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quarta-feira, 16 de março de 2011

Nove anos depois...

N


Divorciaram-se e mudaram ambos de sexo. Nove anos depois encontraram-se e voltaram a casar. Há coisas que nunca mudam.


N


Nove anos depois de se ter apaixonado, continuava apaixonado. Manteve esse segredo até à morte.


N


Regressou nove anos depois. Estava tudo na mesma. Até ele era o mesmo.


N


A guerra terminou nove anos depois. Já ninguém se lembrava por que tinha começado.



N


Um dia resolveu colocar-se numa das entradas da cidade com um cartaz que dizia estar farto de tudo. Nove anos depois ainda ali estava. Só se foi embora quando lhe ergueram no local uma estátua em tamanho natural.

terça-feira, 15 de março de 2011

Amor mais que perfeito


Permaneceram fiéis,

um ao outro e a si mesmos,

amando-se à distância,


num absoluto respeito

pelas juras que então tinham proferido.

Apenas sabiam do amor


que continuava vivo neles,

desconhecendo por completo

o que acontecera ao outro.


A verdade é que não só não sabiam

um do outro como tudo fizeram

para nunca mais se encontrarem.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

releituras (ou reescritas)

A ler o excelente Histórias de Amor Rasgadas, de Marina Colasanti, deparo com duas releituras (ou reescritas), que me recordam a afirmação que a microficção pode distinguir-se em histórias originais e em releituras (ou reescritas) de histórias originais. Também já o tenho feito, e apeteceu-me também reescrever essas duas histórias.



A mulher dele


Quando ele ameaçava bater-lhe, ela ameaçava sair de casa, sem olhar para trás, e durante vários anos estas ameaças mútuas mantiveram-nos juntos, mas um dia ele deu-lhe sem mais uma estalada com as costas da mão direita, atingindo-a de surpresa na face esquerda.

Ela não gritou, nem mesmo de surpresa, nem mesmo de dor. Virou-lhe apenas as costas e saiu de casa, como tantas vezes ameaçara fazer se ele alguma vez lhe batesse.

Ele seguiu-a até à porta, parou à entrada e ficou por um instante em silêncio a vê-la ir embora, os olhos muito abertos. Depois começou a insultá-la.

“Grande vaca, ainda bem que te vais embora ou eu moía-te de pancada”, gritou.

Ela parou e lentamente voltou a cabeça para trás.

Nem por um momento pensou em voltar para trás, nem por um momento pensou em olhar para ele uma última vez, limitou-se a voltar a cabeça para trás e a fitá-lo, os olhos semicerrados.

Foi então que começou a empalidecer e ficou imóvel, a respiração suspensa.

À sua frente, de um momento para o outro, ele transformara-se numa estátua de sal.



A arte de beijar


A sua aparência geral era grosseira.

O rosto rugoso, com dois sinais enormes em destaque, ostentava um duvidoso tom esverdeado. As pernas eram muito curtas, e ao andar parecia dar saltos pequenos e desajeitados.

Era uma fraca figura, sobre isso ela não tinha dúvidas. Mas quando a tomava delicadamente nos braços e a beijava com paixão, ela fechava os olhos e quase acreditava beijar um príncipe.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Nove anos depois...


N


Nove anos depois, ainda se lembrava dela como se tivesse sido ontem a última vez que a vira. Fazia nove anos que a matara.


N


Um dia decidiu-se finalmente. Nove anos depois executou a sua decisão. Era um homem ponderado. Foi a primeira e a última vez que matou.


N


Nove anos depois foi-lhe dada a possibilidade de voltar a viver. Explicaram-lhe que era o procedimento normal. Disseram-lhe que merecera nova oportunidade. Afirmaram que tinha mesmo de ir. Nada o convenceu.


N


Nove anos depois tinham-no esquecido por completo. Foi então que voltou. Já ninguém se lembrava dele com vida.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

nove anos depois

N

Nove anos depois de ter desaparecido, encontraram-no em sua casa, sentado no sofá. Estava morto e bem morto. Ficaram todos muito surpreendidos, menos ele, que ficou muito aliviado. Há nove anos que esperava que atestassem a sua morte.

