sábado, 3 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

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Joaquim retornou sobre os seus passos até ao pequeno jardim cercado por edifícios hostis. Deixou cair o corpo num banco, a cabeça entre as mãos, os cotovelos apoiados nas pernas. Onde estará Joana? Por esta altura bem pode estar a regressar, a regressar de onde quer que esteja — pensa Joaquim de olhos fechados. Está esgotado. Os pensamentos, assim como o corpo, parecem não lhe pertencer. É uma sensação estranha. Sem corpo nem pensamentos. Mesmo os fantasmas, ainda que incorpóreos, têm pensamentos. São talvez pensamento puro. Levantou a cabeça, que se inclina levemente para a direita enquanto os braços descaem, ficando as mãos pousadas sobre o assento do banco, os dedos da mão direita escapando-se em direcção ao chão. Abre os olhos. O sol cega-o. Fecha-os de novo e sente o sol aquecer-lhe o rosto. Não se mexe, entregue a essa sensação. Vermelho. Tudo é vermelho. Calor. Raiva. Desespero. Á sua frente, sentado noutro banco, está um homem numa postura quase idêntica. Também ele está imóvel, o rosto oferecido ao sol, o corpo abandonado. Também não vê, embora os seus olhos estejam apenas semicerrados. Ignoram-se, mas cada um parece uma imagem deformada do outro. A idade adivinha-se facilmente diferente. O mesmo se diga do aspecto: um deles, embora seja evidente o desalinho do cabelo despenteado e das roupas amarrotadas, distingue-se pelo aprumo e bom estado do vestuário. De comum, o desespero e o esgotamento que emana deles com uma intensidade esmagadora. Ali estavam os dois, próximos e distantes, ignorando-se mutuamente mas colocando a quem quer que os observasse o mistério da sua presença conjunta.


O homem, fardado de azul, está encostado à parede da embaixada com o ar distante de quem está a fazer alguma coisa importante e não quer ser incomodado. Tem um porte altivo e displicente. Daqui a pouco poderá ir almoçar e só isso lhe importa. Não é que tenha fome, pois quase nunca tem, mas combinou encontrar-se com um amigo que lhe encomendou um serviço e a ideia excita-o. Do outro lado da rua, no jardim, a imagem simétrica de dois homens mudos e prostrados chama-lhe a atenção. Parecem apenas mais dois vagabundos mas desprende-se deles uma estranha e inquietante sensação de desespero. João Oliveira ama o desespero que se desprende como um odor dos corpos magros e angulosos dos vagabundos. Ama a dor mansa que anima os seus gestos lentos e desconexos. Os corpos excitam-no intelectualmente. Ao sexo entrega-se sem desejo num automatismo indiferente.
Alguns anos mais velho, abandonada a polícia e terminado o curso de belas-artes, casará rico, terá dois filhos e viverá dos rendimentos até ao divórcio que irá chegar numa velocidade directamente proporcional à ausência de relações sexuais de qualidade, isto no dizer da mulher que, bem dito e bem feito, não me dás sexo vou procurá-lo noutro local. Em boa verdade, só depois de se separarem ela o fez, se bem que por todos os meios e mais preocupada com a quantidade do que com a qualidade. Não se falou de amor mas de sexo, sábia escolha, pois se do amor muito se disse e pouco se sabe, já quanto ao sexo, essa ora sublime ora vulgar fricção, mais fácil é de contar e de qualificar do que aquele. Provam-no expressões tantas vezes proferidas como uma por mês é a tua média, dás uma e ficas a dormir, nunca tive um orgasmo, nem me lembro de quando foi a última vez, és um bruto e outras que tais a entupir as conversas e as páginas das revistas. João Oliveira não sabe nada disto nem necessita saber, pois nada disto aconteceu ainda para ele, apesar de aqui já ter acontecido nem se sabe muito bem porquê.
Estava pois olhando os dois homens, o Calado e o Joaquim, mas também os seus nomes desconhecia, e gozava o prazer estético que essa contemplação lhe proporcionava. Tivesse ele consigo lápis e papel e ali mesmo teria traçado vários esboços na tentativa de capturar aquela estranha e inquietante visão. Mais tarde ia tentar transpor aquela sensação e os esboços seriam desnecessários pois recordava bem o que o perturbara: a intensificação de cada um das personalidades pela simples repetição desigual das individualidades. Um jogo de espelhos em que a alteridade reflectida acentuava a individualidade. São palavras dele, anotadas no seu diário e mais tarde recuperadas para o folheto de uma exposição. Nada mais faz o narrador que reproduzi-las.


