segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO IV

[UM HOMEM SEM]


Uns dias antes de perder o dedo mínimo da mão direita, só então se lembrou, falara com um indivíduo sem um braço, ou parte dele, porque a manga dobrada do blusão de ganga não permitia avaliar com exactidão a extensão da perda, que se sentara no café numa mesa ao lado da sua e lhe pedira um cigarro. Não lhe despertara especial interesse, mas o facto de não ter um braço, o direito, não lhe passara despercebido, ainda que não se tivesse interrogado na altura como acontecera e que diferenças lhe trouxera à sua vida de todos os dias.

Um braço, ou parte dele, não é o mesmo que um simples dedo, ainda por cima se for o menor deles, mas naquele momento, ao pensar na perda do braço direito do homem a quem dera um cigarro, não conseguiu deixar de pensar que também ele, ainda que só tivesse perdido um dedo mínimo, tinha-se tornado outro, tal como o homem que perdera o braço, porque ninguém que perde um braço ou um dedo pode continuar o mesmo depois disso.

Pensou em como seria agora fácil descrevê-lo como o homem a quem faltava o dedo mínimo da mão direita, pois mesmo aqueles que nada soubessem dele poderiam facilmente descrevê-lo dessa forma, o homem sem dedo mínimo na mão direita, e essa simples menção seria mais do que suficiente para o identificar, assim como ele se referia ao homem que lhe pedira um cigarro como o homem que não tinha um braço. Mas que significado teria o facto de agora a sua mão direita não ostentar um dedo mínimo?

As pessoas são muitas vezes o que parecem e outras vezes parecem o que são, o que embora parecendo o mesmo, nem sempre é o que parece. E no entanto, mudando de aspecto, talvez mudem sempre quem são, porque os outros e eles mesmos se vêem como parecem e assim se vendo o mais certo é que sejam mais quem parecem do que quem na realidade são.

“Será que a perda do dedo mínimo da mão direita me alterou mais do que sou capaz de perceber?”

Há pessoas que se conhecem bastante bem e outras que se desconhecem de um todo. É fácil perceber que Rui Medonho não pertencia a nenhuma dessas categorias, ainda que não lhe faltasse vontade de se conhecer e tivesse uma consciência de si que poderia sem dúvida servir esse fim mas, acima de tudo, gostava de divagar, e esse gosto afastava-o quase sempre de si.

Sem comentários:

Enviar um comentário