Tendo-me sido perguntado qual o tema para as novas participações referidas na entrada anterior, achei por bem escolher um tema/ponto de partida.
À ESPERA
será então o tema/ponto de partida para as micronarrativas que, como habitualmente, não deverão ultrapassar as duzentas palavras.
Fico então À ESPERA.
Nada é simples quando se trata de palavras.
Quando se trata de palavras até a palavra simples é complicada.
um blog de Luís Ene
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009
rua do imaginário/revista minguante/micronarrativas
A partir do próximo programa e até ao final do ano, na Rua do Imaginário lê-se a Revista Minguante, começando pelo número 0.
Quem quiser enviar micronarrativas que cumpram os requisitos da revista, pode fazê-lo, e as mesmas serão também lidas nos próximos programas.
Voltarei a este tema, fica aqui a chamada de atenção.
Digam coisas.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
rua do imaginário
Nas últimas emissões de Rua do Imaginário tem sido seguido um modelo simples: um conto (uma vez um excerto de um romance) e um álbum. A leitura em voz alta sobrepondo-se mas também deixando-se influenciar pela música. No próximo programa não será muito diferente.
Entretanto, aceitam-se sugestões quanto aos contos a serem lidos e aos álbuns que poderão ser usados.
No próximo programa, em princípio, depois de algumas hesitações, um conto (ou dois) de Jorge Luis Borges e Amnesiac (Radiohead).
Entretanto, aceitam-se sugestões quanto aos contos a serem lidos e aos álbuns que poderão ser usados.
No próximo programa, em princípio, depois de algumas hesitações, um conto (ou dois) de Jorge Luis Borges e Amnesiac (Radiohead).
quinta-feira, 23 de julho de 2009
rua do imaginario sexta 24
No último Rua do Imaginário - do qual não dei aqui conta - li um conto de Paulo Kellerman - Um Dia Bom - incluído na antologia Da Natureza, que será apresentada no Pátio das Letras amanhã (sexta-feira 24). Como o Paulo estará em Faro para a apresentação do livro, será possível tê-lo também na Rua do Imaginário. Ouçam o programa e fiquem a saber mais sobre o Paulo Kellerman.
E o Paulo tem um blog! E dois e-books aqui.
E o Paulo tem um blog! E dois e-books aqui.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
sexta 26
Hoje quebra-se o silêncio na Rua do Imaginário [ver barra] com a leitura de textos da segunda parte [Criaturas] de A Prisão do Ético de Paulo Rodrigues Ferreira. A música será tão variada quanto as Criaturas!
sexta-feira, 19 de junho de 2009
rua do imaginário de 19 de Junho de 2009
Na Rua do Imaginário de hoje não estarei à conversa com quer que seja nem lerei quaisquer textos. Com excepção do início e do fim do programa, em que me farei ouvir, estarei em silêncio. Mas como o silêncio é feito de sons e de palavras, o programa será feito de música, privilegiando-se no entanto as palavras, sussurradas, ditas, e até cantadas. A seu tempo assinalarei, de entre a lista abaixo, o que se for ouvindo.
--->
===>Paris, Texas – original motion Picture soundtrack – music by Ry Cooder-1- Paris, Texas 2:56
===>John Lee Hooker – Anthology 50 Years - CD 1
– 14 – Teachin’ the blues 3:28
===>Assouf – Baly Othmani – Steve Shelan
-1- Eilan Akabar Warigazaz 7:58
===>Tom Waits – Swordfishtrombones
-8- Another Sucker on the vine 1:46
-9- Frank’s wild years 1:53
===>Paris, Texas – original motion Picture soundtrack – music by Ry Cooder
-9– I Knew These People 8:33
-------
===>Woody Allen – P. Nora & J P Cotrim – Banda Desenhada + 2 CD
-9- I’m Getting Sentimental Over You 3’36
===>Courage with Robert Creeley – The Way Out Is Via The Door
-1- Sincerely Y’alls 8:17
===>Ambiances do Sahara – Desert Blues – Disco 2
Ali Farka Touré – Roucky 8:14
===>DJango Reinhardt - Guitar Swing
-12- Nuages 3:17
===>Laurie Anderson - Big Science
-5-Born, never asked 4:56
===>Chet Baker Sings
-12- The thrill is gone 2:50
---
a tocar !===>
já ouvida ===>
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===>Paris, Texas – original motion Picture soundtrack – music by Ry Cooder-1- Paris, Texas 2:56
===>John Lee Hooker – Anthology 50 Years - CD 1
– 14 – Teachin’ the blues 3:28
===>Assouf – Baly Othmani – Steve Shelan
-1- Eilan Akabar Warigazaz 7:58
===>Tom Waits – Swordfishtrombones
-8- Another Sucker on the vine 1:46
-9- Frank’s wild years 1:53
===>Paris, Texas – original motion Picture soundtrack – music by Ry Cooder
-9– I Knew These People 8:33
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===>Woody Allen – P. Nora & J P Cotrim – Banda Desenhada + 2 CD
-9- I’m Getting Sentimental Over You 3’36
===>Courage with Robert Creeley – The Way Out Is Via The Door
-1- Sincerely Y’alls 8:17
===>Ambiances do Sahara – Desert Blues – Disco 2
Ali Farka Touré – Roucky 8:14
===>DJango Reinhardt - Guitar Swing
-12- Nuages 3:17
===>Laurie Anderson - Big Science
-5-Born, never asked 4:56
===>Chet Baker Sings
-12- The thrill is gone 2:50
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a tocar !===>
já ouvida ===>
quinta-feira, 11 de junho de 2009
[dia 12 de Junho - Rua do Imaginário]
Sandro William Junqueira
Nasce em 1974 em Umtali na Rodésia. Em 1976 volta para Portugal. Em 1986 foi viver para Portimão. Em 1998 começa a trabalhar como designer. Em 1999, juntamente com Paulo Quaresma, funda o grupo de teatro A GAVETA. Desde aí, trabalha como responsável artístico, encenador e actor. A partir de 2002, publica com regularidade poesia e contos em revistas e fanzines. É regularmente convidado para dizer poesia em recitais. Em 2007 inicia um trabalho regular em escolas e bibliotecas com a criação e interpretação de diversos ateliers e espectáculos vocacionados para a promoção do livro e da leitura. Em 2009 publica o seu primeiro romance, O Caderno do Algoz.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
próxima sexta-feira, dia 5 de Junho, na Rua do Imaginário
Vera Gonçalves
Nasce em Lisboa, em 1955. Filha de mãe pintora e pai arquitecto cresce num ambiente artístico. Após a frequência da ESBAL e do Arco, vai trabalhar para lagos, sob orientação do escultor João Cutileiro. Em 1979 fixa-se definitivamente no concelho de Lagos, onde ainda hoje vive. Em 1994 abre a loja/galeria Terra à vista, na Marina de Lagos. É sua a obra conhecida em Lagos pela “escultura das cadeiras”, monumento celebrativo da revolução de Abril.
