terça-feira, 30 de novembro de 2010

( Micro) ensaio


O que é a microficção?

I


Existem diferenças entre o texto sempre citado do escritor guatemalteco Augusto Monterroso (Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.) e um conto qualquer, por mais breve que seja?

É claro que é breve, muito breve, são apenas sete palavras. Mas não é apenas isso.

Há toda uma indefinição que um conto talvez não admitisse, mesmo que o que se diga seja apenas a ponta do icebergue.

E poder-se-á dizer que tem princípio meio e fim?

Talvez se possa dizer que é microficção um qualquer texto de ficção para o qual se levante afinal a questão, mas isto ainda é um conto?

As microficções não são, ou não são apenas, contos muito, muito pequenos.

A brevidade não é a única, nem talvez a mais importante, das suas características.

Na confluência de diversos géneros e diversas influências, as microficções exigem um espaço próprio no território mais vasto da ficção.



II


É um aforismo?

É um conto muito pequeno?

É um haikai?

Não! É uma microficção!!



III


O que é a microficção?

A ficção no seu mínimo, a ficção no seu máximo.



epifania (actualização)


Não sei se acredito na microficção como género literário, mas que existe, existe. Disse isto e os seus olhos iluminaram-se.

*

A gata observa o labor literário, coincidência, ou não, miou, quando ele deixava um ponto (final).
Francisco Coimbra (na caixa de comentários)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

GRANDE PODA

Estranhei, mas como percebo pouco de poda, fiquei na dúvida.
Ou talvez não!

69.

[ a propósito de um parvébio]

Ela desceu-se por cima dele e ele subiu-se por baixo dela. Com eles o sexo era sempre tão elaborado ao ponto de se tornar demasiado complicado.

domingo, 28 de novembro de 2010

uma ideia uma aldeia


Conheça Tamera

reciclagem



Vai censurar a puta que te pariu, ó monte de merda, disse ele, mas o autoclismo foi inflexível.

escrita, escritores, poetas, poemas, microficções, ser e fazer



[Estava a reflectir sobre tudo o que acima refiro e a pensar escrever um texto mais ou menos sério sobre isso; saiu-me uma microficção.]



Era um homem nada complicado. Escrevia poemas mas não era poeta. Fazia broche mas não era homossexual. Apenas lhe acontecia.

Jaume Plensa


conheça a obra e o autor aqui

sábado, 27 de novembro de 2010

rádio arte

Para aqueles que me perguntaram como podiam ouvir as peças apresentadas em Radiação, podem agora fazê-lo aqui, autor a autor.

LISTAS


1.


Durante dias e dias ocupou-se a escrever, uma e outra vez, uma lista das coisas que queria fazer antes de morrer, mas a lista nunca lhe parecia terminada.

Então, parou de escrevê-la, e durante outros tantos dias e dias pensou e pensou nos motivos da sua insatisfação.

Finalmente, decidiu-se.

Escreveu uma lista definitiva das coisas que queria fazer enquanto estivesse vivo. Tinha um único item:

    • Deixar de pensar na morte.




2.


Fez uma lista de tudo o que detestava na sua vida.

A lista estendia-se por muitas e muitas páginas.

Olhou a lista com desânimo, depois rasgou-a.

Sentiu-se logo muito melhor.



3.


O seu nome estava na lista. Só então percebeu que estava morto.



4.


Era o primeiro da lista. Foi o primeiro a morrer.


5.



Primeiro, fez uma lista das suas despesas.

Depois, fez uma lista das suas receitas.

Finalmente, riu-se.

Escusado será dizer que ele acreditava que rir é o melhor remédio e levava isso muito a sério.



6.


A princípio a pequena história estava triste e isso incomodou-a, incomodou-a tanto que quase se apagou, mas depois riu-se de si própria e toda ela se iluminou.

Quando a lista classificada dos candidatos foi dado a conhecer ninguém estranhou que a pequena história figurasse em primeiro lugar

Não me perguntem porquê [12]

[…]


“Então alteraram o livro contra a tua vontade?”
Olhou para Ângelo Durão, que lhe devolveu o olhar, e continuou quase de imediato, sem esperar qualquer resposta.
“Pois é, a mim também já me quiseram fazer o mesmo, mas eu mandei-os dar uma volta ao bilhar grande. No que eu escrevo ninguém mexe.”
Olhou à sua volta, fulminando todos com o olhar, as sobrancelhas carregadas, ao mesmo tempo que sorria, e repetiu a última frase antes de prosseguir.
“No que escrevo ninguém mexe! Vejam lá que um editor queria alterar o título de um romance meu, onde já se viu, os editores são todos a mesma merda, são como os críticos, escritores frustrados. Comigo é que não fazem farinha, ou publicam o que lhes envio tal qual está ou nada feito. Eu é que sou o escritor e é bom que não se esqueçam disso!”
Ângelo Durão continuava calado, o olhar passeando-se pelo salão, pelos grandes espelhos inclinados, pelas portas de madeira envidraçadas, pelo pequeno palco ao fundo. Tinha explicado à tertúlia ao que vinha, agora esperava.
O outro olhou Ângelo Durão, à espera de aprovação, mas ele nem lhe retribuiu o olhar, ocupado que estava a observar tudo à sua volta. E só quando o outro insistiu, repetindo a última frase, agora mais alto, é que Ângelo o olhou, mas nada disse, limitando-se a devolver-lhe o olhar.
“Eu é que sou o escritor e é bom que não se esqueçam disso!”
“Ó Francisco, tem dó, já conhecemos muito bem a tua opinião mas a verdade é que nem todos concordamos contigo. Eu até agradeço que me corrijam e me dêem sugestões, esse é afinal o trabalho do editor. Se aceitamos ou não as correcções e as sugestões, essa é outra questão, mas não me parece que devamos recusá-las liminarmente.”
Francisco Aresta carregou ainda mais as sobrancelhas e a boca pequena torceu-se num claro sorriso de escárnio, mas nada disse. Também ele conhecia muito bem a opinião do outro.
“Ainda há pouco li uma entrevista a um jovem escritor italiano, o escritor mais novo a receber o prémio Strega, e ele agradecia expressamente ao editor por lhe ter proposto um título diferente para o seu romance.”
Desta vez Francisco Aresta não se conteve e respondeu a Celestino, pontuando a frase com uma gargalhada: “No teu caso melhor seria que mudassem tudo!”
“Não sou um génio como tu!”, disse Celestino em voz pausada, mas Francisco Aresta nem lhe respondeu, ignorando-o por completo e voltando a concentrar-se em Ângelo Durão.
“Tens de consultar um advogado e fazer que ele consiga que as vendas sejam imediatamente suspensas. Já tive de fazer o mesmo uma vez, mas tratava-se de um caso de plágio, portanto uma situação diferente, mas vem a dar ao mesmo, o que é preciso é suspender as vendas e retirar o livro do mercado. Vê lá bem que uma gaja publicou um livro inteiro com poemas meus e ganhou um prémio importante com ele. Tudo de conluio com o cabrão de um editor a quem eu tinha enviado o livro.”
“Quem foi o advogado que consultaste?”
Francisco Aresta olhou o outro contrariado e replicou: “Porra, sabes muito bem quem foi que consultei! Porque raio é que me perguntas?”
“É capaz de ser uma boa escolha, sim senhor, é um bom advogado e também um poeta.”
“Um mau poeta!”, isso é que ele é, atalhou Francisco Aresta. “Antes beber um litro de azeite do que ler alguma coisa dele!”
Riram-se todos e Ângelo Durão olhou para o escritor de pêra e cabelo brancos, o mesmo que falara com ele da primeira vez, à espera que ele dissesse mais alguma coisa.
“É isso, é um bom princípio, já te dou o contacto dele. E até posso dar-lhe um toque, para ele estar preparado. Isto se quiseres, é claro”, disse para Ângelo Durão, e dirigindo-se sem transição aos outros: “Alguém tem mais ideias?”
“Que tal levá-lo à Rua do Imaginário?”

