terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um olhar amoroso

[de vez em quando tropeço neste conto que escrevi já há alguns anos, a pedido, e continuo a gostar dele]

Quando cheguei ao local das filmagens para ir buscar a Joana percebi de imediato que ela ainda estava ocupada. Aproximei-me o mais que pude, sem atrapalhar. O pessoal já me conhecia e deixou-me passar sem problemas.

“Ainda falta muito?”, perguntei ao Pedro Maluco, verdadeiro pau para toda a obra, e ele respondeu-me em voz baixa que devia estar a acabar, era só mais um bocadinho. Sentei-me no chão, acenei um cigarro ao Pedro, e acendi-o depois da sua aprovação silenciosa.

A poucos metros, um pouco mais abaixo, a Joana estava deitada de barriga para cima no capot de um Porsche vermelho, as pernas bem abertas e dobradas como âncoras. Olhava directamente para a câmara e gemia, enquanto com a sua mão de longos dedos massajava vigorosamente o clitóris.

Há dois anos que vivíamos juntos, dois anos que haviam passado depressa. Apaguei o cigarro e fiquei a olhá-la.

O actor masculino, um novo, que eu nunca tinha visto, estava agora a lambê-la, ao mesmo tempo que Julie o chupava. Pareciam todos muito excitados e a gozar bastante.

Lembrei-me do que a Joana me dizia muitas vezes, um pouco a brincar, um pouco a sério, “Sabes, somos verdadeiros atletas do sexo”. E olhando para os corpos contorcidos e em constante movimento só podia concordar.

O dia de filmagens estava a terminar e aquela devia ser a última cena. Harmonizar os três corpos e mantê-los unidos não era tarefa fácil, mas eles estavam a sair-se bem, evitando os velhos clichés. O homem tinha subido agora para cima do carro, apertava o torso de Joana com as pernas, e masturbava-se por cima dela, enquanto Julie a lambia ao mesmo tempo que os abraçava, formando assim uma estranha forma escultórica. Estavam mesmo a terminar, os gemidos haviam subido de volume e todos os corpos gritavam pelo clímax. Joana começou a abanar a cabeça de um lado para o outro.

Foi num desses movimentos que me viu e os nossos olhares se tocaram. Foi então que teve um orgasmo. Um inebriante e glorioso orgasmo. No exacto momento em que chovia sobre o seu rosto. Sei que foi assim porque o experimentei também. Ela nem precisava contar-me mais tarde, sei que o faria, e eu ia gostar muito de ouvir.

Mas o olhar que trocámos naquele instante foi tão intenso que dispensava quaisquer comentários. O sexo, como muitas vezes dizemos um ao outro nos momentos mais íntimos, é simples ginástica, agora o desejo, o desejo que incendeia o corpo e a alma, esse não está ao alcance de todos.

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