quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

7


Olhou o bife, entre o desprezo e a ironia, e disse:
— Isto é um bife de quê? Não parece nada carne.
— Está descansado que nenhum animal teve de morrer para que tu o comas. Não gostas?
— Há pessoas que gostam disto?
— Cala e come-te. Só te faz bem. Precisas de te alimentar convenientemente. Estás a ficar gordo e mal-encarado.
— Acho que estou a trabalhar de mais e a dormir de menos. Isso é que dá cabo de mim, não é o que eu como.
Suspendeu o bife com o garfo e observou-o com mal contida antipatia.
— A seguir vou mas é comer uma bifana e uma cerveja preta, senão não vou aguentar.
— Não queres trocar? Tu gostas de massa! — respondeu-lhe ela com um sorriso divertido.
Ele relanceou o olhar pelo prato dela com desconfiança e começou a comer os vegetais em volta da fina fatia que dava pelo nome de bife.
— Deixa estar, vou comendo a salada, que até não está nada mal. Agora o bife é que sabe a mofo. Não sei mesmo como alguém pode gostar disto.
— Come e cala-te.


Cecília não era autoritária mas possuía uma gentil rudeza, desarmante e eficaz — pelo menos assim o pensava Mário. Uma das suas recordações mais marcantes, aquela que sempre primeiro evocava quando pensava neles, quando procurava o sentido da relação deles, estava ligada à primeira vez que fizeram amor. Ela queria fazer amor com ele, ela sabia que o queria, preparou tudo, mas ele foi adiando, cercando-a pouco a pouco, quando ela já estava decidida e pronta. Mais tarde, muito mais tarde, nesse dia, ele beijou-a e disse que a desejava, ela riu-se e afastou-se para o quarto. Ele fez amor com ela, cavalgando-a com excessiva energia, cavaleiro a galope com pressa de chegar ao seu destino. Ela riu-se, empurrou-o para o lado e fez dele a sua montaria. Mas o que ele verdadeiramente recorda, o que foi na verdade o facto mais extraordinário, resume-se à frase que ela então proferiu, montada nele, no rosto um esgar sorridente de prazer:
— Olha que isto não é como tu queres!
É esta frase que ele recorda, e também o que a seguiu, e o que a antecedeu, mas ela, só ela, lhe dá um cunho singular. O que se faz nada significa sem o que se diz, os actos são vazios enquanto as palavras não lhe insuflam o sopro do sentido. O que é que queres dizer com essa atitude não é talvez uma pergunta que se faça com muita frequência, mais se pergunta o que é que querias dizer quando disseste o que disseste; mas se o discurso precisa muitas vezes de ser explicado pelo discurso, o acto sem o discurso, e este sem aquele, estão irremediavelmente mutilados.
— As coisas não são como tu queres. — responde-lhe ele às vezes, mas não o fez naquela noite em que por resposta só teve o riso e uma ejaculação, precoce mas intensa. Naquela noite adormeceu contente ao lado dela e jurou a si mesmo que iriam casar e ser felizes.


Mário come devagar, introduzindo na boca pequenas porções que são mastigadas com método e vagar. Quem o observar pode julgá-lo um vegetariano consciente, triturando com fervor os alimentos até os transformar numa papa homogénea e de fácil digestão. Os seus gestos parecem precisos e ordenados, obedecendo a uma estrita disciplina alimentar, mas na verdade, sabemo-lo, são ditados pelo desinteresse e pelo fastio. Quem vê caras não vê corações, talvez dissesse Mário, caso se descobrisse alvo de tão fantasiosas lucubrações, mas se estaria certo ou não, ele e o povo, é coisa que aqui não cabe, embora seja fácil de ver que o coração está bem escondido no peito, ao abrigo de olhares indiscretos, difícil será saber o que lá nele vai. Mário gosta de desenhar pequenos corações atravessados por setas, aos pares, os corações, e uma única seta, longa como um espeto, unindo-os sem dor, um nome em cada um. Muitas vezes distraiu-se, traçando a sua ingénua mas sentida declaração de amor em papéis importantes, originais, e depois viu-se forçado a apagá-los com corrector, envergonhado, como se estivesse a renegar o seu amor. Felizmente apercebeu-se sempre do facto, o seu segredo não foi desvendado, nem Cecília sabe disso, e ele nunca lhe dirá. Há coisas que ele nunca lhe diria, não sabe bem porquê, que afinal esconder não é mentir, descobrisse ela e ele nunca negaria. Não que tenha muito coisa para esconder, tem muito pouco, talvez por isso queira manter alguns pequenos segredos. No amor devemos manter aceso um certo mistério, tinha lido numa revista, e embora tivesse achado a frase pretensiosa, encontrou-lhe um certo encanto e recorda-a ainda. À maior parte das vezes sente que Cecília lê nele como num livro aberto, e isso assusta-o. Sente-se que o seu peito está aberto e o coração lhe revela tudo o que vai lá dentro, porque nem só de puro e casto amor está cheio, isso sabe ele, ainda que nada veja. Já falta pouco para viverem juntos, para partilharem ainda mais os bons e maus momentos.


— Sabes uma coisa? Estive com o Joaquim hoje de manhã, estava desesperado. A história do costume. Estás a ver o filme, não estás?

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