ENE COISAS
Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
Terça-feira, 20 de Março de 2012
DECLARAÇÃO PARA OS EFEITOS TIDOS POR CONVENIENTES
Não me interessa a poesia nem os poetas
e muito menos
a sua vida
Interessa-me a penas a poesia que existe
na vida de todos
os dias
e que às vezes
atravessa inadvertida
os poemas
e os poetas
Luís Ene
Segunda-feira, 19 de Março de 2012
Manoel de Barros
Poesia, s.f.
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de
um homem
Designa também a armação de objectos lúdicos com
emprego de palavras imagens cores sons etc.
geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas
loucas e bêbados
O POETA
Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou é zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei o meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
Irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.
Manoel de Barros
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de
um homem
Designa também a armação de objectos lúdicos com
emprego de palavras imagens cores sons etc.
geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas
loucas e bêbados
O POETA
Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som
das palavras
Ou é ninguém ou é zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei o meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas
Irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.
Manoel de Barros
Domingo, 18 de Março de 2012
Sexta-feira, 16 de Março de 2012
Dois tipos de portugueses
Há dois tipos de portugueses: os que são e os que não são.
Por sua vez os que não são dividem-se em dois tipos: os que deixaram de ser e os que nunca foram.
E os que deixaram de ser ainda podem ou não voltar a ser, assim como os que nunca foram podem talvez vir a ser ou nunca serão.
Já os que são, são, ou então não são.
Por sua vez os que não são dividem-se em dois tipos: os que deixaram de ser e os que nunca foram.
E os que deixaram de ser ainda podem ou não voltar a ser, assim como os que nunca foram podem talvez vir a ser ou nunca serão.
Já os que são, são, ou então não são.
Terça-feira, 13 de Março de 2012
Quinta-feira, 8 de Março de 2012
ARTE DE SER
não te iludas
para ser é preciso
querer
não tenhas a menor
dúvida
mas tem cuidado
muito cuidado
não vás querer
ser quem
não és
Luís Ene
para ser é preciso
querer
não tenhas a menor
dúvida
mas tem cuidado
muito cuidado
não vás querer
ser quem
não és
Luís Ene
Quarta-feira, 7 de Março de 2012
PORTUGAL EM POEMAS (2)
Portugal Futuro
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
in “Homem de Palavra[s]”, 1969, de Ruy Belo
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
in “Homem de Palavra[s]”, 1969, de Ruy Belo
[Sobre Ruy Belo]
SER PORTUGUÊS OU O PORTUGUÊS SEM FILTRO
Os portugueses espalhados pelo mundo sentem sempre saudade da ditosa pátria sua amada, aquele lugar triste onde nasceram e onde cedo conheceram o exílio.
Terça-feira, 6 de Março de 2012
PORTUGAL EM POEMAS - 1
[Foi a Paula que me chamou a atenção para este poema e me pôs a caminho...]
A PORTUGAL - JORGE DE SENA
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.
Jorge de Sena
[LER JORGE DE SENA]
A PORTUGAL - JORGE DE SENA
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.
Jorge de Sena
[LER JORGE DE SENA]
SILOGISMO
O poeta procura a solidão ou a solidão
procura-o?
O poeta encontra a solidão ou a solidão
encontra-o?
A verdade é só uma, mas percorre sempre
múltiplos caminhos.
Nem sempre procuramos o que
encontramos.
Nem sempre encontramos o que
procuramos.
O poema encontra afinal o que
não procura.
O poema procura afinal o que
não encontra.
O poema não é pergunta nem
é resposta.
O poema é um lugar
ermo.
A solidão do poeta é
a solidão do poema.
[Luís Ene]
Segunda-feira, 5 de Março de 2012
O POEMA
O poema pode ser público
o poema pode ser privado
pode ir sempre em frente
pode avançar de lado
O poema pode ser
aquilo que bem quiser
prato de sopa cheio
ou simples colher
o poema pode ser tudo
só não pode ser
mentira
o poema pode ser privado
pode ir sempre em frente
pode avançar de lado
O poema pode ser
aquilo que bem quiser
prato de sopa cheio
ou simples colher
o poema pode ser tudo
só não pode ser
mentira
CERTEZA
Olho com espanto
repetido
a ilha que se move
na linha do horizonte
E de nada me
adianta
saber que é
afinal um barco
A poesia não é
mais do que
a verdade à procura
de si mesma
[...]
repetido
a ilha que se move
na linha do horizonte
E de nada me
adianta
saber que é
afinal um barco
A poesia não é
mais do que
a verdade à procura
de si mesma
[...]
Sábado, 3 de Março de 2012
[...]
escreve-se o poema
para que ele nos faça
dizer
o que de outra forma
nunca conseguiríamos
ouvir
para que ele nos faça
dizer
o que de outra forma
nunca conseguiríamos
ouvir
Quinta-feira, 1 de Março de 2012
SER PORTUGUÊS OU O PORTUGUÊS SEM FILTRO
[...]
Se existisse um super-herói português estou certo que diria que com um grande poder vem uma grande irresponsabilidade.
(em construção)
Se existisse um super-herói português estou certo que diria que com um grande poder vem uma grande irresponsabilidade.
(em construção)
Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012
Ingenuidade
Será que a palavra árvore
tem folhas e raízes?
Sento-me à sua sombra
a pensar e as raízes afundam-se
céleres no silêncio da folha.
[inédito]
tem folhas e raízes?
Sento-me à sua sombra
a pensar e as raízes afundam-se
céleres no silêncio da folha.
[inédito]
Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
CARTA DE AMOR A OPHELIA
quando
me olhas
fervo
quando
me tocas
ardo
o teu amor
cega-me
dor intensa
corrosiva
és ácido
mais que
sulfúrico
meu pequeno
pequenininho
ninho
24.02.2012
às 6 da tarde
[inédito]
me olhas
fervo
quando
me tocas
ardo
o teu amor
cega-me
dor intensa
corrosiva
és ácido
mais que
sulfúrico
meu pequeno
pequenininho
ninho
24.02.2012
às 6 da tarde
[inédito]
Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
O MEU MAIOR DESEJO
Qual é o teu maior desejo?
- perguntou,
qual poderoso génio das
mil e uma possibilidades,
e tu respondeste-lhe,
um sorriso obliquo
rasgado de luz,
que querias:
Dançar…
com uma rapariga!
Tê-la
por momentos
nos meus braços,
os corpos confundidos
mal tocando
o chão.
Tão perto e tão longe
da realidade,
tão perto e tão longe
da perfeição.
Sorrio da tua pura
e intensa sabedoria.
Sorrio contigo, sorrio
de mim mesmo.
Porque também eu sinto
que a felicidade não é mais
do que isso:
estar afinal
tão perto e tão longe
da verdadeira sabedoria,
estar afinal
tão perto e tão longe
da verdadeira
satisfação.
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012
DEUSA
Queria tanto
passar um dia contigo
em Vénus
com ou
sem camisa
P.S.
A poesia não se explica, eu sei, mas a duração do dia em Vénus corresponde a 243 dias na Terra.
passar um dia contigo
em Vénus
com ou
sem camisa
P.S.
A poesia não se explica, eu sei, mas a duração do dia em Vénus corresponde a 243 dias na Terra.
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