sábado, 24 de setembro de 2016

GURU DE ALGIBEIRA


VII

 

Não te distraias, nunca te distraias, a vida pede constante atenção, a vida exige plena concentração. Nunca te esqueças que, aconteça o que acontecer, só tu podes dar sentido à vida.

 

VIII

 

Ri de ti próprio. Ri sempre de ti próprio. Ri de ti próprio mesmo quando te ris dos outros. Se tudo te corre mal, é porque ainda estás vivo. Aproveita e vive o melhor que podes. Viver o melhor que podes é levar a vida a sério. Rir de nós próprios é sempre levarmo-nos muito a sério.

 

IX

 

É tão fácil compreender quanto é difícil compreender. Não percebes porquê? Talvez porque não seja do domínio da compreensão, mas do domínio da fé. E a verdade é que tu preferes duvidar a acreditar, ainda que, em ti, tal não seja mais do que acreditar na ilimitada superioridade da dúvida.

Pois eu duvido, sobretudo, da própria capacidade de duvidar, e essa é talvez a minha maior certeza. Duvido muito, é verdade, mas acredito ainda mais, muito, muito mais.

 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

terça-feira, 20 de setembro de 2016

9 ANOS DEPOIS

 
a
 
 
Nove anos depois, já esquecera há muito a mulher que em tempos amara, mas ainda sonhava todos os dias com o homem que fugira com ela.
 
a
 
Nove anos depois, ainda se lembrava dela como se a tivesse visto no dia anterior. Fazia nove anos que a matara.
 
a
 
            Nove anos depois ainda a visitava todos os dias no cemitério. Chegava e murmurava: ainda não me arrependi de ter morto. Depois ia-se embora.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O GURU DE ALGIBEIRA

IV

Pratica com tenacidade a indiferença, procura sempre manter-te indiferente, ainda que assim não te sintas. Edifica a indiferença como quem escreve um poema, como quem ergue um muro, com muito cuidado, com redobrado cuidado. Muro que te protege, muro que guardará em ti, intacta, toda a tua paixão.

V

Quer tudo queira da vida, quer nada queira da vida, só há uma coisa que verdadeiramente preciso. Ia escrever “paixão”, ainda escrevi “paixão”; mas o que eu sinto, o que eu quero mesmo dizer, é que tudo o que eu preciso é estar vivo.

VI

Inspiras e expiras, tomas e devolves, é isso que fazes: respiras. Tomas e devolves à vida; tomas, transformas e devolves à vida. E nesse processo transformas-te também; inspiras-te e expiras-te: respiras. É assim a tua vida, é assim que tu és.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O GURU DE ALGIBEIRA

I

Não há princípio nem há fim, existem só princípios e fins. Cada princípio anuncia um fim, cada fim revela um princípio. Na vida, como na escrita, é sempre tão difícil terminar quanto é fácil continuar, porque todos sabemos, mesmo quando de todo o ignoramos, que não há princípio nem há fim.

II

Muito do que te acontece pode parecer-te imprevisto, mero resultado do destino ou do acaso, mas a verdade é que tu estás a caminho. Podes até não ter escolhido o caminho, mas escolheste caminhar. Podes até não saber aonde esta atitude te levará, mas sabes que, chegues onde chegares, será sempre a ti que chegarás.

III

A vida é sempre um puro processo de teimosia, de rigor, de autoconsciência, quer seja escrever um poema quer seja limpar o chão da cozinha. Processo lento mesmo quando avança rápido, processo feito de pequenos gestos mecânicos que a si mesmos não se corrigem, processo maior em que te envolves cada vez mais até seres tu o processo.