[dia 12 de Junho]
Sandro William Junqueira
Nasce em 1974 em Umtali na Rodésia. Em 1976 volta para Portugal. Em 1986 foi viver para Portimão. Em 1998 começa a trabalhar como designer. Em 1999, juntamente com Paulo Quaresma, funda o grupo de teatro A GAVETA. Desde aí, trabalha como responsável artístico, encenador e actor. A partir de 2002, publica com regularidade poesia e contos em revistas e fanzines. É regularmente convidado para dizer poesia em recitais. Em 2007 inicia um trabalho regular em escolas e bibliotecas com a criação e interpretação de diversos ateliers e espectáculos vocacionados para a promoção do livro e da leitura. Em 2009 publica o seu primeiro romance, O Caderno do Algoz.
domingo, 24 de maio de 2009
quinta-feira, 23 de abril de 2009
rua do imaginario 24 de Abril
Amanhã, sexta-feira, a partir das 19 horas, Rua do imaginário continua com Rui Costa. Será lido o poema Faca de Incêndio, constituído por onze fragmentos, e será tentada entrevista telefónica com o autor. Para saber como ouvir o programa, leia a coluna da direita.
sábado, 11 de abril de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
# 6 - texto base
[Reparo agora que não tinha colocado o texto do 6.º programa, 6.º de uma série concebida como um todo. Como aqui coloquei os anteriores faz todo o sentido que coloque também este. De notar que são apenas o textos base e não dispensam a audição dos programas que oportunamente tentarei colocar aqui e que entretanto serão de novo emitidos, quinzenalmente.
Reparo também que não dei nome a este conjunto de programas. Eu sei que existe um filme com esse nome, mas acho que não ficaria mal A Verdade da Mentira. Ou então A verdade da ficção... Ou simplesmente, como o próprio programa, Rua do Imaginário. Sim, é isso, Rua do Imaginário.]
Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação, por isso, quando ouvimos ou contamos uma história, o mais importante não é se ela é real ou imaginada, mas se é verdadeira.
Todas as histórias se baseiam em factos e na experiência pessoal daqueles que as contam, mas só são verdadeiras as histórias em que se quis dizer a verdade, a verdade tal qual os seus autores a conceberam.
Ao escrever esta história, quis dizer a verdade, aquela verdade que está para além dos factos e das palavras, a verdade que só em nós mesmos podemos encontrar. Por isso espero que percebam que disse a verdade mesmo quando inventei, sobretudo quando inventei, ainda que nada tenha sido verdadeiramente inventado. Contei o que sentia, nada mais, e deixei que a história se contasse a si mesma.
O melhor é mesmo ir já direito ao fim, que talvez muitos de vós tenham já antecipado. Talvez seja a melhor forma de perceberem que o fim, qualquer fim, não é mais do que um princípio, um novo princípio, porque depois de vos contar o fim, de modo breve e conciso, vou ainda continuar um pouco mais, e continuar a contar o que afinal vos quero contar e de que esta história é apenas o princípio, o princípio que nunca vos conseguirei contar até ao fim.
Mas se já anteciparam o fim desta história também poderão continuar a contar o que ficará por contar, pois já se viu que têm o que é preciso: são capazes de imaginar. E se não conseguiram antecipar o fim desta história, não desesperem, na verdade baste que o imaginem, estou certo que são capazes de o fazer, e o fim que imaginarem será o fim desta história e afinal de todas as histórias porque, se pensarem bem nisso, nenhuma história termina alguma vez, pois de cada vez que é contada começa de novo, seja qual for o fim.
O sexto programa decorreu, posso afirmá-lo, no dia e à hora marcada. Ele chegou à rádio cerca de dez minutos antes e esperou pela sua vez dentro do estúdio, como fazia muitas vezes. O autor do programa anterior confirma-o. O programa foi emitido em directo. O director da rádio é categórico. Ninguém o viu sair da rádio, apesar de terem estado sempre pessoas no seu interior. Pelo menos um colaborador esteve na sala de entrada durante todo o tempo do programa e não o viu sair, admitindo no entanto que tal poderia ter acontecido, ainda que fosse pouco provável, pois ainda que se tivesse distraído, a verdade é que ele nunca saía sem se despedir de quem ali estava. O autor do programa seguinte já não o encontrou no estúdio, quando ali chegou, cerca de cinco minutos antes do fim, e foi ele que colocou no ar o fecho do programa. Num dos leitores estava um disco a tocar. Em cima da mesa estava o texto lido naquele programa, bem como toda a música utilizada. E um livro aberto num poema que não foi lido durante o programa. O que pôde ser foi confirmado com a audição posterior do programa. Estes são os factos.
O seu telefone passou a estar sempre indisponível e não me abriu a porta, das duas ou três vezes que toquei à sua campainha. Quando me dirigi à rádio e perguntei por ele, disseram-me que nunca mais tinha aparecido, o que os tinha surpreendido muito pois, como me disseram, não fazia o seu género. Tinham-lhe tentado telefonar-lhe mas o seu telefone estava sempre indisponível, e ficaram à espera que ele explicasse o que tinha acontecido, mas ele nunca os contactou e não voltou a aparecer. Ninguém o tinha voltado a ver mas não se tinham preocupado muito com isso, se lhe tivesse acontecido algo de mal, certamente teriam sabido, mais tarde ou mais cedo, e a verdade é que ali na rádio ninguém o conhecia muito bem.
Já passou mais de um ano desde o seu último programa e nunca mais soube nada sobre o meu amigo. Nesse sexto programa a sua voz deixou de se ouvir perto dos quarenta e cinco minutos e, a partir, daí, ficou a tocar o mesmo álbum até ao fim, o que nunca antes acontecera. Não sei se tal facto tem algum significado, mas o álbum era o mesmo que ele tinha passado já anteriormente no programa quase na totalidade, separado por pequenos contos, e que um jovem autor de um outro programa tinha referido ser um dos seus álbuns preferidos. Tirando essa particularidade de se ter calado cerca dos quarenta e cinco, o programa em nada diferia dos anteriores, em que muitas vezes deixara tocar um mesmo álbum durante muito tempo. E o que dissera naquele programa também não fora nada de extraordinário. Falara do real e da ficção, falara de princípios e de fins, divagara afinal, como divagavam sempre os seus textos, mas era ele mesmo que se interrogava muitas vezes sobre se contar uma história não seria sempre divagar.
É verdade que podia ter feito muito mais. Podia ter perguntado por ele no seu local de trabalho, podia ter perguntado por ele aos vizinhos, podia ter dado conta do seu desaparecimento à polícia, ainda que anonimamente, mas a verdade é que não fiz nada disso, a verdade é que nunca mais soube dele nem ele me contactou, e mesmo alguns seus conhecidos, a quem perguntei por ele, limitaram-se a dizer que há muito não tinham notícias suas.
E o tempo foi passando e a situação manteve-se, nunca mais o vi nem tive notícias suas. Tanto quanto sei, o meu amigo desapareceu certo dia durante um programa de rádio, o sexto de uma série de novos programas, concebidos com um todo e com uma intenção artística, e nunca mais o vi ou tive notícias suas.
Conto esta história até onde quero contá-la, que isto fique bem claro. Poderia continuar a contá-la, mas decidi parar, e faço-o porque é assim que sinto esta história, uma história cujo fim deve ficar por imaginar. Escrevia-a assim, incompleta, para que ele um dia a complete, se quiser. Porque esta história é e não é minha.
