terça-feira, 29 de julho de 2014

BLOGS E LISTAS DE BLOGS

Reparo em muitos blogs que não têm lista de blogs e estranho, porque me parece contrário à própria noção de blog. Um dias destes comentei tal facto com o Rui Manuel Amaral, que me deu uma resposta plausível. Não sabia então que o blog dele era um desses. Aceitando a explicação, que serve para ele, mesmo assim ainda me custa deparar com esses blogs autistas.

sábado, 26 de julho de 2014

CARALHO NÃO, CARALHO!

Há muito muito tempo que não saio
de casa
às voltas no meu quarto
a tentar perceber
o que aconteceu.
Perturba-me o constante ladrar
das gaivotas
que invadiram a cidade e se misturaram
com as multidões que nela circulam
sem destino.
Ainda não percebi o papel da proliferação
das frutarias na geometria decadente
da crise.
É uma enorme confusão de luíses, digo, de narizes,
as palavras degadam-se apido,
a imaginação está mota,
viva a imaginação.

 
 
 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

...



 

A folha em branco não é folha nem está em branco

é este silêncio turvo em que toda a palavra se suspende antes da

queda

 

É esta paciência inquieta que nos obriga a escrever

obsessão

medo

desejo

vontade

 

É este seja o que for que nos aproxima de nós ao mesmo tempo que nos afasta de

nós

inexorável
 

É este seja o que for que nos apazigua ao mesmo tempo que nos

desequilibra

inexorável

 

Estar em movimento é sempre estar em desequilíbrio

mesmo quando acreditamos que estar em  equilíbrio é procurar o

equilíbrio

 

Todo o poema é folha em branco

nenhum poema está alguma vez terminado

 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

POEMA A UM AMIGO


Olhas e olhas-te em tudo o que olhas

Olhar que vai e vem como um bumerangue

Olhar meticuloso olhar cego

Olhar sonâmbulo

 

Olhas para fora do que está dentro de ti

Olhar iluminado de óculos escuros

Olhar míope olhar camaleónico

Olhar todo-poderoso

 

Olhas e olhas-te, olhas-te e cegas.

Ver é sempre uma forma de cegueira.
 
 
 
 

terça-feira, 22 de julho de 2014

um poema como outro qualquer

Escrever é inspirar e expirar em apneia.


Dispo-me a cada verso
e visto-me de silêncio

Esvazio-me só para
de novo me encher

Sou copo meio cheio
sou copo meio vazio

Sou tanto mais transparente
quanto mais opaco 

É tão impossível dizer-me
como é impossível

calar-me

domingo, 20 de julho de 2014

RELEITURA(S) 0

[ curiosamente, esta é a mensagem número mil e uma]


Um homem encontrou um livro estendido num banco de jardim e perguntou-lhe: Quem te perdeu? Ao que o livro respondeu: Ninguém me perdeu, na verdade fui aqui deixado para que alguém me encontrasse e me levasse consigo. Mas ainda o livro mal acabara de falar e já o homem abalava sozinho sem dizer sequer uma palavra. [A moral desta história é dupla: há livros que não falam ao coração dos homens; há homens que são surdos à voz dos livros.]

sábado, 19 de julho de 2014

RELEITURA(S) 3



Primeiro decidiu dizer-lhe que o amava. Mas deveria escrever-lhe uma carta ou fazer-lhe uma declaração? Esta pergunta conduziu-a a outra. O que é que ele sente por mim? E outra. Como irá ele reagir? E outra. Será que devo dar a conhecer o meu amor? Pensou durante muito tempo mas não conseguiu respostas, apenas mais uma pergunta. Amo-o? Decidiu então não dizer que o amava. Mas seria esta a melhor solução? Respondia às suas necessidades? Aos seus anseios? Devia manter escondidos os seus sentimentos? Finalmente, decidiu-se. Não faria mais perguntas!

sexta-feira, 18 de julho de 2014

RELEITURA(S) 2


O que se pode dizer com meia dúzia de palavras? Muito, mesmo muito, muito mais do que se imagina. Basta calar bem fundo em nós a arrogância de tudo explicar.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A POESIA NÃO SE EXPLICA...

