quinta-feira, 29 de outubro de 2009

rua do imaginário/minguante/micronarrativas

Tendo-me sido perguntado qual o tema para as novas participações referidas na entrada anterior, achei por bem escolher um tema/ponto de partida.

À ESPERA

será então o tema/ponto de partida para as micronarrativas que, como habitualmente, não deverão ultrapassar as duzentas palavras.

Fico então À ESPERA.

rua do imaginário/revista minguante/micronarrativas



A partir do próximo programa e até ao final do ano, na Rua do Imaginário lê-se a Revista Minguante, começando pelo número 0.
Quem quiser enviar micronarrativas que cumpram os requisitos da revista, pode fazê-lo, e as mesmas serão também lidas nos próximos programas.
Voltarei a este tema, fica aqui a chamada de atenção.
Digam coisas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

BÓLIDE



BÓLIDE


O automóvel negro desaparece
na curva do ser. Eu
apareço na planura:
todos vão morrer, diz o velho
que se apoia na fachada.
Não me contes mais histórias:
o meu caminho é o caminho
da neve, não é o de parecer
mais alto, mais bonito, melhor.
Morreu Béltran Morales,
ou assim o dizem, morreu
Juan Luis Martinez,
Rodrigo Lira suicidou-se.
Morreu Philip K. Dick
e já só necessitamos
do estritamente necessário.
Vem, mete-te na minha cama.
Acariciemo-nos toda a noite
de ser e do seu negro carro.

Los Perros Românticos, Roberto Bolaño
[vertido por mim para português]

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

aviso à navegação



Este blogue encontra-se suspenso, até "post" em contrário :)

Queda Livre (fim)

13

Tu não és capaz de amar, diz Gelo.
Talvez não seja capaz de amar, de te amar, mas desejo-te.
Desejas-me. Sim, eu sei que me desejas. Mas não me amas. Não és capaz de me amar.
E tu, tu és capaz de me amar?
Não, não sou capaz. Sou como tu. Não sou capaz de amar, conheço apenas o desejo e, mesmo assim, apenas o desejo dos outros, o desejo que provoco nos outros.
Sentes o meu desejo?
Sim, sinto o teu desejo, mas preferia o teu amor.
Mas disseste que não és capaz de amar.
Disse que não era capaz de amar, não disse que não queria amar, que não queria ser amado.
Mas eu desejo-te.
Eu sei. Eu sei. É tão cansativo ser desejado.
Mas tu fazes tudo para despertar esse desejo nos outros, diz João Oliveira, e Gelo sorri. E sorri. E sorri.

Não tem outra resposta a não ser sorrir. Há tantas perguntas para as quais a resposta só pode ser um sorriso, digamos assim, um sorriso enigmático, e nada mais.

Voltaste para ficar.
Sabes que sim.
Vais continuar a fazer o mesmo?
Sabes que sim, diz Joana, e sorri um sorriso doce, um sorriso que diz que o ama, que sempre o amará, e Joaquim sabe-o, mas não consegue retribuir o sorriso, o rosto fechado. Fechado.

Porque perguntamos ainda quando já temos a resposta? Por que perguntamos mesmo quando já sabemos a resposta? Porque não aceitamos as coisas como elas são?

As coisas são como são.
E isso quer dizer o quê?
Quer dizer isso mesmo.
Mas quem diz o que as coisas são?
Não é preciso que alguém o diga. As coisas são como são. Apenas isso.
Palavras. Mero jogo de palavras.
É exactamente isso que te estou a tentar dizer.
Que as coisas são como são!
Sim, já as palavras, são outra coisa. O que se diz das coisas é sempre outra coisa.
João Oliveira olha para Gelo e este para aquele. Quem terá dito uma coisa e outra? Quem falou o quê? Será que interessa? Talvez sim e talvez não. Mas para que não fiquem dúvidas, talvez seja melhor que o narrador o esclareça.
As coisas são como são, diz Gelo, e eu sou como sou. E sorri.

Chico fica muitas vezes calado, a fitar o seu interlocutor, o que incomoda muitos e irrita a maior parte, pouco habituados a serem ouvidos em silêncio. Fala-se de mais, diz Chico, mas a si mesmo, e fica a escutar as palavras que soam apenas em si. Gosta cada vez mais de se escutar, em silêncio. Aprendeu com o Calado, como ele lhe chama. No princípio, Chico falava muito com o Calado. Sabia então, e ainda hoje sabe, que ele não só percebe tudo o que lhe dizem, como toma sempre muita atenção ao que lhe dizem, mas, com o tempo, começou a sentir cada vez menos necessidade de falar com ele, e ficavam cada vezes a olharem-se em silêncio. Foi assim que Chico aprendeu a ouvir e, desde então, sente que aprendeu muito, aprendeu a ouvir para além das palavras. As palavras dizem muitas coisas, mas muitas vezes são como alguém que só conseguisse falar alto, tão alto que ninguém afinal conseguisse perceber o que ele dizia. O Calado não fala, não porque não consiga, mas porque deixou de acreditar nas palavras, isto pensa Chico quando olha para ele e ouve claramente o seu silêncio.

O que é o amor? Será que existe uma resposta? Cecília acha que sim. Cecília tem a certeza. Mas não é uma resposta que possa ser dada com palavras. Cecília ama Mário, logo o amor existe. Mas o que é o amor? É o que Cecília sente. Ela sente amor por Mário. Vão casar, vão ser felizes. Cecília tem a certeza, a certeza absoluta.



14

Sente só, sente-se sempre muito só; mas essa solidão, embora lhe pese, é um fardo que ele carrega com um orgulho triste e desesperado. Não é fácil para ninguém ser quem se é, pelo menos é assim que ele pensa, sobretudo quando se é diferente, quando ser diferente é afinal o que faz de nós quem somos. Acordou há pouco, acorda sempre cedo, e deixa que a luz que entra no quarto o desperte pouco a pouco. Ainda tem sono, mas sabe que já não adormecerá, e deixa-se ficar na cama, os olhos semicerrados, pensando em tudo e em coisa nenhuma. Está nu e tem plena consciência do seu corpo duvidoso, da sua sexualidade ambígua, da certeza da sua diferença. Criou essa diferença, acentua-a, usa-a. Não é uma coisa nem outra e, no entanto, é isso que ele é. Homens e mulheres sentem-se atraídos por ele, pela contradição entre os seios perfeitos e o pénis que ostenta sem vergonha. Quando se despe em público, sente o desejo dos homens e das mulheres, esse desejo que faz o seu sucesso. Olham-no com estranheza, alguns até com desprezo, mas todos o olham com desejo, com o mesmo desejo que ele não conhece a não ser nos outros. João Oliveira deseja-o, mas não o ama, e no entanto isso quase que não o incomoda, quase que não lhe dói, uma vez que João Oliveira não conhece o amor, conhece apenas o desejo, e mesmo assim apenas de uma forma perturbada e sublimada. Passa a mão pelos seios, sente-lhes a perfeição da forma e a maciez da pele, perfeição só perturbada pelo corte no mamilo direito, que lhe dá uma estranha forma de fruto demasiado maduro. Passa a mão pelo pénis erecto, sente-o duro, sente a sua urgência de carne. Não sente desejo ou, se o sente, não é em si, mas nos outros, o desejo dos outros. É esse desejo que o faz despir-se em público, é esse desejo que o faz ser quem é.

Abre-lhe a porta e regressa para a sala, para a mesa redonda, perto da janela, e fica ali, as mãos apoiadas no tampo, de costas voltadas para a entrada a olhar para fora. Ele entra, e olha-a por momentos, breves momentos, muito perto dela, até que as suas mãos lhe tocam as ancas, sobem-lhe a saia, baixam-lhe as cuecas, e ela o sente dentro dela, a entrar e a sair dela, de cá para lá, determinado mas sem pressas. Apoia-se mais sobre o tampo, oferecendo resistência, e depois dobra-se, os seios espalmados, a cabeça repousando sobre a mesa. Ele não pára, está excitado, excitado por ela se ter submetido, excitado por a ter sentido logo húmida, logo disposta, logo aberta para ele, como se o esperasse, como se lhe tivesse pedido que viesse, e, no entanto, fora o contrário, exactamente o contrário, ela tinha-lhe pedido, sim, tinha-lhe pedido que nunca mais a procurasse, que nunca mais, nunca mais, e isso excita-o, excita-o ainda mais, e quer fodê-la, e fode-a, e quer humilhá-la, e diz, puta, grande puta, muito gostas tu de ser fodida, muito gostas tu, e fode-a, e olha pela janela, onde uma vizinha estende a roupa, do outro lado da rua, e bastaria olhar em frente e poderia vê-los, e ele diz, puta, grande puta, gostava que todos vissem como és, e não pára, de cá para lá, dentro e fora, fora e dentro, e repete, puta, grande puta, gostas de ser fodida, não é, gosta de ser fodida, e fode-a e fode-a. Ela sente-o dentro de si, sente o seu desejo e a sua raiva, e isso excita-a, excita-a ainda mais, abre os olhos e vê a vizinha do outro lado, e quase lhe apetece que ela olhe e a veja assim, a ser fodida, assim, a ser fodida, mas soergue-se, levanta-se, ele a entrar e sair de dentro dela, ele a fodê-la, sempre a fodê-la, e vai ajoelhar-se no sofá, ali mesmo ao lado, mas já abrigada de olhares indiscretos. Ele ainda a fode, fode-a sempre, e diz, ainda diz, puta, grande puta, e ela diz-lhe, sabes, sabes que é a última vez, e ele ouve-a, e sabe, mas não lhe responde, fode-a e fode-a e fode-a, puta, grande puta. A última vez, a última vez, a última vez.

É Cecília? É Joana? É Virgínia? Que importância tem isso? E ele, quem é ele? Mas isso ainda tem menos importância. Não percebem? E no entanto é fácil, muito fácil. E difícil, muito difícil.

