quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O DOM DA PALAVRA (fim)

[QUASE FELIZ]


Hermínio Campânula era um homem simples, mas nem por isso era menos sensível aos paradoxos, e sabia que muitas vezes o que nos preocupa mais é o que menos nos devia preocupar, assim como as coisas que menos importância deviam ter são as ganham muitas vezes uma importância desmedida e sem controlo. Por isso percebeu com facilidade que tinha de tomar uma decisão sobre o que lhe acontecera e, se não tinha dúvidas que o melhor era ignorar o que lhe acontecera, a verdade é que não sabia qual a forma que essa ignorância devia tomar. Podia simplesmente continuar a falar, como sempre fizera, ignorando dessa forma não só o que lhe acontecera mas também aqueles que insistiam em não compreender o que ele dizia; ou podia continuar calado, o que lhe parecia sem dúvida mais prudente e não contrariava a sua natureza silenciosa e contemplativa, ainda que a vontade de falar como os outros, como já tivera ocasião de perceber, não desapareceria com facilidade e poderia fazê-lo infeliz e miserável. Perdido nestes pensamentos e incapaz de tomar uma decisão sobre um assunto tão delicado, resolveu ir passar uns dias junto ao mar, numa pequena aldeia habitada quase em exclusivo por estrangeiros.

Depois de muitas horas de passeios solitários e de ruidosos convívios nos cafés e bares Hermínio Campânula decidiu finalmente que ficaria por ali, iria viver ali, onde podia falar sem que ninguém o percebesse e sem que ele, na maior parte das vezes, percebesse o que lhe diziam.

Sentia-se quase feliz e isso era muito mais do alguma vez esperara sentir, como não se cansava de repetir a quem o quisesse ouvir.

“Quase feliz, sim, quase feliz, onde é que se viu uma coisa assim!”

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