terça-feira, 30 de dezembro de 2014

[...]


A verdade do poema

não sejas arrogante:
o mundo não existe
só porque tu existes

não te finjas modesto:
o mundo manifesta-se
só em ti e para ti

não temas a verdade:
o mundo que em ti se diz
só tu podes dizê-lo

não digas demasiado:
deixa que o poema
se diga e te diga


[Gosto de poemas de inspiração filosófica, poemas que se interrogam, poemas que nos interrogam e interrogam o mundo. Gosto mais de perguntas do que de respostas.]





segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

a literatura aprende-se, a literatura ensina-se?

O talento não se ensina, o talento revela-se. Escreve-se, escrevendo. Um artigo interessante e que levanta pistas.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Mudar

Fiquei interessado neste conceito do Change It, pessoas a trocarem experiências para a mudança. Participei em Faro em várias iniciativas próximas, desde os jantares de A Venda Convida (em que desconhecidos se juntam para jantar mediante inscrição prévia) passando pelas tertúlias Poesia & Companhia e terminando também em jantares temáticos À Mesa Com (em que jantar é realizado em casa de um dos participantes, escolhidos ao acaso. Vou ficar a pensar.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SER poesia

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

Alberto Caeiro



Para ser grande, sê inteiro: nada
        Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
        No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
        Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis


REGRESSO AO LAR
Há quanto tempo não escrevo um soneto
Mas não importa: escrevo este agora.
Sonetos são infância e, nesta hora.
A minha infância é só um ponto preto
Que num imóbiI e fútil trajecto
Do comboio que sou me deita fora
E o soneto é como alguém que mora
Há dois dias em tudo que projecto.
Graças a Deus, ainda sei que há
Quatorze linhas a cumprir iguais
Para a gente saber onde é que está...
Mas onde a gente está, ou eu, não sei...
Não quero saber mais de nada mais
E berdamerda para o que saberei.

Álvaro de Campos

XIV

Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...

Alberto Caeiro




ser poema

[ há poemas que se escrevem de uma vez só, com aparente facilidade, necessitando depois apenas de pequenos acertos; e há outros que escrevo e rescrevo com esforço até que finalmente se escrevam. Normalmente duvido bastante dos segundos. o poema seguinte pertence a essa última categoria.]

descubro no mundo à minha volta
tanta infelicidade
que me interrogo se alguma vez
poderei ser feliz

encontro em mim tantas formas
de ser infeliz
que me interrogo se alguma vez
conseguirei ser feliz

e enquanto assim me interrogo
acontece-me intensamente ser
se feliz ou infeliz
isso pouco importa

escrever um poema
qualquer que ele seja
é sempre interrogarmo-nos
sobre o que é a poesia

interrogo-me sobre a felicidade
espero desespero quase enlouqueço
e talvez essa seja a minha forma
de ser feliz aqui e agora

o momento certo é sempre
o momento que escolhemos
o poema que não escrevemos
nunca chegará a ser

sábado, 6 de dezembro de 2014

Monólogo

querias escrever um poema
que fosse todo ele 
silêncio

mas os poemas 
são feitos de palavras
e as palavras falam e gritam
mesmo quando repousam
no branco da folha

querias dizer-te em silêncio
mas não consegues calar-te
e se não te calas
como conseguirás
ouvir-te?

os poemas que escreves
serão sempre o silêncio
que não consegues
calar em ti

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014


solidão



sento-me à mesa onde ninguém está
e digo o que tenho para dizer como
se falasse para uma multidão atenta

possuo o estranho mas eficaz hábito
de preferir falar a ser escutado

avanço sempre como um navio que 
tarda a chegar ao seu destino.


domingo, 30 de novembro de 2014

3 Poemas

Talvez


talvez não adiante chorar
talvez não adiante rir mas
seja como for
chora quando te apetecer
ri quando tiveres vontade
prova o doce
prova o amargo
saboreia-os
é tudo o que podes fazer
por isso faz
faz o melhor que puderes
faz o melhor que souberes