Mais tarde, muito mais tarde, ele escreverá um poema sobre aquele dia, sobre aquele amor breve e intenso, mas será muito mais tarde, quando finalmente o conseguir dizer, e não será um poema sobre aquele dia, mas um poema sobre o amor, sobre o único amor que conhece, o amor terno e triste que sente por todos as mulheres que amou, ou, o que para ele é o mesmo, por todas as mulheres que nunca foi capaz de amar verdadeiramente, a não ser desta forma, distante e longínqua, que é a única de que é capaz. Ela nunca lerá o poema ou, pelo menos, ele não lhe dará nunca a ler o poema, nem mesmo lhe dirá que o escreveu, que o escreveu para ela, porque embora tenha pensado muitas vezes fazê-lo, ele sabe que não o escreveu para ela, escreveu-o para si, escreveu-o porque acredita no amor, acredita na sua possibilidade.

Quem é ele? Uma das personagens? O narrador? O autor ele mesmo? Que importa isso? Não percebem? E no entanto é fácil, muito fácil. E difícil, muito difícil.

João Oliveira deseja Gelo, deseja-o muito. Gostaria de o desenhar, de o pintar, de o esculpir, mas as suas mãos querem tocá-lo, querem acariciá-lo, insistentemente, directamente, só assim as suas mãos, os olhos, os seus lábios, todo o seu corpo se saciaria e, no entanto, sabe que não o fará, sabe que só muito mais tarde o fará, quando for capaz de o desenhar, de o pintar, de o esculpir, e não agora, não agora, e pensa matá-lo, pensa fazê-lo sofrer, pensa e não pensa, atormentado pelo desejo que ele lhe desperta, um desejo tão forte e tão insaciável como nunca sentiu, como nunca mais sentirá.

Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz alguém, se é homem ou mulher o narrador não sabe nem lhe interessa, e muito menos quem é, que isso não é importante, isso não tem qualquer importância. Não percebem? O que é importante não são as coisas mas as relações entre elas, as relações que se criam entre as coisas.

Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz Cecília.
Cabrão, cabrão, grande cabrão diz João.
Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz ele a si mesmo.
E as palavras assim ditas, assim repetidas, nunca dizem o mesmo mas falam afinal da mesma coisa. Não percebem? Não tem importância, não tem importância nenhuma.



15

Cecília sai do café e desce a avenida em direcção à estação de metro. Não olha para as lojas de móveis e de electrodomésticos. Recordará o homem, imóvel, calado, que encontrou ali uma vez? É a mesma mulher e no entanto é outra, diz a si própria. Pensa no que estará Mário a fazer e quase que lhe telefona, mas desiste. Ele que fique sossegado, diz ela, lá onde está, a trezentos quilómetros de distância, no seu novo trabalho. No fim-de-semana irá ter com ele, e em breve ficarão juntos de vez. Já estão casados, amam-se, são felizes; as coisas vão dar certo, ela tem a certeza, a certeza absoluta.





— Já foste amada? Já foste amada incondicionalmente?
— Não sei? Penso que sim... Mas acredito que é mais importante perguntar se já amámos. Se continuamos a ser capazes de amar. Os outros. Nós mesmos.

— Não concordas?
— Haverá maior tristeza que amar e não ser amado?
— Sim. Muito mais triste é nunca ter amado. Tenho pena de quem nunca amou. É como se nunca ter vivido.

— Algumas pessoas nunca serão capazes de amar. Dentro delas existe um vazio que nunca conseguem preencher.
— Não é o meu caso! Eu sou capaz de amar!!
— Às vezes chego a duvidar, apesar de tudo o que te ouvi. Precisas tão desenfreadamente que te amem... fazes disso uma exigência feroz... não sei...

— Estás a ouvir-me?
— Sim.
— Não fiques zangado comigo. Digo o que penso. Sou assim mesmo.
— Um dia ainda vou encontrar o amor. O amor perfeito.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

12

No dia seguinte, ao congresso, ao dia de sexo, como um eco de tudo o que aconteceu nos últimos dias, nas últimas páginas, a cidade amanheceu cheia de cartazes, colados nos postes de iluminação, nas portas das garagens da baixa, por todo o lado, fotocópias cinzentas que ostentam a foto de uma mulher e um pedido: se virem esta mulher telefonem-me, e um número de telemóvel, e um título, a encimar o cartaz, história de amor. Um homem procura uma mulher, uma história de amor; mas o amor tem muitas formas e muitos nomes. O amor pode ser sempre o amor, mas se não sabemos o que é o amor, ele pode ser muitas coisas. O que nos diz então o cartaz? Aquele homem que procura aquela mulher, será que ele a ama? Mas ainda que possamos responder que sim, que a ama, o que diz tal afirmação do amor que ele tem por ela? Espalhou pela cidade, aquela cidade onde vem pela primeira vez, o retrato da mulher que ama e aquele apelo que só a ela se dirige. Amo-te, não fujas de mim, sempre te amarei. Porque é apenas a ela que o cartaz se dirige. Podia ter feito como os adolescentes e escrito o seu amor em letras de forma numa parede em branco da cidade velha. Na verdade foi isso que fez, é isso que o seu cartaz é, uma declaração de amor. Mas será amor? Sim, mais uma vez se responde, é amor. Mas o que é o amor?

Sabes o que me contaram ainda há pouco? Uma história incrível.
O que foi?
Falei com a colega de Évora, do lar de mulheres maltratadas. Aquilo são só histórias, nem me passava pela cabeça as coisas que ali acontecem. As mulheres são todas doidas. Refugiam-se ali mas estão mortinhas para voltar para os maridos.
Pode parecer-te estranho, mas o amor é estranho, tem dessas coisas, é liberdade e submissão ao mesmo tempo.
Virgínia olha-a, bem que gostava de saber o que se passara em Évora com Cecília, mas ela fechou-se em copas e nada dissera. Ando a ser fodida, a ser bem fodida, tinha ela dito, e não fosse o tom em que o disse, e poderia ter sido outra coisa bem diferente. Ando a ser fodida, podia ela ter tido, e ter ficado Virgínia preocupada, como aliás ficou, mas de uma forma bem diferente. Mas Cecília parece a mesma de sempre, determinada, convencida que o amor existe, mesmo que não saiba muito bem o que é; mas isto diz Virgínia e não Cecília.

A mulher nunca viu os cartazes, nem então nem depois, mas nem por um momento duvidou do amor dele, sabia muito bem que ele a amava, era desse amor que fugia, desse amor cego e doentio que a assustava de morte. E, no entanto, não se imaginava a viver sem aquele amor. Ele moveria céus e terra, é assim que ela diz a si mesma, moveria céus e terra para estar com ela, e algo assim não pode ser senão amor, não pode ser senão belo. E ela pensa nisso e chora. E ele pensa nisso e ri.

Joana voltou para casa. Joaquim sabe e está feliz, mas continua a vaguear pela cidade, não consegue voltar para casa. Lembra-se do vagabundo, daquele que não dizia uma palavra e sente-se como ele, sente que é ele, sente que o amor o sufoca, que o enche de felicidade ao mesmo tempo que o embrutece. Pensa em ligar ao Mário, pensa em ir ter com ele, os seus passos levam-no em direcção a casa, onde está Joana, onde ele quer estar. A Joana voltou. Foda-se.

Isso não é amor, é dependência!
Mas não é todo o amor uma dependência?

Chico olha Calado. Olha-o muitas vezes. Como se olha um mistério, como se olha alguém que se ama, porque o amor é sempre um mistério, poderia dizer-se, ou apenas, como se começou, dizer-se que Chico olha Calado, olha-o muitas vezes. Tirar daí conclusões, tecer considerações sobre esse facto, é já o narrador que o faz, tentando assim que o leitor o faça também e não se fique pelo óbvio, que, mais uma vez, como o faz com frequência, Chico olha para Calado. Interrogar-se-á se o ama? Ou dirá apenas que o ama? Porque ele ama-o, disso não tenho dúvidas e não as tenha o leitor, mas o que é o amor, essa dúvida primeira, para isso continuamos sem resposta. Talvez a resposta seja o próprio amor. O amor é pergunta que se responde a si mesma. Mas está outra vez o narrador a tropeçar nas palavras, o que sabe que ser próprio das palavras, e por isso continuará a fazê-lo.

Durante uma semana dormiu num carro abandonado, mesmo em frente à casa onde ela está. Deixou-se ficar por ali, olhando, olhando, esquecido da vida de todos os dias. Não tem comido, tem dormido muito pouco, tem vestida a mesma roupa com que chegou à cidade, com que saiu de casa. Não arreda pé dali. Foi essa a sua expressão quando lhe vieram dizer que se fosse embora. Não arredo pé. Só saio daqui com a minha mulher. É louco, dizem uns. É o amor, dizem outros. E uns e outros têm razão, que se enlouquece de amor, que o amor é louco, diga-se o que se disser.

O polícia fala com ele, pausadamente, com um olhar firme mas não isento de doçura. É capitão, razão pela qual uma das suas apaixonadas lhe chama carinhosamente, mas não sem malícia, capitão romance. Não tem grande simpatia pelos homens que batem nas mulheres, nem pelos homens que alguma forma se acham superiores às mulheres, mas tem um grande respeito pelo amor, um enorme respeito pelas mulheres. Queria amar todas as mulheres, queria perder-se no seu amor por elas. Mas ainda outra vez é o narrador que tece considerações, que tira conclusões, sem que o leitor tenha elementos para o fazer, o que pode parecer desonestidade, mas o leitor possui uma experiência de vida, a sua e a de outros, e entrando o narrador em dissertações poderá sempre o leitor segui-lo, concordando ou negando o que ele diz.

