quarta-feira, 28 de março de 2012

BREVE ENSAIO SOBRE A POTÊNCIA (EXCERTOS)

(...)

3

nenhum homem que atravesse
o eixo mais ao centro. a espuma
produz-se onde a saudade é uma
cabeça filtrada pla desgraça.
forma-se ideias na direcção da
cor: os peixes acreditam que o
sal é uma excrecência da luz.

(...)

17

O homem usa o boi e a evidência
e troca no mercado a luz do vício.
Lava poucas vezes o cabelo embora
não saiba que o desamor faz mal; e o
futuro inveja-o por isso. Tem uma dor
nas costas do trabalho e queixa-se
da alma que nunca soube onde fica.

(...)

29

Os anjois são recicláveis e a literatura
controla o tráfego aéreo. No porão do
pensamento acenamos à suavidade,
enquanto Deus é uma sala de fisioterapia.
Conservamos as fábricas de electricidade
em níveis aceitáveis de educação sentimental.
Somos homens negros paridores da luz.

[...]

Rui Costa (mais sobre rui costa e poemas)

[ao contrário do que tento sempre, dizer menos do que quero dizer, o Rui Costa usava a escrita como um centro de atracção, o poema como um buraco negro, capaz de convocar a realidade ao mesmo tempo que a criava. Discutimos algumas vezes, ele era mais sábio do que eu, ou apenas via melhor do que eu, mas nele, tal como em mim, gosto de acreditar, a luz e a escuridão nunca se separavam e partilhavamos/partilhamos o gosto pela experimentação e pelos limites.]

Sem comentários:

Enviar um comentário