Um em frente do outro, os dois homens não se olham nem se pressentem. Para além do desespero que evidenciam em que é que verdadeiramente se assemelham? Pensam ambos numa mulher? Sabemos que assim é para Joaquim, mas o mesmo se passará com Calado? A violência é muda ou, se quiserem, é uma alternativa ao discurso. Será também assim o desespero? Falassem eles e de certeza as suas mágoas teriam, senão remédio, pelo menos consolo. Um à frente do outro, os dois homens não se ignoram nem se reconhecem, estão apenas ali, sentados, silenciosos. A inacção que os envolve acentua-se com o silêncio que mantêm. Imobilidade e silêncio, estado apenas conseguido pelas arvores e pelas pedras quando nada as perturba. Quando um ser humano está parado esperamos que se mova, quando está silencioso esperamos que fale. Só dos mortos esperamos que estejam imóveis e silenciosos para sempre. Talvez aqueles homens estejam, senão mortos, pelo menos muito próximos da morte. Pois não o estão todos os desesperados? Abrissem os dois os olhos ao mesmo tempo e veriam no outro a si mesmos?


Do outro lado do jardim, Chico está atento. À distância a que se encontra não consegue distinguir mais do que a silhueta dos dois homens, mas a simetria que tarda em se desfazer não pode deixar de o intrigar.
— Ainda tomas conta do velho? — perguntou-lhe Simão com ar trocista
— Querias que tomasse também conta de ti, ó palerma? — retorquiu-lhe Chico.
— Vai mas é à merda. O dia em que eu precisar de ti ainda está para chegar.
— Já não te lembras quando te ajudei?
— Estás parvo ou quê. Nunca fiquei a dever favores a ti ou a ninguém — rematou Simão, bebendo uma longa golada da garrafa de vinho barato envolta num saco de plástico. Chico estendeu o braço pedindo-lhe a garrafa. O outro pareceu hesitar mas ofereceu-lha sem qualquer comentário.
— O que seria da puta da vida sem o vinho? — diz Chico limpando a boca na palma da mão com um gesto largo. Simão retira-lhe a garrafa com sofreguidão e bebe um gole longo.
Vivem os dois na rua há vários anos, os seus caminhos cruzaram-se já muitas vezes, são amigos, companheiros de aventuras e desventuras. Estiveram em baixo, bem baixo e mais baixo ainda desceram.
— Ainda arrumas ao pé do cemitério? — perguntou Chico
— O meu posto é em frente ao hospital! — respondeu Simão com uma ar de dignidade ferida pendurado no rosto.
— Ao pé do cemitério, em frente ao hospital, qual é a diferença? Deixa-te mas é de merdas!
— É por causa de gajos como tu que a profissão não avança. As pessoas vão ao hospital e não ao cemitério, o parque serve o hospital, o meu trabalho está ligado ao hospital, o meu posto é em frente ao hospital.
— Estou-me a cagar para essa conversa. Que me importa se é em frente ao hospital, nas traseiras do cemitério ou em frente à residência oficial do senhor governador civil.
Simão ostentava um semblante sério e compenetrado e a sua pose era de orador habituado ao público. Afinal ele era o futuro presidente da projectada associação de arrumadores da cidade, cargo merecido e levado muito a sério por quem, como ele, há anos se bate pelos direitos e pela dignidade inerente ao desempenho da profissão de arrumador. No bolso do casaco rasgado traz um projecto de estatutos e o esboço de um manual de ética e de procedimentos para arrumadores. Que não se pense que é profissão simples e isenta de preocupações, há uma série de questões a ter em conta e que um bom arrumador deve garantir para uma eficiente gestão do espaço: a maximização dos lugares, a facilidade de saída e tantos outros aspectos que embora possam parecer menores são de grande importância. Simão podia dizer muitas coisas mas limitou-se a uma afirmação concisa e definitiva: — Até para cagar há sítios melhores e outros piores. Vê lá se queres que te vá aos cornos!
— Estou todo borrado — riu Chico e Simão acompanhou-o com uma gargalhada que mais parecia um ronco repetido.
— O que te queria mesmo dizer é que há uma vaga lá no hospital. O Mangas foi atropelado e morreu. Puta de vida. Dedica uma pessoa a vida aos carros e a quem os conduz e acaba assim. Este é mesmo um país de merda. E depois foi passar por cima e continuar que há muito a fazer e o tempo falta. Foi noite alta e ninguém viu ou acorreu. Acho que não morreu logo, ficou para ali a esvair-se em sangue. Filho duma grande puta, não tinha mesmo sorte nenhuma. Mas o que interessa é que o lugar está vago e estamos a aceitar candidaturas. Não queres concorrer? É um lugar bom, pode-se ganhar uma pipa de massa a qualquer hora do dia. Está sempre gente a chegar e a sair.
Chico parecia pensar mas estava apenas a dar solenidade ao acto, Simão adorava estas coisas e a decisão dependia em grande parte dele, era preciso untá-lo bem untado. Aclarou a voz, bebeu um gole de vinho e disse: — Estou bastante interessado nesse lugar, é cinco estrelas, muito exigente mas também cheio de recompensas, sentir-me- ia muito honrado se a minha candidatura fosse aceite. Ainda Simão não começara a responder e já Chico abalara a correr, a correr e a gritar, como um louco, desculpem o lugar comum, mas foi o que pensou quem o viu a correr, o rosto alterado, e a gritar, a plenos pulmões, como um louco, um louco furioso, que foi o que comentou um senhor de idade que não se conseguiu desviar e quase caía se um jovem estudante não o agarrasse. A maior parte dos transeuntes olhou para trás, julgou-o perseguido, mas era à sua frente que tudo estava a acontecer.