Quer que a sua mulher volte para si, é isso que me está a dizer?
Sim, preciso dela.
E fará tudo para que ela volte?
Sim, diz o homem, mas sabe o que o capitão dirá a seguir, já o disse antes, e ele sabe que não o fará, já o disse antes, já o fez antes. E chora. E chora. E acompanha o capitão. Mas ele sabe, sabe-o o capitão, sabemo-los todos, que mais tarde voltará ali, talvez ainda nesse dia, talvez no dia seguinte, um dia voltará.

Este polícia, de que agora se falou, o capitão, não é, como é óbvio, o mesmo polícia de que antes se falou, uns capítulos acima, escusa o narrador de dizer exactamente em qual deles, podendo o leitor, se quiser, procurar com facilidade onde afinal se escreveu sobre o primeiro polícia. Se este a que chamei Capitão Romance, por que assim o designou uma apaixonada, acredita no amor, já o outro, o João Oliveira, acha o amor uma enorme xaropada e é-lhe imune, por assim dizer. Mas isso não quer dizer que não se apaixone. Quisesse o narrador complicar as coisas e talvez dissesse, com a sua queda para as dissertações, que mais facilmente se apaixonaria João Oliveira que o Capitão Romance, porque enquanto o primeiro não acredita no amor o segundo é todo ele amor. Mas não leve o leitor a sério o narrador, raras vezes ele sabe o que diz, ainda que isso não queira dizer que ele não sabe do que fala.

Se está disposto a fazer tudo para que ela volte, então deixe que seja ela a decidir.
(…)
Volte para casa e espere por ela.
(…)
O amor não se impõe, diz para si mesmo. O amor não se impõe, cala. O amor, diz, sei lá o que é o amor.
E diz apenas, Venha comigo, e o outro segue-o, lentamente.

Não é por acaso que te chamam Gelo, diz João Oliveira, e o outro sorri.
Não, não é por acaso, nada acontece por acaso, mas também não tem nada a ver com o que estás a sugerir.
E que estou eu a sugerir?
Tu sabes bem o que estás a sugerir.

E assim se passou, sem esforço, de um polícia para outro, colocando-os em relação, polícias e homens, diferentes e iguais, todos eles em queda, mais livre do que pensam, menos livre do que julgam. E assim se termina o capítulo.

Queda Livre (cont.)

11


Depois do pequeno-almoço, Cecília encontra um colega que lhe tinha sido apresentado num anterior congresso, nem se lembra do nome dele, mas não lhe pergunta, porque ele sabe o seu; mais tarde, se for o caso, tentará sabê-lo, sem dar nas vistas. Sobrancelhas espessas e porte atlético; foi assim que o descreveu, era assim que o recordava, ainda que pela ordem inversa, que a descrição é dela e fui eu que inadvertidamente a troquei. Retomemos então. Porte atlético e sobrancelhas espessas, que a ordem dos factores não é irrelevante, nunca é, pelo menos na construção da frase. Ele também está a sair, porque não vão os dois? Só precisa ir ao quarto, e ela também, claro, podem ir os dois juntos, e sorriem. Sobem no elevador, param no mesmo piso; os quartos, sim, os quartos, verão pouco depois, são mesmo um ao lado do outro. Sorriem. Serão completamente iguais? – pergunta ela, e entra com ele, atrás dele. Olha primeiro em redor e só depois para ele, quase perfilado, à entrada do quarto. Olha para ele e vê que ele está com uma erecção, uma enorme erecção, e não consegue desviar o olhar. Não sabe que ele sorri, que ainda sorri, que não deixou de sorrir; olha apenas para aquele caralho enorme que facilmente adivinha por debaixo das calças de ganga. E sabe que basta ela querer, e ela quer, e ele a encherá dele, a fará gritar de dor e de prazer, encher-lhe-á a cona e o cu com ele, com aquele caralho enorme. Sem desviar o olhar da enorme erecção, do enorme caralho, puxa-o para si, para a cama, do outro lado da cama, e ele segue-a, docilmente. Sorri ainda. Cecília senta-se na cama, puxa-o ainda mais para si, as mãos nas suas ancas, as mãos nas sua nádegas, e desaperta-lhe as calças, puxa-as para baixo, as cuecas também, num só gesto, o olhar preso naquele caralho enorme. E agarra-o com as duas mãos, e lambe-lhe a glande, percorrendo cada milímetro, cada contorno, e enche a boca com ele, e chupa-o vigorosamente, quase se engasgando, quase se esquecendo de respirar, pensando apenas em vencê-lo, em derrotá-lo. Ele pôs-lhe as mãos nos ombros e ela sentiu-lhe os dedos hirtos, sentiu-lhe as pernas que tremem ligeiramente, sente-o dentro de si, dentro e fora de si, sente-o gemer, ouve o seu grito de renúncia, sente-o na boca, a enchê-la, a esvaziar-se, e fica a olhá-lo, vencido, envergonhado, ainda nas suas mãos, ainda na sua boca, e apetece-lhe rir, apetece-lhe dizer que o venceu, mas fica apenas a olhá-lo, divertida, a olhar aquele enorme caralho derrotado. Mais tarde ele a fará gemer, gritar, desfalecer de prazer e de dor, encher-lhe-à a cona e o cu, e ela fará tudo, fará tudo o que ele lhe pedir, e não se limitará a submeter-se, mas a fazer o que ele lhe pedir, a fazer com ele, a levar ainda mais longe o que ele lhe pedir, mas isso será mais tarde, ainda naquele quarto de onde só muito mais tarde sairão. Mais tarde ela fará tudo o que ele pedir; mas nunca tomará a iniciativa, fará, apenas, tudo o que ele lhe pedir. Ele revelar-se-á um amante meigo e competente, meigo e exigente, e ela obedecer-lhe-á em tudo, fará tudo o que ele lhe pedir, desfalecerá de dor e de prazer, repetidamente, mas nunca tomará outra vez a iniciativa. O que ele lhe pedir, ela fará, fará tudo, com entusiasmo e competência, tudo o que ele lhe pedir, na sua voz meiga e firme. Só mais tarde, muito mais tarde, quando ele estiver a dormir, ela sairá do quarto, do hotel, da cidade. Antes, muito antes, ainda pela manhã, telefonou à sua colega Virgínia, que lhe trouxesse o certificado e, quando ela lhe perguntou, onde está, por anda, respondeu-lhe, ando a ser fodida, a ser muito bem fodida.

Chegada a casa, tomou banho, deitou-se no sofá da sala e adormeceu. Acordou sobressaltada. Era o Mário, que vinha ver se tinha corrido tudo bem, e ela disse-lhe que sim, que tinha tudo corrido bem, e acariciou-o, empurrou-o para a cama, despiu-o e montou-o vigorosamente, fazendo-o vir-se ainda mais depressa do que o costume. Então abriu as pernas e masturbou-se vigorosamente à sua frente, sentindo-se desfalecer de prazer e de dor. Cecília geme, grita, agita-se, os olhos fechados, está fechada em si mesma. Mário pensa que ela o faz para si, que o faz para ele, mas ela está sozinha, sozinha com o seu prazer e a sua dor.

Acorda e não a vê a seu lado. Queria dizer o seu nome, mas não o soube Cecília, nunca o chegou a saber, e também eu não o sei nem quero inventá-lo. Por isso digo apenas que acorda e não vê a seu lado. Mas sei quem ele é e o leitor também sabe. Que me desculpe então esta explicação, mas o trabalho do narrador é muito solitário, não admira que de vez em quando não aguente e meta conversa com o leitor.

Acorda e não a vê a seu lado. Sabe de imediato que ele se foi embora. Que terminou. Fica deitado. De barriga para cima. Não se mexe. Está com uma erecção enorme, quase dolorosa. Acaricia-se, masturba-se e… fode, fode-a uma última vez.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

10



Antes da primeira bica nunca acordo, dizia sempre Cecília, como uma senha, uma promessa ou um talismã, nem ela o sabe, a frase pontuada com um sorriso reflexo. Dizia-o a si mesma, dizia-o a quem estivesse com ela, dizia-o ao empregado que se afastava já mas que a brindava ainda com um sorriso. E enquanto sorvia o café em pequenos goles escaldados, pensava no dia que a esperava. A que horas tinha ela combinado encontrar-se com Mário? Às sete? Talvez devesse telefonar-lhe. Ele andava esquisito. Ou seria ela? E o trabalho? O trabalho, que se fodesse o trabalho. E ri alto. E ri por ter rido. E ri ainda mais. Ainda ri quando sai do café. Marca o número de Mário, ele responde de imediato.
“Está.”
“Sou eu.”
“Olá amor, estava a pensar em ti.”
“A que horas é que combinámos?”
“Às sete. Onde andas com a cabeça?”
“(…)”
“Vamos ver algumas coisas para a casa, lembras-te, e podemos jantar, numa qualquer das cervejarias que por ali há. Nada de vegetariano…”
E ri, mas Cecília está séria.
“Amanhã saio cedo para o congresso, não te esqueças.”

domingo, 11 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

9


Posso continuar a contar?
Claro, estava à espera que o fizesses.
E por onde devo começar?
Começar? Mas a história já vai a meio.
Talvez tenhas razão, mas quando se recomeça uma história é como se ela começasse de novo.
Então começa-a de novo, pelo princípio, que é pelo princípio que todas as histórias começam.
Mas a história já vai a meio, não posso começar pelo princípio.
Então recomeça-a, ou começa-a, tanto faz, que no fundo talvez seja a mesma coisa.
(…)
Talvez as histórias não tenham fim, talvez as histórias não tenham princípio. Estás a ver?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

7


Olhou o bife, entre o desprezo e a ironia, e disse:
— Isto é um bife de quê? Não parece nada carne.
— Está descansado que nenhum animal teve de morrer para que tu o comas. Não gostas?
— Há pessoas que gostam disto?
— Cala e come-te. Só te faz bem. Precisas de te alimentar convenientemente. Estás a ficar gordo e mal-encarado.
— Acho que estou a trabalhar de mais e a dormir de menos. Isso é que dá cabo de mim, não é o que eu como.
Suspendeu o bife com o garfo e observou-o com mal contida antipatia.
— A seguir vou mas é comer uma bifana e uma cerveja preta, senão não vou aguentar.
— Não queres trocar? Tu gostas de massa! — respondeu-lhe ela com um sorriso divertido.
Ele relanceou o olhar pelo prato dela com desconfiança e começou a comer os vegetais em volta da fina fatia que dava pelo nome de bife.
— Deixa estar, vou comendo a salada, que até não está nada mal. Agora o bife é que sabe a mofo. Não sei mesmo como alguém pode gostar disto.
— Come e cala-te.


