segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [5]


[…]



Para que ele viva nestas páginas, terei de insuflar-lhe vida, terei de fazer com que ele viva de novo através de mim. Esta história é a sua história, sem dúvida, mas é também a minha história, e nem de outra forma a conseguiria escrever.


É-me bastante fácil evocá-lo, conheci-o bem, mas confesso que me seria igualmente fácil ainda que só o tivesse visto uma vez, o que diz muito mais dele do que dos meus poderes de observação e de efabulação.


Alto, magro, calvície precoce mas avançada, olhar fixo e insistente, nunca sorria, mas soltava inesperadas gargalhadas, longas e ásperas. Sempre achei que daria uma personagem magnífica.


Poderia dizer, sem errar muito, que ele vivia encerrado num mundo pessoal, no qual a literatura ocupava a maior parte, mas isso seria, ao mesmo tempo, dizer de mais e de menos.


Ouvi-o muitas vezes confessar que mais importante que os escritores são os seus livros, e talvez isso explique a sua atitude e o modo como defendeu o seu livro. Dizia também que era melhor ler os escritores do que conhecê-los, mas isso não impediu que nos conhecêssemos numa tertúlia de escritores, ainda que só mais tarde me tivesse confidenciado que ali aparecera completamente por acaso, apesar de nessa altura já ter escrito o seu romance premiado, facto que não me referiu, nem mesmo quando lhe perguntei se escrevia, tendo-se limitado a olhar-me com a sua mirada fixa e insistente.


Só mais tarde, quando começou a sua “cruzada”, é que me procurou para pedir a minha opinião, não sobre o que devia fazer, mas sobre como o poderia fazer.

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