terça-feira, 6 de outubro de 2009

Queda Livre

6


Joaquim está sentado no chão, aturdido. Foi tudo muito rápido. Demasiado rápido para os mirones que ainda estavam a ajuntar-se já tudo tinha acabado. Chico empurrou Joaquim com violência e este caiu desamparado no chão onde ficou sem se mexer.
Senhor polícia, não fui eu que comecei, foi esse bandalho que estava a bater no infeliz do velho, grita Chico, as mãos levantadas num cómico gesto de rendição. João Oliveira mal olhou para ele, disse-lhe para estar quieto, ordem inútil e desajustada pois o outro estava quieto e nem pensava em fugir, ajoelhou-se no chão ao lado de Joaquim, sacudiu-lhe o ombro, você está bem?, e ajudou-o a sentar-se, estou meio tonto senhor polícia, disse ele, deixe-me estar assim um bocadinho, está bem?
— Mas então o que se passou aqui? Estou a ver que queres ir visitar a esquadra.
— Senhor agente, eu não fiz nada.
— Isso é o que vamos ver.
— Mas eu não fiz nada.
— Eu é que decide quem é que fez ou não fez alguma coisa — disse o polícia com firmeza, e virando-se para Joaquim: Sente-se melhor? Quer ajuda para se levantar?
Joaquim levantou-se e olhou para Chico e para o polícia com uma atenção envergonhada.
— Estou bem. Está tudo bem. Não aconteceu nada. Posso ir andando, senhor polícia?
João olhou de Joaquim para Chico, que assentiu com a cabeça, e de novo para Joaquim.
— Só um momento. Onde está o outro indivíduo? — disse sem se dirigir a ninguém a particular.
— Meu Deus, o Calado fugiu. Tenho de ir atrás dele, é como uma criança, ainda fica por aí debaixo de um carro. Senhor agente, deixe-me ir embora, este senhor não quer nada contra mim e eu não quero nada contra ele por isso não há nada que interesse à polícia, não é? Posso ir-me embora?
— Posso ir-me embora? — repete Joaquim.
— Vão-se embora. Mas fico de olho em vocês, especialmente em ti — diz e aponta para Chico. — Não me vou esquecer de ti.
Chico e Joaquim partem cada um para seu lado. Obrigado senhor polícia. Obrigado senhor polícia. Chico corre. Bófia do caralho. Joaquim afasta-se sem pressas. Talvez Joana já esteja em casa. Chico continua a correr. Onde estará o Calado? João Oliveira volta lentamente para o seu posto. Já falta pouco, muito pouco.


“It’s not going to stop. So just give up.” A música ouve-se nítida e insinuante. O seu olhar perscruta os livros alinhados nas estantes. Não vai parar. Não vai parar. Por isso desiste. Desiste de vez.


Agarrou num livro e folheou-o devagar, com disciplina e persistência, como se desfolhasse uma flor. Não lia, limitava-se a passar folha após folha, como se apenas quisesse ouvir o som breve do papel que os seus dedos faziam correr numa carícia. Esteve assim muito tempo, o livro deitado na mão esquerda enquanto com a mão direita fazia desfilar as folhas numa cadência fixa. Ainda o fazia quando Chico entrou na livraria e se foi sentar a uma mesa sem lhe dizer nada.
Calado não deu qualquer sinal de se ter apercebido da chegada de Chico. Este ficou a observá-lo e a sua expressão era interrogativa. Quem teria sido aquele homem? Sobressaltou-se porque usara o tempo passado. Era como se o amigo estivesse morto, mas ele estava ali e então, o mais correcto seria perguntar quem era e não quem tinha sido. Mas o Calado era uma sombra de quem fora, de certa forma era como se estivesse morto. Afastou este pensamento e pediu um café, desviando o olhar do amigo mas mantendo a saída sob atenta vigilância. Dali a pouco o Calado pousaria o livro e seria altura de o levar consigo.


Que livro segurava Calado? Chico não o procurou saber. O narrador não achou importante referi-lo! Calado não lia, que importância tem então qual o era o livro? No momento que tal fosse referido logo o leitor pensaria que encerrava um sentido. Não é indiferente que livro ele segurava, a não ser que se pense que o importante era apenas que ele segurasse um livro, e que não o lesse. Pois bem, aproximemo-nos da estante. O livro não foi restituído ao seu lugar. Está deitado no bordo de uma prateleira, e oferece-se de imediato ao nosso olhar: O chão que ela pisa, de Salman Rushdie. Qual o significado? O que se quer sugerir? Que significado tem? Olhemos outra vez: Casei com uma comunista, de Philip Roth. Ainda outra vez: Ruído branco, de Don Delillo. Que diferença faz qual é o livro? O que é importante é que ele não o lê, qualquer que ele seja, ele não o lê. O seu gesto é apenas um eco de um gesto passado.