"Não sei falar de literatura. Não sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que “os rit­mos em que se exprime constituem a forma do mundo". Sei, como o poeta russo Mandelstam, que "escrever é um acontecimento cósmico". E que cada palavra é um pedaço de universo. Ou como dizia Klebnikov: "Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo." Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de um ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho. Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais dos tempos através de múltiplos sentidos ou dos semi-sentidos da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como esse xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forcas maléficas.
A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, "mudar a vida", como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.
A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica. A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem.. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel "il migiior fabbro". O poeta, dizia Cioran, "é aquele que leva a sério a linguagem". E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve "sonidos negros". É então que a poesia acontece.
Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais."

Manuel Alegre

INTERROGAÇÃO


Um homem perguntou a si mesmo o que era realmente importante para si e, inspirando e expirando profundamente, obteve a resposta.
A moral desta história talvez possa ser que que nem todas as histórias têm uma moral, ainda que tenham sempre um princípio e um fim.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

RELEITURA(S)


(1)

Muitas vezes acontecia-lhe esquecer-se de quem era, sem qualquer aviso prévio ou razão aparente. Não era uma sensação completamente desagradável, mas podia ser bastante aborrecido, tendo em conta as consequências óbvias. Decidiu então escrever o mais importante de si mesmo, aquilo que o tornava diferente e singular (não deviam ser precisas muitas palavras) e trazê-lo consigo, talvez um pequeno papel colado na carteira, talvez uma pequena inscrição numa pulseira, qualquer coisa que o fizesse regressar a si. O seu nome não era importante, na verdade pouco dizia de si, a sua idade, sexo e coisas que tais, estavam à vista, e quanto às suas características morais, elas reflectir-se-iam necessariamente nos seus actos. Acabou por fazer uma pequena tatuagem nas costas da mão direita, junto ao polegar, onde se podia ler a palavra SOU, não se fosse esquecer de ser, que isso sim, é que seria completamente desagradável e bastante aborrecido.

terça-feira, 15 de julho de 2014

EU SEI LÁ PORQUÊ!



 Não escrevo para dizer-me,

não tenho nada para dizer

que não possa dizê-lo com ações.

Escrever, para um escritor,

dizia alguém,

é agir,

o que quer que isso signifique.

É um fim, e não um meio, ou talvez

seja o contrário,

não sei.

Percebo o que isto quer dizer,

mas não tento sequer

explicá-lo,

pela simples razão que explicá-lo seria

complicá-lo,

e eu tento sempre ser simples.

Não escrevo para dizer-me,

escrevo,

apenas,

nada mais;

talvez para escutar o que assim digo,

talvez para aceitar o que assim digo,

talvez para tudo interrogar

ou então apenas escutar-me

e afinal dizer-me,

como qualquer leitor.

O que me interessa não está

aquém das palavras,

mas além delas.

Por isso é que leio,

por isso é que escrevo,

por estrita necessidade,

e nada mais .

segunda-feira, 14 de julho de 2014

ALGUNS POEMAS PORTUGUESES DO SÉCULO XX

Não podendo falar para toda a terra
direi um segredo a um só ouvido

Luiza Neto Jorge


A PEDRA

A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, ferrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.

António Ramos Rosa


DESPEDIDA

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

Eugénio de Andrade


ESTRELA

Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
já de madrugada:
amar
é entristecer
sem corrompermos
nada.

Carlos de Oliveira


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen


7

Eu não sou eu nem outro
Sou qualquer coisa de intermédio:
              Pilar da ponte de tédio
              Que vai de mim para o Outro.

Mário de Sá Carneiro


INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...

