domingo, 21 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [10]

[…]



Escreveu uma segunda vez o romance e, tal como da primeira vez, escreveu tudo o que lhe veio à cabeça, sem se interrogar sobre o que fazia, mas sentindo a verdade do que escrevia; e no final tinha escrito o mesmo romance outra vez, pelo menos foi o que sentiu quando acabou, mas desta vez não se apressou a lê-lo, e ficou apenas a revê-lo durante dias na sua cabeça, até que concluiu que era o mesmo romance e que, mais do que o romance que tinha de escrever, aquele era o romance que era capaz de escrever.

A partir daí começou a dispor os diversos capítulos de diferentes formas, sem nunca os alterar, ensaiando várias possibilidades de continuidade, retirando apenas aqui e ali alguns deles, como que purgando o texto, para que o romance que fora capaz de escrever se aproximasse, mais por defeito do que por excesso, do romance que tinha de escrever.

Pensou que tinha já terminado o romance quando o deu a ler a Ana, mas só mais tarde o deu afinal por terminado, retirando-lhe o último capítulo, quando Ana já tinha enviado o romance a concurso.

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