terça-feira, 20 de novembro de 2012

O PORTUGUÊS SEM FILTRO


O PORTUGUÊS SEM FILTRO
Luís Ene



“Minha pátria é a língua portuguesa”
Fernando Pessoa


“Portugal: questão que tenho sempre comigo mesmo”
Alexandre O’Neill


Canto I

“Esta é a ditosa Pátria minha amada”
Luis de Camões

è



O que mais distingue os portugueses é a sua quase obsessiva necessidade de imitar os outros.



Um português nunca está bem ou mal, está sempre assim-assim. Ou então mais ou menos.



Escusado será dizer que o português adora a língua, mais a de vaca do que a de porco, sobretudo quando estufada, com ervilhas.



Não ter cão e caçar com gato, é ser esperto; ter cão e caçar com gato é ser português.



O português é um ser paradoxal, vive acima das suas possibilidades e abaixo de cão.



O português é o primeiro a classificar a sua condição como boa. Uma boa merda, se quisermos ser exactos.



O português odeia a corrupção. Odeia-a com a mesma intensidade com que inveja os corruptos.



O Homem está entre a besta e o arcanjo, o português está entre a besta e o marmanjo.



Os portugueses não existem, os portugueses são. Ou talvez se limitem a ser.



Os portugueses nascem curvados sob o peso da história e da vergonha. E é certo e sabido que quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita.



Os portugueses são pessimistas e taciturnos. Pessimistas a tempo inteiro, mas taciturnos só por turnos.



Os portugueses têm de ser pobres. Que não se tenha quaisquer dúvidas sobre isso! De que outra forma poderiam alguns estar cada vez mais ricos?



Os portugueses são tristes, tão tristes que os sorrisos têm sempre de se submeter a rigorosos testes de selecção.



Não é verdade que os portugueses sejam todos eles uma grande seca. Pelo menos 30% são seca extrema.


Se existisse um super-herói português estou certo que diria que com um grande poder vem sempre uma grande irresponsabilidade.



É certo e sabido que os portugueses amam os seus semelhantes. Por isso é que idolatram e escolhem para seus chefes homens sem qualidades, que acreditam acima de tudo na falta de qualidades dos portugueses.



Apesar do aumento crescente das desigualdades em Portugal os portugueses continuam cada vez mais iguais: nenhum quer ser diferente.



Os portugueses preocupam-se muito com quem são e com quem não são, quando melhor seria que se preocupassem com o que querem ser; ou então que não se preocupassem de um todo e se limitassem, apenas, activamente, a ser.



Os portugueses não discriminam, falam igualmente mal de uns e de outros.




Os portugueses invejam quem foram e lamentam quem são. A manterem-se assim, grande coisa nunca serão.



Os portugueses têm de mudar. Têm de deixar de ser portugueses.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

COMO SE ESCREVEM PEQUENAS HISTÓRIAS


  
Materiais:
1 – Um cão; Uma nuvem; Uma flor; Um homem.
2 – Comeu; Voou; Olhou; Pensou.
3 – Muito; Pouco; Devagar; Rapidamente
4 - Ninguém acreditou; Não podia ter feito outra coisa; Foi a primeira e a última vez; Depois morreu.

Modo de fazer:
Juntar um de cada pela ordem apresentada, pontuação à vontade.

Exemplos:
- Um cão comeu muito. Ninguém acreditou.
- Uma nuvem voou pouco. Não podia ter feito outra coisa.
- Uma flor olhou devagar. Foi a primeira e a última vez.
- Um homem pensou rapidamente. Depois morreu.

- Um cão voou devagar. Depois morreu.
- Uma flor pensou rapidamente. Foi a primeira e a última vez.
- Uma nuvem olhou muito. Não podia ter feito outra coisa.
- Um homem comeu pouco. Depois morreu.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Para sentir seu leve peso


Guardava o rouxinol numa caixinha. Tudo o que queria era andar com o rouxinol empoleirado no dedo. Mas se abrisse a caixinha, ah! certamente fugiria.
Então amorosamente cortou o dedo. E, através de uma mínima fresta, o enfiou na caixinha.

Marina Colasanti, Um Espinho de Marfim & outras histórias, L&PM Pocket, vol. 170

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

[...]



Não compliques; ou continuas ou desistes, a escolha é sempre fácil.