N

Só soube que ele estava morto nove anos depois de ter casado com ele. Depois disso ainda viveram mais dois anos juntos.

N

Nove anos depois de ter morrido escreveu o seu primeiro romance. A partir daí nunca mais escreveu.

N

Nove anos antes pensou que ia morrer, nove anos depois morreu. Não estranhem que assim tenha acontecido, pois se muitas vezes pensamos morrer, em regra só se morre uma vez.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Literatura abrupta

Mini, micro, nano... ficção, narrativa, conto...

Porque a brevidade nem me parece a característica mais importante, lembrei-me de literatura súbita ou (porque não?) abrupta.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Nove anos depois

Nove anos depois de ter desaparecido, encontraram-no em sua casa, sentado no sofá. Estava morto e bem morto. Ficaram todos muito surpreendidos, menos ele, que ficou muito aliviado. Há nove anos que esperava que atestassem a sua morte.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

as palavras

63 Um dia, todas as palavras que dissera e escrevera ao longo da vida voltaram para si numa azáfama, envolvendo-o numa gigantesca nuvem ruidosa, e nesse exacto momento percebeu que o seu fim estava próximo. A sua sorte foi que a morte, ali chegada, não o distinguiu no meio da confusão, e retirou-se, muito apressada, resmungando sem parar. Assim, durante mais algum tempo, ele pôde ainda continuar a falar e a escrever, o que fez, até que acabou por sucumbir a tamanha verborreia. Este é afinal o perigo que correm todos aqueles que não usam a palavra com rigor e moderação.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

49 Notícia devida


Um homem de trinta e cinco anos apareceu morto em sua casa ao fim da tarde. Felizmente, a sua mulher já aí estava, e tiveram assim a oportunidade de se despedirem antes de ele morrer de vez uma hora depois. Ao que se apurou, o homem estava morto há algumas horas, mas não tinha ainda dado por isso. Os exames realizados parecem confirmar esta hipótese, apontando para um situação rara de amnésia que impede o morto de tomar consciência da sua morte, estado que, segundo foi também referido, pode durar de uns escassos minutos a vários meses e até anos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

8 e 80

8

Era uma vez um rapaz que se sentava todos os dias à beira da estrada principal a ver passar os carros. Um pequeno muro era o seu observatório. Olhava a estrada com atenção durante longos períodos. Todos os dias. Sempre no mesmo local. O rapaz tornou-se homem, viveu a sua vida, envelheceu, mas continuou a sentar-se todos os dias à beira da estrada a ver passar os carros. Algumas vezes fazia-o noutros locais, mas apenas quando estava em viagem. Morreu vai agora fazer dez anos. O pequeno muro ainda lá está mas ninguém mais se sentou nele. Ainda ali passam carros, mas muito poucos.


80 Na estrada de Damasco

Você vai ter tudo o que precisa, diz-me uma mulher que não conheço, na fila do autocarro. Você é um homem bom, a vida vai correr-lhe bem, afirma-me um mendigo a quem dou algumas moedas. Acredite que é possível e mude a sua vida, anuncia-me o horóscopo numa das últimas páginas do jornal diário. E eu, que gosto de seguir as minhas próprias opiniões, fico a pensar que têm razão, que pouco a pouco, com muita paciência e persistência, tenho seguido o meu caminho, este mesmo que construo enquanto avanço, e que só me pode levar onde tenho de ir.

ESCRITA BREVE - biblioteca breve

Uma lista aqui.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

histórias & morais

15


A P.S.P. do Porto deteve ontem um homem de 23 anos que transportava o cadáver da namorada na mala do carro. O homem estava calmo e respondeu com solicitude a todas as perguntas da polícia. Afirmou que a levava na mala porque ela se sentia mais confortável assim. Quando lhe perguntaram como tinha morrido a namorada, respondeu que não sabia. Quando a conhecera já estava morta. Apesar de muito calada era divertida e boa companheira, acrescentou.


[livro inédito]

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Meia de língua

Hoje a primeira! Na RUA, em 102.7 ou on line, de 2.ª a 6.ª todas as as meias de 11, 13 e 16 horas.