O primeiro palpite de Chico foi que Calado estaria na livraria do largo que não distava mais de trezentos metros do jardim. Não porque tivesse qualquer tipo de certeza mas porque era o local mais perto onde o poderia procurar. Na maior parte do tempo, Calado está silencioso e imóvel, mas se nunca o ouviu falar, embora tenha a certeza que o pode fazer, já muitas vezes lhe fugiu, sem destino aparente, à toa, atravessando ruas sem aviso, desaparecendo sem rasto. Aos poucos foi ganhando hábitos, passou a fugir para os mesmos locais, sem que no entanto daí fosse possível tirar quaisquer conclusões sobre o seu passado ou os seus hábitos passados. Gostava de estar na livraria folheando sem nexo um qualquer livro, pelo menos assim pensa Chico. O museu, sim, o museu é também um local para onde foge às vezes. Sim, e o cemitério. Gosta de vaguear por entre as campas. O que significa tudo isto. Que dizem estes gestos e estas acções deste homem sem fala e quase sem agir? Chico não sabe ao certo mas isso não o impede de especular. Um doutor, quase que aposta que é um doutor, um doutor que enlouqueceu, que leu demais, pensou demais, e enlouqueceu, ficou seco e vazio como um livro de que só restou a capa. Durante anos queimou as pestanas a tentar descobrir nos livros o sentido da vida e, por fim, perdeu o juízo, perdeu a voz, perdeu-se em sonhos de sabedoria e não conseguiu mais voltar à realidade. A livraria e o museu recordam-lhe confusamente esses tempos em que ainda era alguém, em que estava vivo. Mas o cemitério, sim, a que propósito vem o cemitério. Talvez lhe tenha morrido um ente querido, a mulher, ou um filho, e ele não aguentou, a dor calou-o e ensandeceu-o.


O restaurante fica num primeiro andar e recorda a casa de habitação que foi em tempos. Num pequeno balcão à direita de quem entra faz-se o pedido e depois procura-se mesa numa das três ou quatro divisões que se desdobram em ele. Não lembra um restaurante, apesar das pessoas que comem, parece mais uma festa dada em casa, um casamento, talvez, ou um aniversário. Uma amiga tinha-lhe falado do restaurante, caso contrário, ter-lhe-ia passado completamente despercebido. Pediu um sumo de cenoura e laranja, hesitou entre bife de seitan e lasanha de espinafres, optou pela segunda, disse não à sobremesa e olhou-o divertida enquanto ele escolhia por sua vez, entediado.
Ele não gostava de aventuras, mesmo culinárias, ou sobretudo desse tipo, ficava quase irritado, ou ficava mesmo e quase o demonstrava, quando ela insistia e ele se deixava ir, sem resmungar, a maior parte das vezes com um sorriso. Era um pouco por causa disso que ela gostava dele, ele suportava-lhe as extravagâncias e os humores sem nunca se queixar, ele gostava mesmo dela, ia com ela a restaurantes onde nunca iria por sua vontade, comia o que ela dizia para comer, às vezes resmungava um pouco, era verdade, mas sempre a sorrir, gostava mesmo dela, até na cama fazia o que ela queria, e ela sentia por ele uma grande ternura quando ele a possuía, desajeitadamente, arfando como um cachorro tolo e apressado. Ia casar com ele e iam ser felizes.
Ela sorriu e ele sorriu também.
Ia casar com ela e iam ser felizes. Ia tê-la só para ele, pensou, e estranhou que o tivesse afirmado, sentiu-se mesmo incomodado, era como um medo de a perder, um medo que nunca tinha sentido, ela amava-o e ele amava-a e esse amor resistiria, resistiria... Não soube continuar, nem percebeu o que quisera dizer, amavam-se, existia amor, esse amor perduraria, que mais se podia dizer?
Ela sorriu-lhe e ele sorriu-lhe em resposta.


No mesmo restaurante, no mesmo dia, mais ou menos à mesma hora, poderia até ser na mesma sala, outro casal, não um homem e uma mulher, mas dois homens, dois machos, por assim dizer, e não um macho e uma fêmea, e também não marido e mulher mas apenas amantes, e mesmo assim ocasionais, diga-se para que não restem dúvidas, estão a almoçar. Aproximemo-nos. Estão a comer, a comer e a falar, um fala, o outro come, nunca falam os dois ao mesmo tempo e mesmo a comer alternam numa sincronia de relojoeiros. Um deles fala mais que o outro, muito mais, o outro fica às vezes em silêncio, já não a escutá-lo, mas à espera que ele coma também, o seu silêncio é agora uma ordem e ele entende-o, pára de falar, leva a comida à boca e quase a engole sem mastigar, retomando de novo o seu discurso no exacto ponto onde o deixara. “Para se entender a relação entre Matisse e Picasso basta comparar as duas obras mais representativas desses anos, A alegria de viver e as Demoiselles d’Avignon, realizadas com poucos meses de diferença, mas extremamente diferentes.” Hesitou por instantes, o outro continuava em silêncio, parecia ausente, mas prosseguiu. “Assim, se o estilo do francês é fluido, amplo, sossegado e se serve principalmente de linhas curvas, o do espanhol é tenso, conciso, rígido e dominado por linhas rectas”. Agora estão os dois calados, olham-se directamente nos olhos e sorriem.


Foi comprar a comida ao restaurante chinês e, garfada a garfada, alimenta-o agora com terna paciência. É sempre assim que faz, como um pai a um filho se pode dizer, apesar das idades trocadas, não das identidades, embora assim muitos o pensem e consideram até bonito e enternecedor, como aquela mulher que lhes sorri de passagem. Chico não pára de falar, Calado come.
Vá, come lá, meu grande filho da puta, diz com um sorriso meigo, o que seria de ti sem mim? Faço tudo por ti e tu como é que me retribuis? Só me dás trabalho e inquietação, é o que é. Meu grande filho da puta, o que te aconteceu? O que é que a vida fez de ti? Vá, come mais um bocado, tens de te alimentar. Vá, não faças fitas, já estás muito grande para isso.


Calado e Chico almoçam. Cecília e Mario almoçam. João Oliveira e Gêlo almoçam. Todos eles almoçam. Qual o significado deste acto repetido? Almoçam, é só isso, é preciso comer. Do facto só é dado notícia porque tinha de acontecer. Porque é que as coisas parecem adquirir um sentido oculto quando entram em relação?

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