Cecília não era autoritária mas possuía uma gentil rudeza, desarmante e eficaz — pelo menos assim o pensava Mário. Uma das suas recordações mais marcantes, aquela que sempre primeiro evocava quando pensava neles, quando procurava o sentido da relação deles, estava ligada à primeira vez que fizeram amor. Ela queria fazer amor com ele, ela sabia que o queria, preparou tudo, mas ele foi adiando, cercando-a pouco a pouco, quando ela já estava decidida e pronta. Mais tarde, muito mais tarde, nesse dia, ele beijou-a e disse que a desejava, ela riu-se e afastou-se para o quarto. Ele fez amor com ela, cavalgando-a com excessiva energia, cavaleiro a galope com pressa de chegar ao seu destino. Ela riu-se, empurrou-o para o lado e fez dele a sua montaria. Mas o que ele verdadeiramente recorda, o que foi na verdade o facto mais extraordinário, resume-se à frase que ela então proferiu, montada nele, no rosto um esgar sorridente de prazer:
— Olha que isto não é como tu queres!
É esta frase que ele recorda, e também o que a seguiu, e o que a antecedeu, mas ela, só ela, lhe dá um cunho singular. O que se faz nada significa sem o que se diz, os actos são vazios enquanto as palavras não lhe insuflam o sopro do sentido. O que é que queres dizer com essa atitude não é talvez uma pergunta que se faça com muita frequência, mais se pergunta o que é que querias dizer quando disseste o que disseste; mas se o discurso precisa muitas vezes de ser explicado pelo discurso, o acto sem o discurso, e este sem aquele, estão irremediavelmente mutilados.
— As coisas não são como tu queres. — responde-lhe ele às vezes, mas não o fez naquela noite em que por resposta só teve o riso e uma ejaculação, precoce mas intensa. Naquela noite adormeceu contente ao lado dela e jurou a si mesmo que iriam casar e ser felizes.


Mário come devagar, introduzindo na boca pequenas porções que são mastigadas com método e vagar. Quem o observar pode julgá-lo um vegetariano consciente, triturando com fervor os alimentos até os transformar numa papa homogénea e de fácil digestão. Os seus gestos parecem precisos e ordenados, obedecendo a uma estrita disciplina alimentar, mas na verdade, sabemo-lo, são ditados pelo desinteresse e pelo fastio. Quem vê caras não vê corações, talvez dissesse Mário, caso se descobrisse alvo de tão fantasiosas lucubrações, mas se estaria certo ou não, ele e o povo, é coisa que aqui não cabe, embora seja fácil de ver que o coração está bem escondido no peito, ao abrigo de olhares indiscretos, difícil será saber o que lá nele vai. Mário gosta de desenhar pequenos corações atravessados por setas, aos pares, os corações, e uma única seta, longa como um espeto, unindo-os sem dor, um nome em cada um. Muitas vezes distraiu-se, traçando a sua ingénua mas sentida declaração de amor em papéis importantes, originais, e depois viu-se forçado a apagá-los com corrector, envergonhado, como se estivesse a renegar o seu amor. Felizmente apercebeu-se sempre do facto, o seu segredo não foi desvendado, nem Cecília sabe disso, e ele nunca lhe dirá. Há coisas que ele nunca lhe diria, não sabe bem porquê, que afinal esconder não é mentir, descobrisse ela e ele nunca negaria. Não que tenha muito coisa para esconder, tem muito pouco, talvez por isso queira manter alguns pequenos segredos. No amor devemos manter aceso um certo mistério, tinha lido numa revista, e embora tivesse achado a frase pretensiosa, encontrou-lhe um certo encanto e recorda-a ainda. À maior parte das vezes sente que Cecília lê nele como num livro aberto, e isso assusta-o. Sente-se que o seu peito está aberto e o coração lhe revela tudo o que vai lá dentro, porque nem só de puro e casto amor está cheio, isso sabe ele, ainda que nada veja. Já falta pouco para viverem juntos, para partilharem ainda mais os bons e maus momentos.


— Sabes uma coisa? Estive com o Joaquim hoje de manhã, estava desesperado. A história do costume. Estás a ver o filme, não estás?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Queda Livre

6


Joaquim está sentado no chão, aturdido. Foi tudo muito rápido. Demasiado rápido para os mirones que ainda estavam a ajuntar-se já tudo tinha acabado. Chico empurrou Joaquim com violência e este caiu desamparado no chão onde ficou sem se mexer.
Senhor polícia, não fui eu que comecei, foi esse bandalho que estava a bater no infeliz do velho, grita Chico, as mãos levantadas num cómico gesto de rendição. João Oliveira mal olhou para ele, disse-lhe para estar quieto, ordem inútil e desajustada pois o outro estava quieto e nem pensava em fugir, ajoelhou-se no chão ao lado de Joaquim, sacudiu-lhe o ombro, você está bem?, e ajudou-o a sentar-se, estou meio tonto senhor polícia, disse ele, deixe-me estar assim um bocadinho, está bem?
— Mas então o que se passou aqui? Estou a ver que queres ir visitar a esquadra.
— Senhor agente, eu não fiz nada.
— Isso é o que vamos ver.
— Mas eu não fiz nada.
— Eu é que decide quem é que fez ou não fez alguma coisa — disse o polícia com firmeza, e virando-se para Joaquim: Sente-se melhor? Quer ajuda para se levantar?
Joaquim levantou-se e olhou para Chico e para o polícia com uma atenção envergonhada.
— Estou bem. Está tudo bem. Não aconteceu nada. Posso ir andando, senhor polícia?
João olhou de Joaquim para Chico, que assentiu com a cabeça, e de novo para Joaquim.
— Só um momento. Onde está o outro indivíduo? — disse sem se dirigir a ninguém a particular.
— Meu Deus, o Calado fugiu. Tenho de ir atrás dele, é como uma criança, ainda fica por aí debaixo de um carro. Senhor agente, deixe-me ir embora, este senhor não quer nada contra mim e eu não quero nada contra ele por isso não há nada que interesse à polícia, não é? Posso ir-me embora?
— Posso ir-me embora? — repete Joaquim.
— Vão-se embora. Mas fico de olho em vocês, especialmente em ti — diz e aponta para Chico. — Não me vou esquecer de ti.
Chico e Joaquim partem cada um para seu lado. Obrigado senhor polícia. Obrigado senhor polícia. Chico corre. Bófia do caralho. Joaquim afasta-se sem pressas. Talvez Joana já esteja em casa. Chico continua a correr. Onde estará o Calado? João Oliveira volta lentamente para o seu posto. Já falta pouco, muito pouco.


“It’s not going to stop. So just give up.” A música ouve-se nítida e insinuante. O seu olhar perscruta os livros alinhados nas estantes. Não vai parar. Não vai parar. Por isso desiste. Desiste de vez.


Agarrou num livro e folheou-o devagar, com disciplina e persistência, como se desfolhasse uma flor. Não lia, limitava-se a passar folha após folha, como se apenas quisesse ouvir o som breve do papel que os seus dedos faziam correr numa carícia. Esteve assim muito tempo, o livro deitado na mão esquerda enquanto com a mão direita fazia desfilar as folhas numa cadência fixa. Ainda o fazia quando Chico entrou na livraria e se foi sentar a uma mesa sem lhe dizer nada.
Calado não deu qualquer sinal de se ter apercebido da chegada de Chico. Este ficou a observá-lo e a sua expressão era interrogativa. Quem teria sido aquele homem? Sobressaltou-se porque usara o tempo passado. Era como se o amigo estivesse morto, mas ele estava ali e então, o mais correcto seria perguntar quem era e não quem tinha sido. Mas o Calado era uma sombra de quem fora, de certa forma era como se estivesse morto. Afastou este pensamento e pediu um café, desviando o olhar do amigo mas mantendo a saída sob atenta vigilância. Dali a pouco o Calado pousaria o livro e seria altura de o levar consigo.


Que livro segurava Calado? Chico não o procurou saber. O narrador não achou importante referi-lo! Calado não lia, que importância tem então qual o era o livro? No momento que tal fosse referido logo o leitor pensaria que encerrava um sentido. Não é indiferente que livro ele segurava, a não ser que se pense que o importante era apenas que ele segurasse um livro, e que não o lesse. Pois bem, aproximemo-nos da estante. O livro não foi restituído ao seu lugar. Está deitado no bordo de uma prateleira, e oferece-se de imediato ao nosso olhar: O chão que ela pisa, de Salman Rushdie. Qual o significado? O que se quer sugerir? Que significado tem? Olhemos outra vez: Casei com uma comunista, de Philip Roth. Ainda outra vez: Ruído branco, de Don Delillo. Que diferença faz qual é o livro? O que é importante é que ele não o lê, qualquer que ele seja, ele não o lê. O seu gesto é apenas um eco de um gesto passado.