Até lá, quem quiser que a complete. É fácil, muito fácil, basta imaginar.
Mas não se esqueçam de dizer a verdade, a vossa verdade, porque se assim não o fizerem, de nada vos servirá imaginar.
Reparo também que não dei nome a este conjunto de programas. Eu sei que existe um filme com esse nome, mas acho que não ficaria mal A Verdade da Mentira. Ou então A verdade da ficção... Ou simplesmente, como o próprio programa, Rua do Imaginário. Sim, é isso, Rua do Imaginário.]
Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação, por isso, quando ouvimos ou contamos uma história, o mais importante não é se ela é real ou imaginada, mas se é verdadeira.
Todas as histórias se baseiam em factos e na experiência pessoal daqueles que as contam, mas só são verdadeiras as histórias em que se quis dizer a verdade, a verdade tal qual os seus autores a conceberam.
Ao escrever esta história, quis dizer a verdade, aquela verdade que está para além dos factos e das palavras, a verdade que só em nós mesmos podemos encontrar. Por isso espero que percebam que disse a verdade mesmo quando inventei, sobretudo quando inventei, ainda que nada tenha sido verdadeiramente inventado. Contei o que sentia, nada mais, e deixei que a história se contasse a si mesma.
O melhor é mesmo ir já direito ao fim, que talvez muitos de vós tenham já antecipado. Talvez seja a melhor forma de perceberem que o fim, qualquer fim, não é mais do que um princípio, um novo princípio, porque depois de vos contar o fim, de modo breve e conciso, vou ainda continuar um pouco mais, e continuar a contar o que afinal vos quero contar e de que esta história é apenas o princípio, o princípio que nunca vos conseguirei contar até ao fim.
Mas se já anteciparam o fim desta história também poderão continuar a contar o que ficará por contar, pois já se viu que têm o que é preciso: são capazes de imaginar. E se não conseguiram antecipar o fim desta história, não desesperem, na verdade baste que o imaginem, estou certo que são capazes de o fazer, e o fim que imaginarem será o fim desta história e afinal de todas as histórias porque, se pensarem bem nisso, nenhuma história termina alguma vez, pois de cada vez que é contada começa de novo, seja qual for o fim.
O sexto programa decorreu, posso afirmá-lo, no dia e à hora marcada. Ele chegou à rádio cerca de dez minutos antes e esperou pela sua vez dentro do estúdio, como fazia muitas vezes. O autor do programa anterior confirma-o. O programa foi emitido em directo. O director da rádio é categórico. Ninguém o viu sair da rádio, apesar de terem estado sempre pessoas no seu interior. Pelo menos um colaborador esteve na sala de entrada durante todo o tempo do programa e não o viu sair, admitindo no entanto que tal poderia ter acontecido, ainda que fosse pouco provável, pois ainda que se tivesse distraído, a verdade é que ele nunca saía sem se despedir de quem ali estava. O autor do programa seguinte já não o encontrou no estúdio, quando ali chegou, cerca de cinco minutos antes do fim, e foi ele que colocou no ar o fecho do programa. Num dos leitores estava um disco a tocar. Em cima da mesa estava o texto lido naquele programa, bem como toda a música utilizada. E um livro aberto num poema que não foi lido durante o programa. O que pôde ser foi confirmado com a audição posterior do programa. Estes são os factos.
O seu telefone passou a estar sempre indisponível e não me abriu a porta, das duas ou três vezes que toquei à sua campainha. Quando me dirigi à rádio e perguntei por ele, disseram-me que nunca mais tinha aparecido, o que os tinha surpreendido muito pois, como me disseram, não fazia o seu género. Tinham-lhe tentado telefonar-lhe mas o seu telefone estava sempre indisponível, e ficaram à espera que ele explicasse o que tinha acontecido, mas ele nunca os contactou e não voltou a aparecer. Ninguém o tinha voltado a ver mas não se tinham preocupado muito com isso, se lhe tivesse acontecido algo de mal, certamente teriam sabido, mais tarde ou mais cedo, e a verdade é que ali na rádio ninguém o conhecia muito bem.
Já passou mais de um ano desde o seu último programa e nunca mais soube nada sobre o meu amigo. Nesse sexto programa a sua voz deixou de se ouvir perto dos quarenta e cinco minutos e, a partir, daí, ficou a tocar o mesmo álbum até ao fim, o que nunca antes acontecera. Não sei se tal facto tem algum significado, mas o álbum era o mesmo que ele tinha passado já anteriormente no programa quase na totalidade, separado por pequenos contos, e que um jovem autor de um outro programa tinha referido ser um dos seus álbuns preferidos. Tirando essa particularidade de se ter calado cerca dos quarenta e cinco, o programa em nada diferia dos anteriores, em que muitas vezes deixara tocar um mesmo álbum durante muito tempo. E o que dissera naquele programa também não fora nada de extraordinário. Falara do real e da ficção, falara de princípios e de fins, divagara afinal, como divagavam sempre os seus textos, mas era ele mesmo que se interrogava muitas vezes sobre se contar uma história não seria sempre divagar.
É verdade que podia ter feito muito mais. Podia ter perguntado por ele no seu local de trabalho, podia ter perguntado por ele aos vizinhos, podia ter dado conta do seu desaparecimento à polícia, ainda que anonimamente, mas a verdade é que não fiz nada disso, a verdade é que nunca mais soube dele nem ele me contactou, e mesmo alguns seus conhecidos, a quem perguntei por ele, limitaram-se a dizer que há muito não tinham notícias suas.
E o tempo foi passando e a situação manteve-se, nunca mais o vi nem tive notícias suas. Tanto quanto sei, o meu amigo desapareceu certo dia durante um programa de rádio, o sexto de uma série de novos programas, concebidos com um todo e com uma intenção artística, e nunca mais o vi ou tive notícias suas.
Conto esta história até onde quero contá-la, que isto fique bem claro. Poderia continuar a contá-la, mas decidi parar, e faço-o porque é assim que sinto esta história, uma história cujo fim deve ficar por imaginar. Escrevia-a assim, incompleta, para que ele um dia a complete, se quiser. Porque esta história é e não é minha.
Até lá, quem quiser que a complete. É fácil, muito fácil, basta imaginar.
Mas não se esqueçam de dizer a verdade, a vossa verdade, porque se assim não o fizerem, de nada vos servirá imaginar.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
# 6 e último
O sexto e último programa de uma série iniciada este ano e concebida como uma obra de arte radiofónica (uma espécie de folhetim radiofónico questionador) acontecerá hoje.
Pode ouvir a seguir o primeiro programa dessa série. Se quiser ouvir os restantes ou estabelecer contacto comigo use lnogueira1@gmail.com.
Pode ouvir a seguir o primeiro programa dessa série. Se quiser ouvir os restantes ou estabelecer contacto comigo use lnogueira1@gmail.com.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
# 5
Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação e, no entanto, vivemos, a maior parte das vezes, de forma tão pouco imaginativa. Esta falta de imaginação de todos os dias, a que muitas vezes ele chamava tristeza, a que ele muitas vezes chamava desespero, preocupava-o, não só porque a considerava generalizada, mas porque a sentia a ganhar espaço em si, ao ponto de lhe ser cada vez mais difícil viver, de o simples facto de viver lhe exigir cada vez mais esforço, quando ele afinal acreditava exactamente no contrário, acreditava que a felicidade não devia exigir qualquer esforço.
