terça-feira, 5 de outubro de 2010

A PERDA DO DEDO MÍNIMO V

[QUEM SABE SE UM DIA]


Ainda não tinham passado duas semanas desde que perdera o dedo mínimo da mão direita quando, ao olhar a mão, sentiu vontade de voltar a ter esse dedo e, no entanto, nunca nem por um momento deixara, durante esse período, de pensar que esse dedo não lhe fazia qualquer falta e de sentir exactamente a mesma coisa, ao ponto de quase se esquecer que alguma vez tivera esse dedo.

“Mas que porra é esta, não dei qualquer importância à perda do dedo e só não me esqueci por completo dele porque me lembraram a sua falta, e agora dou por mim a querê-lo de volta?”

Há pessoas que se queixam constantemente da vida e recusam sempre o que lhes acontece e outras que aceitam sem reservas o que vida lhes traz e tentam tirar disso o melhor partido. Ele era diferente, como já devem ter percebido, pois embora não aceitasse sem reservas as coisas como elas eram, também não as negava pura e simplesmente. Ele já não tinha o dedo e o mais provável é que nunca o voltasse a ter, mas era ainda mais improvável que o tivesse perdido como o perdeu, e a verdade é que o perdera.

“Quem sabe se um dia não acordo com cinco dedos na mão direita?”



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