*

O Lado Negro do Poema


quero ser a escuridão
na tua vida
a sombra em que repousas
da tirania da luz
a treva em que mergulhas
para te sentires só
o lado negro
da página em branco
em que todo poema
se escreve

*

Incapacidade Temporária


tem cuidado muito cuidado
não procures em tudo
um sentido

resiste ao canto surdo 
das sereias que te
encantam

talvez o seu mistério
seja não existir 
mistério algum

garantem-te sempre
que todos os caminhos
vão dar a Roma

mas talvez tu queiras
chegar a outro lado
qualquer

tem cuidado muito cuidado
avança sempre por tua
conta e risco




quinta-feira, 27 de novembro de 2014

INTERVALO


Fico em silêncio para melhor te ouvir
Fecho os olhos para melhor te ver
Estou só mas sinto-me acompanhado


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ENIGMA

Porque em tudo
procuras um sentido
quando és tu que dás
um sentido a tudo?

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SAIL AWAY


dou
um passo em frente
dois passos atrás
e avanço de lado
como quem falha
o alvo
o olhar pousado
na linha do horizonte
e digo a mim mesmo
que é assim a vida
e digo a mim mesmo
faz-te à vida Luís
faz-te à vida que a morte
não espera



domingo, 9 de novembro de 2014

O homem e a árvore

O homem olhou a árvore e pensou:
esta árvore existe, não tenho qualquer dúvida,
mas será que tem consciência de si?
Para sua surpresa, a árvore respondeu-lhe:
tu tens consciência de ti, não duvido,
mas será que existes mesmo?

ego

ego
tudo é ego
ego cego
ego que rego
ego que nunca nego
ego lego
ego tego
ego ego ego

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Imagem

Escrevo:

disponho palavras num desenho
simples
como pedras de calçada

guardo duas ou três
para vos atirar
à cabeça.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

[...]

Não compreendo, dizia ele, o olhar pousado com espanto no quadro.
Não tens de compreender, precisas apenas de sentir. Não sentes nada?
Ele olhou-a e o seu olhar mostrava o mesmo espanto silencioso que dispensara ao quadro.
A arte pode compreender-se, como se compreende algo de que se conhece os pressupostos e os processos, mas também se pode sentir, sem que nada se saiba, e essa é a força da arte, disse ela convicta, como se constatasse um mero facto.
Ele sorriu e sorria ainda quando olhou de novo o quadro.
Sentimos tanto mais a arte, sobretudo a contemporânea, quanto menos a tentamos compreender, quanto mais nos despimos dos nossos preconceitos.
Ele continuou a olhar o quadro, um sorriso de espanto no rosto moreno. Ela olhou-o ainda por momentos, depois os seus olhares encontraram-se no quadro.
Deram as mãos e ficaram a olhar o quadro, o mesmo sorriso misterioso no rosto.

AS PALAVRAS

As palavras nunca são simples
quando se trata de palavras
até a palavra simples
é complicada

As palavras nunca se calam
quando se trata de palavras
até a palavra silêncio
fala de mais

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Cassandra

A poesia oculta-se
nos interstícios das palavras
Todo o poema é profecia
O poeta diz o vazio e o espanto
que não conseguimos
imaginar
Silêncio que só escutamos
verdadeiramente
quando ele o diz.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

QUÍRON

A poesia torna-nos outros:
divide-nos até quase nada sermos
multiplica-nos até ao infinito

A poesia torna-nos outros:
cega-nos até que no fundo do túnel
se faça finalmente luz

A poesia torna-nos outros:
estranhos a nós mesmos
e muito mais autênticos

A poesia torna-nos outros
para que possamos ser
ainda mais nós mesmos



terça-feira, 28 de outubro de 2014

O oráculo de Delfos


Dizem-me: a vida é só dificuldades
Dizem-me: a vida é um mar de oportunidades
Dizem-me: a humanidade é generosa e promissora
Dizem-me: a humanidade é irrecuperável e perversa
Dizem-me: tudo muda sempre para melhor
Dizem-me: tudo fica na sempre na mesma ou pior
Dizem-me: nada vale a pena, tudo vale a pena
E eu que sei muito bem que todas as coisas podem ser
ao mesmo tempo uma coisa e o seu contrário
sei também, sem sombra de dúvida
que a realidade, por mais que se contradiga
nunca mas nunca é ambivalente.




