e escultura e publica agora o seu terceiro livro em três anos. O livro em causa encontra-se publicado na coleção 4águas da editora com o mesmo nome e é provável que passe despercebido, o que também me intriga.

A qualidade referida é uma das que mais aprecio. Ser intrigante é o contrário de ser mais do mesmo, de não ser aquilo que com mais facilidade encontramos no dia a dia. Algo intrigante é algo que nos interpela, que nos deixa curiosos, que desperta a nossa a nossa inteligência e a nossa criatividade. No meu caso particular, algo sobre o qual, caro leitor, me apetece escrever e escrever-te.

Em Faro, onde vivo, tenho conhecido nos últimos anos alguns novos  locais/estabelecimentos comerciais que me têm intrigado e que me continuam a intrigar. Uma cidade sem locais de encontro é uma cidade morta e Faro estava e ainda está numa desagradável letargia de que o longo encerramento do Café Aliança é um sinal evidente. Destaco alguns desses locais, sem prejuízo de outros, que deixo ao teu cuidado lembrar, caro leitor.

Ocorre-me assim, sem pensar muito, a “Sardinha de Papel”, nome que sugerirá talvez uma peixaria ou uma livraria, mas que é uma organização comunitária e um espaço muito agradável de exposição e venda de artesanato. A seguir, para dar mais dois exemplos, agora na restauração, aponto “A Venda” e a “Mavala Osteria Italiana”, cada uma delas com características singulares, que te convido, caro o leitor, a descobrir. São espaços tão intrigantes e estimulantes como o livro inicialmente referido, um livro de poemas que (aparentemente) não contém poemas.

Atrevo-me a dizer que Faro (e quem diz Faro diz o Algarve) é cada vez mais um intrigante lugar de cultura e os exemplos que apontei são disso uma pequena prova. O leitor que se deixe intrigar, que deixe levar pela curiosidade, livros e locais intrigantes não faltam.

Adão Contreiras vive nos Gorjões (no campo, num Algarve diferente mas igual a si mesmo, em que em dois bancos corridos junto à estrada se põem as notícias em dia), lugar onde vive também o músico de jazz Zé Eduardo e, caro leitor, se tiver a sorte de ir a uma das festas que ali ocasionalmente se realizam, perceberá que a cultura (seja qual for o significado que se der à palavra) está viva a sul e recomenda-se.

Termino com um dos títulos/versos do livro, mais precisamente o da página 79: “nada tem peso a não ser a minha imaginação”.

Até à próxima, caro leitor, e deixa-te intrigar. 



 

OS MELHORES AFRODISÍACOS 

 

Ambicionamos o reconhecimento da qualidade do nosso produto e da nossa marca, isto poderiam dizer os escritores residentes no Algarve, para os que tenho tentado chamar a atenção, nesta rubrica que tem por guia o título “Da minha janela vê-se o Algarve” e por mote este desejo manifesto de destacar os muitos livros de qualidade editados no Algarve, que constituem por assim dizer um produto e uma marca locais.

Com as limitações que me são próprias e as da rubrica em si, desde logo o número de caracteres disponíveis (dois mil e quinhentos a três mil, incluindo espaços) tenho-me esforçado por levar o meu propósito avante. Mas voltando ao princípio, digo-vos que a frase com que comecei este artigo pertence à presidente da associação de produtores de ostras da Culatra, Sílvia Padinha, devendo no entanto ler-se “das nossas ostras” onde escrevi “do nosso produto”.

Não sei se gostam de ostras, caros leitores, mas, em caso afirmativo, creio que preferirão as melhores e (talvez, porque não?) as que são de produção local, como as certificadas “Ostras da Culatra” de que se falava numa das últimas edições deste jornal, ideia que me pareceu bastante boa.

Quanto aos livros as coisas não me parecem muito diferentes (e eu sei que me vão criticar por esta afirmação!), porque se queremos literatura de qualidade no Algarve não me parece nada uma má ideia (aliás parece-me a única razoável) privilegiar a produção local, dando preferência aos livros de qualidade aqui editados. E isto implicaria desde logo uma política efetiva de apoio por parte das entidades locais e não vagas declarações de intenções.

