quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO VII


[ACIDENTE DE TRABALHO]


Um mês depois, estava Rui Medonho sentado numa esplanada, esquecido do seu dedo mínimo, quando reparou num homem sentado numa mesa perto de si e que, tal como ele, não tinha o dedo mínimo da mão direita. A sua primeira reacção foi esconder a sua mão direita, como se quisesse cortar qualquer contacto com aquele homem, mas fez exactamente o contrário, pois levantou-se e dirigiu-se ao outro, a mão direita estendida à sua frente, ostentando o dedo em falta, e perguntou-lhe o que lhe tinha acontecido ao dedo. Ainda esperou que o outro lhe respondesse que um dia acordara assim, mas a resposta, ainda que igualmente lacónica, foi outra. “Acidente de trabalho”, disse o outro, não acrescentando mais nada e desinteressando-se por completo de Rui Medonho, que regressou à sua mesa. Não voltou a olhar para o homem sem o dedo mínimo e aquele acabou mesmo por se ir embora sem que ele desse por isso.

“Acidente de trabalho. Soa bem… e talvez seja melhor do que dizer a verdade.”

Nessa altura lembrou-se de uma história que o fazia sempre sorrir, nem sabia bem porquê, talvez pelo inesperado, e que lhe contara um conhecido seu, sobre um homem a quem um cão arrancara um dedo.

Supostamente tratava-se de um amigo do seu conhecido, que fora convidado para jantar em casa também de um amigo e que, ao entrar no pátio dessa casa, se tinha sentido intimidado por um enorme cão que o olhou em silêncio. Estava parado, a olhar para o cão que o olhava também, quando o amigo apareceu e o sossegou dizendo que o cão, apesar do mau aspecto, era dócil e que até lhe podia fazer uma festa, se quisesse. Sossegado pelo amigo e porque não queria dar parte de fraco, o homem avançou a mão na direcção da cabeça do cão, para lhe fazer uma festa, e o cão, num movimento rápido e inesperado, arrancou-lhe um dedo com uma só dentada.

Não sabia se tinha sido o dedo mínimo, mas estava convencido que tinha sido um dedo da mão direita.

“Talvez possa dizer que um cão me arrancou um dedo.”

“Talvez possa dizer que sofri um acidente de trabalho.”

Mas as pessoas deixaram de lhe perguntar o que lhe acontecera ao dedo, o que fez que ele não tivesse que voltar a decidir o que responder, ainda que o mais certo fosse ele dizer a verdade, porque assim era a sua natureza e por nenhuma outra razão a não ser essa.



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