quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [11]

[…]



O advogado era um homem entroncado, de ombros largos e tórax proeminente, que se movia devagar mas com leveza. Acreditava que uma mente sã deve habitar um corpo saudável, e por isso desenvolvera o corpo e a mente com afinco e determinação. Era um homem pesado mas ágil, e essas características pareciam ter-se espelhado na sua poesia, que bebia dos clássicos mas que se abria também a experiências novas. Falava pausadamente e os seus gestos lentos tinham qualquer coisa de feminino, apesar da força que se sentia nele.

“Também escreve poesia?”

“Nunca escrevi poesia.”

“Mas devia, os ficcionistas têm muito a aprender com os poetas. Hoje em dia muitos escritores são poetas e romancistas, ainda que alguns poetas que passaram a escrever ficção não tenham voltado a escrever, ou pelo menos a publicar, poesia. É o caso, penso eu, do Paul Auster.”

O advogado, e também poeta, que muitos diziam mau poeta, tinha escrito, para além de um sem número de livros de poesia, também alguns livros técnicos sobre artes marciais, bem como inúmeros artigos em revistas e jornais.

“ Sei muito pouco sobre escritores e quase não leio poesia.”

O advogado olhou-o e passou uma das suas mãos enormes pelo rosto.

“Sei muito pouco sobre literatura!”, insistiu Ângelo.

“E no entanto isso não o impediu de escrever um excelente romance, segundo me disseram.”

O advogado cruzava e descruzava lentamente as mãos, apertando-as uma contra a outra, como se as acariciasse.

“Ganhou um prémio importante, quer em termos económicos quer em termos de prestígio.”

“Não sei nada sobre prémios!”, disse Ângelo Durão, num obstinado laconismo.

O advogado levantou-se do sofá onde tinha estado sentado, em frente a Ângelo Durão, e dirigiu-se para a secretária, sentando-se na cadeira giratória, que fez mover lentamente da direita para a esquerda, repetidamente, como se estivesse a decidir o que iria dizer.

“Quer então explicar-me o que o traz aqui?”

Talvez ele fosse um mau poeta, mas o que os escritores mais gostam, e sobretudo os poetas, é falar mal uns dos outros, e Ângelo Durão aprendera isso no contacto com a tertúlia, onde lhe fora afirmado que o advogado era um mau poeta, mas também que o mau poeta era um bom advogado, e ele estava ali para consultar um bom advogado, ainda que duvidasse que fosse assim que as coisas se iriam resolver.

“Ganhei um prémio literário, mas isso já você sabe!”, e Ângelo Durão calou-se de imediato, o que levou o outro a pensar que devia ser daqueles escritores que escrevem maravilhosamente mas que não gostam de falar, mas Ângelo Durão ia continuar e o advogado concedeu-lhe toda a sua atenção.

“O prémio, para além da entrega de um valor pecuniário, implicava a edição do livro. Foi isso que aconteceu. Mas o livro que foi publicado não é o livro que combinámos. E agora eu quero que o livro seja retirado do mercado.”

“E substituído?”

“O quê?”

“Se quer apenas que o livro seja retirado, ou pretende que seja retirado e substituído.”

“Pensei apenas em que fosse retirado. Isso parece-me o mais urgente, não quero que esse livro continue por aí.”

“Mas depois quer que seja substituído pelo, digamos, verdadeiro livro?”

Ângelo Durão ficou em silêncio, a olhá-lo com a sua mirada fixa, a careca a reluzir, o rosto sério, e o advogado deixou que um sorriso se desenhasse nos seus lábios, parecendo por instantes um enorme Buda.

“Vamos então por partes”, disse finalmente, “só lhe poderei dar uma opinião sobre o que fazer se conhecer a situação a fundo. Como julgo saber já um pouco da história, deixe que eu lhe faça algumas perguntas directas, que pode apenas responder com sim ou não.”

Ângelo Durão assentiu com a cabeça e o advogado começou a colocar-lhe as perguntas, à maior parte das quais Ângelo Durão respondia com igual gesto afirmativo.

“O seu romance ganhou um prémio que consistia na entrega de uma quantia em dinheiro e na sua publicação?”

“A versão enviada a concurso é a mesma que agora foi publicada?”

“Recebeu já toda a quantia em dinheiro?”

“Quando ganhou o prémio tinha já alterado a primeira versão?”

“Deu conhecimento desse facto de imediato aos responsáveis?”

“Foi só quando me enviaram as provas do romance para que me pronunciasse sobre as correcções efectuadas que pedi que retirassem o último capítulo.”

“E como o fez?”

“Devolvi as provas riscando todo o último parágrafo, e escrevi ao lado o sinal de eliminado, segundo as instruções de revisão que me enviaram.”

“Não contactou mais o editor, nem de outra forma lhe fez saber que não queria que o último capítulo não fosse incluído?”

“Só mais tarde voltou a contactá-lo e explicou-lhe a situação?”

“Pediu-lhe que o livro fosse retirado do mercado e ele negou-se?”

“Não se mostrou interessado em alterar o romance numa próxima edição?”

“O cabrão riu-se na minha cara!”, disse Ângelo Durão, e o advogado procurou raiva ou contrariedade no rosto do escritor mas só lhe encontrou tristeza, uma tristeza profunda, que muito o impressionou.

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