Quando se conta uma história, há sempre um momento em que é preciso fazer um ponto da situação pois, tal como na vida, essa é a única forma de continuar ou até terminar, mas é preciso não esquecer que terminar uma história é permitir que uma outra história comece.
Ele tinha chegado ao quarto programa dessa nova série e interrogava-se até quando continuaria. E não era porque fosse muito difícil fazê-lo. É claro que lhe exigia algum esforço, mas não era nada por aí além. A questão que se lhe colocava, que sempre se lhe colocava, era uma questão de sentido. Faria sentido continuar? Até quando? Mas a verdade é que não estava com cabeça para pensar nisso, e nessas ocasiões fazia-lhe sempre mais sentido continuar do que parar, fazia-lhe sempre mais sentido deixar-se ir do que tomar uma decisão. Deixa-te ir, dizia-me sempre ele quando eu me queixava de que tudo me era cada vez mais difícil. Deixa-te ir. Deixa-te ir. E às vezes acrescentava, segue o teu coração, e ria, de mim e de si mesmo, porque não acreditava em dar conselhos, por mais sábios que fossem.
Deixa-te ir. Deixa-te ir. É isso que eu digo e repito a mim mesmo quanto escrevo. Deixa-te ir. Deixa-te levar pela escrita. Deixa-te levar por aquilo que em ti desconheces. Entre a cabeça e o coração escolhe sempre o coração. O teu coração sabe melhor do que tu o que sabe a tua cabeça. E aqui já não falo da escrita mas da vida, ainda que em mim as duas se misturem de tal forma que penso muitas vezes que são uma coisa só. Mas divago e, ainda que esta seja a única forma de contar uma história, de vez em quando é preciso voltar ao ponto de partida para de novo partir e seguir em frente. Às vezes, estar em silêncio e falar é uma e a mesma coisa, sobretudo quando falamos de mais, que não é mais do que uma forma impura de estar em silêncio.
Tenho então vindo a contar o que aconteceu ao meu amigo, escritor como eu, depois que decidiu renovar a forma como fazia o programa de rádio que colocava no ar há cerca de dois anos; tenho tentado dar conta, programa a programa, das dificuldades que sentiu e da forma como as resolveu. Tenho contado de menos, é quase certo que sim, mas a verdade é que considero muito mais importante o que não se diz, o que se deixa ao leitor completar, o que se deixa ao leitor imaginar. Por isso nunca referi o seu nome, embora o pudesse fazer com facilidade. Por isso o referi como escritor, ainda que seja mais como homem do que como escritor que quero falar dele. Porque a verdade é que se queremos contar uma história temos sempre de contar outra: as histórias, como a realidade, apenas se oferecem de forma indirecta, como reflexos de algo que está sempre além.
Ele tinha pensado fazer do seu programa de rádio, durante algum tempo, uma espécie de centro ficcional em que tudo se confundiria ao ponto de quem o ouvisse ser incapaz de perceber onde começava e acabava a ficção. Por isso a voz do narrador se confundia com a sua, por isso muito do que ele era e do que lhe acontecera era atribuído à personagem. Por outro lado, a própria música apresentada encontrava a sua razão de ser no texto que era lido, como se o ilustrasse, como se tudo estivesse a acontecer naquele momento. Podia explicar muito melhor, narrar tudo com minúcia, mas o melhor será ouvir um desses programas, ou então imaginá-lo, o que talvez seja melhor.
Ele foi então tecendo a realidade com a ficção, à procura do que percebeu ser, a partir de determinada altura, uma resposta para si mesmo, algo que lhe permitisse continuar. E aqui eu deveria talvez falar da sua vida, das dificuldades que atravessava, mas mais uma vez prefiro que usem a vossa imaginação, que imaginem um homem à procura de algo que lhe permita começar de novo e que confiem na vossa imaginação.
Foi no quarto programa, segundo ele, que as coisas lhe fugiram ao controlo, de forma misteriosa, o que no entanto não pareceu incomodá-lo. A partir de um certo momento a música que se ouviu deixou de ser a música que ele escolhera e que insistia em colocar, sem que para isso existisse uma qualquer explicação. Ele colocava um disco, escolhia uma faixa, e o que se ouvia era uma outra faixa de um outro disco qualquer. É claro que não havia maneira de provar o que ele dizia, nem ele o tentou fazer, pois na altura estava sozinho na rádio e a audição do programa nada podia esclarecer. Ainda lhe perguntei se não estava preocupado com o que acontecera, mas ele respondeu-me com uma frase curta e um sorriso: Fosse essa a maior das minhas preocupações. E depois começou a falar de outra coisa qualquer.
“Então no quinto programa não aconteceu nada?”, perguntei-lhe alguns dias depois de ele ter passado na rádio, e ele repetiu num eco:”Não aconteceu nada?”
“Sabes o que eu quero dizer, não aconteceu nada de extraordinário?”, insisti, e ele de novo repetiu num eco:”Nada de extraordinário?”
Perguntei-lhe um pouco irritado se já não se lembrava do que acontecera no seu último programa, e ele respondeu-me que se lembrava muito bem, e que desta vez nada acontecera de semelhante, e olhou-me como se estivesse prestes a revelar-me algo ainda mais extraordinário, mas afinal nada disse e ficou apenas a olhar-me.
No quinto desses programas a música que se ouviu foi a que ele planeara, e isso pareceu ao meu amigo tão extraordinário quanto a mim me parecera extraordinário que no programa anterior tivesse acontecido exactamente o contrário. E se antes, quando ele me contara o que acontecera no quarto programa, duvidara da sua sanidade mental, agora ainda duvidei mais, mas ele falou-me longamente de como não devemos perder a capacidade de nos maravilharmos com as coisas simples da vida, e parecia tão seguro de si e do que dizia, e tão feliz, que eu pensei que se tinha enlouquecido, então melhor para ele, porque pela primeira vez desde há muito tempo transbordava de um entusiasmo puro e tranquilo que me recordou uma frase de Raul Brandão que em tempos ele me mostrara: “Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura até de uma pedra.”
Vivemos com pouca imaginação, disse-me ele, e repetiu antes de se afastar, vivemos com pouca imaginação, como se essa frase banal tivesse um significado não só óbvio mas também extraordinário. Na altura não dei grande importância a essa frase, mas hoje, talvez porque tenha sido a última que me dirigiu, dou por mim a repeti-la muitas vezes sem uma razão aparente. Vivemos com pouca imaginação.
Quando se conta uma história, há sempre um momento em que é preciso fazer um ponto da situação pois, tal como na vida, essa é a única forma de continuar ou até terminar, mas é preciso não esquecer que terminar uma história é permitir que uma outra história comece.
