sexta-feira, 11 de julho de 2014

UM CONTO


DAQUI NÃO SAIO DAQUI NINGUÉM ME TIRA

(conto escrito cerca de 2001 como exercício numa oficina de escrita)

 

Acreditei durante muito tempo ter vindo ao mundo de um modo diferente de toda a gente, isto posso dizer-vos! Mas o que é acreditar? O que é o tempo? Não estranhem começar assim, sempre fui dado a levantar questões inúteis. É a minha queda para a filosofia! Acreditar é crer? Acreditamos porque queremos acreditar? Ou será porque disso temos absoluta necessidade? Acredita-se em Deus, um qualquer deus, da mesma forma que se acredita na evidência, tantas vezes ardilosa, quer dos sentidos quer até da ciência? E o tempo? Parece tão simples. Presente, passado, futuro. Ontem, hoje, amanhã. E no entanto... quanto se escreveu já sobre o assunto! E ainda mais se escreverá! Acreditei durante muito tempo... é verdade!

— Todos os meninos têm um pai e uma mãe.
— O teu pai morreu!
— E a minha mãe?
— Não tens mãe!
— Também morreu?
— Já te disse vezes sem conta que não tens mãe!!
— Mas todos os meninos têm mãe, viva ou morta!
— Não me maces mais!
— Mas como é que eu nasci sem uma mãe?!
— Não tens mãe, nunca tiveste. Chega! Vai para o teu quarto! Vai!! Desanda daqui!!

Muito tempo depois, explicaram-me que quando nasci era de lei registar os filhos de pais solteiros com o nome do pai e com a indicação de “mãe incógnita”. Eu já sabia nessa altura a verdadeira história do meu nascimento. A minha mãe morrera durante o parto. O meu pai suicidara-se dias depois. Um amor proibido encontrara o seu desfecho funesto. Quando não sabemos, quando algo nos é escondido, a imaginação apressa-se a preencher o espaço em branco. A imaginação tem horror ao vazio, deixe-se-lhe espaços em branco e logo ela os invade e os conquista. Realidade e ficção, qual é a diferença quando se tornam memórias?

“Quando são atacadas, algumas lagostas produzem um som parecido com o violino, para se defenderem dos predadores. Esta é a conclusão de um estudo levado a cabo por...“

Acreditei durante muito tempo que era diferente de toda a gente, como se fosse o único de uma espécie, a minha espécie. Somos todos diferentes, somos todos iguais, somos humanos. Mas a dúvida estava precisamente aí: seria eu humano? Assaltavam-me emoções confusas, de contornos muito vagos. Eu julgava-me especial, não melhor ou pior do que os outros, mas especial da mesma forma que os sonhos também o são, por acontecerem noutra dimensão da existência. Era um estado de espírito ao mesmo tempo amargo e doce. Adoçava-me as noites mas amargava-me os dias. Agora eu sei que sou igual a toda a gente: humano, imperfeito, mortal.

— Este rapaz vive no mundo da lua. Não sei o que vai ser dele!
— Ou poeta... ou louco.
— Não brinques com coisas sérias!
— É um rapaz como os outros.
— Pensa demais. Onde já se viu uma coisa assim?! Não pára de fazer perguntas. São umas atrás das outras! Perguntas estranhas, estranhíssimas!!
— Quem te ouvir falar, ainda vai pensar que o rapaz não é normal.
— Teve um nascimento triste, só pode ter uma triste vida!
— Cala essa boca! Não vaticines desgraças, que podes ser atendida!
— Lagarto! Lagarto! Lagarto!

“Pelo menos cento e trinta pessoas morreram e uma centena ficou ferida na sequência de distúrbios nas bancadas de um estádio de futebol na...”

Acreditei durante muito tempo que a verdadeira revolução haveria de chegar mais dia menos dia. Tinha treze anos quando o 25 de Abril aconteceu, e o meu mundo transformou-se por completo. Não vou descrever o que senti. Ou viveram essa época e sabem do que falo, ou não a viveram e então talvez nunca venham a saber. Reforma agrária; colectivização; a terra a quem a trabalha; o povo unido jamais será vencido; pão, paz, habitação, trabalho... Quantas palavras plenas de esperança, quantas palavras de ordem inadiáveis! Ainda as ouço, ainda me emociono, mas o sonho não se tornou realidade. No entanto, à minha volta tudo se transfigurou. Eu transfigurei-me também. Hoje, digo-me um homem de esquerda, sinto-me de esquerda, mas já não sei bem o que isso significa. Para toda a gente, para mim e para os outros.