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

a qualidade da literatura na internet

A Sylvia Beirute afirma-se com vontade para reflectir sobre a poesia publicada na Internet versus a poesia publicada em papel. Fico à espera.
Pela minha parte ainda me lembro das recorrentes vozes que proclamavam que nos blogs o que abundava era a falta de qualidade, e que a literatura de qualidade só podia ser encontrada em papel. E quem diz blogs diz Internet.
Sempre discordei dessa afirmação, assim pura e dura, e sempre declarei que me surpreendia com a qualidade do que encontrava na Internet.
O tempo tem-me dado razão e muitos desse autores têm chegado ao papel.
Claro que a Internet favorece mais alguns géneros que outros e que as suas potencialidades ainda mal foram afloradas, sobretudo em português, mas atente-se por exemplo na microficção, esse género des-generado e promíscuo e o resultado é bastante favorável à Internet.
Sobretudo em Portugal! Sobretudo em Portugal! Responsabilidade dos editores e outros difusores, mas também dos leitores.

pessoana





- Um escritor é um escritor é um escritor é um escritor, ainda que não seja vários - disse ele.
Todos concordaram.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [11]

[…]



O advogado era um homem entroncado, de ombros largos e tórax proeminente, que se movia devagar mas com leveza. Acreditava que uma mente sã deve habitar um corpo saudável, e por isso desenvolvera o corpo e a mente com afinco e determinação. Era um homem pesado mas ágil, e essas características pareciam ter-se espelhado na sua poesia, que bebia dos clássicos mas que se abria também a experiências novas. Falava pausadamente e os seus gestos lentos tinham qualquer coisa de feminino, apesar da força que se sentia nele.

“Também escreve poesia?”

“Nunca escrevi poesia.”

“Mas devia, os ficcionistas têm muito a aprender com os poetas. Hoje em dia muitos escritores são poetas e romancistas, ainda que alguns poetas que passaram a escrever ficção não tenham voltado a escrever, ou pelo menos a publicar, poesia. É o caso, penso eu, do Paul Auster.”

O advogado, e também poeta, que muitos diziam mau poeta, tinha escrito, para além de um sem número de livros de poesia, também alguns livros técnicos sobre artes marciais, bem como inúmeros artigos em revistas e jornais.

“ Sei muito pouco sobre escritores e quase não leio poesia.”

O advogado olhou-o e passou uma das suas mãos enormes pelo rosto.

“Sei muito pouco sobre literatura!”, insistiu Ângelo.

“E no entanto isso não o impediu de escrever um excelente romance, segundo me disseram.”

O advogado cruzava e descruzava lentamente as mãos, apertando-as uma contra a outra, como se as acariciasse.

“Ganhou um prémio importante, quer em termos económicos quer em termos de prestígio.”

“Não sei nada sobre prémios!”, disse Ângelo Durão, num obstinado laconismo.

O advogado levantou-se do sofá onde tinha estado sentado, em frente a Ângelo Durão, e dirigiu-se para a secretária, sentando-se na cadeira giratória, que fez mover lentamente da direita para a esquerda, repetidamente, como se estivesse a decidir o que iria dizer.

“Quer então explicar-me o que o traz aqui?”

Talvez ele fosse um mau poeta, mas o que os escritores mais gostam, e sobretudo os poetas, é falar mal uns dos outros, e Ângelo Durão aprendera isso no contacto com a tertúlia, onde lhe fora afirmado que o advogado era um mau poeta, mas também que o mau poeta era um bom advogado, e ele estava ali para consultar um bom advogado, ainda que duvidasse que fosse assim que as coisas se iriam resolver.

“Ganhei um prémio literário, mas isso já você sabe!”, e Ângelo Durão calou-se de imediato, o que levou o outro a pensar que devia ser daqueles escritores que escrevem maravilhosamente mas que não gostam de falar, mas Ângelo Durão ia continuar e o advogado concedeu-lhe toda a sua atenção.

“O prémio, para além da entrega de um valor pecuniário, implicava a edição do livro. Foi isso que aconteceu. Mas o livro que foi publicado não é o livro que combinámos. E agora eu quero que o livro seja retirado do mercado.”

“E substituído?”

“O quê?”

“Se quer apenas que o livro seja retirado, ou pretende que seja retirado e substituído.”

“Pensei apenas em que fosse retirado. Isso parece-me o mais urgente, não quero que esse livro continue por aí.”

“Mas depois quer que seja substituído pelo, digamos, verdadeiro livro?”

Ângelo Durão ficou em silêncio, a olhá-lo com a sua mirada fixa, a careca a reluzir, o rosto sério, e o advogado deixou que um sorriso se desenhasse nos seus lábios, parecendo por instantes um enorme Buda.

“Vamos então por partes”, disse finalmente, “só lhe poderei dar uma opinião sobre o que fazer se conhecer a situação a fundo. Como julgo saber já um pouco da história, deixe que eu lhe faça algumas perguntas directas, que pode apenas responder com sim ou não.”

Ângelo Durão assentiu com a cabeça e o advogado começou a colocar-lhe as perguntas, à maior parte das quais Ângelo Durão respondia com igual gesto afirmativo.

“O seu romance ganhou um prémio que consistia na entrega de uma quantia em dinheiro e na sua publicação?”

“A versão enviada a concurso é a mesma que agora foi publicada?”

“Recebeu já toda a quantia em dinheiro?”

“Quando ganhou o prémio tinha já alterado a primeira versão?”

“Deu conhecimento desse facto de imediato aos responsáveis?”

“Foi só quando me enviaram as provas do romance para que me pronunciasse sobre as correcções efectuadas que pedi que retirassem o último capítulo.”

“E como o fez?”

“Devolvi as provas riscando todo o último parágrafo, e escrevi ao lado o sinal de eliminado, segundo as instruções de revisão que me enviaram.”

“Não contactou mais o editor, nem de outra forma lhe fez saber que não queria que o último capítulo não fosse incluído?”

“Só mais tarde voltou a contactá-lo e explicou-lhe a situação?”

“Pediu-lhe que o livro fosse retirado do mercado e ele negou-se?”