Sei que esta conversa daria (e tem dado) pano para mangas e que é eivada de escolhos (para não lhes chamar preconceitos), mas não tenho espaço para muito mais, que os caracteres já começam a escassear para o tanto que haveria a dizer e que tem de ser dito e discutido. E eu, verdade seja dita, não sou dado a falar sozinho e ainda quero trazer aqui um poeta (e advogado) que vive em Faro mas nasceu em Tavira, como o poeta Álvaro de Campos.

Tiago Nené, é este o poeta, foi publicado, além do mais, numa edição bilingue, pelo Ajuntamento de Punta Umbria, Andaluzia, Espanha, nunca tendo recebido idêntica atenção em Portugal. E o mesmo aconteceu a outros autores algarvios e portugueses que integraram a coleção em causa. Não vou comentar, acho que neste casos os fatos falam por si. Tire o leitor as suas conclusões.

Mas vamos ao poema, retirado de Polishop, edição de 2010. Como comecei com ostras escolhi um poema de amor, pelas notórias características afrodisíacas comuns às ostras e aos poemas.

 

SINFONIA DAS NUVENS

 

eu acho que te amo, disse.

como se o amor,

o verdadeiro amor,

admitisse

algum tipo de dúvida

 

Até à próxima, caros leitores, e sejam felizes no amor, na gastronomia e nas leituras.

 

PS para ser honesto, e eu tento sê-lo, ainda me sobraram alguns caracteres, mas a verdade é que já disse o que planeei dizer e fico por aqui.


 

01 de setembro

 

Nova Fábula Antiga

 

Era uma vez, há muitos, muitos anos,  um mouro velho que vivia feliz no amor da sua filha e da sua religião, assim dizia ele, e, ainda que falasse verdade, era óbvio que o amor mais forte era o que nutria por sua filha. E quis o destino, ou Alá, que Ali Abdul Ali, assim se chamava o mouro, viesse a ser colocado perante o dilema de ter de escolher entre a sua filha e a sua religião. Mas não nos adiantemos, leitor.

 

Por essa altura planeavam os cristãos um cerco ou ataque surpresa ao castelo, que a imaginação dos guerreiros é limitada e prática e, para o efeito, tinham sido enviados alguns batedores, entre eles um belo jovem de cabelos louros, órfão de pai e mãe, criado na doce adoração pela irmã mais velha, mulher muito devota e intransigente. Este jovem vai ter um papel importante. Mas não nos adiantemos, leitor.

 

A mulher do mouro morrera por ocasião do nascimento da filha, momento em que ele  decidiu nunca mais amar alguém que não fosse a filha, jovem alegre e um pouco fútil que tardava em casar. Indignava-se o mouro e censurava a filha, mas em segredo dava graças a Alá por ter o amor da sua filha só para si. E por esta altura já o leitor percebeu que rumo esta história vai tomar, mas não nos adiantemos.

 

Esta história que conto já foi contada antes e eu não me desviarei muito, apenas a contarei à minha maneira, como se fosse contada pela primeira vez. Mas recolha-se o narrador e deixe que a história se conte.

 

Quis o destino (e quer a história) que o cristão encontrasse a moura e ambos se apaixonassem, perante o horror e o desespero daqueles que mais os amavam. E as religiões de ambos, pai e irmã, ainda que diferentes e mesmo antagónicas, diziam a ambos o mesmo, que a moura e o cristão deviam renegar o seu amor. Por isso eles decidiram fugir juntos, mas tal nunca viria a acontecer  e acho que ninguém se surpreenderá se o disser já, sem mais delongas.

 

Foi o cristão encarregado de liderar um ataque surpresa, pela calada da noite e veio a ser morto pelo pai da sua amada que, ao contrário do que eu próprio antecipara, deixou que o amor pela sua filha ficasse em segundo plano. Tivesse a jovem moura se matado também e a história terminaria aqui, mas a história que se quer contar é outra história. Vejamos então!

 

Na fuga, porque a vitória lhe fugia, tropeçou o mouro velho, bateu com a cabeça e morreu logo ali. Conquistado o Castelo, veio a irmã do cristão enterrá-lo e, perante a visão do irmão que tão amado lhe fora, enlouqueceu e perdeu para sempre a razão. A jovem moura, que se sabia grávida, partiu para longe e, ainda que não o possa confirmar, sei que foi feliz, porque assim o escrevo. E o mesmo para o filho, que a felicidade é sempre generosa, até numa fábula tão desgraçada como esta.