O primeiro palpite de Chico foi que Calado estaria na livraria do largo que não distava mais de trezentos metros do jardim. Não porque tivesse qualquer tipo de certeza mas porque era o local mais perto onde o poderia procurar. Na maior parte do tempo, Calado está silencioso e imóvel, mas se nunca o ouviu falar, embora tenha a certeza que o pode fazer, já muitas vezes lhe fugiu, sem destino aparente, à toa, atravessando ruas sem aviso, desaparecendo sem rasto. Aos poucos foi ganhando hábitos, passou a fugir para os mesmos locais, sem que no entanto daí fosse possível tirar quaisquer conclusões sobre o seu passado ou os seus hábitos passados. Gostava de estar na livraria folheando sem nexo um qualquer livro, pelo menos assim pensa Chico. O museu, sim, o museu é também um local para onde foge às vezes. Sim, e o cemitério. Gosta de vaguear por entre as campas. O que significa tudo isto. Que dizem estes gestos e estas acções deste homem sem fala e quase sem agir? Chico não sabe ao certo mas isso não o impede de especular. Um doutor, quase que aposta que é um doutor, um doutor que enlouqueceu, que leu demais, pensou demais, e enlouqueceu, ficou seco e vazio como um livro de que só restou a capa. Durante anos queimou as pestanas a tentar descobrir nos livros o sentido da vida e, por fim, perdeu o juízo, perdeu a voz, perdeu-se em sonhos de sabedoria e não conseguiu mais voltar à realidade. A livraria e o museu recordam-lhe confusamente esses tempos em que ainda era alguém, em que estava vivo. Mas o cemitério, sim, a que propósito vem o cemitério. Talvez lhe tenha morrido um ente querido, a mulher, ou um filho, e ele não aguentou, a dor calou-o e ensandeceu-o.


O restaurante fica num primeiro andar e recorda a casa de habitação que foi em tempos. Num pequeno balcão à direita de quem entra faz-se o pedido e depois procura-se mesa numa das três ou quatro divisões que se desdobram em ele. Não lembra um restaurante, apesar das pessoas que comem, parece mais uma festa dada em casa, um casamento, talvez, ou um aniversário. Uma amiga tinha-lhe falado do restaurante, caso contrário, ter-lhe-ia passado completamente despercebido. Pediu um sumo de cenoura e laranja, hesitou entre bife de seitan e lasanha de espinafres, optou pela segunda, disse não à sobremesa e olhou-o divertida enquanto ele escolhia por sua vez, entediado.
Ele não gostava de aventuras, mesmo culinárias, ou sobretudo desse tipo, ficava quase irritado, ou ficava mesmo e quase o demonstrava, quando ela insistia e ele se deixava ir, sem resmungar, a maior parte das vezes com um sorriso. Era um pouco por causa disso que ela gostava dele, ele suportava-lhe as extravagâncias e os humores sem nunca se queixar, ele gostava mesmo dela, ia com ela a restaurantes onde nunca iria por sua vontade, comia o que ela dizia para comer, às vezes resmungava um pouco, era verdade, mas sempre a sorrir, gostava mesmo dela, até na cama fazia o que ela queria, e ela sentia por ele uma grande ternura quando ele a possuía, desajeitadamente, arfando como um cachorro tolo e apressado. Ia casar com ele e iam ser felizes.
Ela sorriu e ele sorriu também.
Ia casar com ela e iam ser felizes. Ia tê-la só para ele, pensou, e estranhou que o tivesse afirmado, sentiu-se mesmo incomodado, era como um medo de a perder, um medo que nunca tinha sentido, ela amava-o e ele amava-a e esse amor resistiria, resistiria... Não soube continuar, nem percebeu o que quisera dizer, amavam-se, existia amor, esse amor perduraria, que mais se podia dizer?
Ela sorriu-lhe e ele sorriu-lhe em resposta.


No mesmo restaurante, no mesmo dia, mais ou menos à mesma hora, poderia até ser na mesma sala, outro casal, não um homem e uma mulher, mas dois homens, dois machos, por assim dizer, e não um macho e uma fêmea, e também não marido e mulher mas apenas amantes, e mesmo assim ocasionais, diga-se para que não restem dúvidas, estão a almoçar. Aproximemo-nos. Estão a comer, a comer e a falar, um fala, o outro come, nunca falam os dois ao mesmo tempo e mesmo a comer alternam numa sincronia de relojoeiros. Um deles fala mais que o outro, muito mais, o outro fica às vezes em silêncio, já não a escutá-lo, mas à espera que ele coma também, o seu silêncio é agora uma ordem e ele entende-o, pára de falar, leva a comida à boca e quase a engole sem mastigar, retomando de novo o seu discurso no exacto ponto onde o deixara. “Para se entender a relação entre Matisse e Picasso basta comparar as duas obras mais representativas desses anos, A alegria de viver e as Demoiselles d’Avignon, realizadas com poucos meses de diferença, mas extremamente diferentes.” Hesitou por instantes, o outro continuava em silêncio, parecia ausente, mas prosseguiu. “Assim, se o estilo do francês é fluido, amplo, sossegado e se serve principalmente de linhas curvas, o do espanhol é tenso, conciso, rígido e dominado por linhas rectas”. Agora estão os dois calados, olham-se directamente nos olhos e sorriem.


Foi comprar a comida ao restaurante chinês e, garfada a garfada, alimenta-o agora com terna paciência. É sempre assim que faz, como um pai a um filho se pode dizer, apesar das idades trocadas, não das identidades, embora assim muitos o pensem e consideram até bonito e enternecedor, como aquela mulher que lhes sorri de passagem. Chico não pára de falar, Calado come.
Vá, come lá, meu grande filho da puta, diz com um sorriso meigo, o que seria de ti sem mim? Faço tudo por ti e tu como é que me retribuis? Só me dás trabalho e inquietação, é o que é. Meu grande filho da puta, o que te aconteceu? O que é que a vida fez de ti? Vá, come mais um bocado, tens de te alimentar. Vá, não faças fitas, já estás muito grande para isso.


Calado e Chico almoçam. Cecília e Mario almoçam. João Oliveira e Gêlo almoçam. Todos eles almoçam. Qual o significado deste acto repetido? Almoçam, é só isso, é preciso comer. Do facto só é dado notícia porque tinha de acontecer. Porque é que as coisas parecem adquirir um sentido oculto quando entram em relação?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

5

NÃO FAZ SENTIDO VIVER SEM AMAR ALGUÉM INTENSAMENTE. Estamos condenados a amar. Julgamos que amar é um acto livre mas é uma obrigação. E nada podemos fazer quanto a isso a não ser enganarmo-nos a nós mesmos. Não é possível viver sem amar, sem querer amar, sem querer ser amado. É a nossa condenação, afinal, e como não existe amor sem dor, a dor de amar, a dor de ser amado, a dor de não amar, a dor de não ser amado, é uma condenação cruel, nunca inteiramente cumprida.


NÃO FAZ SENTIDO VIVER SEM AMAR ALGUÉM INTENSAMENTE. Caímos em direcção ao amor, ponto furtivo e esquivo, distante e próximo, vago e definido, os músculos tensos, o corpo crispado, a alma apertada, ou então caímos apenas, pedras tontas à procura de um centro, as emoções lisas como seixos despreocupados. Mas caímos, caímos sempre.


NÃO FAZ SENTIDO VIVER SEM AMAR ALGUÉM INTENSAMENTE, é o que se diz. Como quer que seja, flechas que somos, sonhando com alvos impossíveis mas necessários, que sentido faz? E isto não é estranho, estranho é que sejamos arco, flecha e alvo, estranho é que sejamos o processo e o resultado, estranho é que não achemos estranho, estranho é que seja estranho.


NÃO FAZ SENTIDO VIVER SEM AMAR ALGUÉM INTENSAMENTE. Diz-se, e eu acredito.

sábado, 3 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

4


Joaquim retornou sobre os seus passos até ao pequeno jardim cercado por edifícios hostis. Deixou cair o corpo num banco, a cabeça entre as mãos, os cotovelos apoiados nas pernas. Onde estará Joana? Por esta altura bem pode estar a regressar, a regressar de onde quer que esteja — pensa Joaquim de olhos fechados. Está esgotado. Os pensamentos, assim como o corpo, parecem não lhe pertencer. É uma sensação estranha. Sem corpo nem pensamentos. Mesmo os fantasmas, ainda que incorpóreos, têm pensamentos. São talvez pensamento puro. Levantou a cabeça, que se inclina levemente para a direita enquanto os braços descaem, ficando as mãos pousadas sobre o assento do banco, os dedos da mão direita escapando-se em direcção ao chão. Abre os olhos. O sol cega-o. Fecha-os de novo e sente o sol aquecer-lhe o rosto. Não se mexe, entregue a essa sensação. Vermelho. Tudo é vermelho. Calor. Raiva. Desespero. Á sua frente, sentado noutro banco, está um homem numa postura quase idêntica. Também ele está imóvel, o rosto oferecido ao sol, o corpo abandonado. Também não vê, embora os seus olhos estejam apenas semicerrados. Ignoram-se, mas cada um parece uma imagem deformada do outro. A idade adivinha-se facilmente diferente. O mesmo se diga do aspecto: um deles, embora seja evidente o desalinho do cabelo despenteado e das roupas amarrotadas, distingue-se pelo aprumo e bom estado do vestuário. De comum, o desespero e o esgotamento que emana deles com uma intensidade esmagadora. Ali estavam os dois, próximos e distantes, ignorando-se mutuamente mas colocando a quem quer que os observasse o mistério da sua presença conjunta.