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

PERSEU

Antes de sair de casa
olho sempre o mundo da minha janela
alta
gosto de o ver assim
independente
e no entanto rendido ao meu olhar
fora e dentro de mim
como a alegria (e a tristeza) que sinto
amiúde
tesouros que não me pertencem
mas que a mim sempre
se oferecem.






domingo, 26 de outubro de 2014

SÍSIFO

Perguntas-me porque insisto
então eu não sei que procuramos sempre
nos lugares errados?
Respondo-te que vou continuar
que nunca vou desistir
Posso até não acreditar nos resultados
porém não duvido
nem por um momento
da verdade daquilo que procuro.




quarta-feira, 22 de outubro de 2014

[...]

Vai e vem
imenso profundo
contínuo
mar de dor
mágoa


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Variações




O piano aprendeu a calar-se perante a majestosa imponência do mar. Só a pianista, tão silenciosa quanto ele, era capaz de lhe emprestar a sua voz.

A pianista tinha uma filha, mas o piano não era o pai, por muito que lhe custasse. Talvez por isso o seu som fosse sempre triste, ainda que apaixonado.

Quando ela morreu, o piano morreu também. Ainda se suspeitou de suicídio, mas, fosse como fosse, todos sabiam que tinha sido o desgosto que o matara.

A pianista trocou teclas por sexo, antecipando-se à sua neta que muitos anos mais tarde trabalharia numa linha erótica.

O piano era a voz do silêncio, poema materializado dos seus sonhos e das suas angústias. Com o piano ela aprendeu a falar, com o piano ele aprendeu a calar-se.


Ele não era pianista e ela de certeza não era um piano, no entanto as mãos dele no corpo dela despertavam uma música sublime.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

EXERCÍCIOS DE ESCRITA




I

 

desenho palavras

alinhando longas linhas

estranhas formas regulares

de curvas e arestas

improváveis

que se prolongam

repetidamente

no silêncio

 

II

 

as palavras brilham

de forma desigual

no negrume uniforme

do silêncio primordial

recordando-me que

de noite nem todas

as palavras são

pardas

 

II

 

queria escrever um

poema

em que as palavras

imóveis

corressem em todas

as direções

poema atravessado

por ventos

por marés

poema atravessado

pelos sonhos perturbados

dos homens

que vivem

sós
 
 

 

 
 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

POEMA QUE QUIS SER ENSAIO E QUASE SE ESQUECIA DE SER POEMA



 Ia escrever

O teu corpo nu

é bosque rio montanha

solo fértil

Mas ele é muito mais

e muito menos do que quis dizer

Por isso recomeço e escrevo

O teu corpo nu

é promessa de bosque

de rio de montanha

de solo fértil

E sinto agora que disse muito mais

e muito menos

do que queria dizer
 
 

TODO O POEMA


Todo o poema

é uma contida contenção

uma tensão de uma tensão

de uma tensão

 

Todo o poema

é uma repetida conversão

uma versão de uma versão

de uma versão

 

Todo o poema

é uma canção continuada

um nada de um nada

de um nada




 
 
 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

EM CONSTRUÇÃO


No exato momento em que estas palavras

Mancham o branco da minha imaginação

Agulhas profundas de serenidade e de dor

Abrem-se estreitas portas giratórias

Que me levam ora ao paraíso ora ao inferno

Num jogo de acasos a que não sou alheio
 
 



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Poema Óbvio

A ingratidão dói-me!
Mas a ingratidão não é pé nem mão
É antes uma pedra que se atira ao coração como uma seta afiada a um alvo
Por isso me desvio torno-me etéreo 
A arte salvar-me-à!