“Não se mostrou interessado em alterar o romance numa próxima edição?”

“O cabrão riu-se na minha cara!”, disse Ângelo Durão, e o advogado procurou raiva ou contrariedade no rosto do escritor mas só lhe encontrou tristeza, uma tristeza profunda, que muito o impressionou.

DA BREVIDADE


El dinosaurio


Cuando despertó, el dinosaurio todavia estaba ali


Augusto Monterrosso


*


Depois de muito tentar conseguiu. Conseguiu sabe-se lá o quê.


*


Mudou do dia para a noite. Foi uma mudança indesejada. De dia estava vivo e à noite estava morto.


*


Esta é uma história que não foi, mas podia ter sido, se alguma vez tivesse chegado a ser. O que não aconteceu!


*


PORQUÊ FALAR? Disse isto e calou-se. Mas no silêncio a pergunta repetida continuou a responder-lhe.


*


Os seus últimos pensamentos foram para a mulher e para os filhos. Depois disso nunca mais voltou a pensar. Desde então a vida tem-lhe corrido muito melhor.


*


Um certo dia um homem deu por si outro, obliterado de quem tinha sido, e sentiu-se imensamente feliz, pois todo o futuro podia agora finalmente ser seu.


*


Alva, a luz flutuava lá no alto. E ele, imerso em sombras, subia até ela o seu olhar. [Nada mais.]


*


A luz


É muito difícil manter a luz em nós quando tudo escurece à nossa volta, disse o homem, e logo concluiu, mas nunca ela é mais necessária do que nesses momentos.


*


Uma certa mulher era sempre quem tinha de ser, e com tal intensa verdade o era, que o ser era em si pura alegria e luz, e perto dela nunca ninguém se aborrecia.


*


Brevidade


A Morte encontrou-o vivo. Por pouco tempo.


*


Deitou-se para dormir e não acordou mais. E ainda hoje sonha uma morte feliz.


*


Escreveu dezenas de contos mínimos, belos como teoremas, e morreu cedo, antes dos trinta. A brevidade foi a sua bandeira.


*


Em menos de cinco minutos escreveu uma pequena história bela como um teorema. Empregou nessa acção toda a sua experiência de vida.


*


O príncipe acordou-a com um beijo. E isso foi apenas o começo.


*


Casaram e foram felizes para sempre, o que só foi possível graças ao divórcio.


***


[antologia de histórias mínimas retiradas de Mil e uma pequenas histórias - um diário mínimo]


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

em greve também se escrevem poemas


Um homem caminha sobre as águas

numa manhã cinzenta


tem frio tem fome tem sono

está-se nas tintas para a poesia mas


olho-o e sinto-a e sei que a poesia

também existe fora de mim


e é afinal essa distância

feita poema que eu escrevo

greve





“Greve”, de Augusto de Campos (1962).
Leia aqui sobre este poema

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um olhar amoroso

[de vez em quando tropeço neste conto que escrevi já há alguns anos, a pedido, e continuo a gostar dele]

Quando cheguei ao local das filmagens para ir buscar a Joana percebi de imediato que ela ainda estava ocupada. Aproximei-me o mais que pude, sem atrapalhar. O pessoal já me conhecia e deixou-me passar sem problemas.

“Ainda falta muito?”, perguntei ao Pedro Maluco, verdadeiro pau para toda a obra, e ele respondeu-me em voz baixa que devia estar a acabar, era só mais um bocadinho. Sentei-me no chão, acenei um cigarro ao Pedro, e acendi-o depois da sua aprovação silenciosa.

A poucos metros, um pouco mais abaixo, a Joana estava deitada de barriga para cima no capot de um Porsche vermelho, as pernas bem abertas e dobradas como âncoras. Olhava directamente para a câmara e gemia, enquanto com a sua mão de longos dedos massajava vigorosamente o clitóris.

Há dois anos que vivíamos juntos, dois anos que haviam passado depressa. Apaguei o cigarro e fiquei a olhá-la.

O actor masculino, um novo, que eu nunca tinha visto, estava agora a lambê-la, ao mesmo tempo que Julie o chupava. Pareciam todos muito excitados e a gozar bastante.

Lembrei-me do que a Joana me dizia muitas vezes, um pouco a brincar, um pouco a sério, “Sabes, somos verdadeiros atletas do sexo”. E olhando para os corpos contorcidos e em constante movimento só podia concordar.

O dia de filmagens estava a terminar e aquela devia ser a última cena. Harmonizar os três corpos e mantê-los unidos não era tarefa fácil, mas eles estavam a sair-se bem, evitando os velhos clichés. O homem tinha subido agora para cima do carro, apertava o torso de Joana com as pernas, e masturbava-se por cima dela, enquanto Julie a lambia ao mesmo tempo que os abraçava, formando assim uma estranha forma escultórica. Estavam mesmo a terminar, os gemidos haviam subido de volume e todos os corpos gritavam pelo clímax. Joana começou a abanar a cabeça de um lado para o outro.

Foi num desses movimentos que me viu e os nossos olhares se tocaram. Foi então que teve um orgasmo. Um inebriante e glorioso orgasmo. No exacto momento em que chovia sobre o seu rosto. Sei que foi assim porque o experimentei também. Ela nem precisava contar-me mais tarde, sei que o faria, e eu ia gostar muito de ouvir.

Mas o olhar que trocámos naquele instante foi tão intenso que dispensava quaisquer comentários. O sexo, como muitas vezes dizemos um ao outro nos momentos mais íntimos, é simples ginástica, agora o desejo, o desejo que incendeia o corpo e a alma, esse não está ao alcance de todos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

anjos e nuvens



Tal como os anjos
as nuvens não têm sexo
nem mesmo com preservativo
nem mesmo para procriar mas
ao contrário dos anjos
as nuvens não conhecem o inferno
nem mesmo quando ardem rubras
nem mesmo quando caem negras

*

uma mulher
uma nuvem
o mesmo céu

*

arde
em chamas
uma mulher

nuvem rubra
anjo caído
de desejo

a justificação do preservativo


Em certas circunstâncias sou mesmo necessário, justificou-se o preservativo, mas o pénis não parecia nada convencido.

[será que o meu amigo Fernando não escreveu já esta história? É melhor confirmar.]

Desafio Poético do XXXII DRACULEA Café Poesia

Dê um pulo ao blog do Draculea, responda ao desafio e apareça no Café Poesia. Tem prémio e tudo.

domingo, 21 de novembro de 2010

Humanização da sexualidade

É preciso humanizar a sexualidade, concluiram os animais reunidos em assembleia geral, já chega de depender do cio.

Não me perguntem porquê [10]

[…]



Escreveu uma segunda vez o romance e, tal como da primeira vez, escreveu tudo o que lhe veio à cabeça, sem se interrogar sobre o que fazia, mas sentindo a verdade do que escrevia; e no final tinha escrito o mesmo romance outra vez, pelo menos foi o que sentiu quando acabou, mas desta vez não se apressou a lê-lo, e ficou apenas a revê-lo durante dias na sua cabeça, até que concluiu que era o mesmo romance e que, mais do que o romance que tinha de escrever, aquele era o romance que era capaz de escrever.

