terça-feira, 6 de março de 2012

PORTUGAL EM POEMAS - 1

[Foi a Paula que me chamou a atenção para este poema e me pôs a caminho...]



A PORTUGAL - JORGE DE SENA



Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.

Nem é ditosa, porque o não merece.

Nem minha amada, porque é só madrasta.

Nem pátria minha, porque eu não mereço

A pouca sorte de nascido nela.



Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta

quanto esse arroto de passadas glórias.

Amigos meus mais caros tenho nela,

saudosamente nela, mas amigos são

por serem meus amigos, e mais nada.



Torpe dejecto de romano império;

babugem de invasões; salsugem porca

de esgoto atlântico; irrisória face

de lama, de cobiça, e de vileza,

de mesquinhez, de fatua ignorância;

terra de escravos, cu pró ar ouvindo

ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;

terra de funcionários e de prostitutas,

devotos todos do milagre, castos

nas horas vagas de doença oculta;

terra de heróis a peso de ouro e sangue,

e santos com balcão de secos e molhados

no fundo da virtude; terra triste

à luz do sol calada, arrebicada, pulha,

cheia de afáveis para os estrangeiros

que deixam moedas e transportam pulgas,

oh pulgas lusitanas, pela Europa;

terra de monumentos em que o povo

assina a merda o seu anonimato;

terra-museu em que se vive ainda,

com porcos pela rua, em casas celtiberas;

terra de poetas tão sentimentais

que o cheiro de um sovaco os põe em transe;

terra de pedras esburgadas, secas

como esses sentimentos de oito séculos

de roubos e patrões, barões ou condes;

ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,

és mais que cachorra pelo cio,

és peste e fome e guerra e dor de coração.

Eu te pertenço mas seres minha, não.



Jorge de Sena

[LER JORGE DE SENA]

3 comentários:

  1. Conheço mal Jorge de Sena (o que não fica bem a quem estudou na FEUP ainda na Rua dos Bragas) mas, dele, lembro-me sempre dos poemas "incompreensíveis", vários deles escritos no mesmo ano que 'A Portugal'. Um pouco como a língua inexistente em que o Wim Mertens se esganiça soberbamente, esses poemas fazem pensar se não teremos todos palavras só nossas escondidas por baixo das palavras públicas. Já agora, na excelente página da Universidade Federal do Rio de Janeiro, clicando em 'Poesia' encontram-se algumas secções com gravações de poemas lidos pelo próprio Jorge de Sena.

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  2. Carlos, excelente sugestão e excelente site. Não posso deixar de estranhar que estes sites sejam brasileiros. Ou melhor, que não existem em Portugal, sobre os grandes escritores portugueses, mas pode ser mera ignorância minha.

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  3. De facto, já não é a primeira vez que encontro páginas brasileiras sobre escritores portugueses bem melhores do que as páginas portuguesas (por exemplo no caso de Jorge de Sena, na página do Instituto Camões encontrei apenas um par de biografias). Talvez aconteça que no Brasil não têm que se preocupar tanto com direitos de autor, quando colocam na internet coisas protegidas por copyright? Talvez pese também a questão da dimensão e dos recursos; como dizia há dias um colega meu brasileiro, no Brasil há universidades tão grandes que "tem ônibus dentro do campus"... :-)

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