FNAC DE FARO


ALTERNATIVAS

Comunidades auto-suficientes: é possível viver de outra forma

Em “Que Estranha Forma de Vida”, Pedro Serra viaja por três comunidades, em Portugal e Espanha, que criaram alternativas à sociedade actual. Depois de exibições em festivais nacionais e internacionais, o documentário vai estar online ainda em Janeiro
Texto de Ana Maria Henriques • 08/01/2016 - 19:19
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Nos primeiros cinco minutos de documentário, chegamos a Cabrum: árvores e vegetação rasteira, construções antigas em pedra, muita água. Um espanta-espíritos, um gato e alguns brinquedos perdidos na berma de um caminho mostram-nos que, no meio da natureza, vivem adultos e crianças, que se passeiam sem roupa num dia de Verão. É assim o início de “Que Estranha Forma de Vida”, documentário de Pedro Serra e Laura Pazo que acompanha a vida em três comunidades sustentáveis e auto-suficientes da Península Ibérica: Cabrum e Tamera, em Portugal, e a Cooperativa Integral Catalana em Barcelona, Espanha. Depois de ter sido exibido em festivais nacionais e internacionais, vai estar disponível online ainda durante o mês de Janeiro.

Em 2014, o realizador e a produtora passaram cerca de uma semana em cada um dos grupos. Decidiram reduzir a equipa de filmagens ao mínimo indispensável para proporcionar “uma maior aproximação das pessoas”, algo que não seria possível com “uma equipa dita ‘normal’ para uma longa-metragem”, explica Pedro ao P3. Fizeram questão de experimentar, de facto, a vida em comunidade; nem sempre filmavam, aproveitavam para passar tempo com os habitantes. É por essa razão que, em “Que Estranha Forma de Vida”, espreitamos as refeições — com produtos biológicos —, ouvimos as músicas e as conversas e vemos as actividades destas “formas de vida paralelas à sociedade tal como a conhecemos”.

“Quando se vive num espaço assim, é bastante intenso”, descreve o jovem realizador de 24 anos, para quem tudo foi novidade. “Quem vive numa cidade não tem que falar com as pessoas com quem se cruza na rua. Ali estás sempre a lidar com egos e o tempo ganha outro sentido.” A produção do documentário foi totalmente independente e a exibição em festivais nos Estados Unidos, no Brasil, em Inglaterra, na Croácia, na Estónia e na Roménia mostrou o interesse do público no tema. No Cinantrop — Festival Internacional de Cinema Etnográfico de Leiria-Lisboa, venceu o prémio revelação.

Pedro, “vegan há três anos e meio”, já tinha presente os ideias destas comunidades (auto-sustentabilidade, paz, auto-suficiência, harmonia e cooperação entre ser humano, animal e natureza). A pesquisa sobre o tema fê-lo perceber que é “realmente possível criar alternativas positivas” e ver a aplicação prática dos ideais entusiasmou-o.

Se em Cabrum — uma aldeia portuguesa abandonada e recentemente habitada por um grupo de pessoas com vontade de criar um projecto sustentável — as filmagens foram complicadas, em Tamera entrevistou vários habitantes (sobretudo alemães). A eco-aldeia de Cabrum é “bastante fechada”, revela, por uma questão de preservação da privacidade e da autonomia da mesma, mas o trabalho que fizeram “é impressionante”. Quatro anos depois, Cabrum viu nascer quatro crianças. Já Tamera, no Alentejo, vê-se como um “biótipo para a cura global de consciência” e é a mais antiga aldeia do género na Europa, pois já perfaz 20 anos.

De Portugal para Espanha, Pedro e Laura viajaram até Barcelona, onde, bem perto da Sagrada Família, uma cooperativa ocupou um prédio no qual promovem várias actividades. O objectivo da Cooperativa Integral Catalana é provar que esta filosofia de vida sobrevive ao (e no) meio urbano. Praticam uma “auto-gestão com moeda própria”, o Eco, e procuram usar o Euro apenas em situações indispensáveis. Aconselhamento por advogados, aulas de informática e de permacultura são apenas alguns dos serviços que oferecem ou trocam.

O jovem natural de Proença-a-Nova e formado em realização pela ETIC falou, ainda, com Rui Vasques, que criou um modelo de vila ecológica e sustentável aplicável em qualquer parte do mundo, a “Eco-Village Community”. “Um dia gostava de viver desta maneira, numa comunidade, de acordo com os meus ideais, onde pudesse produzir o meu próprio alimento”, confessa Pedro. Enquanto esse momento não chega, está já a pensar em dois temas que gostava de abordar: o “freeganismo” e o movimento Okupa.
http://p3.publico.pt/cultura/filmes/19350/comunidades-auto-suficientes-e-possivel-viver-de-outra-forma
https://vimeo.com/122685684

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

...