A partir daí começou a dispor os diversos capítulos de diferentes formas, sem nunca os alterar, ensaiando várias possibilidades de continuidade, retirando apenas aqui e ali alguns deles, como que purgando o texto, para que o romance que fora capaz de escrever se aproximasse, mais por defeito do que por excesso, do romance que tinha de escrever.

Pensou que tinha já terminado o romance quando o deu a ler a Ana, mas só mais tarde o deu afinal por terminado, retirando-lhe o último capítulo, quando Ana já tinha enviado o romance a concurso.

Faro é um deserto

Seja no que for, só se recebe na medida do que se dá.
Honoré de Balzac

Se fores o primeiro a dar ficas em vantagem. É sempre melhor dar do que levar.
Anónimo

Ontem disse, no ar, que Faro é um deserto.
Claro que Faro não é um deserto, o que é óbvio, nem eu acho que Faro seja um deserto. Apenas me sinto cada vez mais em Faro como no deserto. Só, cansado, sem saber onde me dirigir. E até existem oásis.
Claro que falo de um ponto de vista metafórico e num contexto que se pode dizer cultural. Era afinal nesse contexto que falei ontem em Faro como um deserto, quando se avaliava em directo, na rádio RUA, a Edição 0 de Radiação.
Ligando essa afirmação à investigação que aqui se fez sobre o estado da literatura em Faro, talvez o mais importante mesmo sejam as pessoas. Ou a falta delas. Ou a falta de vontade em estar aberto e partilhar.
Ouço muito dizer dos algarvios que são fechados e pouco dados a partilhar. Ainda ontem se disse isso mesmo, na emissão referida. Não nasci no Algarve e muitos dos que têm essa atitude não são algarvios, mas começo também eu a sentir-me assim. Quando me diziam que os algarvios comem na gaveta eu explicava que no Algarve se diz que são os de Tavira que comem na gaveta. Agora já não digo nada.
Talvez seja a falta de recursos e o medo de que não sobre para nós que leva a essa atitude, mas cada vez a vejo mais.
Parece-me que cada vez mais se acredita que o bem não compensa, quando acredito que é exactamente o contrário. E não vou explicar o que é o bem!
Se os recursos são poucos há que partilhá-los, há que ser imaginativo. E não o contrário. Há que ser generoso. Solidário. Dar e receber.
Voltando ao ponto de partida. Faro não é um deserto, mas cada vez me sinto mais no deserto. Só, cansado e sem saber onde me dirigir. E até existem oásis.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

obnóxio

808. Sentiu-se obnóxio, completamente obnóxio, e de nada lhe adiantou desconhecer o significado da palavra.

Mil e uma pequenas histórias, um diário mínimo

Penedo Grande



Ainda bem que decidi sair de casa e ir ver e ouvir o Penedo Grande em condições que se poderiam dizer adversas.

Confesso que não conhecia O Marinheiro, de Fernando Pessoa. Vou ler.

Escrever (também) é faltarem as palavras.

Capítulo I: capitulo.
Capítulo II: recapitulo.
Capítulo III: capitulo novamente.

Escrever (também) é abanar as palavras

- Capitulo.
- Capítulo? Capítulo quê?
- Não, nada disso. Capitulo. Sem assento!
- Sem assento? Sem acento, queres tu dizer!
- Não. Capitulo. Sem assento, capitulo.
- O quê?
Estou farto de estar de pé, disse ele, e foi-se embora sem mais.

Vá...



um poema de Sylvia Beirute

[gostei muito deste poema, por várias razões. tinha passado por ele, sem nada dizer, e agora refiro-o aqui. a gata becas também gostou. não o coloquei aqui por dificuldades técnicas :)]


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Escrever (também) é desafiar as palavras




O capítulo, reunido de emergência, redigiu prontamente um capítulo que proibia a leitura de um certo capítulo, julgado indecoroso. Foi o primeiro capítulo de uma longa série de acontecimentos que levou afinal à capitulação do capítulo.

Escrever (também) é brincar com as palavras




Queria fechar mais um capítulo, mas não se sentia capaz. Ainda tentou, mas acabou por capitular.

Não me perguntem porquê [9]



[…]



“Chamo-me Ângelo Durão e sou escritor”, disse ele, e ficou a olhar para o advogado como se isso fosse mais do que suficiente.

O advogado ficou também a olhá-lo, e o silêncio instalou-se como o pó que cobre os móveis sem quase se fazer notar. Pouco sabiam um do outro, mas sabiam o suficiente para poderem enumerar pouco a pouco o pouco que sabiam.

Além de advogado também é poeta, dizia para si mesmo Ângelo Durão, um mau poeta, facto que não o impede de publicar regularmente, tal como a noite se segue ao dia.

Ganhou um prémio importante com o seu primeiro romance, dizem que é muito bom, mas doido, conflituoso, uma espécie de enfant terrible.

Deve sem dúvida ter sensibilidade para estas questões, afinal de contas é poeta publicado, ainda que mau.

Sei mais ou menos o que me quer, não sei é se valerá a pena aceitar o caso, que com doidos nunca se sabe.

“Quer então explicar o que o traz aqui?”, disse finalmente o advogado, cruzando e descruzando as mãos sobre o colo.

“Tenho um problema”, disse Ângelo Durão, e calou-se de novo.

“Todos os que vêm ter comigo têm problemas que querem resolver. É para isso que aqui estou”, disse o advogado, encorajando-o a falar, sem deixar de cruzar e descruzar as mãos.

Ângelo Durão olhou as mãos fortes do advogado, o seu sorriso, e apeteceu-lhe ir embora. Não era assim que as coisas se iam resolver, disse para si mesmo, mas ficou.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [8]



[…]



Tinha escrito o romance uma primeira vez, em pouco mais de três meses; página após página, Ângelo Durão tinha escrito tudo o que lhe viera à cabeça.

Nunca escrevera nada antes, nem um conto, nem mesmo um poema, e muito menos um romance, mas escreveu de uma penada tudo o que lhe viera à cabeça. Escreveu e depois leu tudo, tal como escrevera, de fio a pavio.

Não era aquilo. Não era nada daquilo. Não tinha quaisquer dúvidas. Precisava fazer alguma coisa.

Tentou então que tudo batesse certo, reestruturar tudo o que escrevera, escrevendo e escrevendo de novo, usando o que escrevera agora como texto base; mas o romance desmoronava-se a cada alteração e parecia-lhe sempre um romance diferente, e nunca aquele que ele tinha de escrever. Até que desistiu e apagou tudo, definitivamente, sem apelo nem agravo.

Ana não chegou a ler essa primeiríssima versão.

Meses depois de ter abandonado tudo para apenas escrever, eis que lhe diz, sem mais nem menos, que vai começar tudo de novo.

Ana não compreende.

“Não podia ser alterado?” Ele responde que não. Tem de começar de novo. É o mesmo romance, só que tem de escrevê-lo outra vez.

Ana aceita, diz que está bem, mas não compreende.