DECLARAÇÃO

Para os devidos efeitos
deixem-me que vos diga
de uma vez por todas que
se ser poeta é escrever poemas
então eu não sou poeta
porque eu não escrevo poemas
os meus poemas escrevem-se

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

HISTÓRIA DO ELEFANTE QUE SE TORNOU ELEGANTE


Desde muito novo que o alcunharam de Elefante, e o epíteto colou-se-lhe de tal forma que muitos anos depois só por esse nome era conhecido. E não é que alguma vez ele tivesse sido obeso – tinha uma constituição normal – ou andasse habitualmente de trombas – era mesmo uma pessoa bem disposta que ostentava invariavelmente um sorriso franco; o que lhe valeu a alcunha, se querem saber, foi o seu andar desajeitado e arrastado que ainda hoje o caracteriza e de que nunca se conseguiu livrar, por mais que tentasse.
Apesar de ser uma pessoa simples, ou talvez por causa disso, a verdade é que tal facto sempre o incomodou e chegou mesmo a um ponto em que ele pensou que não aguentava mais. Estava farto de ser Elegante. Que coisa. Estava mesmo farto!
Ponderou até exigir que deixassem de o tratar por Elefante, ou apenas pedir-lhes que o chamassem pelo seu nome, mas era muito tímido e evitava sempre qualquer tipo de confronto, além de que ninguém lhe chamava Elefante com desdém ou ironia, tinha apenas se tornado o seu nome. E além disso, verdade seja dita, ainda que lhe custasse admiti-lo, ele não gostava muito do seu verdadeiro nome.
Então, um certo dia, teve uma ideia! Quando lhe chamavam Elefante, “Bom dia Elefante?”, “Olá Elefante”, “Como vai a vida, Elefante’”, ele passou a responder, “Elegante, claro que sim, elegante!” Afinal era apenas uma letra de diferença, mas fazia toda a diferença, se assim se pode dizer. Elefante. Elegante!
E pouco tempo depois, acreditem ou não, já todos só o conheciam por Elegante, e ele sorria, como sempre sorrira, é verdade, mas sentia-se agora muito melhor.

E esta foi a história do elefante que se tornou elegante.


imagem aqui

domingo, 10 de agosto de 2014

AUTO - RETRATO


 
Eu podia

ter escrito uma história ou um poema sobre

como me senti esta manhã na alameda

a menina que os pombos seguiam

em alvoroço

os gritos estridentes dos pavões

invisíveis

a casuarina que me foi apresentada

com pompa e circunstância

e que nunca falou

 

Eu podia eu podia

e fosse uma história ou um poema

tudo o que já disse também lá estaria

quase com as mesmas palavras

se em prosa e em verso

pouco importaria

 

Eu podia eu podia eu podia

e foi isso que fiz

na minha solidão

senti-me feliz

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

QUOD ERAT DEMONSTRANDUM


 Os poetas falam todos dos mesmos temas
e usam todos as mesmas palavras,
mais coisa menos coisa, é certo,
mas, no geral, é mesmo assim,
e nunca doutra maneira.
Logo, o mais natural seria que dissessem
todos as mesmas coisas, mas,
e isto é facto que não carece de comprovação,
de tão óbvio,
os leitores lêem e, sobretudo, ouvem
sempre diferentes coisas nos mesmos poemas.
Podemos então concluir, sem mais,
que o enunciado já vai longo,
que muito mais importante do que aquilo
que os poetas dizem é aquilo
que os poetas deixam para o leitor

dizer.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O HOMEM QUE ESCREVIA

Escrevia e escrevia e escrevia, se prosa ou poesia, ele não sabia. Escrevia e escrevia e escrevia, e isso era tudo o que ele fazia. Um certo dia deixou de escrever, foi um pouco antes de vir a falecer. Mas não pensem que se fechou a porta, agora escreve numa língua morta.

terça-feira, 29 de julho de 2014

BLOGS E LISTAS DE BLOGS

Reparo em muitos blogs que não têm lista de blogs e estranho, porque me parece contrário à própria noção de blog. Um dias destes comentei tal facto com o Rui Manuel Amaral, que me deu uma resposta plausível. Não sabia então que o blog dele era um desses. Aceitando a explicação, que serve para ele, mesmo assim ainda me custa deparar com esses blogs autistas.

sábado, 26 de julho de 2014

CARALHO NÃO, CARALHO!