Luís Ene, Instantâneos, inédito

terça-feira, 31 de julho de 2012

OS ANJOS


*

Não sei se o céu e
o inferno existem
mas sei que os anjos não voam
movidos pela felicidade
mas pela mágoa

encontro-os muitas vezes
nos cafés tardios
em esquinas quebradas
e sei o que é preciso
para os levantar
do chão


por mais pesados
que sejam os seus sonhos
os anjos não são muito
diferentes de nós
apenas voam
livres





Luís Ene, poema e fotografia

quarta-feira, 11 de julho de 2012

terça-feira, 3 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

domingo, 1 de julho de 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

segunda-feira, 25 de junho de 2012

domingo, 24 de junho de 2012

sábado, 23 de junho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

Poemário Prostibular

Poemário Prostibular é o mais recente livro de Miguel Godinho, livro que já li e recomendo vivamente. Um destes dias será apresentado no JazZimute e terei então oportunidade de dizer mais alguma coisa. Por agora, a curiosidade levou-me a fazer algumas perguntas ao autor que gentilmente respondeu e que vos deixo aqui.

1. Porquê um livro de autor? Que vantagens encontraste nesse modelo?

Porque considero que cada vez mais a poesia só tem/faz sentido se for publicada desta forma: há “ controlo” sobre o destinatário; quem lê é quem realmente quer ler ou quem o autor acha que deve ler; o autor decide/tem autoridade sobre a forma / formato do livro, timings de publicação/apresentação; o autor paga e o autor recebe tudo, o autor não “anda desesperadamente à procura de editor”; o autor presta contas a si próprio, o autor é autor a tempo inteiro e totalmente (ir)responsável, etc, etc, etc...

 2. Foste tu que tiveste a ideia de espalhar os poemas pelas páginas em diferentes manchas gráficas?

Não. A ideia foi do meu amigo Ricardo (o designer/paginador). Devo dizer-te que, na primeira versão – que propunha já os poemas arrumados desta forma - vieram muitas páginas em branco (a meio do livro). Dizia ele que, a par de alguns poemas a negrito (que ele achou por bem apresentar assim pela “força dos poemas”), sentiu a necessidade de deixar alguns poemas respirar. Achei a ideia muito interessante mas, em conjunto, decidimos que talvez fosse melhor recuar porque podia não resultar: podia não ser entendido da forma que gostávamos que fosse. No entanto, a arrumação dos poemas acho que foi uma proposta muito boa. Gostei bastante e, modestamente, acho que resultou muito bem.

3. Se no teu primeiro livro, no que respeita à forma, se encontrava já a tua vontade e perícia na concisão em 3 ou 4 excelentes poemas breves, ela explode (para usar uma expressão prostibular) neste livro. Que caminho percorreste?

Não sei; nenhum... Foi um percurso natural. Gosto muito da concisão. Para dizer a verdade, quanto mais tento escrever, mais sinto a necessidade de cortar. O caminho faz-se sempre em direcção ao silêncio; um poema meu escreve-se sempre a andar para trás.

 4. Por outro lado há ainda uma inquietação, uma vontade grande de questionar, mas parece haver uma maior maturidade ou uma mais calma desesperança, se preferires. Motivos?

Talvez isso que dizes: maior maturidade. O que não quer dizer, obrigatoriamente, maior passividade. De todo. Quer dizer – isso sim – maior ponderabilidade, questionamento mais sereno. Mas questionamento, sempre.

5. Conheces Jorge Sousa Braga?

Claro. É uma das minhas referências. “O poeta nu” (poesia reunida) está sempre comigo. É dele uma das minhas máximas: “Quanto mais me dispo / menos nu / me sinto”. É essa a razão da minha escrita.

6. O poeta vai ao prostíbulo ou o poeta é ele mesmo a puta?

O poeta vai a todo o lado; tem de ir a todo o lado; deve ir a todo o lado. Todos os lados são para ser lidos. O poeta é puta, é chulo e é cliente. O poeta fode(-se) porque quer foder, quer ver foder e quer ser fodido. O poeta é a alegoria do prostíbulo



segunda-feira, 14 de maio de 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012

FIM


Tentaram vezes sem conta, mas as histórias nunca coincidiam, até que se separaram com lágrimas nos olhos.

domingo, 6 de maio de 2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012

UM CONTO...

WHAT'S LOVE GOT TO DO WITH IT?

Acordou com o telemóvel. Estremunhado. Já passava das três da manhã. - Encontramo-nos daqui a meia hora? Levantou-se, lavou a cara, vestiu-se, já acordado mas ainda a dormir. Antes de sair olhou-se no espelho da entrada. Um sorriso brilhava-lhe no rosto. Olhou o relógio, ainda tinha muito tempo. Em pouco mais de dez minutos estaria lá, nem precisaria andar muito depressa. Mas era preciso que não chegasse atrasado ou iria deitar tudo a perder.

