sábado, 19 de maio de 2012

Poemário Prostibular

Poemário Prostibular é o mais recente livro de Miguel Godinho, livro que já li e recomendo vivamente. Um destes dias será apresentado no JazZimute e terei então oportunidade de dizer mais alguma coisa. Por agora, a curiosidade levou-me a fazer algumas perguntas ao autor que gentilmente respondeu e que vos deixo aqui.

1. Porquê um livro de autor? Que vantagens encontraste nesse modelo?

Porque considero que cada vez mais a poesia só tem/faz sentido se for publicada desta forma: há “ controlo” sobre o destinatário; quem lê é quem realmente quer ler ou quem o autor acha que deve ler; o autor decide/tem autoridade sobre a forma / formato do livro, timings de publicação/apresentação; o autor paga e o autor recebe tudo, o autor não “anda desesperadamente à procura de editor”; o autor presta contas a si próprio, o autor é autor a tempo inteiro e totalmente (ir)responsável, etc, etc, etc...

 2. Foste tu que tiveste a ideia de espalhar os poemas pelas páginas em diferentes manchas gráficas?

Não. A ideia foi do meu amigo Ricardo (o designer/paginador). Devo dizer-te que, na primeira versão – que propunha já os poemas arrumados desta forma - vieram muitas páginas em branco (a meio do livro). Dizia ele que, a par de alguns poemas a negrito (que ele achou por bem apresentar assim pela “força dos poemas”), sentiu a necessidade de deixar alguns poemas respirar. Achei a ideia muito interessante mas, em conjunto, decidimos que talvez fosse melhor recuar porque podia não resultar: podia não ser entendido da forma que gostávamos que fosse. No entanto, a arrumação dos poemas acho que foi uma proposta muito boa. Gostei bastante e, modestamente, acho que resultou muito bem.

3. Se no teu primeiro livro, no que respeita à forma, se encontrava já a tua vontade e perícia na concisão em 3 ou 4 excelentes poemas breves, ela explode (para usar uma expressão prostibular) neste livro. Que caminho percorreste?

Não sei; nenhum... Foi um percurso natural. Gosto muito da concisão. Para dizer a verdade, quanto mais tento escrever, mais sinto a necessidade de cortar. O caminho faz-se sempre em direcção ao silêncio; um poema meu escreve-se sempre a andar para trás.

 4. Por outro lado há ainda uma inquietação, uma vontade grande de questionar, mas parece haver uma maior maturidade ou uma mais calma desesperança, se preferires. Motivos?

Talvez isso que dizes: maior maturidade. O que não quer dizer, obrigatoriamente, maior passividade. De todo. Quer dizer – isso sim – maior ponderabilidade, questionamento mais sereno. Mas questionamento, sempre.

5. Conheces Jorge Sousa Braga?

Claro. É uma das minhas referências. “O poeta nu” (poesia reunida) está sempre comigo. É dele uma das minhas máximas: “Quanto mais me dispo / menos nu / me sinto”. É essa a razão da minha escrita.

6. O poeta vai ao prostíbulo ou o poeta é ele mesmo a puta?

O poeta vai a todo o lado; tem de ir a todo o lado; deve ir a todo o lado. Todos os lados são para ser lidos. O poeta é puta, é chulo e é cliente. O poeta fode(-se) porque quer foder, quer ver foder e quer ser fodido. O poeta é a alegoria do prostíbulo



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