Ele tinha chegado ao quarto programa dessa nova série e interrogava-se até quando continuaria. E não era porque fosse muito difícil fazê-lo. É claro que lhe exigia algum esforço, mas não era nada por aí além. A questão que se lhe colocava, que sempre se lhe colocava, era uma questão de sentido. Faria sentido continuar? Até quando? Mas a verdade é que não estava com cabeça para pensar nisso, e nessas ocasiões fazia-lhe sempre mais sentido continuar do que parar, fazia-lhe sempre mais sentido deixar-se ir do que tomar uma decisão. Deixa-te ir, dizia-me sempre ele quando eu me queixava de que tudo me era cada vez mais difícil. Deixa-te ir. Deixa-te ir. E às vezes acrescentava, segue o teu coração, e ria, de mim e de si mesmo, porque não acreditava em dar conselhos, por mais sábios que fossem.
Deixa-te ir. Deixa-te ir. É isso que eu digo e repito a mim mesmo quanto escrevo. Deixa-te ir. Deixa-te levar pela escrita. Deixa-te levar por aquilo que em ti desconheces. Entre a cabeça e o coração escolhe sempre o coração. O teu coração sabe melhor do que tu o que sabe a tua cabeça. E aqui já não falo da escrita mas da vida, ainda que em mim as duas se misturem de tal forma que penso muitas vezes que são uma coisa só. Mas divago e, ainda que esta seja a única forma de contar uma história, de vez em quando é preciso voltar ao ponto de partida para de novo partir e seguir em frente. Às vezes, estar em silêncio e falar é uma e a mesma coisa, sobretudo quando falamos de mais, que não é mais do que uma forma impura de estar em silêncio.
Tenho então vindo a contar o que aconteceu ao meu amigo, escritor como eu, depois que decidiu renovar a forma como fazia o programa de rádio que colocava no ar há cerca de dois anos; tenho tentado dar conta, programa a programa, das dificuldades que sentiu e da forma como as resolveu. Tenho contado de menos, é quase certo que sim, mas a verdade é que considero muito mais importante o que não se diz, o que se deixa ao leitor completar, o que se deixa ao leitor imaginar. Por isso nunca referi o seu nome, embora o pudesse fazer com facilidade. Por isso o referi como escritor, ainda que seja mais como homem do que como escritor que quero falar dele. Porque a verdade é que se queremos contar uma história temos sempre de contar outra: as histórias, como a realidade, apenas se oferecem de forma indirecta, como reflexos de algo que está sempre além.
Ele tinha pensado fazer do seu programa de rádio, durante algum tempo, uma espécie de centro ficcional em que tudo se confundiria ao ponto de quem o ouvisse ser incapaz de perceber onde começava e acabava a ficção. Por isso a voz do narrador se confundia com a sua, por isso muito do que ele era e do que lhe acontecera era atribuído à personagem. Por outro lado, a própria música apresentada encontrava a sua razão de ser no texto que era lido, como se o ilustrasse, como se tudo estivesse a acontecer naquele momento. Podia explicar muito melhor, narrar tudo com minúcia, mas o melhor será ouvir um desses programas, ou então imaginá-lo, o que talvez seja melhor.
Ele foi então tecendo a realidade com a ficção, à procura do que percebeu ser, a partir de determinada altura, uma resposta para si mesmo, algo que lhe permitisse continuar. E aqui eu deveria talvez falar da sua vida, das dificuldades que atravessava, mas mais uma vez prefiro que usem a vossa imaginação, que imaginem um homem à procura de algo que lhe permita começar de novo e que confiem na vossa imaginação.
Foi no quarto programa, segundo ele, que as coisas lhe fugiram ao controlo, de forma misteriosa, o que no entanto não pareceu incomodá-lo. A partir de um certo momento a música que se ouviu deixou de ser a música que ele escolhera e que insistia em colocar, sem que para isso existisse uma qualquer explicação. Ele colocava um disco, escolhia uma faixa, e o que se ouvia era uma outra faixa de um outro disco qualquer. É claro que não havia maneira de provar o que ele dizia, nem ele o tentou fazer, pois na altura estava sozinho na rádio e a audição do programa nada podia esclarecer. Ainda lhe perguntei se não estava preocupado com o que acontecera, mas ele respondeu-me com uma frase curta e um sorriso: Fosse essa a maior das minhas preocupações. E depois começou a falar de outra coisa qualquer.
“Então no quinto programa não aconteceu nada?”, perguntei-lhe alguns dias depois de ele ter passado na rádio, e ele repetiu num eco:”Não aconteceu nada?”
“Sabes o que eu quero dizer, não aconteceu nada de extraordinário?”, insisti, e ele de novo repetiu num eco:”Nada de extraordinário?”
Perguntei-lhe um pouco irritado se já não se lembrava do que acontecera no seu último programa, e ele respondeu-me que se lembrava muito bem, e que desta vez nada acontecera de semelhante, e olhou-me como se estivesse prestes a revelar-me algo ainda mais extraordinário, mas afinal nada disse e ficou apenas a olhar-me.
No quinto desses programas a música que se ouviu foi a que ele planeara, e isso pareceu ao meu amigo tão extraordinário quanto a mim me parecera extraordinário que no programa anterior tivesse acontecido exactamente o contrário. E se antes, quando ele me contara o que acontecera no quarto programa, duvidara da sua sanidade mental, agora ainda duvidei mais, mas ele falou-me longamente de como não devemos perder a capacidade de nos maravilharmos com as coisas simples da vida, e parecia tão seguro de si e do que dizia, e tão feliz, que eu pensei que se tinha enlouquecido, então melhor para ele, porque pela primeira vez desde há muito tempo transbordava de um entusiasmo puro e tranquilo que me recordou uma frase de Raul Brandão que em tempos ele me mostrara: “Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura até de uma pedra.”
Vivemos com pouca imaginação, disse-me ele, e repetiu antes de se afastar, vivemos com pouca imaginação, como se essa frase banal tivesse um significado não só óbvio mas também extraordinário. Na altura não dei grande importância a essa frase, mas hoje, talvez porque tenha sido a última que me dirigiu, dou por mim a repeti-la muitas vezes sem uma razão aparente. Vivemos com pouca imaginação.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
# 5
O quinto programa deste ano da Rua do Imaginário vai para o ar sexta-feira às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Ainda que cada um destes programas possa ser ouvido isoladamente, foram todos eles planeados como um conjunto ficcional.
Pode ouvir a seguir o primeiro desses programas. Se quiser ouvir os restantes ou estabelecer contacto comigo use lnogueira1@gmail.com.
Ainda que cada um destes programas possa ser ouvido isoladamente, foram todos eles planeados como um conjunto ficcional.
Pode ouvir a seguir o primeiro desses programas. Se quiser ouvir os restantes ou estabelecer contacto comigo use lnogueira1@gmail.com.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
quarto programa
O quarto programa deste ano da Rua do Imaginário vai para o ar amanhã às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Nas entradas anteriores pode encontrar mais informação.
Edgar Varese é um dos músicos que será ouvido amanhã, com Density 21.5. Mas se não quiser ouvir o programa, ouça-o a seguir. E se quiser ouvir o programa, ouça-o na mesma a seguir.
Nas entradas anteriores pode encontrar mais informação.