“Mas não podias reescrever? Não é isso que os escritores fazem?” Mas Ângelo Durão diz que não sabe nada sobre escritores. O que ele sabe é que tem de escrever o romance outra vez. Tem um livro para escrever, mas não é aquele que escreveu. Por isso vai escrevê-lo outra vez.

Mas… começou ela, mas… desiste, e fica em silêncio, a olhá-lo.

“Confia em mim, tenho de escrever este livro”, diz ele. “Não sei porquê, mas sei que tenho de escrevê-lo”, e tenta sorrir, mas só os olhos desenham um ténue sorriso, quase ilegível.

“Tenho de escrevê-lo”, repete. “É uma questão de vida ou de morte.”

Então ela passa-lhe a mão pelo crânio nu, e diz-lhe mais uma vez que ele é louco, e que um dia terá de deixá-lo para que ele viva plenamente a sua loucura.

Ele encosta a cabeça no seu ombro e sente uma enorme vontade de chorar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

o amor é um território circunscrito

O amor é um território circunscrito

um local onde não se escolhe ir
e de onde não se escolhe sair
onde se vai não pelo que se é
mas apesar de quem se é

um local onde só os apaixonados vão
mas nem sempre aí permanecem
pois quando ali estão nada existe
em redor e isso confunde-os

os apaixonados não sabem
que o amor lhes abre os olhos
ao mesmo tempo que os cega

os apaixonados não sabem
que o amor não tem limites
e que só a si mesmo abarca


o amor é um território circunscrito
que a si mesmo se circunscreve

as palavras

As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.

em Poemas Zen - O bebedor Nocturno, poemas mudados para português, por Herberto Helder

Viver




Perguntaram-lhe o que queria fazer antes de morrer, e ele surpreendeu-se:
- O que quero fazer antes de morrer? Mas que raio de pergunta é essa? Ainda se me perguntassem o que quero fazer depois de morto.
Mas na verdade a resposta seria afinal a mesma.

Olhos nos olhos - Variações

1
Olhou-a nos olhos, bem no fundo dos olhos, e depois mergulhou. Nunca mais voltou ao de cima.

2
Olha-me nos olhos e diz-me a verdade, disse ele, e ela olhou-o nos olhos, bem no fundo dos olhos e mentiu-lhe. No fundo, no fundo, era isso que ele queria, e ela bem o sabia.

3
Olhou a verdade nos olhos e ficou cego. Não quero afirmar que a verdade cegue, foi apenas assim que aconteceu.

4
Gostava de olhar as pessoas nos olhos. Era médico oftamologista.

5
Olha-me nos olhos, disse a serpente, e a pequena ave fez-lhe a vontade. Olhou-a nos olhos, bem no fundo dos olhos, e voou para longe. Do que é que estavam à espera?

6
Olha-me nos olhos, disse ele, e diz-me que não me amas. E ela olhou-o nos olhos e disse que não o amava. Qualquer pessoa veria que ela falava verdade. Qualquer pessoa menos ele, que estava cego de amor.

7
Olhem-me nos olhos, olhem-me bem nos olhos, dizia ele, mas ninguém conseguia. Ele era completamente vesgo.

A verdade dificilmente se revela à vista desarmada. É preciso intimidá-la.

SOBRE A MICRO-FICÇÃO

(texto lido no encontro sobre micro-ficção realizado em Casablanca no dia 23.05.2008 e publicado aqui)


1. Como já pude dizer numa entrevista a uma revista portuguesa online de micro-ficção (Minguante), o que mais me atrai na micro-ficção é a sua extrema aptidão para a promiscuidade. A micro-ficção não é um género literário, é a riqueza da impossibilidade de o ser. Confunde os géneros e deixa-nos (bem) perdidos no caminho para qualquer definição.

2. O escritor contemporâneo tem atrás de si um passado onde a procura da Verdade naufragou violentamente em guerras, genocídios, preconceitos. As descrições totalizantes do mundo deram entretanto lugar à revalorização transformada da experiência individual e isto tem duas vertentes com fronteiras pouco claras: por um lado, deixámo-nos desmoralizar relativamente a uma acção com propriedades salvadoras; por outro, acabamos dando maior atenção à diversidade de expressões, artísticas e quotidianas, como se cada pequena ou grande obra encerrasse (e encerra) a sua verdade (já sem maiúscula) própria, do tamanho da pessoa que a suporta ou, se formos optimistas, do tamanho da partilha que formos capazes de gerar.

3. Num mundo onde se acelerou o processo de criação de ligações das unidades da Rede – falo da Internet mas falo também da matéria que pensa ou, mais simplesmente, de todos os suportes de desenvolvimento da vida – a forma leve da micro-ficção permite-lhe circular melhor: como se fosse possível estar em vários sítios ao mesmo tempo. A sua plasticidade nómada fá-la experimentar a banda desenhada ou a eficácia do spot publicitário; a poesia, se o ritmo deixar; o aforismo, havendo universo que se deixe comprimir. A micro-ficção é um mutante que vai acumulando formas, interacções, desequilíbrios.

4. E quanto ao tamanho? Quanto mais pequeno melhor, como os telemóveis? Pois, a pergunta é traiçoeira, porque os telemóveis só continuaram a diminuir de tamanho até ao ponto em que sua funcionalidade começou a exigir um écran maior. Mas a questão do tamanho parece-me pertinente, quando situada no contexto antropológico que lhe responde: o espaço parece não ser absolutamente infinito quando todos queremos um lugar, ainda que provisório e inseguro. Podemos fazer uma analogia com os livros: se mais pessoas publicam livros, parece natural que os livros tenham um tempo médio de exposição nas livrarias inferior. Isto tem a ver com um fenómeno de democratização em que tempo e espaço (às vezes é difícil distingui-los) aparecem divididos por um maior número de pessoas. O aparecimento dos blogs enquadra-se neste movimento, e sabemos que os blogs são o grande viveiro actual da micro-ficção (a duração média das visitas na maior parte dos blogs ronda os dois minutos, o que desaconselha a publicação nesses espaços de textos com centenas de páginas.)

Resumindo: a micro-ficção é ADN, e o profundo ADN cabe todo num cabelo. E também: cada um leva apenas um cabelo, incluindo o Rei, o Presidente e o Sábio.

5. Tive o prazer de co-organizar em Portugal a recente “Primeira Antologia de Micro-ficção Portuguesa”. Procurei a qualidade e a diversidade, e a maior parte dos autores participantes tiveram aqui a sua estreia em livro. Descobri-os sobretudo em blogues, ouvindo as sugestões do Henrique Fialho (autor do excelente prefácio) e do Luis Ene, dois dos primeiros entre nós a praticar e a reflectir sobre a micro-ficção.
Dou os parabéns aos organizadores deste encontro pioneiro.

Rui Costa

sábado, 13 de novembro de 2010

Apontamentos de uma viagem a Sevilha



I

As aves voam da mesma forma
despreocupada
tanto no cinzento como no azul
Será a felicidade
daltónica?