Camilo Pessanha   


domingo, 13 de julho de 2014

3/64


 

O pior cego não é aquele que não quer ver,

esse é apenas estúpido, teimoso, cretino;

o pior é cego é aquele que não sabe

que é cego. Duvida muito, duvida de tudo,

mas duvida sobretudo do óbvio;

é nas pequenas coisas de todos os dias

que a verdade se esconde, a mesma

verdade que procuras sem cessar nas entrelinhas

do poema. E nunca te esqueças, a vida

é feita de poesia, como dizia amiúde

o poeta cego que tanto via.



 

 

 
 

sábado, 12 de julho de 2014

2/64


2

 

Tu não és muito, és quase nada,

pouco mais do que esse estranho sopro

que te anima, alento constante e

determinado, ténue e poderoso,

que faz com que esse quase nada que és

possa ser muito.




sexta-feira, 11 de julho de 2014

UM CONTO


DAQUI NÃO SAIO DAQUI NINGUÉM ME TIRA

(conto escrito cerca de 2001 como exercício numa oficina de escrita)

 

Acreditei durante muito tempo ter vindo ao mundo de um modo diferente de toda a gente, isto posso dizer-vos! Mas o que é acreditar? O que é o tempo? Não estranhem começar assim, sempre fui dado a levantar questões inúteis. É a minha queda para a filosofia! Acreditar é crer? Acreditamos porque queremos acreditar? Ou será porque disso temos absoluta necessidade? Acredita-se em Deus, um qualquer deus, da mesma forma que se acredita na evidência, tantas vezes ardilosa, quer dos sentidos quer até da ciência? E o tempo? Parece tão simples. Presente, passado, futuro. Ontem, hoje, amanhã. E no entanto... quanto se escreveu já sobre o assunto! E ainda mais se escreverá! Acreditei durante muito tempo... é verdade!

— Todos os meninos têm um pai e uma mãe.
— O teu pai morreu!
— E a minha mãe?
— Não tens mãe!
— Também morreu?
— Já te disse vezes sem conta que não tens mãe!!
— Mas todos os meninos têm mãe, viva ou morta!
— Não me maces mais!
— Mas como é que eu nasci sem uma mãe?!
— Não tens mãe, nunca tiveste. Chega! Vai para o teu quarto! Vai!! Desanda daqui!!

Muito tempo depois, explicaram-me que quando nasci era de lei registar os filhos de pais solteiros com o nome do pai e com a indicação de “mãe incógnita”. Eu já sabia nessa altura a verdadeira história do meu nascimento. A minha mãe morrera durante o parto. O meu pai suicidara-se dias depois. Um amor proibido encontrara o seu desfecho funesto. Quando não sabemos, quando algo nos é escondido, a imaginação apressa-se a preencher o espaço em branco. A imaginação tem horror ao vazio, deixe-se-lhe espaços em branco e logo ela os invade e os conquista. Realidade e ficção, qual é a diferença quando se tornam memórias?

“Quando são atacadas, algumas lagostas produzem um som parecido com o violino, para se defenderem dos predadores. Esta é a conclusão de um estudo levado a cabo por...“

Acreditei durante muito tempo que era diferente de toda a gente, como se fosse o único de uma espécie, a minha espécie. Somos todos diferentes, somos todos iguais, somos humanos. Mas a dúvida estava precisamente aí: seria eu humano? Assaltavam-me emoções confusas, de contornos muito vagos. Eu julgava-me especial, não melhor ou pior do que os outros, mas especial da mesma forma que os sonhos também o são, por acontecerem noutra dimensão da existência. Era um estado de espírito ao mesmo tempo amargo e doce. Adoçava-me as noites mas amargava-me os dias. Agora eu sei que sou igual a toda a gente: humano, imperfeito, mortal.