As ruas estavam vazias e a cidade adormecida só era perturbada aqui e ali por grupos de estudantes embriagados. Começou a percorrer o mesmo caminho de sempre, quase a direito, e pensa quantas vezes o fez nos últimos meses, sempre a altas horas da noite, sempre quando menos esperava. Os últimos meses têm sido difíceis. O Verão acabou. O dinheiro que ganhou já desapareceu. E emprego nem vê-lo. Mas ele sorri ainda. Tem vivido da generosidade de alguns amigos e dos estratagemas do costume. É burro velho, como costuma dizer, e se burro velho não aprende línguas é porque já tem a escola toda. O cabelo grisalho e o corpo agigantado dão-lhe a idade que tem, já passou dos quarenta, e ele tem a noção que o pior ainda está para vir, mas não pensa muito nisso, vive o momento, um sorriso sempre no rosto.

Um grupo de estudantes, rapazes e raparigas, barra-lhe o caminho e oferecem-lhe de beber. Ele recusa, e tenta passar por eles, mas eles rodeiam-no a rir e impedem-no de passar. Ele afasta-os, com bons modos, mas com gestos decididos, e eles deixam-no ir. Nem pensar em atrasar-se ou deitaria tudo a perder, mas um golito até que nem cairia mal. Olha para trás e os estudantes acenam-lhe ainda com a garrafa. Quase que vai ao encontro deles, mas continua o seu caminho.


Sai sozinha do bar do bar onde trabalha e caminha até ao parque onde tem o carro. E pensa no que é o amor e que importância tem, como na canção. Senta-se ao volante. Não tem sono. Tira o telemóvel da mala e liga-lhe. Quando ele finalmente atende diz-lhe apenas: Encontramo-nos daqui a meia hora? E desliga sem esperar resposta.

Dá a volta à chave e pensa que os encontros são fáceis e ainda mais fáceis as separações, e ri a sua risada curta. E pensa que quando chegar a casa vai tomar um duche quente. E ri de novo. E sente-se feliz. O que se leva desta vida, diz muitas vezes, é o que se come, o que se bebe e o que se fode. Diz isto e sorri. Vive o momento.


Verdade seja dita não fala muito, a não ser quando bebe, o que acontece cada vez mais, sempre que tem oportunidade, mas, também, diz a si mesmo: O que se leva desta vida? Sim, o que se leva? A meio do caminho, à entrada do Largo de S. Pedro, vê que o bar da esquina ainda está aberto, e pensa se não deveria entrar e beber um copo, só um, para arrebitar, que até que precisa.

Conheceu-a no bar onde ela ainda trabalha, um bar de lésbicas, como lhe explicou o amigo que o levara ali. E que fazemos nós num bar de lésbicas?, perguntou-lhe, e ele respondeu que tinha tudo a ver com eles. Então não gostavam eles de mulheres, as lésbicas também. Tinham tudo em comum. Na verdade, se pensarmos bem nisso, também nós somos lésbicas. Entrou, desconfiado, quase empurrado pelo amigo, e foram-se sentar ao balcão. Foi ela que veio pedir o que queriam. Agradou-lhe, agradou-lhe bastante. Mas esta também é lésbica, perguntou ao amigo, e ele respondeu-lhe que sim, que era, mas ele não se convenceu, nem mesmo quando o amigo lhe apontou uma mulher loura e lhe garantiu que tinham vivido juntas. Dias depois voltou ali quase à hora do fecho, já bem bebido, e sentou-se ao balcão, a olhar para ela e a sorrir. Ela sorriu-lhe também e disse-lhe: Estamos quase a fechar, queres levar-me a casa? E ele respondeu com um sorrido ainda mais aberto.


Olhou o relógio, ainda tem bastante tempo para um copo, só um, para arrebitar. E entrou no pequeno bar da esquina. Entrou e deu logo de caras com um amigo, um dos poucos, muito poucos a quem deve muitos favores, e já ele lhe oferece um copo e o convida para sentar-se com ele. Aceita mas vai logo dizendo que é só um e que se tem de ir embora logo, logo. O outro sorri e pergunta-lhe se vai entrar de serviço. Ele sabe, sim, ele sabe, ele sabe que quando ela telefona, quase sempre a meio da noite e sempre sem aviso, ele vai, vai sempre, o mais depressa possível. Só uma vez não foi, era-lhe impossível, e só uma vez chegou atrasado. Ela foi muito clara, ou ele estava sempre disponível, ou ele chegava sempre a horas, ou ela nunca mais lhe telefonava. Ele concordou, com um leve acenar de cabeça e um sorriso.