Edgar Varese é um dos músicos que será ouvido amanhã, com Density 21.5. Mas se não quiser ouvir o programa, ouça-o a seguir. E se quiser ouvir o programa, ouça-o na mesma a seguir.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
vida e literatura
Ontem passei os olhos por um livro com alguns poemas de Allen Ginsberg, mas foi da introdução que retive a ideia de que a vida entrava nos seus poemas como a literatura entrava na sua vida. Mais ou menos isto. O que me interessou, além do mais pela experiência que desenvolvo na Rua do Imaginário este ano.
A Rua do Imaginário vai para o ar sexta às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Nas entradas anteriores os textos utilizados e também o primeiro programa.
A seguir o texto a ser utilizado no próximo programa.
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4
Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, mas sabia também que ainda controlamos menos a nossa imaginação do que a nossa vontade. Por isso se admirava muito pouco, embora sempre o surpreendesse, o rumo que aquilo que escrevia podia tomar.
De onde vinham as histórias que escrevia? Por que é que acontecia o que acontecia? E aqui já não pensava apenas na escrita mas também na vida, porque ele acreditava que os mecanismos da escrita e da vida, ainda que desconhecidos, se não os mesmos, eram pelo menos idênticos, demasiado idênticos.
O próximo programa era já o quarto, e ele estava sentado a tentar escrever um primeiro esboço de um novo texto, tal como os anteriores, com cerca de quatro páginas, em Time New Romans, a dois espaços, como sempre escrevia, desde que o fizesse ao computador, claro, porque muitas vezes escrevia num qualquer papel que encontrava à mão, dependendo de onde estivesse, fosse um guardanapo ou as costas de um folheto publicitário. Eram frases breves, que lia, escutava ou apenas lhe vinham à cabeça, e que poderia talvez aproveitar mais tarde. Muitas perdiam-se. Afixava algumas na porta do frigorífico, tal como estavam, ou depois de transcritas para pequenos papéis coloridos que costumava ter sempre em casa.
Gostava muito de repetir uma afirmação, que atribuía a Gabriel Garcia Marques, mas que podia ser de outro escritor qualquer, ou até sua, que proclamava que escrever um conto era mijar no chão, enquanto escrever um romance era colar mosaicos. E esta frase dizia muito da forma como ele entendia a escrita, dizia muito da forma como ele escrevia.
Mas estou a divagar, ou contar uma história será sempre divagar? Quando ele me contava alguma coisa, muitas vezes eu dizia-lhe, mais para o picar do que por um real motivo, que ele estava a divagar, e ele respondia-me sempre com a mesma pergunta. Mas contar uma história não é sempre divagar? E riamos os dois.
O próximo programa era então o quarto e ele estava sentado a escrever um primeiro esboço do texto que utilizaria, o que começou a fazer do mesmo modo que fizera antes, pelo menos para o segundo e o terceiro, usando algumas frases que usara no anterior e que depois alterava para que se tornassem novas frases, conferindo assim, na sua opinião, alguma unidade e continuidade ao texto, mais uma questão de ritmo do que de tema, se é que o entendi, porque ele, tal como eu, sabia muito mais do que conseguia dizer, ainda que, tal como os melhores escritores, dissesse muito mais do que sabia. Ouvia Charles Mingus e repetia sem fim o primeiro tema, maravilhado que estava com ele, com aquele som meditativo e calmo mas também apaixonado, como uma oração. E ouvia-o, ouvia-o e ouvia-o. E quando chegava ao fim punha-o de novo no princípio. E pensou logo em iniciar o programa com ele.
E se começasse com Charles Mingus e Canon, poderia talvez continuar com John Coltrane, músico que aquele tema lhe recordava. E assim começou a escolher música para o novo programa, música que se compunha apenas de jazz, tal como nos anteriores programas, e chegou mesmo a escrever um alinhamento com todos os temas e tempos, como sempre fazia, mas desta vez as coisas, como muitas vezes lhe acontecia, fugiram ao seu controlo.
Mas é melhor não me antecipar. Pensou então em começar com Charles Mingus, o tema Canon, e continuar com qualquer coisa de John Coltrane, desde que não fosse Love Supreme, um tema fabuloso, mas que lhe ocuparia quase toda a hora do programa.
E voltou a ouvir Canon, a surpreender-se no início com o som que lhe parecia de campainhas de bicicleta, com a toada quente e no entanto lembrando o ruído dos motores que percorria todo o tema. Foi isto que escreveu no próprio texto que leu no programa onde esse tema e também um tema de John Coltrane passaram no início do programa, tal como ele planeara.
Depois é que as coisas fugiram ao seu controlo, pois nem um só dos temas que se seguiram foi dos que ele escolhera. Logo a começar por Density 21.5 de Varese, em que o compositor não hesitou em utilizar na composição o barulho das teclas do instrumento.
Depois a musica foi por aí adiante, sempre ao arrepio daquela que ele escolhera.
Não estão a compreender?
Eu a princípio também não compreendi muito bem, mas ele explicou tudo de forma tão pormenorizada e tão real que logo concordei com ele. Tinha acontecido tal e qual ele descrevera, não tive quaisquer dúvidas.
Mas era isso mesmo que me acontecia com a sua escrita. Convencia-me. Convencia-me sempre. Sobretudo pela emoção que ele sempre conferia ao que dizia e escrevia.
Talvez eu pudesse falar dele utilizando uma das suas pequenas frases, frase escrita num pequeno papel amarelo que vinha dentro de um livro que me emprestou, e que eu copiei antes de lhe devolver o livro com a frase dentro.
Uma frase que julgo ser do pintor Diego Rivera referindo-se a um dos seus mestres: “Foi ele que me ensinou a lição suprema de toda a arte – que nada pode exprimir-se sem o poder do sentimento, e que a alma de uma obra-prima reside nesta potência de emoção.”
Foi por essa altura que o convidei mais uma vez para jantar em minha casa. Ele gostava de comer e a arte de culinária não lhe era indiferente; dizia que a culinária é, se devidamente entendida, um verdadeiro acto de amor.
Não compreendia como se podia escrever com ódio. A escrita, dizia, é sempre um acto de amor, esse amor que só pode ser a determinação única de ir até ao fim. Escrever com ódio, só se for ódio sublimado em amor, pois só o amor produz boa literatura. O mesmo com o desespero.
Era o que ele me dizia enquanto esperávamos que o jantar se fizesse. Pelo menos foi o que lhe disse: “O jantar está a fazer-se. Basta esperar vinte minutos. Em lume baixo.” Uma camada de cebola, uma camada de tomate, depois o atum, e novamente cebola e tomate. Um pouco de azeite, um pouco de vinho branco, sal, pimenta, uma folha de louro, dois ou três dentes de alho e um punhado de salsa. E depois de levantar fervura, lume baixo, e fica a fazer-se.
Atum de tomatada, uma velha receita que em miúdo podia ser comida em qualquer tasco da capital do atum. Mas já não agora, que nos restaurantes parece que se perdeu a velha arte de cozinhar, quer sejam tascos quer sejam restaurantes de luxo. Talvez já não cozinhem por amor, com ele diria, o amor pela arte, o amor pela partilha. Mas estou a divagar, e mesmo que divagar seja contar uma história, convém que seja quanto baste, para usar um termo culinário. Quanto baste. Divagar quanto baste.