— Este rapaz vive no mundo da lua. Não sei o que vai ser dele!
— Ou poeta... ou louco.
— Não brinques com coisas sérias!
— É um rapaz como os outros.
— Pensa demais. Onde já se viu uma coisa assim?! Não pára de fazer perguntas. São umas atrás das outras! Perguntas estranhas, estranhíssimas!!
— Quem te ouvir falar, ainda vai pensar que o rapaz não é normal.
— Teve um nascimento triste, só pode ter uma triste vida!
— Cala essa boca! Não vaticines desgraças, que podes ser atendida!
— Lagarto! Lagarto! Lagarto!

“Pelo menos cento e trinta pessoas morreram e uma centena ficou ferida na sequência de distúrbios nas bancadas de um estádio de futebol na...”

Acreditei durante muito tempo que a verdadeira revolução haveria de chegar mais dia menos dia. Tinha treze anos quando o 25 de Abril aconteceu, e o meu mundo transformou-se por completo. Não vou descrever o que senti. Ou viveram essa época e sabem do que falo, ou não a viveram e então talvez nunca venham a saber. Reforma agrária; colectivização; a terra a quem a trabalha; o povo unido jamais será vencido; pão, paz, habitação, trabalho... Quantas palavras plenas de esperança, quantas palavras de ordem inadiáveis! Ainda as ouço, ainda me emociono, mas o sonho não se tornou realidade. No entanto, à minha volta tudo se transfigurou. Eu transfigurei-me também. Hoje, digo-me um homem de esquerda, sinto-me de esquerda, mas já não sei bem o que isso significa. Para toda a gente, para mim e para os outros.

— Pequeno burguês radical de fachada socialista, isso é que tu és!
— Vai mas é à merda, pá! Ainda ontem te calavas e ajoelhavas, agora andas de punho erguido a gritar chavões.
— Conversa de intelectual, isso é que é. Mais não se pode esperar de quem só usa as mãos para escrever!
— Vê lá se te vou mas é aos cornos! Com estas mãos, com estes punhos!
— Experimenta! Experimenta lá se és capaz!! Bem que gostava de ver o que vale um intelectual de trazer por casa!
— Vai mas é ler Marx, social fascista da treta!
— Com gajos como tu não se fazem revoluções! Só sabem falar, pensar, reflectir...
— E com filhos da puta como tu, que pensam que sabem tudo, com filhos da puta como tu só se pode chegar é a ditaduras!

“As turmas do ensino básico e secundário, salvas raras excepções, não vão ter mais de vinte e oito alunos, anunciou...”

Acreditei durante muito tempo que podia amar. E que podia ser amado. A felicidade, a felicidade suprema aconteceria então, de um modo natural. Não sei quem é que disse, mas alguém foi: numa relação amorosa existe a pessoa que ama, existe a pessoa que é amada, e também existe o amor. Nunca percebi bem esta configuração triangular, e muito menos o seu significado, mas de cada vez que me lembro do amor lembro-me também da frase e do enigma que teima em não revelar. Será o amor uma entidade separada de quem o gera e suporta? Será que o amor existe para além dos amantes e dos amados? Sei lá! Que o amor pode viver sem o objecto amado e que dele não precisa, pois pode inventá-lo, isto li num soneto e acredito.

— Mas eu amo-te!
— Não me amas. Não acredito em ti!
— Amo-te!
— Acreditas no amor, mas não me amas de verdade. Apenas pensas que sim!
— Não te percebo!
— Queres amar, precisas de amar, mas não te interessa quem. Qualquer uma serviria para satisfazer o teu desejo de amar.
— Não dizes coisa com coisa.
— Não me amas!
— Amo-te.
— Falso!
— Amo-te muito!
— Sonso.

“O Programa da Inovação, anunciado pelo primeiro-ministro, está a revelar-se um verdadeiro quebra-cabeças...”


