sábado, 27 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [12]

[…]


“Então alteraram o livro contra a tua vontade?”
Olhou para Ângelo Durão, que lhe devolveu o olhar, e continuou quase de imediato, sem esperar qualquer resposta.
“Pois é, a mim também já me quiseram fazer o mesmo, mas eu mandei-os dar uma volta ao bilhar grande. No que eu escrevo ninguém mexe.”
Olhou à sua volta, fulminando todos com o olhar, as sobrancelhas carregadas, ao mesmo tempo que sorria, e repetiu a última frase antes de prosseguir.
“No que escrevo ninguém mexe! Vejam lá que um editor queria alterar o título de um romance meu, onde já se viu, os editores são todos a mesma merda, são como os críticos, escritores frustrados. Comigo é que não fazem farinha, ou publicam o que lhes envio tal qual está ou nada feito. Eu é que sou o escritor e é bom que não se esqueçam disso!”
Ângelo Durão continuava calado, o olhar passeando-se pelo salão, pelos grandes espelhos inclinados, pelas portas de madeira envidraçadas, pelo pequeno palco ao fundo. Tinha explicado à tertúlia ao que vinha, agora esperava.
O outro olhou Ângelo Durão, à espera de aprovação, mas ele nem lhe retribuiu o olhar, ocupado que estava a observar tudo à sua volta. E só quando o outro insistiu, repetindo a última frase, agora mais alto, é que Ângelo o olhou, mas nada disse, limitando-se a devolver-lhe o olhar.
“Eu é que sou o escritor e é bom que não se esqueçam disso!”
“Ó Francisco, tem dó, já conhecemos muito bem a tua opinião mas a verdade é que nem todos concordamos contigo. Eu até agradeço que me corrijam e me dêem sugestões, esse é afinal o trabalho do editor. Se aceitamos ou não as correcções e as sugestões, essa é outra questão, mas não me parece que devamos recusá-las liminarmente.”
Francisco Aresta carregou ainda mais as sobrancelhas e a boca pequena torceu-se num claro sorriso de escárnio, mas nada disse. Também ele conhecia muito bem a opinião do outro.
“Ainda há pouco li uma entrevista a um jovem escritor italiano, o escritor mais novo a receber o prémio Strega, e ele agradecia expressamente ao editor por lhe ter proposto um título diferente para o seu romance.”
Desta vez Francisco Aresta não se conteve e respondeu a Celestino, pontuando a frase com uma gargalhada: “No teu caso melhor seria que mudassem tudo!”
“Não sou um génio como tu!”, disse Celestino em voz pausada, mas Francisco Aresta nem lhe respondeu, ignorando-o por completo e voltando a concentrar-se em Ângelo Durão.
“Tens de consultar um advogado e fazer que ele consiga que as vendas sejam imediatamente suspensas. Já tive de fazer o mesmo uma vez, mas tratava-se de um caso de plágio, portanto uma situação diferente, mas vem a dar ao mesmo, o que é preciso é suspender as vendas e retirar o livro do mercado. Vê lá bem que uma gaja publicou um livro inteiro com poemas meus e ganhou um prémio importante com ele. Tudo de conluio com o cabrão de um editor a quem eu tinha enviado o livro.”
“Quem foi o advogado que consultaste?”
Francisco Aresta olhou o outro contrariado e replicou: “Porra, sabes muito bem quem foi que consultei! Porque raio é que me perguntas?”
“É capaz de ser uma boa escolha, sim senhor, é um bom advogado e também um poeta.”
“Um mau poeta!”, isso é que ele é, atalhou Francisco Aresta. “Antes beber um litro de azeite do que ler alguma coisa dele!”
Riram-se todos e Ângelo Durão olhou para o escritor de pêra e cabelo brancos, o mesmo que falara com ele da primeira vez, à espera que ele dissesse mais alguma coisa.
“É isso, é um bom princípio, já te dou o contacto dele. E até posso dar-lhe um toque, para ele estar preparado. Isto se quiseres, é claro”, disse para Ângelo Durão, e dirigindo-se sem transição aos outros: “Alguém tem mais ideias?”
“Que tal levá-lo à Rua do Imaginário?”

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