Pensamentos

Os seus últimos pensamentos foram para a mulher e para os filhos. Depois disso nunca mais voltou a pensar. Desde então a vida tem-lhe corrido muito melhor.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

do amor

104 [Check list]

- Preparar um jantar frio.
- Abrir um tinto velho.
- Colocar as argolas que ele tanto gosta.
- Dizer-lhe que está tudo acabado.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Meia de língua

Meia de Língua começará a ir para o ar no próximo dia 31 na RUA, rádio universitária do Algarve, em 102.7, de segunda a sexta, penso que às meias, ou seja, 11:30 - 12:30 - 16:30.

A ficção no seu mínimo, a ficção no seu máximo.

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Literal
Nada vale a pena, disse o pato, e saiu a voar deixando a raposa sem almoço.

Trocadilho
Quanto mais desceres, disse-lhe o diabo, mais subirás na minha consideração.

O sangue
O sangue escorria, vermelho e insistente. Não aguentava mais. Tomou uma decisão. Nunca mais pediria um bife mal passado.

Simples
É tudo muito simples, disse o mestre, o mais difícil é aceitar que tudo é muito simples.

Perfeitos um para outro
Ele tinha tanto para dar. Ela queria tudo. Eram perfeitos um para o outro.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O spam é meu amigo

[Se o spam não continuasse a comentar não voltaria a ler alguns dos meus textos...]

notas de rodapé sobre o como e por que sou escritor
29 08 2006


Derramo palavras na folha branca,
manchas de tinta que falam de mim.

—>

Escrevo, escrevo, sempre e muito. Só depois é que dou atenção às palavras.

->

Crio as personagens e dou-lhes um olhar. Depois deixo que elas falem por si mesmas, e assim se escrevam.




Se quiseres ser escritor, disse-lhe eu, escreve, escreve, escreve; e já ele me ia perguntar pela vida, quando eu concluí, e vive, vive, vive.

->

E quando a morte chegar, possa eu afinal dizer, com orgulho, O que eu não vivi, senhora minha, eu li.

—>

Lê como quem escreve e escreve como quem lê, disse-me ele em mais um conselho de mestre para aprendiz, mas eu respondi-lhe de pronto, Mas isso não estraga a leitura e a escrita? Então ele riu à gargalhada e acho que foi esse o último conselho que me deu.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Meia de língua

Tudo se está a preparar para que muito em breve a Rádio Rua apresente uma rubrica diária em que lerei histórias da minha autoria (uma por dia, de uma linha ou duas). Por agora procedi a uma rigorosa selecção, escolhendo entre as mais pequenas as de maior qualidade e representatividade de processos. Ficam aqui cinco, que foi em grupos de cinco que as escolhi (de segunda a sexta).

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A verdade da mentira

Olha-me nos olhos e diz-me a verdade, disse ele, e ela olhou-o nos olhos, bem no fundo dos olhos e mentiu-lhe. No fundo, no fundo, era isso que ele queria, e ela bem o sabia.


O perfeccionista

Matou-se lentamente, muito lentamente, por isso, quando estava quase a chegar ao fim, teve que voltar ao início e matar-se de novo. Era um perfeccionista.


É o fim

É o fim, disse ele, e tudo voltou ao princípio. Mas era apenas o princípio do fim.


Compreender

Era um artista enorme, extraordinário, mas era um homem pequeno, mesquinho, execrável. As pessoas admiravam-se. As pessoas não compreendiam. As pessoas têm esta incompreensível crença que lhes diz que é preciso compreender.

Esquecer

Um homem esforçou-se muito por esquecer a mulher que o abandonara e foi bem conseguido. Quando ela voltou não a reconheceu e apaixonou-se outra vez.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

cores




CORES


Um sorriso amarelo encontrou um dia um sorriso azul e os dois sorriram um lindo sorriso verde.



Misturou sumo de tomate com sumo de limão e estranhamente obteve o que parecia ser sumo de laranja.