O homem, fardado de azul, está encostado à parede da embaixada com o ar distante de quem está a fazer alguma coisa importante e não quer ser incomodado. Tem um porte altivo e displicente. Daqui a pouco poderá ir almoçar e só isso lhe importa. Não é que tenha fome, pois quase nunca tem, mas combinou encontrar-se com um amigo que lhe encomendou um serviço e a ideia excita-o. Do outro lado da rua, no jardim, a imagem simétrica de dois homens mudos e prostrados chama-lhe a atenção. Parecem apenas mais dois vagabundos mas desprende-se deles uma estranha e inquietante sensação de desespero. João Oliveira ama o desespero que se desprende como um odor dos corpos magros e angulosos dos vagabundos. Ama a dor mansa que anima os seus gestos lentos e desconexos. Os corpos excitam-no intelectualmente. Ao sexo entrega-se sem desejo num automatismo indiferente.
Alguns anos mais velho, abandonada a polícia e terminado o curso de belas-artes, casará rico, terá dois filhos e viverá dos rendimentos até ao divórcio que irá chegar numa velocidade directamente proporcional à ausência de relações sexuais de qualidade, isto no dizer da mulher que, bem dito e bem feito, não me dás sexo vou procurá-lo noutro local. Em boa verdade, só depois de se separarem ela o fez, se bem que por todos os meios e mais preocupada com a quantidade do que com a qualidade. Não se falou de amor mas de sexo, sábia escolha, pois se do amor muito se disse e pouco se sabe, já quanto ao sexo, essa ora sublime ora vulgar fricção, mais fácil é de contar e de qualificar do que aquele. Provam-no expressões tantas vezes proferidas como uma por mês é a tua média, dás uma e ficas a dormir, nunca tive um orgasmo, nem me lembro de quando foi a última vez, és um bruto e outras que tais a entupir as conversas e as páginas das revistas. João Oliveira não sabe nada disto nem necessita saber, pois nada disto aconteceu ainda para ele, apesar de aqui já ter acontecido nem se sabe muito bem porquê.
Estava pois olhando os dois homens, o Calado e o Joaquim, mas também os seus nomes desconhecia, e gozava o prazer estético que essa contemplação lhe proporcionava. Tivesse ele consigo lápis e papel e ali mesmo teria traçado vários esboços na tentativa de capturar aquela estranha e inquietante visão. Mais tarde ia tentar transpor aquela sensação e os esboços seriam desnecessários pois recordava bem o que o perturbara: a intensificação de cada um das personalidades pela simples repetição desigual das individualidades. Um jogo de espelhos em que a alteridade reflectida acentuava a individualidade. São palavras dele, anotadas no seu diário e mais tarde recuperadas para o folheto de uma exposição. Nada mais faz o narrador que reproduzi-las.


Um em frente do outro, os dois homens não se olham nem se pressentem. Para além do desespero que evidenciam em que é que verdadeiramente se assemelham? Pensam ambos numa mulher? Sabemos que assim é para Joaquim, mas o mesmo se passará com Calado? A violência é muda ou, se quiserem, é uma alternativa ao discurso. Será também assim o desespero? Falassem eles e de certeza as suas mágoas teriam, senão remédio, pelo menos consolo. Um à frente do outro, os dois homens não se ignoram nem se reconhecem, estão apenas ali, sentados, silenciosos. A inacção que os envolve acentua-se com o silêncio que mantêm. Imobilidade e silêncio, estado apenas conseguido pelas arvores e pelas pedras quando nada as perturba. Quando um ser humano está parado esperamos que se mova, quando está silencioso esperamos que fale. Só dos mortos esperamos que estejam imóveis e silenciosos para sempre. Talvez aqueles homens estejam, senão mortos, pelo menos muito próximos da morte. Pois não o estão todos os desesperados? Abrissem os dois os olhos ao mesmo tempo e veriam no outro a si mesmos?


Do outro lado do jardim, Chico está atento. À distância a que se encontra não consegue distinguir mais do que a silhueta dos dois homens, mas a simetria que tarda em se desfazer não pode deixar de o intrigar.
— Ainda tomas conta do velho? — perguntou-lhe Simão com ar trocista
— Querias que tomasse também conta de ti, ó palerma? — retorquiu-lhe Chico.
— Vai mas é à merda. O dia em que eu precisar de ti ainda está para chegar.
— Já não te lembras quando te ajudei?
— Estás parvo ou quê. Nunca fiquei a dever favores a ti ou a ninguém — rematou Simão, bebendo uma longa golada da garrafa de vinho barato envolta num saco de plástico. Chico estendeu o braço pedindo-lhe a garrafa. O outro pareceu hesitar mas ofereceu-lha sem qualquer comentário.
— O que seria da puta da vida sem o vinho? — diz Chico limpando a boca na palma da mão com um gesto largo. Simão retira-lhe a garrafa com sofreguidão e bebe um gole longo.
Vivem os dois na rua há vários anos, os seus caminhos cruzaram-se já muitas vezes, são amigos, companheiros de aventuras e desventuras. Estiveram em baixo, bem baixo e mais baixo ainda desceram.
— Ainda arrumas ao pé do cemitério? — perguntou Chico
— O meu posto é em frente ao hospital! — respondeu Simão com uma ar de dignidade ferida pendurado no rosto.
— Ao pé do cemitério, em frente ao hospital, qual é a diferença? Deixa-te mas é de merdas!
— É por causa de gajos como tu que a profissão não avança. As pessoas vão ao hospital e não ao cemitério, o parque serve o hospital, o meu trabalho está ligado ao hospital, o meu posto é em frente ao hospital.
— Estou-me a cagar para essa conversa. Que me importa se é em frente ao hospital, nas traseiras do cemitério ou em frente à residência oficial do senhor governador civil.
Simão ostentava um semblante sério e compenetrado e a sua pose era de orador habituado ao público. Afinal ele era o futuro presidente da projectada associação de arrumadores da cidade, cargo merecido e levado muito a sério por quem, como ele, há anos se bate pelos direitos e pela dignidade inerente ao desempenho da profissão de arrumador. No bolso do casaco rasgado traz um projecto de estatutos e o esboço de um manual de ética e de procedimentos para arrumadores. Que não se pense que é profissão simples e isenta de preocupações, há uma série de questões a ter em conta e que um bom arrumador deve garantir para uma eficiente gestão do espaço: a maximização dos lugares, a facilidade de saída e tantos outros aspectos que embora possam parecer menores são de grande importância. Simão podia dizer muitas coisas mas limitou-se a uma afirmação concisa e definitiva: — Até para cagar há sítios melhores e outros piores. Vê lá se queres que te vá aos cornos!
— Estou todo borrado — riu Chico e Simão acompanhou-o com uma gargalhada que mais parecia um ronco repetido.
— O que te queria mesmo dizer é que há uma vaga lá no hospital. O Mangas foi atropelado e morreu. Puta de vida. Dedica uma pessoa a vida aos carros e a quem os conduz e acaba assim. Este é mesmo um país de merda. E depois foi passar por cima e continuar que há muito a fazer e o tempo falta. Foi noite alta e ninguém viu ou acorreu. Acho que não morreu logo, ficou para ali a esvair-se em sangue. Filho duma grande puta, não tinha mesmo sorte nenhuma. Mas o que interessa é que o lugar está vago e estamos a aceitar candidaturas. Não queres concorrer? É um lugar bom, pode-se ganhar uma pipa de massa a qualquer hora do dia. Está sempre gente a chegar e a sair.
Chico parecia pensar mas estava apenas a dar solenidade ao acto, Simão adorava estas coisas e a decisão dependia em grande parte dele, era preciso untá-lo bem untado. Aclarou a voz, bebeu um gole de vinho e disse: — Estou bastante interessado nesse lugar, é cinco estrelas, muito exigente mas também cheio de recompensas, sentir-me- ia muito honrado se a minha candidatura fosse aceite. Ainda Simão não começara a responder e já Chico abalara a correr, a correr e a gritar, como um louco, desculpem o lugar comum, mas foi o que pensou quem o viu a correr, o rosto alterado, e a gritar, a plenos pulmões, como um louco, um louco furioso, que foi o que comentou um senhor de idade que não se conseguiu desviar e quase caía se um jovem estudante não o agarrasse. A maior parte dos transeuntes olhou para trás, julgou-o perseguido, mas era à sua frente que tudo estava a acontecer.


Joaquim reparou finalmente no vagabundo à sua frente, mas não esqueceu Joana. Estranho, era um vagabundo, estava certo, mas parecia e não parecia ser um vagabundo, estava imóvel e silencioso, dir-se-ia uma estátua, mas não parecia adormecido ou morto. Alguma vez teria estado apaixonado?, e isto é que pode parecer estranho, foi o que Joaquim se interrogou e, teria talvez sofrido um desgosto de amor?, bem sabemos em que pensava e podemos até compreender que assim se questionasse.
Terá este homem amado, pensa Joaquim, terá este homem amado uma mulher, pergunta. E diz uma mulher, quando podia também ter dito um homem, ou apenas amado, quando disse mulher queria significar amor carnal, mas esse amor também um homem pode ter por outro homem, estar apaixonado, terá este homem estado alguma vez apaixonado, talvez assim fosse mais claro, será amor e paixão a mesma coisa, curioso ter dito amou e esteve apaixonado, e não apaixonou-se, que confusão, o que de repente senti foi que o amor ou a paixão é ao mesmo tempo interior e exterior, uma força interior que nos impele e uma forças exterior que nos atrai.


Grande coisa, dirá o leitor, deixe-se o narrador de obtusas considerações e continue a contar a história, nem numa nem noutra coisa mostra muita perícia e discernimento, mas com esta sempre me distrai e excita a minha inteligência e perspicácia.
Caro leitor, sem querer fazer perder o teu tempo (desculpa se te trato por tu mas o você ser-me-ia insuportável tendo em conta a inevitável intimidade que nos liga) deixa-me dizer-te que ao texto não é indiferente o contexto, ou melhor dito, o pretexto para o texto está a maior parte das vezes fora do contexto. O que quero transmitir são emoções, deves ler com o coração se quiseres entender o que escrevo ou porque escrevo. É por isso que gosto de repetições, não porque não tenha outras palavras ou outras ideias, mas porque gosto de um texto marinho, um texto que se estende por ondas, que se afirma por constantes e insistentes manifestações da mesma matéria.
Caro leitor, a tua liberdade é não ler, é passar folhas e construíres assim a tua leitura. Não me importo que o faças, na verdade até te incentivo a que o faças.
Mas onde íamos?