Acreditei durante muito tempo no poder infinito da palavra — no princípio era o verbo! Li e ouvi muito, com atenção, com emoção, rendido às palavras. Através delas descobri incontáveis verdades. Verdades simples e claras que se me revelaram com uma luminosidade intensa e hipnótica, incendiando-me a inteligência e o sonho. No entanto, pouco a pouco, de um modo insidioso, fui começando a duvidar que tais palavras e tais verdades pudessem influenciar a realidade. Afirmar uma verdade não altera a realidade: esta não lhe obedece, nem sequer a imita! Pertencerá a magia das palavras ao domínio dos sonhos? Será a sua eficácia no mundo real uma mera ilusão?

— Mas porque é que vocês são contra Alqueva?
— Meu português pouco bom, desculpa. Ler panfleto. Um número incontável de serres descontinuará a existir. Os animais têm alma, só que não sabem falar, ni chorar e muitas vezes não podem gritar. Tal como nós, todos eles têm um direito à vida.
— Mas vocês nem portugueses são! O que é que esperam alcançar? Quem vos vai escutar? Vocês acreditam realmente que alguém se importa?
— Nós importamos. Escuta. Portugal é um país onde por meio da revolução dos cravos já uma vez a população se defendeu com sucesso contra um governo de poucos, contra a ditadura do capital, dos latifundiários e do estado. Agora uma nova revolução deveria seguir à dos cravos, para a conservação da vida e a favor de uma comunidade entre humanos e natureza, ausente de violência. Lugares de destruição já tem suficientes. Agora necessitamos de lugares de curamento. Toma panfleto. Levar para ler e passar.

“Nada se sabe ainda sobre o homem que na madrugada de hoje se barricou no posto de turismo instalado no Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo. Suspeita-se que esteja armado e que tenha consigo material explosivo. Na parede do convento, como se pode ver agora nas imagens, de novo em directo, o barricado escreveu: ‘Daqui não saio, daqui ninguém me tira, até Alqueva parar.’ Continue connosco, para ficar a saber mais sobre...”

Acreditei em todas estas coisas durante muito tempo. Inteiramente, sem reservas. Em algumas talvez ainda acredite, um pouco, sei lá!? Mas agora, do mesmo modo, com a mesma intensidade, apenas acredito na morte. Libertadora, inevitável. Mors certa est, hora incerta, alguém gravou num antigo relógio de sala, ignorando os suicidas loucos de amor, loucos de justiça ou simplesmente desesperados. Todos eles aflitos para assentar a hora certa da sua própria morte na agenda sempre tão incerta da vida. Seja como for, a minha exigência é esta: “Parem Alqueva!”

quinta-feira, 10 de julho de 2014

mil e uma pequenas histórias

Por estes dias tenho feito um pequeno balanço (ou uma pequena visita) à minha actividade literária e artística dos últimos anos. A experiência  que foi escrever e publicar durante três anos todos os dias uma pequena história até alcançar as 1001 não poderia ficar de fora, pelo que tem de particular. Livro em construção, escrito e publicado todos os dias em formato digital, ainda que então o não tenha visto assim, não posso agora de o considerar como uma performance de longa duração. Existe a escrita, mas existe muito mais do que a escrita.

1/64 - O guru de algibeira

[Escritos estes poemas, alterei ao acaso a sua numeração e procedi a alguns cortes. Por enquanto, e muito ao meu gosto, são 64 e assim devem continuar. Deixo aqui o número 1 deste novo recomeço. Baralhar e voltar a dar, que assim é a vida.]
 
 
Pergunto-me o que quero,

inquieto,

mas logo a resposta me surge,

tranquila:

nunca perguntes a ti mesmo o que

queres, pergunta sempre quem és.

A melhor pergunta é a que se

responde a si

mesma

quarta-feira, 9 de julho de 2014

(...)

Calo-me para tudo ouvir.
Esvazio-me de palavras, encho-me
de palavras;
escuto-as, escrevo-as,
escuto-me, digo-me.
O poema tem raízes fundas
no silêncio.