Estava debruçada a pintar um céu azul, quando começou a deitar sangue do nariz, e as gotas que caíram transformaram-se em violetas.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Exercício Inconsequente



Foi a última coisa que disse, mas ninguém o ouviu.
Ninguém o ouviu, e ele sabia que nenhum era surdo.
Nenhum era surdo, mas todos ouviam apenas o que queriam.
Ouviam apenas o que queriam mas viam ainda menos.
Viam ainda menos, mas estavam muito mais atentos.
Estavam muito mais atentos, mas não percebiam patavina.
Não percebiam patavina, mas também ninguém estava à esperava que percebessem
coisa alguma.
Ninguém estava à espera que percebessem coisa alguma, bastava que concordassem.
Bastava que concordassem, e foi isso que fizeram.
Foi isso que fizeram, e também isto e aquilo.

Isto e aquilo são a mesma coisa, afirmou, mas bem sabia que assim não era.
Assim não era possível, disseram-lhe, e era verdade, pois por mais que tentasse foi
sempre impossível.
Foi sempre impossível, ainda que às vezes quase parecesse possível.
Ainda que às vezes quase parecesse possível, ele gostava sempre de dizer que era
impossível.
Ele gostava sempre de dizer que era impossível, e às vezes até ele acreditava.
Às vezes até ele acreditava nas suas mentiras.

Nas suas mentiras encerravam-se muitas verdades.
Muitas verdades são esquecidas, outras apenas ignoradas.
Apenas ignoradas e nunca esquecidas estão muitas coisas que em nós fazem toda a
diferença.
Fazem toda a diferença, disse ele, sobretudo as pequenas coisas a que não damos
qualquer importância.
Não damos qualquer importância a quase tudo que é realmente importante.

Realmente importante é o amor, ele devia ser a nossa religião e a nossa fé.
A nossa fé, disse ele, consiste em não acreditar em nada.
Não acreditar em nada é ser capaz de acreditar em tudo.
Ser capaz de acreditar em tudo é estar aberto a tudo.
Estar aberto a tudo é estar completamente vivo.
Completamente vivo, disse ele, estou completamente vivo.
Estou completamente vivo, disse ele, mas estava quase morto.

Estava quase morto e ainda não o sabia.
Ainda não o sabia, mas ia sabê-lo não tardaria nada.
Não tardaria nada, já estava acontecer.
Já estava a acontecer, ainda que não o soubessem.
Ainda que não o soubessem, já pouco podiam fazer.
Já pouco podiam fazer, a não ser esperar.
A não ser esperar só lhes restava desesperar.
Só lhes restava desesperar: desesperaram.
Desesperaram e continuaram a desesperar.
Continuaram a desesperar porque nada mais lhes restava.
Porque nada mais lhes restava, começaram tudo de novo.
Começaram tudo de novo, uma e outra vez.

Uma e outra vez tentou ouvir, mas não conseguia.
Tentou ouvir, mas não conseguia, e quase desistia.
Quase desistia, não fosse ser teimoso.
Não fosse ser teimoso há muito que estaria vencido.
Há muito estaria vencido se não acreditasse na vitória.
Se não acreditasse na vitória só lhe restaria a derrota.
Só lhe restaria a derrota, se renunciasse ao sonho.
Se renunciasse ao sonho, teria de viver na realidade.
Teria de viver na realidade, estava a imaginar coisas.

Estava a imaginar coisas e não era a primeira vez.
Não era a primeira vez, nem seria a última.
Nem seria a última, rematou.
Rematou, falhou.
Falhou, voltou a tentar.
Voltou a tentar, voltou a falhar.
Voltou a falhar, pensou em desistir.
Pensou em desistir, seguiu em frente.
Seguiu em frente, seguiu o caminho.
Seguiu o caminho, passo após passo.
Passo após passo avançou.
Avançou e estava cada mais próximo.
Estava cada vez mais próximo, próximo de desistir.
Próximo de desistir, mas ainda longe.
Mas ainda longe já via a meta.

Já via a meta, dentro da sua cabeça.
Dentro da sua cabeça, era o vazio.
Era o vazio, um vazio construído.
Um vazio construído, feito de nadas.
Feito de nadas, assim sou eu.
Assim sou eu, disse ele, e calou-se.
Calou-se, mas não era o fim.
Não era o fim, mas já tinha acabado.
Tinha acabado, mas ninguém sabia.
Ninguém sabia até que ele disse: é o fim.
É o fim, disse ele, e foi a última coisa que disse.

[Escrever é continuamente dobrar e desdobrar palavras à procura de um sentido.]

Cruzeiro Seixas

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