Há muito muito tempo que não saio
de casa
às voltas no meu quarto
a tentar perceber
o que aconteceu.
Perturba-me o constante ladrar
das gaivotas
que invadiram a cidade e se misturaram
com as multidões que nela circulam
sem destino.
Ainda não percebi o papel da proliferação
das frutarias na geometria decadente
da crise.
É uma enorme confusão de luíses, digo, de narizes,
as palavras degadam-se apido,
a imaginação está mota,
viva a imaginação.

 
 
 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

...



 

A folha em branco não é folha nem está em branco

é este silêncio turvo em que toda a palavra se suspende antes da

queda

 

É esta paciência inquieta que nos obriga a escrever

obsessão

medo

desejo

vontade

 

É este seja o que for que nos aproxima de nós ao mesmo tempo que nos afasta de

nós

inexorável
 

É este seja o que for que nos apazigua ao mesmo tempo que nos

desequilibra

inexorável

 

Estar em movimento é sempre estar em desequilíbrio

mesmo quando acreditamos que estar em  equilíbrio é procurar o

equilíbrio

 

Todo o poema é folha em branco

nenhum poema está alguma vez terminado

 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

POEMA A UM AMIGO


Olhas e olhas-te em tudo o que olhas

Olhar que vai e vem como um bumerangue

Olhar meticuloso olhar cego

Olhar sonâmbulo

 

Olhas para fora do que está dentro de ti

Olhar iluminado de óculos escuros

Olhar míope olhar camaleónico

Olhar todo-poderoso

 

Olhas e olhas-te, olhas-te e cegas.

Ver é sempre uma forma de cegueira.
 
 
 
 

terça-feira, 22 de julho de 2014

um poema como outro qualquer

Escrever é inspirar e expirar em apneia.


Dispo-me a cada verso
e visto-me de silêncio

Esvazio-me só para
de novo me encher

Sou copo meio cheio
sou copo meio vazio

Sou tanto mais transparente
quanto mais opaco 

É tão impossível dizer-me
como é impossível

calar-me

domingo, 20 de julho de 2014

RELEITURA(S) 0

[ curiosamente, esta é a mensagem número mil e uma]


Um homem encontrou um livro estendido num banco de jardim e perguntou-lhe: Quem te perdeu? Ao que o livro respondeu: Ninguém me perdeu, na verdade fui aqui deixado para que alguém me encontrasse e me levasse consigo. Mas ainda o livro mal acabara de falar e já o homem abalava sozinho sem dizer sequer uma palavra. [A moral desta história é dupla: há livros que não falam ao coração dos homens; há homens que são surdos à voz dos livros.]

sábado, 19 de julho de 2014

RELEITURA(S) 3



Primeiro decidiu dizer-lhe que o amava. Mas deveria escrever-lhe uma carta ou fazer-lhe uma declaração? Esta pergunta conduziu-a a outra. O que é que ele sente por mim? E outra. Como irá ele reagir? E outra. Será que devo dar a conhecer o meu amor? Pensou durante muito tempo mas não conseguiu respostas, apenas mais uma pergunta. Amo-o? Decidiu então não dizer que o amava. Mas seria esta a melhor solução? Respondia às suas necessidades? Aos seus anseios? Devia manter escondidos os seus sentimentos? Finalmente, decidiu-se. Não faria mais perguntas!

sexta-feira, 18 de julho de 2014

RELEITURA(S) 2


O que se pode dizer com meia dúzia de palavras? Muito, mesmo muito, muito mais do que se imagina. Basta calar bem fundo em nós a arrogância de tudo explicar.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A POESIA NÃO SE EXPLICA...