Joaquim reparou finalmente no vagabundo à sua frente, mas não esqueceu Joana. Estranho, era um vagabundo, estava certo, mas parecia e não parecia ser um vagabundo, estava imóvel e silencioso, dir-se-ia uma estátua, mas não parecia adormecido ou morto. Alguma vez teria estado apaixonado?, e isto é que pode parecer estranho, foi o que Joaquim se interrogou e, teria talvez sofrido um desgosto de amor?, bem sabemos em que pensava e podemos até compreender que assim se questionasse.
Terá este homem amado, pensa Joaquim, terá este homem amado uma mulher, pergunta. E diz uma mulher, quando podia também ter dito um homem, ou apenas amado, quando disse mulher queria significar amor carnal, mas esse amor também um homem pode ter por outro homem, estar apaixonado, terá este homem estado alguma vez apaixonado, talvez assim fosse mais claro, será amor e paixão a mesma coisa, curioso ter dito amou e esteve apaixonado, e não apaixonou-se, que confusão, o que de repente senti foi que o amor ou a paixão é ao mesmo tempo interior e exterior, uma força interior que nos impele e uma forças exterior que nos atrai.


Grande coisa, dirá o leitor, deixe-se o narrador de obtusas considerações e continue a contar a história, nem numa nem noutra coisa mostra muita perícia e discernimento, mas com esta sempre me distrai e excita a minha inteligência e perspicácia.
Caro leitor, sem querer fazer perder o teu tempo (desculpa se te trato por tu mas o você ser-me-ia insuportável tendo em conta a inevitável intimidade que nos liga) deixa-me dizer-te que ao texto não é indiferente o contexto, ou melhor dito, o pretexto para o texto está a maior parte das vezes fora do contexto. O que quero transmitir são emoções, deves ler com o coração se quiseres entender o que escrevo ou porque escrevo. É por isso que gosto de repetições, não porque não tenha outras palavras ou outras ideias, mas porque gosto de um texto marinho, um texto que se estende por ondas, que se afirma por constantes e insistentes manifestações da mesma matéria.
Caro leitor, a tua liberdade é não ler, é passar folhas e construíres assim a tua leitura. Não me importo que o faças, na verdade até te incentivo a que o faças.
Mas onde íamos?


Joaquim reparou finalmente no vagabundo à sua frente mas não esqueceu Joana. Olha-o mas vê-se a si mesmo. Talvez ele o possa ajudar, talvez ele lhe ensine a suportar a dor, talvez ele detenha a sabedoria que lhe falta. Assim vai pensando Joaquim, e a quem achar estranho que ele assim pense só posso dizer que ele está desesperado e pessoas desesperadas pensam e agem de modo desesperado. E não vou aqui entrar em considerações quando linhas acima me abstive pelos motivos que julgo terem sido óbvios, limite-se o narrador a narrar e avance a narrativa.


Joaquim reparou finalmente no vagabundo à sua frente mas não esqueceu Joana. Levanta-se e vai sentar-se ao lado do outro. Estão agora os dois sentados no mesmo banco, imóveis e silenciosos, lado a lado. Joaquim olha o outro que não se mexeu nem deu qualquer sinal de ter dado pela sua presença.
“Bom dia”, disse Joaquim, “ou boa tarde, que não me apercebi das horas e talvez já passe do meio-dia. São doze e quinze, por isso boa tarde, ainda que algumas pessoas só digam boa tarde se já tiverem almoçado, o que sempre me levantou dúvidas. Se já almocei e digo boa tarde àquele a quem dirijo e que ainda não almoçou este deve responder-me bom dia ou boa tarde? Complicado, não é? O que é que acha?”
Calado rodou ligeiramente a cabeça num movimento lento e contínuo e olhou na direcção de Joaquim que repetiu a pergunta: — O que é que acha? — não tinha a certeza que o outro o estivesse a ver, parecia estar a olhar para além dele ou através dele. Era uma sensação esquisita e incómoda. Joaquim repetiu a pergunta: — O que é que acha? — Repetiu-a, sem que se tivesse apercebido, num tom mais alto. Pareceu-lhe notar uma ligeira crispação no rosto do outro, nos cantos dos olhos julgou ver finas rugas. Repetiu a pergunta: — O que é que acha? — O grito agudo surpreendeu-o e teve dificuldade em aceitar que tinha sido ele a gritar. O outro continuou imóvel, sereno ou letárgico, isso não sabia ele. Pousou as mãos nos ombros do outro e agitou-o freneticamente. Foi isto que fez Chico disparar, como o leitor já há muito tinha adivinhado mas só agora pôde ter a certeza. O leitor mais perspicaz sabe também que Chico não foi o único a reagir, embora só agora possa ter a certeza: João Oliveira hesita se deve ou não sair do seu posto, a chegada de Chico decide-o, aqui vai ele a correr e a gritar: Parem com isso. Parem.

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