quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [6]


[…]



“Você deve estar doido”, disse o editor tentando conter o riso e quase se engasgando. “Ainda que fosse possível fazer o que propõe”, continuou, “seria sempre impossível ficar por aí.” E riu à gargalhada, escondendo a boca com a mão.

O escritor ficou a olhá-lo, os olhos muito abertos, e o editor ainda se riu mais, e quanto mais se ria, mais o escritor parecia ficar mais sério, e quanto mais sério parecia ficar o escritor, mais o editor se ria. Até que o escritor começou também a rir, e os dois riram em uníssono durante algum tempo.

“Será que viu a luz?”, interrogou-se o editor. “Ou será que enlouqueceu?”, questionou-se depois, lembrando-se que nunca tinha visto o escritor sorrir, e muito menos rir, ainda que poucas vezes se tivessem visto; e assim pensando deixou de rir, para constatar que o escritor continuava a rir à gargalhada, sozinho, e parecia, parecia cada vez mais zangado, agitando a mão direita num punho que ameaçava ir transformar-se em soco a qualquer momento.

E de repente também ele deixou de rir, olhou o editor ainda com mais intensidade e saiu batendo a porta com estrondo.

O editor ficou a olhar para a porta, com o rosto crispado, mas pouco depois sorria já e logo a seguir ria de novo, às gargalhadas. “Filho de uma grande puta!”, disse em volta alta para si mesmo. “É um chato do caralho mas faz-me rir, sobretudo quanto mais se zanga.”

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