quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Construção do Poema

[A prática colectiva da escrita não é tão praticada como poderia. A desafio de Gavine Rubro, escrevemos um poema a dois teclados. Como guardei e ordenei os vários passos do processo pareceu-me curioso deixá-los aqui por inteiro.]

1.

é dificil começar um poema
rasgar o silêncio da folha
como se o mundo nos falasse
pela primeira vez
num dueto impossível

2.

é difícil começar um poema
foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
rasgar o silêncio da folha
torcer hirtas, as sílabas
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e piscasse-nos o olho
pela primeira vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
num dueto impossível

3.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil começar
rasgar o silêncio da folha
torcer hirtas, as sílabas
escutar os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
num dueto impossível

4.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil começar
esta tinta, das árvores ao manuscrito das linhas,
como se ziguezagueassem no colo das malas,
as interrogativas
rasgar o silêncio da folha
pseudo-assassinar os idosos cânones cépticos gramaticais, decrépitos
torcer hirtas, as sílabas
contra o opulento fundamentalismo da orto-cali-grafia
escutar os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
segundo o empenho das veias e do oxigénio
conforme a mão, o miolo desassombrado
Como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
Insuportáveis são os não esforços, vãos
num dueto impossível

5.

O poema

foram esquivados os moldes do rubor dos dedos
a mão cortada da razão passeia-se livre
e no entanto é difícil
é sempre tão difícil
começar
esta tinta, das árvores ao manuscrito das linhas,
como se ziguezagueassem no colo das malas,
as interrogativas
rasgar
o silêncio da folha
pseudo-assassinar
os idosos cânones cépticos gramaticais, decrépitos
torcer hirtas, as sílabas
contra o opulento fundamentalismo da orto-cali-grafia
escutar
os lamentos os anseios as dúvidas
como se o mundo nos falasse
segundo o empenho das veias e do oxigénio
conforme a mão, o miolo desassombrado
como se o mundo nos falasse
e destilasse e atingisse e nos piscasse o olho
pela primeira e última vez
começar
e seguir em frente
pelo ensaio de dois punhados e um conceito
insuportáveis são os não esforços, vãos
num dueto impossível
é difícil começar assim como é difícil
terminar
que o diga o Herberto Helder
...
o poema não tem
princípio nem
fim

4 comentários:

  1. Bem esquematizado, sim senhor ;)
    Fiz isso no Word, mas no blogue quis colocar só o "produto final".
    Foi um prazer, meu caro Luís. Um abraço. Inté.

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  2. ainda falta ler o poema em conjunto ;)
    abraço

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  3. Será café sobre gelado ;) um abraço. Foi e será enriquecedor continuar a conhecer alguém tão experiente como tu.
    Abraço.

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  4. interessante sentir e ver a escrita coletiva. a construção e/ou desconstrução de uma ideia em função de algo ou de coisa nenhuma. comer palavras, degustá-las, digeri-las. pelo reverso vomitá-las em caso de indigestão. gostei do efeito. quiçá experimentar um destes dias.hn

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