Ele dizia e eu concordava, cozinhar não é muito diferente de contar uma história, quando se começa, ainda que tudo esteja controlado, nunca se sabe o que pode acontecer. A diferença entre a excelência e o desastre é mínima. Mas o amor faz a diferença, disse-lhe, e ele concordou. De vez em quando, ora ele, ora eu, levantávamo-nos, tirávamos a tampa com cuidado e cheirávamos, e olhávamos e cheirávamos. Está quase, está quase, dizíamos, e bebíamos mais um gole de vinho, e falávamos e falávamos.
Cozinhar é simples, como é simples escrever, e no entanto, como é difícil controlar o resultado. Há sempre que ter um cuidado extremo com os ingredientes, com o modo de preparação, com os tempos, e, mesmo assim, tudo foge sempre ao nosso controlo, como na escrita, por mais preparados que estejamos. E foi assim, no meio do seu discurso sobre as semelhanças entre cozinhar e escrever que ele me começou a contar o que acontecera no quarto programa. E estava calmo, como se fosse natural o que acontecera. Na verdade só se exaltou um pouco quando, como muitas vezes lhe acontecia, a meio do seu relato inicial, o interrompeu abruptamente para começar a contar outra história.
Vê lá que me diz assim: Então tu afinal trabalhas?
E eu respondi-lhe: Sim, trabalho. Não sabias?
E atalha ele: Pensava que vivias da escrita.
E como me calei, ele insistiu: Pensava que vivias da escrita.
E eu, tão parvo, ainda lhe disse que em Portugal eram poucos os que viviam da escrita. Viver da escrita.
E exaltava-se, e repetia. Viver da escrita. Viver da escrita.
Eu não quero viver da escrita, quero é viver para a escrita.
E começou um interminável diálogo que me afastou afinal do que verdadeiramente me interessava: o relato do que lhe acontecera no quarto programa daquele ano em que decidira começar a fazer programas de rádio como um todo e com uma intenção artística, isto para usar a fórmula que ele mesmo utilizou.
Começou o programa com o tema Cânon, de Charles Mingus, e continuou com Coltrane, mas quando esperava ouvir Eric Dolphy e o tema Densities, que segundo alguns guarda ecos de Density 21.5 de Varese, eis que se faz ouvir esse mesmo tema, sim, o de Varese. Claro que julgou que se tinha enganado, mas na mão tinha a caixa do cedê de Eric Dolphy, de onde tinha tirado o disco que colocara no leitor. E as faixas eram diferentes, lembrou-se logo disso, ele que tinha uma memória terrível e que trocava tudo, nomes, títulos, datas, lembrou-se logo disso e, na verdade, quando tirou o disco verificou que era mesmo o disco de Eric Dolphy, apesar de a música que se ouviu, e podia prová-lo, tinha a gravação do programa, ter sido a de Varese. E disse os nomes todos certos, isto apesar da sua memória terrível, o que me espantou ainda mais. Aliás, era ele mesmo que dizia a brincar, que era por causa da sua má memória que se tornara ficcionista, como tinha uma má memória só lhe restava imaginar.
E depois foi por adiante, disse-me ele, depois do Varese nada do que eu planeara e coloquei se fez ouvir. De cada vez era sempre algo diferente. Sempre algo diferente. Na maior parte era música que eu tenho, mas que não tinha levado, e nalguns casos até música que eu não conhecia.
É verdade, disse-me ele, foi estranho, muito estranho, mas a partir de certa altura até me diverti. E não parecia incomodado nem preocupado com aquele acontecimento no mínimo estranho. É verdade que ele nunca procurava explicações, mas confesso que duvidei da sua sanidade mental.
Claro que me estragou tudo o que tinha programado, disse-me ainda, e decidi ler o texto apenas no intervalo das músicas, que nunca sabia quais eram. Até tinha medo de ouvir o que vinha seguir. Fosse como fosse continuei a colocar a música que programara mas nem uma vez acertei e, ainda mais curioso, nem uma vez a seguir aos dois primeiros temas se voltou a ouvir jazz. A certa altura até tinha medo de falar, não se começasse a ouvir outra coisa. Outras palavras. Outra pessoa.
Foi isto que ele contou que acontecera no quarto programa. Na altura apenas pensei, ainda que por um momento, se ele não estaria doido, mas agora percebo que foi o princípio do que viria a acontecer-lhe, ainda que mesmo hoje não tenha qualquer explicação para o sucedido.
A Rua do Imaginário vai para o ar sexta às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Nas entradas anteriores os textos utilizados e também o primeiro programa.
A seguir o texto a ser utilizado no próximo programa.
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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, mas sabia também que ainda controlamos menos a nossa imaginação do que a nossa vontade. Por isso se admirava muito pouco, embora sempre o surpreendesse, o rumo que aquilo que escrevia podia tomar.
De onde vinham as histórias que escrevia? Por que é que acontecia o que acontecia? E aqui já não pensava apenas na escrita mas também na vida, porque ele acreditava que os mecanismos da escrita e da vida, ainda que desconhecidos, se não os mesmos, eram pelo menos idênticos, demasiado idênticos.
O próximo programa era já o quarto, e ele estava sentado a tentar escrever um primeiro esboço de um novo texto, tal como os anteriores, com cerca de quatro páginas, em Time New Romans, a dois espaços, como sempre escrevia, desde que o fizesse ao computador, claro, porque muitas vezes escrevia num qualquer papel que encontrava à mão, dependendo de onde estivesse, fosse um guardanapo ou as costas de um folheto publicitário. Eram frases breves, que lia, escutava ou apenas lhe vinham à cabeça, e que poderia talvez aproveitar mais tarde. Muitas perdiam-se. Afixava algumas na porta do frigorífico, tal como estavam, ou depois de transcritas para pequenos papéis coloridos que costumava ter sempre em casa.
Gostava muito de repetir uma afirmação, que atribuía a Gabriel Garcia Marques, mas que podia ser de outro escritor qualquer, ou até sua, que proclamava que escrever um conto era mijar no chão, enquanto escrever um romance era colar mosaicos. E esta frase dizia muito da forma como ele entendia a escrita, dizia muito da forma como ele escrevia.
Mas estou a divagar, ou contar uma história será sempre divagar? Quando ele me contava alguma coisa, muitas vezes eu dizia-lhe, mais para o picar do que por um real motivo, que ele estava a divagar, e ele respondia-me sempre com a mesma pergunta. Mas contar uma história não é sempre divagar? E riamos os dois.
O próximo programa era então o quarto e ele estava sentado a escrever um primeiro esboço do texto que utilizaria, o que começou a fazer do mesmo modo que fizera antes, pelo menos para o segundo e o terceiro, usando algumas frases que usara no anterior e que depois alterava para que se tornassem novas frases, conferindo assim, na sua opinião, alguma unidade e continuidade ao texto, mais uma questão de ritmo do que de tema, se é que o entendi, porque ele, tal como eu, sabia muito mais do que conseguia dizer, ainda que, tal como os melhores escritores, dissesse muito mais do que sabia. Ouvia Charles Mingus e repetia sem fim o primeiro tema, maravilhado que estava com ele, com aquele som meditativo e calmo mas também apaixonado, como uma oração. E ouvia-o, ouvia-o e ouvia-o. E quando chegava ao fim punha-o de novo no princípio. E pensou logo em iniciar o programa com ele.