Os amigos, os poucos que conhecem a história, brincam com ele, perguntam-lhe quem é afinal o homem naquela relação, se ele ou ela, e riem e riem, mas ele sorri e nem mesmo lhes responde. O amigo ri e diz-lhe de novo, com um piscar de olho: Então quer dizer que vais entrar de serviço! E convida-o para mais um copo, e ameaça-o de nunca mais falar com ele se não beber mais um copo, e ele aceita, que se foda, mas explica mais uma vez ao amigo que já não tem idade para dizer não à vida, e muito menos a uma boa foda, e sorri, e bebe o segundo copo, e apressa-se a sair. Sabe muito bem que sempre que ela telefona ele vai, nunca diz que não e chega sempre a horas. E quando terminam e ela lhe pede para sair, ele sai, sem protestar.


Às vezes perguntam-lhe se em criança jogava à bola e brincava com carrinhos, e ela ri a sua risada curta, mas não responde. Que mania de tirarem conclusões apressadas, pensa, e ri, mas não diz nada. Na verdade, se querem mesmo saber, gostava de brincar com bonecas, e é isso que às vezes diz, quando nada lhe perguntam, e acrescenta, com uma risada, E ainda gosto.


Saiu do bar quase a correr, atravessou o largo, e a igreja do Carmo soltou a meia hora, sobressaltando-o. E é então, como se tivesse sido dada essa ordem, que começou a chover com força. Abrigou-se, olhou o relógio e diz a si mesmo que ainda tem tempo, e fica à espera que a chuva passe, mas é o tempo que passa, e a chuva continua, e ele não quer chegar atrasado. Então larga a correr e vai assim até casa dela, debaixo da chuva que não pára de cair com força.

Ela abre-lhe a porta, nua, o cabelo ainda a escorrer, e solta a sua risada curta quando o vê assim, naquele estado, encharcado, ofegante, a sorrir. Manda-o entrar, despe-o, leva-o para a cama e, como sempre, faz dele tudo o que quer. Bem, quase tudo, que apesar de dócil, ele tem certas reservas.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

folha em branco


o branco da flor / o branco das nuvens / o branco dos teus olhos

quinta-feira, 19 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

RIMA


Os poemas são

casas abandonadas

a que sempre regressamos

à procura de tesouros

há muito esquecidos

bem no fundo de nós.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Epitáfio

PARA ALÉM DO POEMA




É verdade que escrevo

talvez por necessidade

mas isso não vem ao caso



e sou sempre eu que escrevo

mesmo quando a mão escreve

o que eu não sou capaz



mas se querem saber

se querem mesmo saber

o que me motiva



o que me motiva

está para além das palavras

muito para além das palavras



o que me motiva

está para além de mim

muito para além de mim




sexta-feira, 13 de abril de 2012

TODOS OS ESCRITORES ESCREVEM SEMPRE DE MAIS





Fui infeliz muitas vezes

é verdade

e voltarei a sê-lo

sem dúvida

mas não tenho

estou certo disso

uma verdadeira vocação

para a infelicidade.


Parece-me que

se assim o posso dizer

até sou feliz

a maior parte do tempo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

BREVE ENSAIO SOBRE A UTILIDADE/INUTILIDADE DA ARTE

[a mexer/remexer em textos antigos]


 
Mas a arte…
é útil ou inútil?
perguntas-me

E respirar,
contraponho,
é útil ou inútil?


e sinto-te
por um instante
suster a respiração.




segunda-feira, 9 de abril de 2012

Um poema esquecido

[à procura de um texto antigo, encontro este poema de que não me recordava já]


Medo, pois é, o medo!


Se o céu tivesse medo
nunca rebentaria em azul
e nunca mas nunca
as nuvens nele escreveriam
os seus poemas

Medo, pois é, o medo!

Se o mar tivesse medo
nunca beijaria a terra
sabendo de cada vez
que nunca mas nunca
ela será sua

Medo, pois é, o medo!

Não tenhas medo
deixa que te ame
não me afastes
o medo é o nosso
maior inimigo

domingo, 8 de abril de 2012

AI QUE COISAS NÚMERO ....



A verdade do
que escrevo estará sempre
em quem me leia





As palavras têm 
som e significado. Ouve
apenas o que elas dizem.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

[POEMA PARA SER LIDO EM VOZ ALTA, PAUSADA E INTENSAMENTE]



Se eu quisesse

eu podia,

separar o corpo

da mente.

Assim,

de um momento para o outro,

de repente.

Se eu quisesse

eu podia,

mas pergunto-me

onde é que eu

afinal ficaria.