Procuro um centro
um destino
um alívio
Deixo que as palavras
surjam e se escoem
tingindo de silêncio
a angústia dos dias
Regresso
renovado
ao ponto de partida

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

POEMA DE AMOR



 E quando terminaram?

Em Agosto!

De que ano?

De que ano? Não sei!

Apenas sei que era Agosto

estava calor

demasiado calor

e eu não aguentava

mais.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Aforismo

Aforismo: livro de mil páginas.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

MARIM REVISITADO


Vem daí, vem comigo

escreverei com todos os sentidos

de fora para dentro, de dentro para fora

para que me possas seguir com facilidade

 

Na linha do horizonte à minha frente

mar e céu fundem-se e confundem-se em azul

 

Abro muito os olhos e vejo aves que nadam no mar

e peixes que voam pelos céus
 

Atravesso a linha do comboio

como quem atravessa uma fronteira

é final de Agosto, está calor

mas sopra uma brisa refrescante

o azul chama-me, insistente
 

Caminho para ele estrada abaixo

atraído, consumido por ele

Um barco em terra

Um pomar de sequeiro

A estrada ladeada de jovens árvores vindas de longe

Avanço a custo

muros vedações edifícios

levantam-se em puro caos

e o único caminho

que me poderia levar mais perto

do azul intenso em que me quero

perder dissolver desaparecer

está guardado por um cão feroz

que me ladra ameaçador

 

Aceito a realidade

volto para trás

sobre os meus passos

atravesso de novo a linha do comboio

e sigo agora entre vedações

por um caminho de terra à sombra

de pinheiros mansos mas altivos

até à casa poema sonhada e realizada

por um fantasma


Estou só mas não sozinho

ouço o zumbir das cigarras

o ruído surdo de um carro

que avança sobre cascalho

sinto cheiros antigos

 
Encho-me de memórias

o vento acaricia-me a pele

despenteia-me o cabelo

subo de novo à varanda da casa poema

sentado à sua frente

de costas para ela

os olhos abertos no caderno em que escrevo

e encho-me finalmente de azul

o azul do céu o azul do mar

o azul da tinta com que escrevo este poema

 

Adeus!

terça-feira, 30 de agosto de 2016

SOU

Sou
Aqui e agora
A cada palavra que escrevo
À medida que o texto cresce
E no entanto
Fui
E no entanto
Serei
Por mais que esteja sempre
Aqui e agora
Verdade simples
Verdade profunda
Que este texto afirma
Ao mesmo tempo que nega

domingo, 28 de agosto de 2016

NOVE ANOS DEPOIS


a

 

Nove anos depois encontraram-no em sua casa, sentado no sofá. Estava morto e bem morto. Ficaram todos muito surpreendidos, menos ele, que ficou muito aliviado.

 

a

 

Nove anos depois de ter morrido escreveu o seu primeiro romance. Foi um enorme sucesso. A partir daí nunca mais escreveu.

 

a

 

Nove anos depois encontraram-se por acaso e quase não se conheceram. Ele parecia ter envelhecido quinze anos, ela parecia ter rejuvenescido dez.

 

a

 

Nove anos depois tinha mudado tanto que já não sabia quem era. Foi então que decidiu ser ele mesmo.

 

a

 

Nove anos depois a rua ainda falava da sua morte. As manchas de sangue na calçada continuavam insistentemente vivas.

 

 

a

 

Nove anos depois voltou a analisar o que acontecera e mais uma vez se admirou. O tempo criava sempre novos ângulos de abordagem.

 

a

 

Nove anos depois deixou de ter noção do tempo. Ou teria sido nove anos antes?

 

a

 

Nove anos depois de ter feito sessenta anos, festejou o seu sexagésimo aniversário. Há nove anos que assim acontecia.

 

a

 

Nove anos depois recomeçou. Sempre assim tinha sido, sempre assim seria.

 
...

 

sábado, 27 de agosto de 2016

WORK IN PROGRESS


As perguntas são as mesmas e nunca têm resposta, mas tu insistes.

