terça-feira, 7 de março de 2017

#enepequenashistorias (actualizado)

E de repente dás por ti do lado de lá. Dás por ti do lado de lá e a surpresa que sentes não é a de aí estares mas a surpresa de aí teres chegado, como se de repente visses o que sempre podias ter visto mas nunca antes viras. Tentas descrever essa sensação, certo de que em breve desaparecerá, mas sentes que as palavras simples que dispões em frases simples, em vez de a revelarem, ainda mais a ocultam. E pouco a pouco, muito pouco a pouco, dás por ti do lado de cá do então lado de lá.

*

Acreditou que estava a multiplicar-se, mas a verdade é que estava a dividir-se. Seja como for, passou de um a muitos.

Vivia sempre aqui e agora, umas vezes mais aqui, outras vezes mais agora.

Mas tu nem sabias que eu existia, retorquiu-lhe ela, quando ele lhe declarou o seu amor, mas a verdade é que nem ele mesmo sabia que existia antes de a conhecer.

Quando era novo, não acreditavam nele porque era novo; quando finalmente chegou a velho, não acreditavam nele porque era velho. Verdade seja dita, a ele aconteceu-lhe exactamente o mesmo.

Os lápis levam vidas perigosas, cheias de riscos. As borrachas são assassinos autofágicos. Escusado será acrescentar que os apara-lápis são tarados sexuais e as folhas em branco virgens excitadas.

Seguiu sempre a sua natureza, talvez por isso nunca a tenha verdadeiramente encontrado. (Às vezes, ficar parado é melhor do que estar em movimento.)
Esqueceu-se de tal forma de si mesmo que esqueceu a sua própria natureza. Ou talvez a sua natureza fosse esquecer-se.

A amendoeira oferecia as suas flores a quem passava e quem as via logo as levava consigo no branco tingido de rosa dum olhar bucólico.

Ele era ou estava apenas a ser? E estava a ser ele mesmo ou estava a ser outro? Não interessava, não interessava mesmo nada; fosse como fosse, ele podia sempre dizer quem era e só isso verdadeiramente interessa. (Somos sempre quem escolhermos ser.)

Procurou a todo o custo entrar em contacto com a namorada, até que se lembrou de que não tinha namorada e desistiu. Talvez fosse por isso mesmo que não tinha namorada!

Um dia deixou de procurar a felicidade, a partir daí foi muito mais feliz.
(Deixa de procurar a felicidade e terás mais tempo para ser feliz.)

Queria ser saudável, poderoso e famoso. Com o tempo tornou-se poderoso, mas tinha perdido toda a saúde e logo morreu, tornando-se incrivelmente famoso.

Era bom, muito bom, excelente mesmo, a dizer que era bom. Na verdade era a única coisa em que ele era mesmo bom.

Quanto mais se esforçava por sobreviver menos vivia, até que um dia morreu sem quase ter vivido. Nunca percebeu que fugia da vida quando pensava estar a fugir da morte.

As suas críticas eram tão acutilantes que, com o tempo, tornou-se assassino profissional.

A tristeza enchia-o tanto que quando transbordava ele se sentia quase alegre.

Achava a vida um desafio e ria-se sempre dos desafios, escusado será dizer que morreu a rir.

Cresce e aparece, disseram-lhe, e ele cresceu, cresceu e cresceu; cresceu tanto que quase desapareceu.

O bode expiatório só descansou quando encontrou a cabra incriminadora.

Vinham de muito longe com as suas perguntas e o sábio ouvia tudo o que lhe diziam mas nada respondia, facto que nunca impediu que muitos obtivessem uma resposta. (Na verdade todos sabemos que perguntar é quase responder, basta ouvir bem as perguntas.)

Estava um homem sentado, nada fazendo, quando a morte se aproximou por detrás, pé ante pé, e lhe gritou bem alto aos ouvidos: Vive! Vive agora! Escusado será dizer que homem se assustou de tal forma que...
Errou, errou e continuou a errar, mas nunca desistiu: sabia que esse era o único caminho certo.

Muitas vezes foi infeliz, mas nunca o procurou; talvez por isso afirmasse com convicção que todavia foi sempre feliz.

Falava mal de tudo e de todos e sentia-se bem, até que um dia deu por si a falar mal de si mesmo e sentiu-se ainda melhor. Daí para a frente nunca mais falou mal de nada nem de ninguém a não ser de si mesmo.

Tinha ideias próprias e expressava-as com grande convicção. Que ninguém percebesse o que dizia não vem ao caso. E que só a si se ouvisse, também não.

Decidiu um dia que ia ser escritor. Vou ser romancista e poeta, afirmou sem hesitações. Tinha dupla personalidade.

Enfiou barrete em cima de barrete até que a sua cabeça mais parecia uma avelã. Talvez por isso se achasse tão diferente, talvez por isso achasse que os outros eram todos tão iguais.

Nunca se sentiu feliz por estar vivo, no entanto vezes houve momentos em que se sentiu feliz por não estar morto.

Nunca leu um romance do princípio ao fim, na verdade leu sempre apenas o princípio e o fim de cada um deles, o que não o impediu de ser um dos críticos mais certeiros e mais influentes do seu tempo e, verdade seja dita, lhe deixou muito mais tempo para pensar.

Um dia decidiu que ia ser escritor e logo ali escreveu meia dúzia de excelentes títulos. Agora só falta escrever os livros, vociferou com ênfase.

Estava preocupado, muito preocupado, e quanto mais preocupado estava mais preocupado ficava, até que olhou a sua preocupação bem de frente e a viu diminuir progressivamente até desaparecer por completo. Foi então, nesse exacto momento em que percebeu que não tinha afinal qualquer razão para estar preocupado, que ficou verdadeiramente preocupado: Como é que tinha sido possível ficar tão preocupado sem qualquer razão para isso?

Era um homem alegre, um optimista, e foi essa característica que o manteve sempre feliz mesmo em tempos de maior infelicidade.

Um homem esforçou-se toda a sua vida por ser bom para os outros e umas vezes foi e outras não. E isso não se deveu tanto ao seu esforço como às suas acções.


No momento em que alcançou tudo o que sempre quisera, percebeu que nunca quisera nada daquilo. Morreu feliz.

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