II

Olho os pinheiros que passam por mim
sabendo que sou eu que passo por eles
pinheiropinheiropinheiropinheiro
todosiguaistodostodosdiferentes
pinheiropinheiropinheiropinheiro
pinheiro é apenas uma palavra

III

Talvez este rio
esteja mesmo aqui e
não vá a lugar algum
Mas então de que tem
saudades o cais?



IV

Nem vou tentar
dizer estas árvores altivas
enfeitadas de frutos amargos e
de aves furtivas agitadas
por um vento gentil
Sei que só posso
dizer-me e
mesmo assim
fracassar

V

Se eu quisesse imitar o mundo
riscaria sem propósito a folha em branco
sem tentar dizer fosse o que fosse

à minha volta tudo acontece
sem que eu o possa evitar

à minha volta tudo acontece
sem que eu o precise dizer



[...]



Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha.

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [7]


[…]



Curiosamente, ou não, foi à tertúlia de escritores que Ângelo Durão recorreu. Tinha estado ali apenas uma vez, quase não tinha falado com ninguém, a não ser com um escritor de cabelo branco e pêra também branca, vinte anos mais velho, que lhe perguntara se ele também escrevia.

Ângelo Durão conhecia poucas pessoas e nenhuma delas era escritor. Ora o seu problema era sem dúvida um problema de escritor, e por isso pensou que o melhor que tinha a fazer era procurar a companhia de escritores.

Sabia que se reuniam regularmente numa associação cultural que explorava também um bar, onde tinha ido uma vez, beber um copo, a insistência da Ana, que dizia que ele nunca saía, nunca se divertia, só escrevia e, quando não escrevia, só pensava em escrever.

Por isso tinham saído naquela noite, por isso ele estava ali na mesma ocasião em que os escritores e candidatos a escritores também ali estavam. Ângelo Durão não conhecia nenhum escritor e nunca tivera vontade de conhecer, por nenhum motivo especial, a não ser que preferia os livros aos seus autores.

No que lhe dizia respeito, os livros podiam até não ter autores, como as árvores e as flores, disse, e nem por isso seriam menos importantes. Os escritores são pessoas como as outras, e por isso igualmente desagradáveis, dizia-lhe ele nessa noite, enquanto bebiam caneca atrás de caneca de cerveja, paixão partilhada pelos dois, mas Ana tinha algo para lhe dizer e ia dizê-lo, estava apenas a adiar.

“Enviei o teu romance.”

“O quê?”

“Enviei o teu romance!”

“Mas ainda não está terminado!”

“Não está terminado? O romance não está ainda terminado? Mas não me disseste.”

“Há muitas coisas que não te digo, há muitas coisas que não te posso dizer. Ainda hesito entre manter ou não o último capítulo.”

Estavam os dois ao balcão em forma de L, em pé, junto à porta que dava para a pequena sala de exposições, e foi para aí que se dirigiram à procura de alguma intimidade.

Nas paredes do pequeno compartimento espalhavam-se desenhos de diversos fellatios, em grandes planos que à primeira vista escondiam o óbvio, e isso pareceu diverti-los e distraí-los por instantes da conversa.

Ângelo Durão beijou-a nos lábios, delicadamente, e trincou-lhe ao de leve o lábio inferior, como se mais nada importasse.

“Olha, enviei-o, que se lixe!”

“Que se lixe!”

E pareciam de acordo, os corpos encostados, beijando-se sem pressas numa volúpia não inferior à que se soltava dos desenhos na parede.

“Enviaste para onde?”

“Para um concurso importante, com um óptimo prémio em dinheiro e com a possibilidade de o romance ser publicado.”

“Mas tu sabes que eu me estou nas tintas para isso!”

Os corpos continuavam colados, as bocas próximas, mas as palavras começavam, como sempre acontecia, a afastá-los.

“Eu sei que tu te estás nas tintas, mas eu não estou. Não podemos continuar a viver como vivemos. Tu não podes continuar a esconder-te do mundo. Já te disse que não quero viver assim. Tu sabes, Ângelo!

Ângelo olhou-a com o seu rosto severo, que o cabelo cortado muito curto, a acompanhar a calvície precoce e avançada, parecia acentuar. Era a mesma discussão de sempre e não lhe apetecia continuá-la, por isso voltou a beijá-la, mas desta vez foi ela que se afastou, dizendo que ia à casa de banho, e ele deixou-a ir, acompanhando-a até à até à porta.

“Vou ver se há alguma coisa ali”, disse ele antes se afastar em direcção ao salão onde se ouviam vozes animadas. Lia-se e discutia-se em voz alta, e ele sentou-se a uma mesa onde apenas estava um homem de cerca de cinquenta anos, de cabelo branco e pêra, também branca, que pouco depois se levantaria para ler um texto de sua autoria. Tinha entrado, sem saber, numa tertúlia de escritores.

Ficou por ali, esquecido de Ana, a ouvi-los ler e discutir com paixão sobre literatura, e foi neles que mais tarde pensou quando decidiu agir. Apesar de não gostar por aí além de escritores, aqueles tinham-no divertido.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

[..]



A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos, ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.



em Poemas Zen - O bebedor Nocturno, poemas mudados para português, por Herberto Helder

peixe, frutas, valores selados

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

RADIAÇÃO

Quijote interactivo


Do mestre

[para o Vasco Vidigal]

É preciso aprender com um mestre,
diziam-lhe, e ele concordava,
sabia que tinha de aprender,
sabia isso muito, muito bem,
mas a verdade é que não conhecia
quem lhe pudesse ensinar o que
precisava aprender, e assim,
dessa forma, uma e outra vez
se foi adiando o seu destino,
até que, finalmente, se tornou
o seu próprio mestre e com ele
aprendeu, de uma vez por todas,
a ser o que afinal sempre fora.

Poesia ou prosa?

A decisão, se tiver que haver uma decisão, está sem dúvida do lado do leitor.


Horas Felizes

1. o vento é a música de dança das árvores.
2. as chaminés não sabem que é feio apontar.
3. os copos sentem-se vazios quando ninguém bebe por eles.
4. os lápis são escritores inseguros.
5. as esferográficas são operárias especializadas.
6. os agrafadores não gostam de ideias à solta.
7. os bigodes são aprendizes de ventríloquos.
8. o rio queixou-se das margens por assédio sexual.
9. fazer a barba é afinal desfazê-la.
10. o mar inspira e expira.
11. as rosas têm licença de uso e porte de arma.
12. os candeeiros dormem de dia.
13. todos os versos são linhas de fuga.
14. as horas felizes passam num instante porque se riem do tempo.

[incluido na Primeira antologia de micro-ficção portuguesa]

A arte da elipse




A arte da elipse parece-me, portanto, ser uma necessidade. Ela exige: ir sempre directamente ao cerne das coisas.

Milan Kundera, A arte do romance

Vasco Vidigal

Uma entrevista que não tinha lido e que se mantém actual. O Vasco ainda está aí e a Artadentro também. Para ficar!

