terça-feira, 16 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [8]



[…]



Tinha escrito o romance uma primeira vez, em pouco mais de três meses; página após página, Ângelo Durão tinha escrito tudo o que lhe viera à cabeça.

Nunca escrevera nada antes, nem um conto, nem mesmo um poema, e muito menos um romance, mas escreveu de uma penada tudo o que lhe viera à cabeça. Escreveu e depois leu tudo, tal como escrevera, de fio a pavio.

Não era aquilo. Não era nada daquilo. Não tinha quaisquer dúvidas. Precisava fazer alguma coisa.

Tentou então que tudo batesse certo, reestruturar tudo o que escrevera, escrevendo e escrevendo de novo, usando o que escrevera agora como texto base; mas o romance desmoronava-se a cada alteração e parecia-lhe sempre um romance diferente, e nunca aquele que ele tinha de escrever. Até que desistiu e apagou tudo, definitivamente, sem apelo nem agravo.

Ana não chegou a ler essa primeiríssima versão.

Meses depois de ter abandonado tudo para apenas escrever, eis que lhe diz, sem mais nem menos, que vai começar tudo de novo.

Ana não compreende.

“Não podia ser alterado?” Ele responde que não. Tem de começar de novo. É o mesmo romance, só que tem de escrevê-lo outra vez.

Ana aceita, diz que está bem, mas não compreende.

“Mas não podias reescrever? Não é isso que os escritores fazem?” Mas Ângelo Durão diz que não sabe nada sobre escritores. O que ele sabe é que tem de escrever o romance outra vez. Tem um livro para escrever, mas não é aquele que escreveu. Por isso vai escrevê-lo outra vez.

Mas… começou ela, mas… desiste, e fica em silêncio, a olhá-lo.

“Confia em mim, tenho de escrever este livro”, diz ele. “Não sei porquê, mas sei que tenho de escrevê-lo”, e tenta sorrir, mas só os olhos desenham um ténue sorriso, quase ilegível.

“Tenho de escrevê-lo”, repete. “É uma questão de vida ou de morte.”

Então ela passa-lhe a mão pelo crânio nu, e diz-lhe mais uma vez que ele é louco, e que um dia terá de deixá-lo para que ele viva plenamente a sua loucura.

Ele encosta a cabeça no seu ombro e sente uma enorme vontade de chorar.

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