Talvez afinal não te interessem as perguntas, talvez apenas te interessem as respostas.

Não escolheste o mundo nem as perguntas que se te impõem, é natural que insistas.

As respostas que encontras são as tuas respostas, porém parecem-se tanto umas com as outras como árvores numa floresta.

Avanças sem pressa, imerso na escrita como numa floresta redundante, em que tudo é verde e castanho.

Aqui e ali contemplas um formigueiro, aqui e ali surpreendes o voo de uma ave, aqui e ali admiras-te com a beleza de uma flor singela, mas é sempre a mesma floresta.

Procuras, procuras sempre, estás sempre à procura; não sabes muito bem se procuras semelhanças ou se procuras diferenças.

Dizes e escreves quase sempre a mesma coisa, nem outra coisa poderias fazer.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O PIOR CEGO

Aqui e ali consulto o I Ching e ele foi uma das influências para os 64 textos que compõem o Guru de Algibeira, pequeno livro que, em conjunto com outro, integra o próximo livro que pretendo publicar.

O pior cego

O pior cego não é aquele que não quer ver, esse é apenas estúpido, teimoso, cretino; o pior é cego é aquele que não sabe que é cego. Duvida muito, duvida de tudo, mas duvida sobretudo do óbvio; é nas pequenas coisas de todos os dias que a verdade se esconde, a mesma verdade que procuras sem cessar nas entrelinhas do poema. E nunca te esqueças, a vida é feita de poesia, como dizia amiúde o poeta cego que tanto via.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

GREGUERIAS



Greguerias
 
***

Humorismo + metáfora = greguería.
 
***

A morte é hereditária.

A água não tem memória, por isso é tão limpa.

O café com leite é uma bebida mestiça.

O perfume das flores é o seu eco.

O livro é um pássaro com mais de cem asas para voar.

O mal do desejo é que regressa sem avisar.
 
(tradução minha)


 

 

 

 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

9 - O QUE PODEMOS SABER/FAZER? (sobre lições de vida e sabedoria)



Era uma vez um homem a quem nada corria bem. Como era dado à reflexão, passava muito tempo a pensar na sua vida. Disciplina e persistência é tudo o que é preciso para obter o que desejamos: foi a esta conclusão que ele chegou finalmente. E se assim o pensou mais depressa o fez. Mas não havia nada a fazer. A disciplina e a persistência foram inúteis no seu caso. Escreveu um livro sobre o assunto, que se tornou um campeão de vendas, e foi feliz para sempre. Morreu, sem que se saiba porquê, num sete de Outubro.



O mestre zen tinha dois alunos que estavam sempre em desacordo. Se um afirmava alguma coisa logo o outro a negava e as discussões nunca tinham fim. Numa discussão mais acesa, um deles empurrou vigorosamente o outro, que caiu no chão desamparado. O mestre ia a passar e assistiu a tudo. Aproximou-se do aluno caído e ajudou-o a levantar-se. Depois, dirigindo-se aos dois, censurou-os com rudeza: quem não sabe dominar o seu discurso não sabe dominar as suas consequências. Os alunos olharam um para o outro, e depois para o mestre, e deram-lhe uma tremenda sova que o deixou prostrado.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

...


O POEMA

Há dias que o poema
me pedia que o escrevesse
Há dias que o poema
se nutria do meu sangue
Há dias que o poema
me oprimia como uma pele
E eu nada podia fazer
Lembrava-me que falaria
de um intenso momento
de felicidade
Lembrava-me que falaria
do inevitável retorno
da infelicidade
Lembrava-me que seria
um poema tranquilo e luminoso
como um sorriso triste
Mas por mais que o tenha
desejado escrever
não lhe consegui dar outra forma
a não ser esta.