Não me perguntem porquê [6]


[…]



“Você deve estar doido”, disse o editor tentando conter o riso e quase se engasgando. “Ainda que fosse possível fazer o que propõe”, continuou, “seria sempre impossível ficar por aí.” E riu à gargalhada, escondendo a boca com a mão.

O escritor ficou a olhá-lo, os olhos muito abertos, e o editor ainda se riu mais, e quanto mais se ria, mais o escritor parecia ficar mais sério, e quanto mais sério parecia ficar o escritor, mais o editor se ria. Até que o escritor começou também a rir, e os dois riram em uníssono durante algum tempo.

“Será que viu a luz?”, interrogou-se o editor. “Ou será que enlouqueceu?”, questionou-se depois, lembrando-se que nunca tinha visto o escritor sorrir, e muito menos rir, ainda que poucas vezes se tivessem visto; e assim pensando deixou de rir, para constatar que o escritor continuava a rir à gargalhada, sozinho, e parecia, parecia cada vez mais zangado, agitando a mão direita num punho que ameaçava ir transformar-se em soco a qualquer momento.

E de repente também ele deixou de rir, olhou o editor ainda com mais intensidade e saiu batendo a porta com estrondo.

O editor ficou a olhar para a porta, com o rosto crispado, mas pouco depois sorria já e logo a seguir ria de novo, às gargalhadas. “Filho de uma grande puta!”, disse em volta alta para si mesmo. “É um chato do caralho mas faz-me rir, sobretudo quanto mais se zanga.”

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Finais

1 É o fim, disse ele, mas já ninguém o ouviu.
2 É o fim, disse ele, e tudo voltou ao princípio.
3 É o fim, disse ele, mas na verdade era apenas o princípio do fim.
4 É o fim, disse ele, mas não estava sozinho e teve de continuar.
5 É o fim, disse ele, mas infelizmente era apenas o intervalo.
6 É o fim, disse ele, e morreu exactamente sobre a meta.
7 É o fim, disse ele, e ela concordou.
8 É o fim, disse ele, e não foi preciso repetir.
9 É o fim, disse ele, e foi mesmo a última coisa que disse.
10 É o fim, disse ele, e tinha razão, morreu ali mesmo.

contar o conto

Centésima página

Foi fácil chegar à Centésima Página, difícil foi sair.

"Se tivesse que escrever um livro de moral, as primeiras 99 páginas ficariam em branco e na 100ª PÁGINA escreveria uma só frase: Existe um único dever, o dever de amar".

Albert Camus (1913-1960)


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Efémeras


1 Mudou do dia para a noite. Foi uma mudança indesejada. De dia estava vivo e à noite estava morto.
2 Mudou de carro. Mudou de nome. Mudou de aspecto. Mudou de profissão. Mudou de residência. Nunca ninguém conseguiu perceber porquê. Nem ele.
3 Num momento estava vivo e noutro já estava morto. Nem teve tempo de pensar que a vida é como um interruptor, apagou-se de repente.
4 Matou-se lentamente, muito lentamente, por isso, quando estava quase a chegar ao fim, teve que voltar ao início e matar-se de novo. Era um perfeccionista.
5 A morte apanhou-o descalço, completamente desprevenido, mas uma coisa é certa, estivesse ele com calçado ligeiro e também não teria conseguido fugir dela.
6 A Morte encontrou-o vivo. Por pouco tempo.

Não me perguntem porquê [5]


[…]



Para que ele viva nestas páginas, terei de insuflar-lhe vida, terei de fazer com que ele viva de novo através de mim. Esta história é a sua história, sem dúvida, mas é também a minha história, e nem de outra forma a conseguiria escrever.


É-me bastante fácil evocá-lo, conheci-o bem, mas confesso que me seria igualmente fácil ainda que só o tivesse visto uma vez, o que diz muito mais dele do que dos meus poderes de observação e de efabulação.


Alto, magro, calvície precoce mas avançada, olhar fixo e insistente, nunca sorria, mas soltava inesperadas gargalhadas, longas e ásperas. Sempre achei que daria uma personagem magnífica.


Poderia dizer, sem errar muito, que ele vivia encerrado num mundo pessoal, no qual a literatura ocupava a maior parte, mas isso seria, ao mesmo tempo, dizer de mais e de menos.


Ouvi-o muitas vezes confessar que mais importante que os escritores são os seus livros, e talvez isso explique a sua atitude e o modo como defendeu o seu livro. Dizia também que era melhor ler os escritores do que conhecê-los, mas isso não impediu que nos conhecêssemos numa tertúlia de escritores, ainda que só mais tarde me tivesse confidenciado que ali aparecera completamente por acaso, apesar de nessa altura já ter escrito o seu romance premiado, facto que não me referiu, nem mesmo quando lhe perguntei se escrevia, tendo-se limitado a olhar-me com a sua mirada fixa e insistente.


Só mais tarde, quando começou a sua “cruzada”, é que me procurou para pedir a minha opinião, não sobre o que devia fazer, mas sobre como o poderia fazer.

domingo, 7 de novembro de 2010

A justa medida


Quanto tempo devemos dedicar à contemplação?

Quanto de nós mesmos devemos pôr naquilo que fazemos?

Que tamanho deve ter um texto literário?


A resposta é simples e única. É sempre pouco. É sempre demais.


sábado, 6 de novembro de 2010

Juan and the Magic Tree


David Heathfield

A verdade e o palácio


Clara Haddad

ainda sobre contar histórias

Ocorre-me que a literatura acolhe hoje cada vez mais a oralidade (veja-se o recurso regular à interpelação ao leitor em Doutor Avalanche) e que os contadores de histórias recorrem cada vez mais à escrita (lendo contos escritos, ainda que tradicionais, ou de autor).
E apetecia-me continuar a falar de oral e de oralidade mas, como muito bem me disse Thomas Bakk, isso de oral e de oralidade... parece coisa de dentista.

literatura de cordel, dita e no papel

Thomas Bakk

Contar historias


Contar histórias, apetece-me dizer, é contar histórias, é contar histórias, quer seja no papel quer seja em volta alta. Talvez * uma semelhança entre os contadores de histórias e os escritores de hoje (adeptos ou não de formas breves) seja a necessidade urgente de se reinventarem e de reinventar os seus instrumentos. Só assim ** se percebe que os contadores de histórias tenham começado a contar histórias escritas (por eles mesmos ou por outros) e que os escritores comecem muitas vezes a dizer as suas histórias em público (e ou a escrevê-los para serem ditas).



* Estou viciado nas notas de rodapé, é apenas o que esta nota de rodapé diz.
** E esta reafirma. A culpa é do Rui Manuel Amaral. Leiam a entrada anterior (se é que ainda não a leram).

Doutor Avalanche

Sobre o novo livro de Rui Manuel Amaral posso , sem a menor hesitação, dizer que





ou talvez* não**.

* Digo "talvez", mas na verdade não tenho dúvidas que assim seja.
** Digo "não", mas podia perfeitamente dizer "sim".
*** Se não perceberam este texto não desesperem, é apenas porque ainda não leram Doutor Avalanche, o novo livro de Rui Manuel Amaral.


