quinta-feira, 6 de novembro de 2014

[...]

Não compreendo, dizia ele, o olhar pousado com espanto no quadro.
Não tens de compreender, precisas apenas de sentir. Não sentes nada?
Ele olhou-a e o seu olhar mostrava o mesmo espanto silencioso que dispensara ao quadro.
A arte pode compreender-se, como se compreende algo de que se conhece os pressupostos e os processos, mas também se pode sentir, sem que nada se saiba, e essa é a força da arte, disse ela convicta, como se constatasse um mero facto.
Ele sorriu e sorria ainda quando olhou de novo o quadro.
Sentimos tanto mais a arte, sobretudo a contemporânea, quanto menos a tentamos compreender, quanto mais nos despimos dos nossos preconceitos.
Ele continuou a olhar o quadro, um sorriso de espanto no rosto moreno. Ela olhou-o ainda por momentos, depois os seus olhares encontraram-se no quadro.
Deram as mãos e ficaram a olhar o quadro, o mesmo sorriso misterioso no rosto.

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