Separado o corpo

da mente,

o que de mim

restaria?


quarta-feira, 4 de abril de 2012

UM POEMA



ESPANTO PRIMORDIAL




inspiro e expiro
num movimento contínuo
que me afasta
e me aproxima
de mim mesmo
e do mundo


o mundo só existe
a cada palavra que digo
encerrando-me
libertando-me
uma e outra vez


há nesta loucura
uma enorme tranquilidade
incomensurável
inapelável
peixe água lago
espanto primordial

O QUE É SER PORTUGUÊS ou O PORTUGUÊS SEM FILTRO


[O final do 3.º Canto que tenho vindo a publicar aqui]



Ser português é uma arte muito antiga, desacreditada e inútil, completamente inútil.

Ser Português não se ensina; mas também quem o quereria aprender?

Nada vale a pena em Portugal, quando não é o corpo é a alma que está mal.

Os portugueses vão sempre pelo sonho, por isso é que dormem muito e nada lhes tira o sono.

Os portugueses acreditam em Portugal, não parecem é acreditar que são Portugal.

Os portugueses deram novos mundos ao mundo, importa agora que inventem Portugal para si.

[continua...]

sexta-feira, 30 de março de 2012

MAIS MILLÔR

Este é outro texto de que me lembrava bastante bem:

Temos que ser realistas e humanos com relação à situação presidiária do país. Realistas para declarar que possuímos um dos piores sistemas penitenciários do mundo. Humanos para tentar melhorá-lo A reforma do nosso sistema carcerário teria efeitos revolucionários. Acredito mesmo que o péssimo estado de muitas de nossas prisões é o que as impede de serem ocupadas por algumas pessoas de nossa melhor sociedade.

CONVERSA COM DIDU DE SOUZA CAMPOS (HOMEM DO SOCIETY QUE, COM TEREZA DE SOUZA CAMPOS, FORMOU O CASAL 20).
1959

MILLÔR



Se há livro que devo incluir nas minhas referências este é sem dúvida um deles. Li-o há muitos anos, quando apenas escrevia na minha cabeça. Há excertos que ainda hoje me lembro quase na íntegra, como o que incluo a seguir.



"Um cego apura profundamente seu senso de audição. Essa afirmativa desvairada de otimistas que estão sempre buscando uma compensação impossível para os desastres naturais e os espantosos erros da natureza, só pode ser ratificada e apoiada por um exemplo ainda mais visível da lei das compensações: um indivíduo com uma perna mais curta do que a outra tem sempre, infalivelmente, a outra perna mais comprida."
MANIFESTO CONTRA A NATUREZA. 1956

E outros que leio agora como se fosse a primeira vez :) e me fazem rir e chorar

"No Brasil, atualmente, só há um extremismo perigoso: o dos indivíduos extremamente conservadores."
CONVERSA COM FERNANDO SABINO, JORNALISTA, ROMANCISTA.



quinta-feira, 29 de março de 2012

ai que coisa #


escrevo um verso

depois ainda outro
termino cansado

quarta-feira, 28 de março de 2012

BREVE ENSAIO SOBRE A POTÊNCIA (EXCERTOS)

(...)

3

nenhum homem que atravesse
o eixo mais ao centro. a espuma
produz-se onde a saudade é uma
cabeça filtrada pla desgraça.
forma-se ideias na direcção da
cor: os peixes acreditam que o
sal é uma excrecência da luz.

(...)

17

O homem usa o boi e a evidência
e troca no mercado a luz do vício.
Lava poucas vezes o cabelo embora
não saiba que o desamor faz mal; e o
futuro inveja-o por isso. Tem uma dor
nas costas do trabalho e queixa-se
da alma que nunca soube onde fica.

(...)

29

Os anjois são recicláveis e a literatura
controla o tráfego aéreo. No porão do
pensamento acenamos à suavidade,
enquanto Deus é uma sala de fisioterapia.
Conservamos as fábricas de electricidade
em níveis aceitáveis de educação sentimental.
Somos homens negros paridores da luz.

[...]

Rui Costa (mais sobre rui costa e poemas)

[ao contrário do que tento sempre, dizer menos do que quero dizer, o Rui Costa usava a escrita como um centro de atracção, o poema como um buraco negro, capaz de convocar a realidade ao mesmo tempo que a criava. Discutimos algumas vezes, ele era mais sábio do que eu, ou apenas via melhor do que eu, mas nele, tal como em mim, gosto de acreditar, a luz e a escuridão nunca se separavam e partilhavamos/partilhamos o gosto pela experimentação e pelos limites.]

terça-feira, 27 de março de 2012

UM POEMA DE JORGE SOUSA BRAGA


STRIP-TEASE


Quanto mais me dispo
menos nu
me sinto


segunda-feira, 26 de março de 2012

PORTUGAL



Olho a fotografia e recordo-me daquele filme do Woody Allen em que um personagem tinha dificuldades em manter-se focado. Eu e o Paulo Pires lemos Portugal, um poema de Jorge Sousa Braga e o esforço para nos mantermos focados é evidente. Foi no Dia da Poesia, no Bar Catita & Companhia, em Olhão.
Obrigado Abel, pela foto.

