domingo, 17 de outubro de 2010

as restrições libertam

É possivel escrever sob um propósito oculto sem que o leitor tome dele conhecimento...

mas quando se quer falar de constrangimentos e restrições é muito dificil não utilizar a letra “a”, como fiz na primeira linha. No entanto, George Perec escreveu um romance, La disparition (1969) em que não utilizou a vogal mais usada na lingua fancesa: o “e” e que constitui um exemplo extremo de lipograma, ou seja, um texto em que o autor se impõe não usar uma ou mais letras. Experimentem com uma qualquer vogal e verão que não é fácil.

A revista Minguante, por exemplo, após o seu número 0, foi sempre temática e nunca deixei de acreditar que o tema, mais do que restringir, permitia uma certa concentração, que funciona como uma forma de libertação.

E a restrição é motivadora. Desafia.

Os oulipianos pelos menos acreditaram (e acreditam ainda) nisso e fizeram da restrição a sua pedra de toque, criando ainda hoje novas “contraintes”.



3 comentários:

  1. Bem visto. Já tinha ouvido e lido sobre esses exercicios. Muito interessante.

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  2. Na verdade, associo a Minguante a, não uma, mas três restricções que funcionaram como desafios: os temas propostos, o limite à extensão dos textos e a própria suspensão do projecto! A propósito de restricções, em tempos ocorreu-me que, se fosse poeta, gostaria de ser capaz de escrever um poema que fosse, na verdade, dois poemas lado a lado. Cada verso à esquerda deveria conter exactamente as mesmas palavras que o verso correspondente à direita, mas pela ordem inversa (por exemplo, “certo crepúsculo sem luz” e “luz sem crepúsculo certo”). Em termos oulipianos, isto corresponderia mais ou menos a explorar “palíndromos” de palavras.

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  3. Olá Carlos,
    há muito que não te lia. Foi um prazer.

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