sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Não me perguntem porquê [7]


[…]



Curiosamente, ou não, foi à tertúlia de escritores que Ângelo Durão recorreu. Tinha estado ali apenas uma vez, quase não tinha falado com ninguém, a não ser com um escritor de cabelo branco e pêra também branca, vinte anos mais velho, que lhe perguntara se ele também escrevia.

Ângelo Durão conhecia poucas pessoas e nenhuma delas era escritor. Ora o seu problema era sem dúvida um problema de escritor, e por isso pensou que o melhor que tinha a fazer era procurar a companhia de escritores.

Sabia que se reuniam regularmente numa associação cultural que explorava também um bar, onde tinha ido uma vez, beber um copo, a insistência da Ana, que dizia que ele nunca saía, nunca se divertia, só escrevia e, quando não escrevia, só pensava em escrever.

Por isso tinham saído naquela noite, por isso ele estava ali na mesma ocasião em que os escritores e candidatos a escritores também ali estavam. Ângelo Durão não conhecia nenhum escritor e nunca tivera vontade de conhecer, por nenhum motivo especial, a não ser que preferia os livros aos seus autores.

No que lhe dizia respeito, os livros podiam até não ter autores, como as árvores e as flores, disse, e nem por isso seriam menos importantes. Os escritores são pessoas como as outras, e por isso igualmente desagradáveis, dizia-lhe ele nessa noite, enquanto bebiam caneca atrás de caneca de cerveja, paixão partilhada pelos dois, mas Ana tinha algo para lhe dizer e ia dizê-lo, estava apenas a adiar.

“Enviei o teu romance.”

“O quê?”

“Enviei o teu romance!”

“Mas ainda não está terminado!”

“Não está terminado? O romance não está ainda terminado? Mas não me disseste.”

“Há muitas coisas que não te digo, há muitas coisas que não te posso dizer. Ainda hesito entre manter ou não o último capítulo.”

Estavam os dois ao balcão em forma de L, em pé, junto à porta que dava para a pequena sala de exposições, e foi para aí que se dirigiram à procura de alguma intimidade.

Nas paredes do pequeno compartimento espalhavam-se desenhos de diversos fellatios, em grandes planos que à primeira vista escondiam o óbvio, e isso pareceu diverti-los e distraí-los por instantes da conversa.

Ângelo Durão beijou-a nos lábios, delicadamente, e trincou-lhe ao de leve o lábio inferior, como se mais nada importasse.

“Olha, enviei-o, que se lixe!”

“Que se lixe!”

E pareciam de acordo, os corpos encostados, beijando-se sem pressas numa volúpia não inferior à que se soltava dos desenhos na parede.

“Enviaste para onde?”

“Para um concurso importante, com um óptimo prémio em dinheiro e com a possibilidade de o romance ser publicado.”

“Mas tu sabes que eu me estou nas tintas para isso!”

Os corpos continuavam colados, as bocas próximas, mas as palavras começavam, como sempre acontecia, a afastá-los.

“Eu sei que tu te estás nas tintas, mas eu não estou. Não podemos continuar a viver como vivemos. Tu não podes continuar a esconder-te do mundo. Já te disse que não quero viver assim. Tu sabes, Ângelo!

Ângelo olhou-a com o seu rosto severo, que o cabelo cortado muito curto, a acompanhar a calvície precoce e avançada, parecia acentuar. Era a mesma discussão de sempre e não lhe apetecia continuá-la, por isso voltou a beijá-la, mas desta vez foi ela que se afastou, dizendo que ia à casa de banho, e ele deixou-a ir, acompanhando-a até à até à porta.

“Vou ver se há alguma coisa ali”, disse ele antes se afastar em direcção ao salão onde se ouviam vozes animadas. Lia-se e discutia-se em voz alta, e ele sentou-se a uma mesa onde apenas estava um homem de cerca de cinquenta anos, de cabelo branco e pêra, também branca, que pouco depois se levantaria para ler um texto de sua autoria. Tinha entrado, sem saber, numa tertúlia de escritores.

Ficou por ali, esquecido de Ana, a ouvi-los ler e discutir com paixão sobre literatura, e foi neles que mais tarde pensou quando decidiu agir. Apesar de não gostar por aí além de escritores, aqueles tinham-no divertido.

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