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Why I Still Write Poetry - Charles Simic



When my mother was very old and in a nursing home, she surprised me one day toward the end of her life by asking me if I still wrote poetry. When I blurted out that I still do, she stared at me with incomprehension. I had to repeat what I said, till she sighed and shook her head, probably thinking to herself this son of mine has always been a little nuts. Now that I’m in my seventies, I’m asked that question now and then by people who don’t know me well. Many of them, I suspect, hope to hear me say that I’ve come my senses and given up that foolish passion of my youth and are visibly surprised to hear me confess that I haven’t yet. They seem to think there is something downright unwholesome and even shocking about it, as if I were dating a high school girl, at my age, and going with her roller-skating that night.
Another question poets old and young are typically asked in interviews is when and why they decided to become poets. The assumption is that there was a moment when they came to realize there can be no other destiny for them but to write poetry, followed by the announcement to their families that had their mothers exclaim: “Oh God, what did we do wrong to deserve this?” while their fathers ripped out their belts and chased them around the room. I was often tempted to tell the interviewer with a straight face that I had chosen poetry to get my hands on all that big prize money that’s lying around, since informing them that there was never any decision like that in my case inevitably disappoints them. They want to hear something heroic and poetic, and I tell them that I was just another high school kid who wrote poems in order to impress girls, but with no other ambition beyond that. Not being a native speaker of English, they also ask me why I didn’t write my poems in Serbian and wonder how I arrived at the decision to ditch my mother tongue. Again, my answer seems frivolous to them, when I explain that for poetry to be used as an instrument of seduction, the first requirement is that it be understood. No American girl was likely to fall for a guy who reads her love poems in Serbian as they sip Coke.
The mystery to me is that I continued writing poetry long after there was any need for that. My early poems were embarrassingly bad, and the ones that came right after, not much better. I have known in my life a number of young poets with immense talent who gave up poetry even after being told they were geniuses. No one ever made that mistake with me, and yet I kept going. I now regret destroying my early poems, because I no longer remember whom they were modeled after. At the time I wrote them, I was reading mostly fiction and had little knowledge of contemporary poetry and modernist poets. The only extensive exposure I had to poetry was in the year I attended school in Paris before coming to the United States. They not only had us read Lamartine, Hugo, Baudelaire, Rimbaud, and Verlaine, but they made us memorize certain poems of theirs and recite them in front of the class. This was such a nightmare for me as a rudimentary speaker of French—and guaranteed fun for my classmates, who cracked up at the way I mispronounced some of the most beautiful and justly famous lines of poetry in French literature—that for years afterwards I couldn’t bring myself to take stock of what I learned in that class. Today, it’s clear to me that my love of poetry comes from those readings and those recitations, which left a deeper impact on me than I realized when I was young.
There’s something else in my past that I only recently realized contributed to my perseverance in writing poems, and that is my love of chess. I was taught the game in wartime Belgrade by a retired professor of astronomy when I was six years old and over the next few years became good enough to beat not just all the kids my age, but many of the grownups in the neighborhood. My first sleepless nights, I recall, were due to the games I lost and replayed in my head. Chess made me obsessive and tenacious. Already then, I could not forget each wrong move, each humiliating defeat. I adored games in which both sides are reduced to a few figures each and in which every single move is of momentous significance. Even today, when my opponent is a computer program (I call it “God”) that outwits me nine out of ten times, I’m not only in awe of its superior intelligence, but find my losses far more interesting to me than my infrequent wins. The kinds of poems I write—mostly short and requiring endless tinkering—often recall for me games of chess. They depend for their success on word and image being placed in proper order and their endings must have the inevitability and surprise of an elegantly executed checkmate.
Of course, it is easy to say all this now. When I was eighteen years old, I had other worries. My parents had split up and I was on my own, working in an office in Chicago and attending university classes at night. Later on, in 1958, when I moved to New York, I led the same kind of life. I wrote poems and published a few of them in literary magazines, but I didn’t expect that any of that activity would amount to much. People I worked with and befriended had no inkling that I was a poet. I also painted a little and found it easier to confess that interest to a stranger. All I knew with any certainty about my poems is that they were not as good as I wanted them to be and that I was determined, for my own peace of mind, to write something I wouldn’t be embarrassed to show my literary friends. In the meantime, there were other more pressing things to attend to, like getting married, paying the rent, hanging out in bars and jazz clubs, and every night before going to bed baiting the mousetraps in my apartment on East 13th Street with peanut butter.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

...