Joaquim reparou finalmente no vagabundo à sua frente mas não esqueceu Joana. Olha-o mas vê-se a si mesmo. Talvez ele o possa ajudar, talvez ele lhe ensine a suportar a dor, talvez ele detenha a sabedoria que lhe falta. Assim vai pensando Joaquim, e a quem achar estranho que ele assim pense só posso dizer que ele está desesperado e pessoas desesperadas pensam e agem de modo desesperado. E não vou aqui entrar em considerações quando linhas acima me abstive pelos motivos que julgo terem sido óbvios, limite-se o narrador a narrar e avance a narrativa.


Joaquim reparou finalmente no vagabundo à sua frente mas não esqueceu Joana. Levanta-se e vai sentar-se ao lado do outro. Estão agora os dois sentados no mesmo banco, imóveis e silenciosos, lado a lado. Joaquim olha o outro que não se mexeu nem deu qualquer sinal de ter dado pela sua presença.
“Bom dia”, disse Joaquim, “ou boa tarde, que não me apercebi das horas e talvez já passe do meio-dia. São doze e quinze, por isso boa tarde, ainda que algumas pessoas só digam boa tarde se já tiverem almoçado, o que sempre me levantou dúvidas. Se já almocei e digo boa tarde àquele a quem dirijo e que ainda não almoçou este deve responder-me bom dia ou boa tarde? Complicado, não é? O que é que acha?”
Calado rodou ligeiramente a cabeça num movimento lento e contínuo e olhou na direcção de Joaquim que repetiu a pergunta: — O que é que acha? — não tinha a certeza que o outro o estivesse a ver, parecia estar a olhar para além dele ou através dele. Era uma sensação esquisita e incómoda. Joaquim repetiu a pergunta: — O que é que acha? — Repetiu-a, sem que se tivesse apercebido, num tom mais alto. Pareceu-lhe notar uma ligeira crispação no rosto do outro, nos cantos dos olhos julgou ver finas rugas. Repetiu a pergunta: — O que é que acha? — O grito agudo surpreendeu-o e teve dificuldade em aceitar que tinha sido ele a gritar. O outro continuou imóvel, sereno ou letárgico, isso não sabia ele. Pousou as mãos nos ombros do outro e agitou-o freneticamente. Foi isto que fez Chico disparar, como o leitor já há muito tinha adivinhado mas só agora pôde ter a certeza. O leitor mais perspicaz sabe também que Chico não foi o único a reagir, embora só agora possa ter a certeza: João Oliveira hesita se deve ou não sair do seu posto, a chegada de Chico decide-o, aqui vai ele a correr e a gritar: Parem com isso. Parem.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

3


Mário entrou no átrio do austero edifício e estacou. Com o indicador da mão direita, pressionou o espaço entre as sobrancelhas onde a dor de cabeça se estava a iniciar. Merda, mais valia ir para casa deitar-me, pensou, que hoje vai ser um dia perdido. Entrou no banco e dirigiu-se para o seu gabinete. Fechou a porta, sentou-se e descansou a cabeça nos braços cruzados sobre a secretária.
Assim está também Cecília, os braços cruzados sobre a secretária onde a sua fronte repousa. Não lhe dói a cabeça. Sente-se apenas um pouco entediada.
Ainda falta muito até à hora do almoço, quando Mário e Cecília estarão finalmente juntos. Poderão nessa altura falar da fuga de Joana e do desespero de Joaquim, da casa que vão comprar e do mais que lhes apetecer. E os seus gestos e atitudes explicar-se-ão por si mesmos. Mário fala, Cecília escuta. Mário passa a mão pelos cabelos, Cecília respira fundo. Mário acaricia a mão de Cecília com desprendimento. Cecília olha Mário fixamente nos olhos.
Cecília e Mário ambos de cabeça baixa, olhos fechados. Não pensam um no outro. Estão distantes. Qual o sentido desta estranha coincidência?
Mário ergueu a cabeça e espreguiçou-se.
Cecília ergueu a cabeça e espreitou desinteressada o quadro de Matisse. O poster, comprado já não se lembra bem onde, acompanha-a desde a faculdade, primeiro no quarto de uma residência feminina governada por freiras com mão de ferro; depois no apartamento dividido entre amigas, onde ainda vive; por último, com direito a moldura, nos vários locais onde tem trabalhado nos dois últimos anos. Cecília endireitou-se na cadeira e tentou concentrar-se. Não conseguiu. Levantou-se e foi à janela. Voltou para a secretária e sentou-se.
— Estás outra vez a olhar para essa merda — disse Virgínia, indo sentar-se sem a beijar como de costume.
— Já vi que te picou a mosca — respondeu Cecília com um sorriso.
— Antes fosse picada de mosca — riu Virgínia — É mas é coice de vaca.
— Qual é a última?
— Antes fosse a última. Mas é só mais uma das parvoíces da chefe. É mesmo um estafermo de gaja. Põe-me doida.
— Tu já és doida.
— Sou doida mas é por homens.
Riem as duas às gargalhadas. Virgínia levanta-se e presenteia-a com uma dança do ventre ao mesmo tempo que canta, eu sou doida por homens, eu sou doida por homens. Entrasse agora a chefe de má fama, que da fama já não se livra, e já que a tem pois que lhe fique com o proveito e certo é que sairia discurso do grosso: “Mas isto é um local de trabalho ou uma casa de passe? Vocês são assistentes sociais ou prostitutas? Vejam mas é se fazem qualquer coisa de útil.” Mas não entrou e não tiveram elas, Cecília ou Virgínia, ou as duas a uma voz, de lhe dizer, “Mais respeito se faz favor, que nós fazemos o nosso trabalho bem feito. Onde já se viu tamanha falta de delicadeza.” Mas tudo isto não aconteceu e, embora pudesse ter acontecido mesmo assim, talvez seja melhor ficar por aqui ainda que muitas vezes o que não acontece tem tanta importância como o que se afinal sucede.
— Não me dava jeito nenhum ir ao Congresso sobre as Mulheres Maltratadas. Fui pedir ao estafermo que me dispensasse, tu vais estar lá, mas não serviu de nada. Que nem pensar. Que era importante para o nosso trabalho. Que já estava marcado. Parecia um disco riscado. Grande coirão.
— Mas que te fez mudar de ideias?
— O meu marido vai ter de ir a uma reunião em Madrid e gostava que eu fosse com ele.
— Não te estou a perguntar o que lhe disseste.
— (…)
— (…)
— O Raul, sabes qual é, não sabes, convidou-me para passar o fim-de-semana com ele. Foi assim de repente. Já há bastante tempo que não nos vemos. Estou furiosa. Devia era meter atestado médico.
Virgínia tem sempre vários amantes que raramente mudam. É o seu harém, como ela gosta de dizer a Cecília. “ Não sou uma santa como tu. Quando percebi que o meu marido tinha amantes segui-lhe o exemplo. E ao longo dos anos mantive-os.” Raul é seu amante há mais de dez anos, e estando ela casada há doze, fácil é concluir que cedo descobriu que o marido não era adepto da exclusividade conjugal, antes preferindo fazer uns biscates.
Cecília estava divertida e indignada ao mesmo tempo. O estafermo, que nunca dizem o seu nome, por isso assim é designada, e outras vezes, ainda que menos, a chefe, e sobretudo na sua presença, bem podia ser mais compreensiva.
— Porque não o levas? — disse Cecília a brincar.
— Olha que não é má ideia — respondeu Virgínia pensativa. — Não é mesmo má ideia. A cidade é lindíssima. Romântica. Sim. Excelente.
— E podes levá-lo ao congresso. Talvez aprenda alguma coisa.
— O Raul já tudo sobre como maltratar uma mulher — disse Virgínia beijando os dedos num gesto que se pretendia sensual — E o melhor é que me bastaria ir lá buscar o certificado de presença. Sou mesmo burra. Acho que vou agradecer à chefe. Ainda sou paga para... Isto quase faz de mim uma prostituta.
Eu não dizia, pode agora afirmar a chefe, se lhe fosse dada uma oportunidade de se intrometer, razão tinha eu quando falava em prostitutas. É esta chefe um estafermo de primeira para aparecer onde não é chamada, que ainda a pouco a enxotámos e eis que ela volta mesmo sabendo que não é bem vinda.
— Devias levar o Mário. E o congresso que se fodesse!


— Foder, foder, foder, mas será que tudo passa por aí? Vamos foder! O que tu precisas é de uma boa foda! Mas onde é que isto nos leva? — É um homem ou uma mulher que falou? Esta voz que ouvimos não tem sexo, assim acontecerá enquanto não lhe acrescentarmos um “perguntou ele” ou “perguntou ela”. Talvez seja a voz de Virgínia, ainda há pouco era ela que falava e a sua linguagem bem pode ser apelidada de pícara, ou mesmo grosseira. Mas não é ela quem fala mas sim quem escuta.
— Onde quisermos ir. Nem mais nem menos. — respondeu Virgínia, olhando-o com displicência. Fora o seu primeiro amante, por estranho que pareça, não por iniciativa sua ou dela, mas do seu marido, ansioso por novos jogos amorosos.
— Estou cansado.
Os dois casais eram amigos. Os homens eram amigos. As mulheres eram amigas. Os homens desejavam as mulheres. As mulheres desejavam os homens.
— Pensei que me amavas.
Quem pôs tudo em marcha foi o marido de Virgínia. Quando os pares estavam juntos, acariciava a esposa com despudor numa discreta ostentação de sensualidade. Virgínia disfarçava. Virgínia recusava-o. Raul desejava Virgínia.
— Pensei que te fodia.
A mulher de Raul aproximou-se do par reclinado no sofá e deixou a sua mão percorrer o pescoço de Virgínia, rodear-lhe o ombro direito, deslizar para os seios, repetindo os gestos do marido de Virgínia.
— Já não sei!
Raul deixou cair o copo de vinho tinto que caiu no tapete de Arraiolos com um ruído abafado.


