terça-feira, 13 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

11


Depois do pequeno-almoço, Cecília encontra um colega que lhe tinha sido apresentado num anterior congresso, nem se lembra do nome dele, mas não lhe pergunta, porque ele sabe o seu; mais tarde, se for o caso, tentará sabê-lo, sem dar nas vistas. Sobrancelhas espessas e porte atlético; foi assim que o descreveu, era assim que o recordava, ainda que pela ordem inversa, que a descrição é dela e fui eu que inadvertidamente a troquei. Retomemos então. Porte atlético e sobrancelhas espessas, que a ordem dos factores não é irrelevante, nunca é, pelo menos na construção da frase. Ele também está a sair, porque não vão os dois? Só precisa ir ao quarto, e ela também, claro, podem ir os dois juntos, e sorriem. Sobem no elevador, param no mesmo piso; os quartos, sim, os quartos, verão pouco depois, são mesmo um ao lado do outro. Sorriem. Serão completamente iguais? – pergunta ela, e entra com ele, atrás dele. Olha primeiro em redor e só depois para ele, quase perfilado, à entrada do quarto. Olha para ele e vê que ele está com uma erecção, uma enorme erecção, e não consegue desviar o olhar. Não sabe que ele sorri, que ainda sorri, que não deixou de sorrir; olha apenas para aquele caralho enorme que facilmente adivinha por debaixo das calças de ganga. E sabe que basta ela querer, e ela quer, e ele a encherá dele, a fará gritar de dor e de prazer, encher-lhe-á a cona e o cu com ele, com aquele caralho enorme. Sem desviar o olhar da enorme erecção, do enorme caralho, puxa-o para si, para a cama, do outro lado da cama, e ele segue-a, docilmente. Sorri ainda. Cecília senta-se na cama, puxa-o ainda mais para si, as mãos nas suas ancas, as mãos nas sua nádegas, e desaperta-lhe as calças, puxa-as para baixo, as cuecas também, num só gesto, o olhar preso naquele caralho enorme. E agarra-o com as duas mãos, e lambe-lhe a glande, percorrendo cada milímetro, cada contorno, e enche a boca com ele, e chupa-o vigorosamente, quase se engasgando, quase se esquecendo de respirar, pensando apenas em vencê-lo, em derrotá-lo. Ele pôs-lhe as mãos nos ombros e ela sentiu-lhe os dedos hirtos, sentiu-lhe as pernas que tremem ligeiramente, sente-o dentro de si, dentro e fora de si, sente-o gemer, ouve o seu grito de renúncia, sente-o na boca, a enchê-la, a esvaziar-se, e fica a olhá-lo, vencido, envergonhado, ainda nas suas mãos, ainda na sua boca, e apetece-lhe rir, apetece-lhe dizer que o venceu, mas fica apenas a olhá-lo, divertida, a olhar aquele enorme caralho derrotado. Mais tarde ele a fará gemer, gritar, desfalecer de prazer e de dor, encher-lhe-à a cona e o cu, e ela fará tudo, fará tudo o que ele lhe pedir, e não se limitará a submeter-se, mas a fazer o que ele lhe pedir, a fazer com ele, a levar ainda mais longe o que ele lhe pedir, mas isso será mais tarde, ainda naquele quarto de onde só muito mais tarde sairão. Mais tarde ela fará tudo o que ele pedir; mas nunca tomará a iniciativa, fará, apenas, tudo o que ele lhe pedir. Ele revelar-se-á um amante meigo e competente, meigo e exigente, e ela obedecer-lhe-á em tudo, fará tudo o que ele lhe pedir, desfalecerá de dor e de prazer, repetidamente, mas nunca tomará outra vez a iniciativa. O que ele lhe pedir, ela fará, fará tudo, com entusiasmo e competência, tudo o que ele lhe pedir, na sua voz meiga e firme. Só mais tarde, muito mais tarde, quando ele estiver a dormir, ela sairá do quarto, do hotel, da cidade. Antes, muito antes, ainda pela manhã, telefonou à sua colega Virgínia, que lhe trouxesse o certificado e, quando ela lhe perguntou, onde está, por anda, respondeu-lhe, ando a ser fodida, a ser muito bem fodida.

Chegada a casa, tomou banho, deitou-se no sofá da sala e adormeceu. Acordou sobressaltada. Era o Mário, que vinha ver se tinha corrido tudo bem, e ela disse-lhe que sim, que tinha tudo corrido bem, e acariciou-o, empurrou-o para a cama, despiu-o e montou-o vigorosamente, fazendo-o vir-se ainda mais depressa do que o costume. Então abriu as pernas e masturbou-se vigorosamente à sua frente, sentindo-se desfalecer de prazer e de dor. Cecília geme, grita, agita-se, os olhos fechados, está fechada em si mesma. Mário pensa que ela o faz para si, que o faz para ele, mas ela está sozinha, sozinha com o seu prazer e a sua dor.

Acorda e não a vê a seu lado. Queria dizer o seu nome, mas não o soube Cecília, nunca o chegou a saber, e também eu não o sei nem quero inventá-lo. Por isso digo apenas que acorda e não vê a seu lado. Mas sei quem ele é e o leitor também sabe. Que me desculpe então esta explicação, mas o trabalho do narrador é muito solitário, não admira que de vez em quando não aguente e meta conversa com o leitor.

Acorda e não a vê a seu lado. Sabe de imediato que ele se foi embora. Que terminou. Fica deitado. De barriga para cima. Não se mexe. Está com uma erecção enorme, quase dolorosa. Acaricia-se, masturba-se e… fode, fode-a uma última vez.

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