 

E assim, querendo apenas contar uma pequena história, ou que ela se contasse, não resisti a meter o bedelho, por assim dizer, com as minhas considerações de autor sempre interessado em discutir a própria escrita, que afinal nada mais é do que a minha forma de contar.



 

15 de setembro

 

SER ALGARVIO!

 

Não nasci no Algarve mas sinto-me e digo-me algarvio; é pois natural que me pergunte o que é ser algarvio, partindo do princípio que ser algarvio é muito mais um estado de espírito do que a simples consequência geográfica de aqui ter nascido.

Não nasci no Algarve, repito, e o mesmo aconteceu aos meus pais. No entanto, se quisesse alegar raízes ancestrais a ligar-me a esta região, é certo que poderia fazê-lo, invocando os meus avós maternos, algarvios da serra alentejana, bem como os seus pais e os pais dos seus pais. Porém, a questão em causa é outra.

A serra é uma fronteira natural que criou e acentuou durante muito tempo um Algarve que se fez diferente, destino turístico de muitos no Verão, destino maldito dos que aqui vivem o resto do ano.

Mas, retomando a ideia de que ser algarvio é um estado de espírito, ideia inicial aqui avançada, em que consistirá então esse estado?   Será ter o olhar sempre pousado no azul? Será falar a cantar? Será gostar de xarém e de berbigão? Será ser avaro e comer na gaveta? Ser irreverente? Ser aquele rabugento alegre que reclama de tudo e que com pouco se alegra? Ser doce como o figo e intenso como o medronho? Estar sempre de férias? Gostar de peixe grelhado?

Muitas perguntas e nenhuma resposta, pode o leitor dizer e terá razão, mas a verdade é que perguntei a muitos como eu o que é ser algarvio e as respostas raramente coincidiram. A luz e o azul apareciam em muitas respostas, no entanto referiam-se mais ao ser Algarve do que ao ser algarvio, apesar de se sentirem todos algarvios.

Ou será que ser que ser algarvio é apenas estar aqui e querer e gostar de estar aqui. Mas o melhor é deixar que um escritor nos fale dessa sensação de sentir o Algarve na sua plenitude. E que melhor escritor do que um escritor algarvio que nasceu em Mar del Plata (Argentina) e tão bem diz o Algarve.

 

Penetro no azul

quero misturar-me com a paisagem

fundir-me com este lugar

fazer parte das salinas   das ilhas

dos pinheiros   dos cheiros vegetais

da vista da varanda da casa abandonada

estar nesta luz e neste vento

neste aroma   no monte próximo

na nora da casa destruída

Quero devorar a erva com estes cavalos   devorar

a paisagem  voar com estas aves

ser este moinho   ser o comboio que passa

 

Este fragmento do poema Marim, de António Ventura, diz bem, na minha opinião, este sentir-se algarvio, ou sentir-se a sul, que também assim se poderia dizer, este devaneio que nos leva a desejar a fusão com este lugar.

A terminar, e de passagem, gostaria de manifestar o meu sentido desejo de ver nova edição de as Visões de Marim, um livro decididamente a Sul, de António Ventura e Fernando Cabrita, onde está o citado poema Marim.


 

29 de setembro

 

O ALIANÇA ESTÁ MORTO! LONGA VIDA AO ALIANÇA!

 

Estou no Aliança e a porta giratória está a funcionar, o que nunca acontecia no Verão, se a memória não me falha. O salão continua espaçoso, os painéis de madeira continuam a ostentar fotografias de um Algarve a preto e branco, os tetos continuam altos e com estuques perfeitos e eu continuo a sentir-me bem aqui.

Claro que há diferenças, mas elas não me interessam agora. Estou no Aliança, repito, são 14:45 de um Domingo de Verão e tenho o Aliança quase só para mim. Escrevo à mão um rascunho desta crónica, sobre o tampo de mármore da minha memória e sinto-me bem neste café que, não sendo o mesmo que foi, é um café (ainda que insistam em chamar-lhe cervejaria) como já quase não existe, como dizemos às vezes dos homens e das mulheres a que reconhecemos valor (e às vezes exatamente o contrário). Já não existem homens como tu, dizem-me às vezes, e eu fico a pensar se é um elogio ou exatamente o contrário. No entanto, mudam-se os tempos e com os tempos mudam-se (ou morrem) as tradições e os lugares. Sempre foi assim e sempre assim será. Não tenho nada contra, no geral, e muito menos no caso do Aliança.