domingo, 25 de março de 2012

AI QUE COISA(S) - 4



Um corpo também
se abandona Um corpo
também se habita

sábado, 24 de março de 2012

AI QUE COISA(S)



nunca estou só
tenho sempre a minha poesia
e a minha vaidade

sexta-feira, 23 de março de 2012

AI QUE COISA 2



ai que o amor
lamento profundo
é complicado demais

quinta-feira, 22 de março de 2012

AI QUE COISA


contigo eu consigo
esquecer o amor
e vivê-lo

quarta-feira, 21 de março de 2012

o que é a poesia


A ema vinha e depois ia, sempre em grande correria, e eu dei por mim a pensar que o pó que a ema levantava quando se ia, era, ao mesmo tempo, poema e poesia.

terça-feira, 20 de março de 2012

DECLARAÇÃO PARA OS EFEITOS TIDOS POR CONVENIENTES



Não me interessa a poesia nem os poetas
e muito menos
a sua vida
Interessa-me a penas a poesia que existe
na vida de todos
os dias
e que às vezes
atravessa inadvertida
os poemas
e os poetas

Luís Ene




segunda-feira, 19 de março de 2012

Manoel de Barros

Poesia, s.f.




Raiz de água larga no rosto da noite

Produto de uma pessoa inclinada a antro

Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã

Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de

um homem

Designa também a armação de objectos lúdicos com

emprego de palavras imagens cores sons etc.

geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas

loucas e bêbados





O POETA



Vão dizer que não existo propriamente dito.

Que sou ente de sílabas.

Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.

Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som

das palavras

Ou é ninguém ou é zoró.

Eu teria treze anos.

De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que

se perdia nos longes da Bolívia

E veio uma iluminura em mim.

Foi a primeira iluminura.

Daí botei o meu primeiro verso:

Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.

Mostrei a obra pra minha mãe.

A mãe falou:

Agora você vai ter que assumir as suas

Irresponsabilidades.

Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

 
Manoel de Barros

domingo, 18 de março de 2012

[...]

ESCREVER NÃO É FALAR, É OUVIR.


sexta-feira, 16 de março de 2012

Dois tipos de portugueses

Há dois tipos de portugueses: os que são e os que não são.
Por sua vez os que não são dividem-se em dois tipos: os que deixaram de ser e os que nunca foram.
E os que deixaram de ser ainda podem ou não voltar a ser, assim como os que nunca foram podem talvez vir a ser ou nunca serão.
Já os que são, são, ou então não são.

terça-feira, 13 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

ARTE DE SER

não te iludas
para ser é preciso
querer

não tenhas a menor
dúvida

mas tem cuidado
muito cuidado

não vás querer
ser quem
não és


Luís Ene

quarta-feira, 7 de março de 2012

PORTUGAL EM POEMAS (2)

Portugal Futuro

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

in “Homem de Palavra[s]”, 1969, de Ruy Belo

[Sobre Ruy Belo]

SER PORTUGUÊS OU O PORTUGUÊS SEM FILTRO

Os portugueses espalhados pelo mundo sentem sempre saudade da ditosa pátria sua amada, aquele lugar triste onde nasceram e onde cedo conheceram o exílio.

terça-feira, 6 de março de 2012

PORTUGAL EM POEMAS - 1

[Foi a Paula que me chamou a atenção para este poema e me pôs a caminho...]



A PORTUGAL - JORGE DE SENA



Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.

Nem é ditosa, porque o não merece.

Nem minha amada, porque é só madrasta.

Nem pátria minha, porque eu não mereço

A pouca sorte de nascido nela.



Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta

quanto esse arroto de passadas glórias.

Amigos meus mais caros tenho nela,

saudosamente nela, mas amigos são

por serem meus amigos, e mais nada.



Torpe dejecto de romano império;

babugem de invasões; salsugem porca

de esgoto atlântico; irrisória face

de lama, de cobiça, e de vileza,

de mesquinhez, de fatua ignorância;

terra de escravos, cu pró ar ouvindo

ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;

terra de funcionários e de prostitutas,

devotos todos do milagre, castos

nas horas vagas de doença oculta;

terra de heróis a peso de ouro e sangue,

e santos com balcão de secos e molhados

no fundo da virtude; terra triste

à luz do sol calada, arrebicada, pulha,

cheia de afáveis para os estrangeiros

que deixam moedas e transportam pulgas,

oh pulgas lusitanas, pela Europa;

terra de monumentos em que o povo

assina a merda o seu anonimato;

terra-museu em que se vive ainda,

com porcos pela rua, em casas celtiberas;

terra de poetas tão sentimentais

que o cheiro de um sovaco os põe em transe;

terra de pedras esburgadas, secas

como esses sentimentos de oito séculos

de roubos e patrões, barões ou condes;

ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,

és mais que cachorra pelo cio,

és peste e fome e guerra e dor de coração.