 
 

terça-feira, 8 de julho de 2014

27

[Alterada a numeração destes textos usando o acaso, é interessante ver como se reorganizaram. Como continuei a publicar após essa alteração, os números 26 e 27, correspondendo ao números 5 e 8, repetiram-se, o que não é de admirar. De admirar talvez seja que, falando ambos do olhar, agora se sigam um ao outro.]

 
Extraordinária capacidade ou

simples deformação muito aquém

do poema, muito aquém do real,

é no olhar que a poesia primeiro

se revela. Olhar incomum de homens

e mulheres comuns, olhar comum

de homens e mulheres incomuns,

é ele que diz o mundo sem o nomear,

mundo anterior às palavras,

mundo mistério que os olhos vêem,

 mas de todo não

dizem.

 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

26


Está tudo no olhar. No princípio

é sempre o olhar, nada mais

do que o olhar, o ver vem depois,

vem sempre depois, depois do olhar e

antes do fazer, ou não fazer. O

poema pode ser cego mas tem

os teus olhos. O poema pode

ser obscuro mas nunca é invisível.

Está tudo no olhar, não estás a ver?
 
Então olha!

domingo, 6 de julho de 2014

25


Vais fazê-lo, sabes que vais fazê-lo,

então não penses mais no porquê e

no para quê, pensa apenas no

que estás a fazer e fá-lo, que é

isso que tens de fazer. Fazer, por

muito estúpido que te pareça,

é sempre o melhor que podes

fazer,

é sempre o melhor que podes

pensar.

 

sábado, 5 de julho de 2014

OLHAR

Olhar o real é sempre pensá-lo e dizê-lo.
 
 

avental poético - nova joalharia




 
 
 
projecto criado este ano no âmbito de um workshop de joalharia da Pontos Iguais
 
 
 

 

24


 

Às vezes penso que devia desistir

de uma parte de mim, como quem prescinde

de um membro doente para sobreviver.

Mas se tudo o que sou faz parte de mim,

de que parte poderei separar-me

e continuar a ser eu? Ou será que

para continuar a ser eu, tenho de

continuamente me tornar outro?

 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Caminho Estreito

O que é mais importante, o processo ou o resultado?












A arte é resultado ou é processo?

23 - a poesia como autoajuda

[este número 23 segue-se ao 22, mas entre um e o outro houve uma distribuição feita ao acaso para atribuir nova ordem ao conjunto dos textos. Curiosamente este número 23 (antes 42), primeiro publicado depois dessa alteração, fala do acaso e dá-me como que um conselho, uma opinião, sobre o que fiz e sobre que atitude devo tomar. Gosto muito! De notar que estes textos tiveram o subtítulo de "poemas de autoajuda" e que estou a pensar dar-lhes a forma de baralho.]


23


Confia no acaso, tudo acontece

por acaso, mesmo quando não

acontece por acaso. Quando

desconhecemos a razão, tudo

acontece por acaso. Confia

no acaso, confia em ti; mesmo

quando não sabes porquê, tu tens

sempre razão, basta que aprendas

a confiar no acaso, basta que

aprendas a confiar em ti.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

MARINA ABRAMOVIC iNSTITUT



BALANÇO

A pensar quem sou ou a pensar quem quero ser? Talvez uma e a mesma coisa.

(...)


22

 

Se não queres fazer, não faças. Se

queres fazer, então faz. É simples,

muito simples: faças ou não faças, faz

sempre o que queres. Mas faças o que

fizeres, nunca te esqueças que uma

árvore, qualquer que ela seja, nunca

quer ser árvore, e tu, já alguém

o disse, tu não és nem mais nem menos

do que uma árvore.
 
 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

EU ESTOU AQUI

Trabalho Final 
desenvolvido no Workshop Projecto Fotográfico na Serra do Caldeirão - 2012
orientado por Susana Paiva

























21



Acredita em ti, acredita sempre

em ti, sobretudo quanto mais

duvides de ti. Acredita nessa

tua capacidade de duvidar

de ti, nessa tua maravilhosa

capacidade que te permite ser

vários sem nunca deixares de

ser tu.