O Aliança que eu conheci está morto, já não existe, a não ser na minha memória. Levanto-me e vou à casa de banho, que já não é onde era, e sinto a falta do corredor à esquerda que já não existe e levava ao quiosque, ao corredor onde se jogava xadrez e, recordo-me ainda, à sala dos bilhares. E, no entanto, o Aliança está vivo, está mudado mas está vivo, se para melhor ou pior, sinceramente não sei, acho que depende do ponto de vista e acho que erra quem tomar partido, assim, sem mais nem menos, preto no branco. Confesso que se fosse a minha primeira vez no Aliança, este local me agradaria sem sombra de dúvida, mas tenho memórias do Aliança e tinha (e tenho) expectativas sobre este local e elas influenciam necessariamente a minha opinião.

Logo à partida, pela carga histórica que o café carrega, gostava de ver de alguma forma acentuada essa característica com, por exemplo, um folheto que descrevesse o passado do local ou um conjunto de livros e outros materiais disponíveis que o documentassem (podiam passar no ecrã existente utilizado para televisão) preservando/documentando esse mesmo passado. Dada a carga cultural do mesmo também me pareceria bem a existência no lugar de lançamentos de livros, recitais, espetáculos, mas este é apenas um ponto de vista, o meu ponto de vista, fruto do meu passado, do meu relacionamento com o lugar e da minha visão de um futuro presente.

Numa entrevista publicada antes da reabertura do Aliança o responsável por este espaço, Mário Nogueira, afirmava, parecendo concordar comigo que, entre outras coisas, “Queremos que volte a ser um espaço popular com um bom peso na área da divulgação da poesia, música, jazz, música popular, (no próximo ano quero charolas no Aliança). Como dizemos no slogan,  que já começámos a divulgar, queremos que seja o Coração de Faro.”

Nestas crónicas pretendo apenas levantar questões, expor mais dúvidas do que certezas. Não pretendo ter razão, disso estou certo, pelo menos aquela razão que exclui todas as outras razões.

O Aliança está morto! Longa vida ao Aliança!

 

Ah, já me esquecia, a cerveja é boa e pode pedir-se um traçado de cerveja branca e preta.



 

13 de Outubro de 2016

 

É MELHOR VIVER DO QUE ESTAR MORTO

Se disser que sou velho muitos o negarão, pelo menos aqueles que têm a minha idade ou mais, porque a verdade é que se gosta cada vez menos de ser velho. Não penso muito se sou ou não velho, se estou ou não velho, mas a verdade é que já fui mais novo, já fui várias décadas mais novo, o que me enche normalmente de orgulho. Ter vivido é bom, faz-me sentir um verdadeiro viajante do tempo, e poder ainda viver é igualmente bom.

É claro que envelhecer é também estar mais perto da morte, ainda que a morte corra sempre a par da vida. É claro que envelhecer é conhecer a degradação e sucessivas limitações implícitas, mas não é isso que a vida sempre é, um sucessivo ultrapassar de limitações ?

A esta altura o leitor interroga-se sem dúvida que idade terei eu e porque falo de velhice e de morte. Respondo de imediato, afirmando que tenho 59 anos de idade, ou pelo menos terei 59 anos quando este artigo for publicado, se ainda estiver vivo (lagarto, lagarto, lagarto). Não sofro de qualquer doença terminal nem de qualquer achaque para além dos normais nesta idade, mas a morte sempre me fascinou, nem que seja apenas para lhe contrapor a vida. E também as limitações com que sempre deparamos, porque na vida nunca importa tanto o que somos e o que nos acontece, quanto o que fazemos com o que somos e o que nos acontece.

Por outro lado, convencido que estive que morreria cerca dos trinta anos, só posso estar grato pelo que vivi, recebi e realizei depois. Por pouco que tenha sido, foi de certeza muito, disso não tenho qualquer dúvida e o mesmo quanto ao que ainda viverei.