"Não sei falar de literatura. Não sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que “os rit­mos em que se exprime constituem a forma do mundo". Sei, como o poeta russo Mandelstam, que "escrever é um acontecimento cósmico". E que cada palavra é um pedaço de universo. Ou como dizia Klebnikov: "Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo." Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de um ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho. Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais dos tempos através de múltiplos sentidos ou dos semi-sentidos da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como esse xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forcas maléficas.
A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, "mudar a vida", como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.
A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica. A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem.. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel "il migiior fabbro". O poeta, dizia Cioran, "é aquele que leva a sério a linguagem". E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve "sonidos negros". É então que a poesia acontece.
Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais."

Manuel Alegre

INTERROGAÇÃO


Um homem perguntou a si mesmo o que era realmente importante para si e, inspirando e expirando profundamente, obteve a resposta.
A moral desta história talvez possa ser que que nem todas as histórias têm uma moral, ainda que tenham sempre um princípio e um fim.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

RELEITURA(S)


(1)

Muitas vezes acontecia-lhe esquecer-se de quem era, sem qualquer aviso prévio ou razão aparente. Não era uma sensação completamente desagradável, mas podia ser bastante aborrecido, tendo em conta as consequências óbvias. Decidiu então escrever o mais importante de si mesmo, aquilo que o tornava diferente e singular (não deviam ser precisas muitas palavras) e trazê-lo consigo, talvez um pequeno papel colado na carteira, talvez uma pequena inscrição numa pulseira, qualquer coisa que o fizesse regressar a si. O seu nome não era importante, na verdade pouco dizia de si, a sua idade, sexo e coisas que tais, estavam à vista, e quanto às suas características morais, elas reflectir-se-iam necessariamente nos seus actos. Acabou por fazer uma pequena tatuagem nas costas da mão direita, junto ao polegar, onde se podia ler a palavra SOU, não se fosse esquecer de ser, que isso sim, é que seria completamente desagradável e bastante aborrecido.

terça-feira, 15 de julho de 2014

EU SEI LÁ PORQUÊ!



 Não escrevo para dizer-me,

não tenho nada para dizer

que não possa dizê-lo com ações.

Escrever, para um escritor,

dizia alguém,

é agir,

o que quer que isso signifique.

É um fim, e não um meio, ou talvez

seja o contrário,

não sei.

Percebo o que isto quer dizer,

mas não tento sequer

explicá-lo,

pela simples razão que explicá-lo seria

complicá-lo,

e eu tento sempre ser simples.

Não escrevo para dizer-me,

escrevo,

apenas,

nada mais;

talvez para escutar o que assim digo,

talvez para aceitar o que assim digo,

talvez para tudo interrogar

ou então apenas escutar-me

e afinal dizer-me,

como qualquer leitor.

O que me interessa não está

aquém das palavras,

mas além delas.

Por isso é que leio,

por isso é que escrevo,

por estrita necessidade,

e nada mais .

segunda-feira, 14 de julho de 2014

ALGUNS POEMAS PORTUGUESES DO SÉCULO XX

Não podendo falar para toda a terra
direi um segredo a um só ouvido

Luiza Neto Jorge


A PEDRA

A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, ferrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.

António Ramos Rosa


DESPEDIDA

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

Eugénio de Andrade


ESTRELA

Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.

Carlos de Oliveira


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen


7

Eu não sou eu nem outro
Sou qualquer coisa de intermédio:
              Pilar da ponte de tédio
              Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá Carneiro


INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...

Camilo Pessanha   


domingo, 13 de julho de 2014

3/64


 

O pior cego não é aquele que não quer ver,

esse é apenas estúpido, teimoso, cretino;

o pior é cego é aquele que não sabe

que é cego. Duvida muito, duvida de tudo,

mas duvida sobretudo do óbvio;

é nas pequenas coisas de todos os dias

que a verdade se esconde, a mesma

verdade que procuras sem cessar nas entrelinhas

do poema. E nunca te esqueças, a vida

é feita de poesia, como dizia amiúde

o poeta cego que tanto via.