Eu te pertenço mas seres minha, não.



Jorge de Sena

[LER JORGE DE SENA]

SILOGISMO




O poeta procura a solidão ou a solidão
procura-o?

O poeta encontra a solidão ou a solidão
encontra-o?

A verdade é só uma, mas percorre sempre
múltiplos caminhos.

Nem sempre procuramos o que
encontramos.

Nem sempre encontramos o que
procuramos.

O poema encontra afinal o que
não procura.

O poema procura afinal o que
não encontra.

O poema não é pergunta nem
é resposta.

O poema é um lugar
ermo.

A solidão do poeta é
a solidão do poema.

[Luís Ene]

segunda-feira, 5 de março de 2012

O POEMA

O poema pode ser público
o poema pode ser privado
pode ir sempre em frente
pode avançar de lado
O poema pode ser
aquilo que bem quiser
prato de sopa cheio
ou simples colher
o poema pode ser tudo
só não pode ser
mentira

CERTEZA

Olho com espanto
repetido
a ilha que se move
na linha do horizonte

E de nada me
adianta
saber que é
afinal um barco

A poesia não é
mais do que
a verdade à procura
de si mesma

[...]


sábado, 3 de março de 2012

[...]

escreve-se o poema
para que ele nos faça
dizer

o que de outra forma
nunca conseguiríamos
ouvir

quinta-feira, 1 de março de 2012

SER PORTUGUÊS OU O PORTUGUÊS SEM FILTRO

[...]

Se existisse um super-herói português estou certo que diria que com um grande poder vem uma grande irresponsabilidade.

(em construção)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ingenuidade

Será que a palavra árvore
tem folhas e raízes?

Sento-me à sua sombra
a pensar e as raízes afundam-se
céleres no silêncio da folha.

[inédito]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

CARTA DE AMOR A OPHELIA

quando
me olhas
fervo

quando
me tocas
ardo

o teu amor
cega-me

dor intensa
corrosiva

és ácido
mais que
sulfúrico

meu pequeno
pequenininho
ninho

24.02.2012
às 6 da tarde

[inédito]

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O MEU MAIOR DESEJO



Qual é o teu maior desejo?
- perguntou,
qual poderoso génio das
mil e uma possibilidades,
e tu respondeste-lhe,
um sorriso obliquo
rasgado de luz,
que querias:
Dançar…
com uma rapariga!

Tê-la
por momentos
nos meus braços,
os corpos confundidos
mal tocando
o chão.

Tão perto e tão longe
da realidade,
tão perto e tão longe
da perfeição.

Sorrio da tua pura
e intensa sabedoria.
Sorrio contigo, sorrio
de mim mesmo.

Porque também eu sinto
que a felicidade não é mais
do que isso:
estar afinal
tão perto e tão longe
da verdadeira sabedoria,

estar afinal
tão perto e tão longe
da verdadeira
satisfação.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

DEUSA

Queria tanto
passar um dia contigo
em Vénus
com ou
sem camisa

P.S.
A poesia não se explica, eu sei, mas a duração do dia em Vénus corresponde a 243 dias na Terra.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

NO CÉU NEGRO

Não é usando o adjectivo escuro
ou obscuro
que o poema se escurece

ele possui a sua escuridão
uma noite que
o esconde e molha no céu negro

Gastão Cruz
in Escarpas 2010

lido em "Algarve - 12 Poetas a sul do Século XXI", Livros Capital

poemas aqui, aqui, e ainda um ensaio e uma entrevista

domingo, 19 de fevereiro de 2012

poemas avulsos


1.
talvez as palavras nada digam
verdade seja dita
as palavras não
têm boca
mas não é menos verdade
que se dizem
dizendo-nos

2.
queria tanto
passar um dia contigo
em Vénus
com ou
sem camisa

[inédito]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ESCRITA POR ENFORCAMENTO



1.



Quando deu entrada na prisão começou a ter sérios problemas em dormir, de tal forma que toda a noite dava voltas e mais voltas na cama. Acabou por morrer dias depois, estrangulado com os lençóis.



2.



Quando o prenderam, soube de imediato que estava em maus lençóis, mas só soube quão maus eram,
quando eles lhe apertaram o pescoço sem apelo e o asfixiaram até à morte.



3.