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [4]


[…]



O escritor olhou o negro da capa, atravessado pelo que parecia um ténue mas decidido raio de luz, pegou no livro, virou-o e revirou-o, folheou-o, abriu-o uma e outra vez, sopesou-o, sentiu-lhe a textura, a flexibilidade e depois atirou-o para cima da mesa e ficou a olhá-lo como se olha alguém que ainda queremos, mas já não desejamos.


Não tinha dúvidas sobre o que ia fazer: sabia o que tinha de fazer, ainda que tivesse preferido não ter de o fazer.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Poema a preto e branco



depois de

muitos livros derrubados

depois de

inúmeros olhares fixos e

incontáveis ataques relâmpago

depois de

vários lápis e canetas

atirados ao chão e

perseguidos até à morte

depois de tudo isto

a gata Becas mostra-se

finalmente num poema

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Destaque


Mutações do conto nas sociedades urbanas
(Mod. Eduarda Keating - CEHUM)
Leitura de microcontos – Luís Ene
Conto oral – David Heathfield
Contos e microcontos – Luís Ene, Rui Amaral, Clara Haddad e Celso Sanmartin em
conversa com Rita Patrício, Cristina Álvares e Sofia Afonso
Performance de um contador – Thomas Bakk

Centro de Estudos Humanísticos da Universidade de Braga - dia 4 - 14:30
programa completo aqui.

por aí

Não me perguntem porquê [3]

[…]

Há muitos anos que deixei de escrever, há quase tantos anos quantos se passaram desde a última vez que publiquei, mas agora estou decidido e irei até ao fim. Talvez esta não tenha sido a melhor forma de começar, mas não pretendo perder tempo a reflectir, quero apenas escrever e ir por aí adiante.

Quero falar do meu amigo porque quero que ele viva nestas páginas, e digo isto porque é assim mesmo que o sinto e não porque procure qualquer razão para o fazer: escrevo por necessidade; escrevo porque não posso deixar de fazê-lo, e só isso me importa.

Contarei esta história como a sinto, e à medida que se me for revelando, sem hesitações, mas também sem certezas, a não ser a de que contarei esta história o melhor que me for possível e a de que a contarei com verdade, a verdade tal qual a concebo.

O que comecei a contar aconteceu há pouco mais de um ano e, ainda que eu já conhecesse o Ângelo Durão antes disso, penso que esta é sem dúvida uma boa forma, ainda que não a melhor, de começar a contar a história que tenho para contar, pois ainda que tudo tenha começado antes, foi também nesse momento que tudo começou verdadeiramente.

Vou continuar a contar esta história até ao fim, devo-o a ele e devo-o a mim, é tudo o que tenho de saber.

Só preciso continuar a escrever, só preciso continuar a contar, na esperança de que se alguém vier a ler esta história possa, afinal, sentir tudo o que só escrevendo esta história conseguirei transmitir.

Ainda que não consiga dizer o mais importante, sei que se o escrever como o sinto, outros o poderão sentir também, e encontrar a verdade das mentiras com que conto esta história.

Estarei sempre presente no que escrevo, mesmo quando pareça estar ausente, e direi sempre a verdade, mesmo quando tiver de a imaginar, o que acontecerá muitas vezes: sei que só assim conseguirei contar esta história.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [2]

[…]


Quando abria um romance pela primeira vez, lia-lhe sempre o princípio e o fim, era um hábito de longa data, e naquele dia o hábito prevaleceu, ainda que conhecesse muito bem o romance em questão, uma vez que fora ele que o escrevera.

Leu as primeiras duas ou três linhas e depois saltou para o fim que, para seu espanto, encontrou diferente. Olhou o fim, olhou a capa, depois olhou o princípio e de novo o fim.

Ficou um bocado sem dizer nada, repetindo os mesmos gestos. Depois levantou-se, declarou terminada a sessão de autógrafos e pareceu ter a intenção de se dirigir de imediato para o local onde o livro estava à venda, mesmo ali ao lado, no outro extremo do pequeno pavilhão, a poucos metros de distância, mas deu finalmente pela mulher à sua frente, a mão estendida na sua direcção para que lhe devolvesse o livro, e entregou-lho num gesto mecânico, ao mesmo tempo que lhe dizia com solenidade: “Há um erro neste exemplar que altera por completo o sentido do livro!”

“Falta-lhe alguma coisa?”, perguntou a mulher, ao que ele respondeu, quase gritando, que era exactamente o contrário, e parou por momentos de falar, como para ganhar fôlego para prosseguir, mas ao aperceber-se de que estava alguém a comprar mais um exemplar naquele exacto momento, quase correu os poucos metros que o separavam da banca, não sem antes pedir atabalhoadamente à mulher, que esperasse, se fizesse o favor, que voltava logo, logo.

Quando o escritor lhe ordenou, sem mais, que não vendesse nem mais um livro, o representante local da editora, pediu-lhe repetidamente que se acalmasse e explicasse o que se passava, mas a venda já tinha sido feita, o comprador afastara-se já, e o escritor começou a gritar ao representante local da editora que guardasse os livros, ou melhor, que lhe desse os livros, que era inaceitável, que iam ver com quem se tinham metido, e tudo isto sublinhado pela sua mirada fixa e insistente. O outro continuava a olhá-lo, mas desistira já de lhe pedir que se acalmasse, e esperava apenas que tal acontecesse naturalmente. No entanto, o escritor entrara num estado de total excitação e pegava agora em cada um dos livros expostos e a todos espreitava o final, e de cada vez que o fazia, soltava um sonoro e rotundo “Foda-se!”, sublinhado com uma gargalhada longa e áspera, até que o representante local da editora perdeu as estribeiras e lhe gritou:

“Mas que bicho lhe mordeu?”

“O final não é este!”, respondeu-lhe o escritor, soletrando cada uma das palavras como se as proferisse com dificuldade, e apontava para as últimas páginas de um exemplar que mantinha aberto à sua frente. “O final não é este!”, repetiu perante o silêncio do representante local da editora e, sem qualquer transição, atirou o livro à cabeça do outro, que se desviou por muito pouco. Ficaram a fitar-se em silêncio, como a medir-se um ao outro, imóveis, e o escritor repetiu ainda, “O final não é este!”, parecendo incapaz de dizer outra coisa, e o representante local da editora, a deitar contas á vida, repetiu também ele a frase, transformando-a numa interrogação, como que a tentar ganhar tempo, “O final não é este?”, mas não ficou à espera de uma resposta e abandonou o pavilhão pela direita, rapidamente, sem olhar para trás.

O escritor não o seguiu, nem com o olhar, que estava pousado nos livros em cima da mesa, e começou de imediato a guardá-los na caixa de cartão, que encontrou no chão, abandonando também o pavilhão pouco depois com a caixa ao ombro.

Quando o representante local da editora voltou, acompanhado de um amigo, não fosse o diabo tecê-las, não encontrou nem o escritor nem os seus livros. Demorou-se apenas o tempo necessário para recolher o casaco e a maleta que deixara abandonados numa cadeira. Nem uma hora decorrera desde que a sessão fora dada por iniciada.