Mas o que pensaria eu se tivesse oitenta e cinco e anos, que é a idade que a minha mãe tem? Gostaria de pensar que me sentiria grato, gostaria de pensar que ainda quereria viver, ainda gostaria de amar, de escrever, mas o que sei eu? Penso que foi Camus que disse que as razões para viver são também as razões para morrer, mas gosto de pensar que é melhor viver do que estar morto.

 Há poucos anos atrás recordo-me de estar com um amigo na presença do centenário Manoel de Oliveira, que nos batia por um ano na soma das nossas idades, e nos admirámos com a energia que se desprendia daquele corpo debilitado. Quem me dera a mim, repito o que então senti e disse a mim mesmo, estar sempre tão vivo quanto ele estava, quem me dera a mim nunca chegar a dizer que o que quero mesmo é morrer.



Oliver Sacks pouco dias antes de fazer oitenta anos e poucos anos antes de morrer, escreveu: Aos oitenta paira o espectro da demência ou do derrame. Um terço dos meus contemporâneos está morto, e vários outros, com graves problemas mentais ou físicos, vivem presos numa existência trágica e mínima. Aos oitenta as marcas da decadência são demasiado visíveis. Nossas reações são um tanto mais lentas, os nomes nos fogem mais amiúde, e cumpre administrar melhor as energias, mas ainda assim é possível nos sentirmos muitas vezes cheios de vigor e nem um pouco “velhos”.



30 de Outubro de 2016

 

LEIA E GANHE PRÉMIOS!

 

O prémio Nobel da literatura foi este ano atribuído a Bob Dylan. Alguns concordam, outros discordam. Não vou discutir se o prémio foi merecido ou não, não vou discutir se fo prémio foi ou não bem atribuído, mas quero deixar claro que são duas coisas diferentes.

Um prémio, qualquer prémio, é sempre o reconhecimento do premiado e também o reconhecimento da área em que se distingue. Quero dizer com isto que um prémio literário, qualquer prémio literário, e o Nobel, por mais importância que se lhe conceda, é um entre muitos, aponta em primeiro lugar para a literatura, para o seu valor, dando-lhe destaque, e só depois para o premiado.

Gosto de pensar que estes prémios, ao afirmarem a literatura e os seus autores, são  um convite à leitura, não só para os leitores habituais mas também para aqueles que habitualmente não leem. E é claro que ao distinguir um autor, quer seja um dos seus livros ou a sua obra, se está a sugerir a sua leitura e o Nobel é exemplo disso, como facilmente se pode constatar nos escaparates das livrarias e demais postos de vendas depois da sua atribuição.

O que me causa alguma confusão é que os prémios literários, e o Nobel é exemplo, muitas vezes chamem mais a atenção para o autor do que para a sua obra, que muitos desconhecem e continuarão a desconhecer. O que me causa alguma confusão é que alguns prémios chamem mais a atenção para si mesmos do que para o premiado. Mas o que me causa mesmo confusão é que o interesse pela literatura, e não esta, esteja pela hora da morte, desculpem-me a expressão vulgar.

É claro que os prémios são importantes, sem dúvida, mas gostaria de pensar que o mais importante é a literatura e o prémio que pode ser a sua leitura para qualquer pessoa que a encontre, atraída ou não por prémios literários. Confesso que eu próprio às vezes me interrogo quanto ao valor da literatura, mas não é menos verdade que continuo a ler, se escritores e obras premiadas  ou não, tanto me faz, desde que me permita viver e sonhar. Mas se os prémios não são tudo, ignora-los também não me parece a melhor atitude, porque ignorar os prémios literários é, no fundo, ignorar a própria literatura.

Fernando Esteves Pinto ganhou este ano o prémio literário Cidade de Almada, na categoria de romance, e Carlos Campaniço ganhou o mesmo prémio em 2012. É um prémio importante e com prestígio no panorama literário nacional. Aponta para a literatura nacional e para os seus autores.

Assim, a minha sugestão é que se deixe tentar, caro leitor. “O que não mata, engorda”, diz o povo, por isso procure os livros destes dois escritores e leia-os. Pode compra-los, trazê-los da biblioteca ou pedi-los a um amigo, pouco importa! E depois diga-me coisas.

PS- Pouca importância tem, caro leitor, mas ambos os escritores residem no Algarve.