— O que é que eu vou aprender no estuporado Congresso que não saiba já?
Há muita coisa que tu não sabes, pensou Cecília mas calou a observação. Virgínia e os seus amantes fiéis, cópias imperfeitas de um amor impossível. Cecília diz-lhe às vezes que não sabe como é que ela aguenta, um homem já é difícil de aturar, imagina o que será aguentar vários. Virgínia explica-lhe que é fácil, mesmo muito fácil, se quiser ela ensina-lhe, que experiência não lhe falta. Cecília pergunta-lhe se ela não se cansa, Virgínia responde-lhe que o cansaço é parte integrante da vida.
— Nunca pensaste deixar de ter amantes?
— E será que eles queriam?
Mas mesmo se eles quisessem não o quereria Virgínia. Viver só para um homem! Viver um só amor! Que seca. Porque porra é que se há de mudar o que funciona menos-mal, isto para não dizer na perfeição, que é coisa senão impossível, com pouca tendência para durar. Claro que existem regras, Virgínia fixou-as há bastante tempo e não tem sentido necessidade de as alterar. Resumem-se a três. Primeira, todos os amantes devem manter uma relação conjugal estável, caso contrário corre-se o perigo de quererem alterar a ordem estabelecida, ou seja, deixarem-se de ser amantes e passarem a marido, o que estaria fora de questão. Segunda, que não existam fora do seu papel de amantes, isto é, que não seja um amigo do casal ou um vizinho que se encontra todos os dias, de preferência que não viva na mesma cidade. Raul foi uma excepção, a que confirma a regra. Terceira, os amantes não devem falar de amor, é difícil dizer que se ama sem acreditar no que se diz.
— Porque vives ainda com o teu marido?
— Entendemo-nos, porquê mudar?
Virgínia sabe que há certas coisas que quanto mais se mudam mais ficam na mesma, essa é que é essa! Nunca o esquece, é uma das suas certezas.


— Vou deixar a minha mulher, não aguento mais.
— Tens outra?
Estranha pergunta para uma amante, mas não para Virgínia e bem o devia saber Raul. Então porque continuou: — A outra és tu. Quero viver contigo.
Poderia Virgínia ter-lhe explicado outra vez as regras, pacientemente, enquanto o beijava, mas ficou calada, as mãos a percorrerem lentamente o corpo dele, à procura de uma resposta que não tardou.
— Sabes que isso nunca acontecerá. Queres-me?
Vou viver contigo, podia ela ter respondido a Raul, mas vou manter os meus amantes, que diferença é que isso faria? Não lhe perguntou se ele queria dessa forma. A questão era retórica e assim a entendeu ele.
— Sim, quero-te.
— Fode-me.


— É tudo uma questão de padrão.
Cecília tinha perdido o fio à meada. O que é que era uma questão de padrão?
— Agimos sempre de acordo com um padrão. A maior parte das vezes quando dizemos que estamos mudados, talvez seja verdade que pensamos assim, mas o padrão mantém-se. Estou a falar dos maus-tratos, é tudo uma questão de padrão.
Virgínia é a mulher que ama vários homens, conta ela a si própria. Era uma vez uma mulher que amava vários homens e a nenhum se queria entregar. Não, era uma vez uma mulher que se entregava a vários homens sem ser de nenhum. Este é o padrão, mas quem será Virgínia? O autor e os seus actos confundem-se? Os actos revelam o autor? Assim Virgínia não se distinguirá de outras mulheres — e homens, porque não? — que, tal como ela querem amar, amar perdidamente. Assim divagava Cecília, olhando a colega, espreitando o quadro, a manhã a escoar-se lentamente.
— Estás a olhar para essa merda outra vez? Não me dás nenhuma atenção. Porque é que as mulheres batidas regressavam invariavelmente para os braços dos agressores? Isto quando lhes conseguem fugir, é claro, o que não se pode afirmar que aconteça com frequência. Porquê? E não me digas que é por dependerem deles economicamente. A maior parte das vezes não é assim, sabes bem disso.
Por que fazemos o que fazemos? Porque não agimos de forma diferente? Se actuarmos de forma diferente seremos outras pessoas? Ou continuamos a ser nós mesmos, independentemente do que fazemos? Estas questões ocupam muitas vezes Cecília, não nos podemos esquecer que ela é uma profissional da ajuda, e ainda que tenha a constante certeza que pode ajudar os outros, às vezes interroga-se como.
— Somos aquilo que acreditamos ser.
— O que é que queres dizer com isso?
A conversa poderia prolongar-se indefinidamente. Estivesse a chefe a escutar à porta e a acharia interminável, um interminável desperdício de tempo. Mas de onde está, apesar da porta que teima em manter sempre aberta, não escuta as palavras trocadas mas apenas os sons que elas deixam e, embora considere que melhor seria que trabalhassem, ainda pode pensar que falam de trabalho.
A voz de Virgínia é rouca, um pouco áspera. A voz de Cecília é suave com pequenos picos agudos. As secretárias estão dispostas perpendicularmente o que as obriga a voltarem-se quando falam, por isso muitas vezes uma delas vem sentar-se à frente da outra.
Os gestos de Virgínia são sempre um pouco bruscos, como se lhe fosse difícil exercer controle sobre o seu corpo. Sublinha as suas afirmações com acenos súbitos de cabeça que lhe fazem ondular madeixas louras. Os movimentos de Cecília são dolentes, como se lhe fosse difícil dar-lhes início. Esta quase imobilidade dá às suas palavras uma tonalidade mesclada de sabedoria e compaixão.
Ambas têm as suas certezas.
— Agimos de acordo com padrões a que não conseguimos fugir, como moscas apanhadas numa teia apertada.
— Podemos mudar se acreditarmos nisso.
Em que é que as pessoas são diferentes? O que as faz únicas?
— Para mudarmos verdadeiramente temos de saber quem somos.
— Se agirmos de forma diferente seremos diferentes.


Esta mulher que está sentada à minha frente e me diz que vai dar ao marido uma segunda oportunidade, em que é que se distingue da outra que me afirmava a mesma coisa há alguns dias atrás? Por instantes Cecília interroga-se se não será a mesma pessoa. Esta mulher tem um rosto, mas os rostos confundem-se quando a história que se conta parece sempre a mesma. Ele bate-me quando bebe de mais. Insulta-me. Isso é o que ele faz mas quem é ele? Sei que ele gosta de mim, eu ainda gosto, apesar de tudo. Esta mulher tem uns olhos doces, as suas mãos são esguias, deve estar na casa dos trinta mas parece mais velha. Cecília escuta. Cecília escuta sempre. Está imóvel e o seu rosto quase não tem expressão. Duas mulheres frente a frente. Mas porque não mandas passear esse teu marido imprestável?, apetecia-lhe dizer Cecília, mas cala-se. É a minha sina, diz a mulher, ou terá sido a outra, porque esta ama o marido, será essa a sua sina, amar, ou ser batida. Esta mulher tem um rosto, rosto que se repetirá pela cidade do interior onde procurou abrigo. Debaixo do rosto repetido, o apelo: Procura-se esta mulher, por favor telefonar para .... dão-se alvíssaras. Uma história de amor? Um homem procura uma mulher. Um homem apaixonado procura a sua amada. Um agressor procura a sua vítima. O agressor e a vítima. O bom e o mau. O seu marido não presta! O meu marido ama-me. O seu marido bate-lhe. O meu marido é assim. Quanto mais me bates mais gosto de ti, é nisso que acredita? Não o amo porque me bate, não me bate porque me ama. Ama-me. Bate-me. Quero que me deixe de bater mas não quero que me deixe de amar.
A mulher, Cecília não recorda o seu nome, não vê o seu rosto, está sentada à sua frente a contar a mesma história que sempre contam todas as mulheres que ali acorrem. Cecília escuta. Cecília toma notas. Mais tarde traçará um breve quadro, depurado de todos os pormenores inúteis, esvaziado de tudo o que torna singular a situação desta mulher. Fará o registo de mais um caso. Mais um caso. Mais uma mulher.
Em que é estas mulheres são diferentes? O que as faz únicas? Porque o que as torna semelhante é por demais óbvio.
— Às vezes não aguento e vou-me abaixo. Nessas ocasiões penso que por má que a minha situação seja, é um território que conheço, onde me sei movimentar, onde sei sempre o que pode acontecer.
Cecília ergue o lápis (não gosta de escrever a caneta), leva-o à boca e morde-o, sentindo a madeira a ceder aos seus dentes com desespero.
— Se o deixasse não sei o que aconteceria. Podia ser muito melhor. Sim, podia. Mas podia ser pior. E de cada vez que o sonho nos escapa a realidade torna-se mais dura, mais pesada.
Cecília prende o lápis entre as mãos fechadas, pousadas sobre as pernas, e faz força, esperando a todo o momento ouvir o estrondo triste da resignação.
— Já tive outros homens, este não é o pior... gosta do filho... beija-me sempre que sai de casa... Mas às vezes não aguento mais.
Excepto uma mesa circular e quatro cadeiras não existe qualquer mobiliário na pequena sala de entrevistas. “Às vezes não aguento mais.” As paredes estão vazias. A porta está fechada. “Não aguento mais.”


A cama é um lugar onde os corpos se deitam e se amam. O quarto é um espaço delimitado por muros que nada guardam ou escondem. O quadro na parede está lá mas ninguém o observa. A luz invade o quarto mas os odores dos corpos nublam-lhes a visão. Onde estão? O que está volta deles? Tudo desapareceu excepto eles e o que dentro deles restou. Quem somos? Quem sou eu? Quem és tu? Dentro e fora. Fora e Dentro. Interior e exterior. Onde estão os limites? Por breves instantes as palavras projectam sombras que se estendem a perder de vista.
— Fodo-te.
— Sim, fode-me.
O candeeiro da mesa-de-cabeceira caiu na tijoleira com estrondo. Raul sente que algo se quebra dentro dele.