— Pequeno burguês radical de fachada socialista, isso é que tu és!
— Vai mas é à merda, pá! Ainda ontem te calavas e ajoelhavas, agora andas de punho erguido a gritar chavões.
— Conversa de intelectual, isso é que é. Mais não se pode esperar de quem só usa as mãos para escrever!
— Vê lá se te vou mas é aos cornos! Com estas mãos, com estes punhos!
— Experimenta! Experimenta lá se és capaz!! Bem que gostava de ver o que vale um intelectual de trazer por casa!
— Vai mas é ler Marx, social fascista da treta!
— Com gajos como tu não se fazem revoluções! Só sabem falar, pensar, reflectir...
— E com filhos da puta como tu, que pensam que sabem tudo, com filhos da puta como tu só se pode chegar é a ditaduras!

“As turmas do ensino básico e secundário, salvas raras excepções, não vão ter mais de vinte e oito alunos, anunciou...”

Acreditei durante muito tempo que podia amar. E que podia ser amado. A felicidade, a felicidade suprema aconteceria então, de um modo natural. Não sei quem é que disse, mas alguém foi: numa relação amorosa existe a pessoa que ama, existe a pessoa que é amada, e também existe o amor. Nunca percebi bem esta configuração triangular, e muito menos o seu significado, mas de cada vez que me lembro do amor lembro-me também da frase e do enigma que teima em não revelar. Será o amor uma entidade separada de quem o gera e suporta? Será que o amor existe para além dos amantes e dos amados? Sei lá! Que o amor pode viver sem o objecto amado e que dele não precisa, pois pode inventá-lo, isto li num soneto e acredito.

— Mas eu amo-te!
— Não me amas. Não acredito em ti!
— Amo-te!
— Acreditas no amor, mas não me amas de verdade. Apenas pensas que sim!
— Não te percebo!
— Queres amar, precisas de amar, mas não te interessa quem. Qualquer uma serviria para satisfazer o teu desejo de amar.
— Não dizes coisa com coisa.
— Não me amas!
— Amo-te.
— Falso!
— Amo-te muito!
— Sonso.

“O Programa da Inovação, anunciado pelo primeiro-ministro, está a revelar-se um verdadeiro quebra-cabeças...”


Acreditei durante muito tempo no poder infinito da palavra — no princípio era o verbo! Li e ouvi muito, com atenção, com emoção, rendido às palavras. Através delas descobri incontáveis verdades. Verdades simples e claras que se me revelaram com uma luminosidade intensa e hipnótica, incendiando-me a inteligência e o sonho. No entanto, pouco a pouco, de um modo insidioso, fui começando a duvidar que tais palavras e tais verdades pudessem influenciar a realidade. Afirmar uma verdade não altera a realidade: esta não lhe obedece, nem sequer a imita! Pertencerá a magia das palavras ao domínio dos sonhos? Será a sua eficácia no mundo real uma mera ilusão?

— Mas porque é que vocês são contra Alqueva?
— Meu português pouco bom, desculpa. Ler panfleto. Um número incontável de serres descontinuará a existir. Os animais têm alma, só que não sabem falar, ni chorar e muitas vezes não podem gritar. Tal como nós, todos eles têm um direito à vida.
— Mas vocês nem portugueses são! O que é que esperam alcançar? Quem vos vai escutar? Vocês acreditam realmente que alguém se importa?
— Nós importamos. Escuta. Portugal é um país onde por meio da revolução dos cravos já uma vez a população se defendeu com sucesso contra um governo de poucos, contra a ditadura do capital, dos latifundiários e do estado. Agora uma nova revolução deveria seguir à dos cravos, para a conservação da vida e a favor de uma comunidade entre humanos e natureza, ausente de violência. Lugares de destruição já tem suficientes. Agora necessitamos de lugares de curamento. Toma panfleto. Levar para ler e passar.

“Nada se sabe ainda sobre o homem que na madrugada de hoje se barricou no posto de turismo instalado no Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo. Suspeita-se que esteja armado e que tenha consigo material explosivo. Na parede do convento, como se pode ver agora nas imagens, de novo em directo, o barricado escreveu: ‘Daqui não saio, daqui ninguém me tira, até Alqueva parar.’ Continue connosco, para ficar a saber mais sobre...”

Acreditei em todas estas coisas durante muito tempo. Inteiramente, sem reservas. Em algumas talvez ainda acredite, um pouco, sei lá!? Mas agora, do mesmo modo, com a mesma intensidade, apenas acredito na morte. Libertadora, inevitável. Mors certa est, hora incerta, alguém gravou num antigo relógio de sala, ignorando os suicidas loucos de amor, loucos de justiça ou simplesmente desesperados. Todos eles aflitos para assentar a hora certa da sua própria morte na agenda sempre tão incerta da vida. Seja como for, a minha exigência é esta: “Parem Alqueva!”

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