sábado, 13 de novembro de 2010

Apontamentos de uma viagem a Sevilha



I

As aves voam da mesma forma
despreocupada
tanto no cinzento como no azul
Será a felicidade
daltónica?

II

Olho os pinheiros que passam por mim
sabendo que sou eu que passo por eles
pinheiropinheiropinheiropinheiro
todosiguaistodostodosdiferentes
pinheiropinheiropinheiropinheiro
pinheiro é apenas uma palavra

III

Talvez este rio
esteja mesmo aqui e
não vá a lugar algum
Mas então de que tem
saudades o cais?



IV

Nem vou tentar
dizer estas árvores altivas
enfeitadas de frutos amargos e
de aves furtivas agitadas
por um vento gentil
Sei que só posso
dizer-me e
mesmo assim
fracassar

V

Se eu quisesse imitar o mundo
riscaria sem propósito a folha em branco
sem tentar dizer fosse o que fosse

à minha volta tudo acontece
sem que eu o possa evitar

à minha volta tudo acontece
sem que eu o precise dizer



2 comentários:

  1. Mas porque tu o disseste, mas porque tu o escreveste, tudo aconteceu, tudo acontece, e tudo acontecera, pelo menos sempre que alguem ouvir ou ler, e talvez mesmo nos intervalos, ninguem consegue saber...naquele espaço em que não precisas, tudo acontece noutra mente, noutra voz, noutra escrita, noutra pena, noutra dor...

    Etiqueta: acontecer de passagem

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  2. óptima continuação.
    obrigado, mestre.

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