Pela terceira ou quarta vez
no espaço de meia hora
o avião atravessa a janela do meu quarto
da direita para a esquerda
elevando-se no azul
como se fosse sempre o mesmo avião
inconveniente e teimoso
e eu rio-me de mim mesmo
eu o mesmo que a cada passagem
do impertinente avião
pensou incluí-lo num poema
mas não se decidiu
e que o faz agora
dias depois
quando já não pensava escrevê-lo.
Mas talvez eu seja outro!



sábado, 13 de agosto de 2016

o neon vermelho

beijo apaixonado
palmadinha nas costas
insistente pincelada de cor
altas horas da noite
o neon vermelho
pisca-me o olho
na escuridão
anunciando-me obstinado
a vitória definitiva
do desespero
da esperança
do desespero
da esperança




quarta-feira, 10 de agosto de 2016

9 ANOS DEPOIS

É bem verdade que escrever é reescrever, assim como é bem verdade que há um momento em que se tem de considerar a obra (por ora) terminada.
Retomo um livro já com alguns anos, que considerava terminado e, por imperativos de leitura em voz alta, troco-lhe as voltas e reordeno profundamente os textos.

Deixo-vos aqui uma meia dúzia, ainda sujeita a reordenação.



NOVE ANOS DEPOIS


Só nove anos depois de terem casado é que percebeu que o marido estava morto. Ainda viveram juntos mais dois anos.


Primeiro casou por amor e um ano depois já estava divorciado. Depois casou por dinheiro e nove anos depois ainda estava rico.


 Para lhe provar o seu amor, arrancou o coração do peito e entregou-lho. Só o recuperou nove anos depois.


Roubou-lhe o coração e nunca mais o devolveu. Nove anos depois ele cansou-se de esperar e fez um transplante.
           

Divorciaram-se e mudaram ambos de sexo. Nove anos depois encontraram-se e voltaram a casar. Há coisas que nunca mudam.



Desistiu de cortejá-la nove anos depois de ter começado, já ela estava casada pela segunda vez.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A MELHOR PERGUNTA


Aqui e ali consulto o I Ching e ele foi uma das influências para os 64 textos que compõem o Guru de Algibeira, pequeno livro que, em conjunto com outro, integra o próximo livro que pretendo publicar.


32 A melhor pergunta



Pergunto-me o que quero, inquieto, mas logo a resposta me surge, tranquila: nunca perguntes a ti mesmo o que queres, pergunta sempre quem és. A melhor pergunta é a que se responde a si mesma.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ecletismo!


Cosmos, Maçadora obra-prima


Li por aí que esta era uma maçadora obra-prima e concordo, é mesmo maçadora. Mas a bem da verdade, todos temos o direito a ser maçadores e muitos de nós o são pelo menos uma vez por outra. Mas há os que abusam. A arte pode ser maçadora e ser arte mas não deixa de ser maçadora.
 
 
 
Há uma coisa boa no regresso após 15 anos sem filmar, do polaco Andrzej Zulawski: a irredutibilidade absoluta da sua atitude, a liberdade com que fez o filme que quis, como quis, fiel a si próprio e à sua reputação.

Cosmos, adaptação do romance de Witold Gombrowicz rodada em Portugal, é um filme consistente com a imagem irredutível do cineasta, como se se tivesse recusado a abandonar a aldeia gaulesa em que instalou definitivamente o seu cinema histriónico e epiléptico. Isso, no entanto, não torna Cosmos mais do que uma reiteração da fórmula em que Zulawski se instalou a dada altura - uma cansativa parada de sarcasmos irrisórios e grotescos datados, cujas tentativas de provocação niilista e sátira surrealista se perdem pelo meio de um frenesi histérico de non-sequiturs escarninhos e tiques formais.
Ainda a procissão vai no adro e já nos sentimos esgotados. Honra lhe seja feita, Cosmos é fita coerente com o que ele fez antes, mas essa coerência é também sinónimo de um cineasta prisioneiro do seu próprio sistema – o de A Fidelidade (2000) ou As Minhas Noites São Mais Belas do que os Vossos Dias (1989), mais do que o do sublime O Importante É Amar (1975). 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O ESSENCIAL (7/10)

De um conjunto de textos reunidos em 2005 com o título O ESSENCIAL destaco o número 7 (em 10).


