segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Variações




O piano aprendeu a calar-se perante a majestosa imponência do mar. Só a pianista, tão silenciosa quanto ele, era capaz de lhe emprestar a sua voz.

A pianista tinha uma filha, mas o piano não era o pai, por muito que lhe custasse. Talvez por isso o seu som fosse sempre triste, ainda que apaixonado.

Quando ela morreu, o piano morreu também. Ainda se suspeitou de suicídio, mas, fosse como fosse, todos sabiam que tinha sido o desgosto que o matara.

A pianista trocou teclas por sexo, antecipando-se à sua neta que muitos anos mais tarde trabalharia numa linha erótica.

O piano era a voz do silêncio, poema materializado dos seus sonhos e das suas angústias. Com o piano ela aprendeu a falar, com o piano ele aprendeu a calar-se.


Ele não era pianista e ela de certeza não era um piano, no entanto as mãos dele no corpo dela despertavam uma música sublime.



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