Foi encontrado morto na sua cela, quando ninguém estava já à espera, depois de ter ameaçado vezes sem conta que se enforcaria.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Talvez eu devesse dedicar-te este poema mas tu ias sem dúvida procurar compreender

não sei porque algumas
palavras
soam ressoam
de mais em mim
se pelo seu som se
pelo seu significado

seja como for
processo sem sentido
processo consentido
nunca
mas nunca
procuro
compreendê-lo

não há como prender
as palavras
e esperar que expliquem
o que  elas não sabem
nem nós precisamos
alguma vez de
saber e

muito menos
sim, muito
muito menos

compreender

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Renove a sua cultura, Leia Mais Maias



A propósito desta campanha já muito se disse, pelo que me limito a lembrar que levanta questões muito interessantes. Reacções e consequências mereceriam análise cuidada.
Pela minha parte fiquei às voltas com o jogo de palavras implícito e as suas possibilidades publicitárias e culturais, mas não me saiu grande coisa.
Quanto aos Maias pensei em Mais Maias e talvez uma campanha para a Leya, que podia ser Leya Mais Maias. Os termos da campanha ficam em aberto.
Quanto à frase de fundo, A Cultura Renova-se, na lógica do jogo de palavras, mais ou menos trocadilho, julgo que a Renova é que poderia usar essa frase, fazendo imprimir obras literárias nos rolos de papel higiénico. Para além de então fazer completo sentido a frase  A Cultura Renova-se, também poderiam utilizar a frase Renove a sua Cultura.
E já que penso nisso, até podiam unir esforços e lançarem uma campanha comum:
Renove a sua Cultura, Leya Mais Maias.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

AINDA OUTRO POEMA



caíste

na direcção

do centro do

mistério



voluntária

involuntária

mente



numa procura

que sempre

procuraste

até ao fim e



afinal

deixa-me

que te diga

sem mais



só isso importa

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Foda-se, foda-se, foda-se!

Foda-se! Também eu também sempre estranhei o Rui.
Foda-se! Como é que lhe era possível ser tão " fodidamente" corajoso?
Foda-se! Como é que lhe era possível ser tão boa pessoa e amar tanto a literatura?

Obrigado, Henrique! Obrigado Rui!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

MOTO CONTÍNUO



avançando

e recuando

sobre si mesmo



no silêncio

tumultuoso

do ser



o poema

tal como o homem

faz-se a si mesmo



incerta certeza

que se constrói

destruindo-se



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

ESTE POEMA É PARA TI



 Hoje, ao fim da tarde
ao fim do dia
a  morte sentou-se ao meu lado
[inesperadamente]
 tocou-me de leve a mão direita
com a sua mão esquerda
sorriu-me
sorriu-me
e sorriu-me
e eu quase morri de susto
e eu quase morri de medo
a sua mão era cálida
o seu toque era intenso
o seu sorriso prometia mundos e 
mundos e
por breves instantes  
eu odiei-a 
[intensamente]
tão intensamente
quanto a desejei.

...

PORRA PORRA PORRA


Rui Costa (1972 -2012)



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

literatura breve para Passos Coelho



Seis textos breves em tempos de austeridade



*
Seduzido pelos apelos do governo, um homem abraçou a austeridade e deu por si de mãos vazias. Não fosse um homem austero e talvez se tivesse rido de si mesmo.
*
Era um homem extremamente austero que se ria por tudo e por nada. Rir era para ele o supremo sacrifício.
*
Defendia a austeridade mas não era um homem austero, na verdade a austeridade até o fazia rir, desde que não fosse ele a suportá-la.
*
Foi um homem austero. Um dos princípios que seguiu sempre rigorosamente foi o de nunca praticar a austeridade.
*
Levou sempre a austeridade muito a sério, até que chegou o dia em que finalmente morreu. [E não foi de tanto rir.]

...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Dor insuportável

Noite adentro
caminhas sem
cessar

o poema
escrevendo-se
na carne ferida

ferida aberta
ferida intensa

dor insuportável
que a si mesma
se devora

dor insuportável
que te faz mal

dor insuportável
que te faz bem

dor insuportável
que te diz que vais
morrer

dor insuportável
que te diz que estás
vivo

sábado, 7 de janeiro de 2012

poema reconstruído


aqui
onde as palavras
ainda me chegam
sento-me e
escrevo
me

abro-me em poesia
fecho-me em prosa

quase em silêncio escrevo
este poema que apenas diz
o que não consigo
[dizer]

...

DIZER

...
quase em silêncio escrevo
este poema que apenas
diz o que não consigo
...


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

QUASE FELIZ

...
sento-me e escrevo-me.
abro-me em poesia.
fecho-me em prosa.
...