7 – A VIDA TEM UM SENTIDO? (sobre o que parece não ter explicação)

Levantou-se e permaneceu sentado, fechou o livro e continuou a leitura. Desde que se levantara da cama, manhã cedo, tudo lhe saíra ao contrário, sem que conseguisse, no final do dia, encontrar uma única explicação para tudo o que acontecera. Levantou-se e de novo permaneceu sentado, voltou a fechar o livro e leu-o até ao fim. Durante algum tempo pensou em tudo o que fizera nos últimos anos, a vida tinha-lhe corrido bem, a sorte nunca lhe tinha faltado, a sublinhar, é certo, opções correctas. Levantou-se e mais uma vez permaneceu sentado, fechou o livro e foi deitar-se, convencido de que amanhã seria outro dia e talvez tudo voltasse ao normal, afinal só a morte não tinha remédio. Nada disso, nada mas mesmo nada disso, adormeceu e nunca mais acordou, saiu-lhe tudo ao contrário, menos a morte, que é astuta e maliciosa e não gosta de contradições.



Ontem, cerca das 21 horas,  um homem matou a mulher por causa de um iogurte. Ele queria comer iogurte mas a mulher queria que ele comesse sopa. Eram horas de jantar, disse-lhe ela, comer iogurte estava fora de questão. Discutiram durante muito tempo, em voz alta, quebrando copos e pratos. A dada altura o homem agarrou um garfo, avançou lentamente em direcção da mulher, e espetou-lho com força na jugular. Depois foi para a varanda comer o iogurte. Era um iogurte cremoso e com pedaços de pêssego amarelo. O homem adorava aqueles iogurtes e comeu-o com prazer. Interrogados os vizinhos, aqueles foram unânimes, todas as horas são boas para se comer iogurtes.

domingo, 31 de julho de 2016

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Eu, a literatura, os leitores, o mercado editorial e os blogues


Poderia dizer-se que desisti praticamente de publicar após a edição do meu primeiro romance A Justa Medida, publicado pela Porto Editora em 2003. Este desistir teve muito de desencanto no panorama editorial português. Mas a verdade é que não desisti de um todo, antes resisti, apenas deixando progressivamente de contactar as editoras para que me publicassem.

Na base desta atitude estava a ideia de que ainda que me editassem me editariam mal, se é que alguma vez conseguiria ultrapassar os portões das editoras. Assim, resolvi ir por outros caminhos, passando por edições independentes e edição de autor.

Coloquei-me assim à margem do mercado editorial, não sem aqui e ali, confirmar a apatia e o ensimesmamento desse mesmo mercado. É preciso notar que o facto de ter um primeiro romance publicado não me serviu de nada.

Talvez não tenha feito o suficiente, mas sou escritor e não agente literário. Mesmo mais tarde, reconhecido como representante da Microficção que se fazia em Portugal, sempre que abordei o mercado editorial tradicional só obtive indiferença e recusas. Mas o que eu queria dizer é que posso ter desistido do mercado editorial mas nunca desisti de partilhar o que escrevo e apanhei para o efeito a boleia da internets e dos blogues.

“Um dos meus objetivos”, escrevi em 2011, “ao criar/manter blogs - aquele que identifico como principal – sempre foi partilhar o que escrevo. O que sentia - e ainda sinto - é que desta forma aquilo que assim publico sempre pode - potencialmente - chegar a alguém. Neste aspeto o blogue parece-me um livro aberto, ainda mais aberto que qualquer livro, pois sempre aberto ao leitor e à leitura.”

Deste sentir nasceu um blog que seria o primeiro e o mais conseguido dos meus projetos literários digitais e que se repercutiu em papel, o blog Mil e Uma Pequenas Histórias. Outros se seguiram, mais ou menos conseguidos, mais ou menos falhados, como Na  Estrada de Damasco e Infinitésimo. Refiro também o meu mais recente projeto/experiência, o blog Diário Mais Que Improvável. E claro, existe ainda este blog que reflete o mesmo desejo.

Por tudo isto, e mais haveria para dizer, posso afirmar que nunca desisti de fazer chegar o leitor aquilo que escrevo, apenas me desiludi com o mercado editorial.