E se começasse com Charles Mingus e Canon, poderia talvez continuar com John Coltrane, músico que aquele tema lhe recordava. E assim começou a escolher música para o novo programa, música que se compunha apenas de jazz, tal como nos anteriores programas, e chegou mesmo a escrever um alinhamento com todos os temas e tempos, como sempre fazia, mas desta vez as coisas, como muitas vezes lhe acontecia, fugiram ao seu controlo.
Mas é melhor não me antecipar. Pensou então em começar com Charles Mingus, o tema Canon, e continuar com qualquer coisa de John Coltrane, desde que não fosse Love Supreme, um tema fabuloso, mas que lhe ocuparia quase toda a hora do programa.
E voltou a ouvir Canon, a surpreender-se no início com o som que lhe parecia de campainhas de bicicleta, com a toada quente e no entanto lembrando o ruído dos motores que percorria todo o tema. Foi isto que escreveu no próprio texto que leu no programa onde esse tema e também um tema de John Coltrane passaram no início do programa, tal como ele planeara.
Depois é que as coisas fugiram ao seu controlo, pois nem um só dos temas que se seguiram foi dos que ele escolhera. Logo a começar por Density 21.5 de Varese, em que o compositor não hesitou em utilizar na composição o barulho das teclas do instrumento.
Depois a musica foi por aí adiante, sempre ao arrepio daquela que ele escolhera.
Não estão a compreender?
Eu a princípio também não compreendi muito bem, mas ele explicou tudo de forma tão pormenorizada e tão real que logo concordei com ele. Tinha acontecido tal e qual ele descrevera, não tive quaisquer dúvidas.
Mas era isso mesmo que me acontecia com a sua escrita. Convencia-me. Convencia-me sempre. Sobretudo pela emoção que ele sempre conferia ao que dizia e escrevia.
Talvez eu pudesse falar dele utilizando uma das suas pequenas frases, frase escrita num pequeno papel amarelo que vinha dentro de um livro que me emprestou, e que eu copiei antes de lhe devolver o livro com a frase dentro.
Uma frase que julgo ser do pintor Diego Rivera referindo-se a um dos seus mestres: “Foi ele que me ensinou a lição suprema de toda a arte – que nada pode exprimir-se sem o poder do sentimento, e que a alma de uma obra-prima reside nesta potência de emoção.”
Foi por essa altura que o convidei mais uma vez para jantar em minha casa. Ele gostava de comer e a arte de culinária não lhe era indiferente; dizia que a culinária é, se devidamente entendida, um verdadeiro acto de amor.
Não compreendia como se podia escrever com ódio. A escrita, dizia, é sempre um acto de amor, esse amor que só pode ser a determinação única de ir até ao fim. Escrever com ódio, só se for ódio sublimado em amor, pois só o amor produz boa literatura. O mesmo com o desespero.
Era o que ele me dizia enquanto esperávamos que o jantar se fizesse. Pelo menos foi o que lhe disse: “O jantar está a fazer-se. Basta esperar vinte minutos. Em lume baixo.” Uma camada de cebola, uma camada de tomate, depois o atum, e novamente cebola e tomate. Um pouco de azeite, um pouco de vinho branco, sal, pimenta, uma folha de louro, dois ou três dentes de alho e um punhado de salsa. E depois de levantar fervura, lume baixo, e fica a fazer-se.
Atum de tomatada, uma velha receita que em miúdo podia ser comida em qualquer tasco da capital do atum. Mas já não agora, que nos restaurantes parece que se perdeu a velha arte de cozinhar, quer sejam tascos quer sejam restaurantes de luxo. Talvez já não cozinhem por amor, com ele diria, o amor pela arte, o amor pela partilha. Mas estou a divagar, e mesmo que divagar seja contar uma história, convém que seja quanto baste, para usar um termo culinário. Quanto baste. Divagar quanto baste.
Ele dizia e eu concordava, cozinhar não é muito diferente de contar uma história, quando se começa, ainda que tudo esteja controlado, nunca se sabe o que pode acontecer. A diferença entre a excelência e o desastre é mínima. Mas o amor faz a diferença, disse-lhe, e ele concordou. De vez em quando, ora ele, ora eu, levantávamo-nos, tirávamos a tampa com cuidado e cheirávamos, e olhávamos e cheirávamos. Está quase, está quase, dizíamos, e bebíamos mais um gole de vinho, e falávamos e falávamos.
Cozinhar é simples, como é simples escrever, e no entanto, como é difícil controlar o resultado. Há sempre que ter um cuidado extremo com os ingredientes, com o modo de preparação, com os tempos, e, mesmo assim, tudo foge sempre ao nosso controlo, como na escrita, por mais preparados que estejamos. E foi assim, no meio do seu discurso sobre as semelhanças entre cozinhar e escrever que ele me começou a contar o que acontecera no quarto programa. E estava calmo, como se fosse natural o que acontecera. Na verdade só se exaltou um pouco quando, como muitas vezes lhe acontecia, a meio do seu relato inicial, o interrompeu abruptamente para começar a contar outra história.
Vê lá que me diz assim: Então tu afinal trabalhas?
E eu respondi-lhe: Sim, trabalho. Não sabias?
E atalha ele: Pensava que vivias da escrita.
E como me calei, ele insistiu: Pensava que vivias da escrita.
E eu, tão parvo, ainda lhe disse que em Portugal eram poucos os que viviam da escrita. Viver da escrita.
E exaltava-se, e repetia. Viver da escrita. Viver da escrita.
Eu não quero viver da escrita, quero é viver para a escrita.
E começou um interminável diálogo que me afastou afinal do que verdadeiramente me interessava: o relato do que lhe acontecera no quarto programa daquele ano em que decidira começar a fazer programas de rádio como um todo e com uma intenção artística, isto para usar a fórmula que ele mesmo utilizou.
Começou o programa com o tema Cânon, de Charles Mingus, e continuou com Coltrane, mas quando esperava ouvir Eric Dolphy e o tema Densities, que segundo alguns guarda ecos de Density 21.5 de Varese, eis que se faz ouvir esse mesmo tema, sim, o de Varese. Claro que julgou que se tinha enganado, mas na mão tinha a caixa do cedê de Eric Dolphy, de onde tinha tirado o disco que colocara no leitor. E as faixas eram diferentes, lembrou-se logo disso, ele que tinha uma memória terrível e que trocava tudo, nomes, títulos, datas, lembrou-se logo disso e, na verdade, quando tirou o disco verificou que era mesmo o disco de Eric Dolphy, apesar de a música que se ouviu, e podia prová-lo, tinha a gravação do programa, ter sido a de Varese. E disse os nomes todos certos, isto apesar da sua memória terrível, o que me espantou ainda mais. Aliás, era ele mesmo que dizia a brincar, que era por causa da sua má memória que se tornara ficcionista, como tinha uma má memória só lhe restava imaginar.
E depois foi por adiante, disse-me ele, depois do Varese nada do que eu planeara e coloquei se fez ouvir. De cada vez era sempre algo diferente. Sempre algo diferente. Na maior parte era música que eu tenho, mas que não tinha levado, e nalguns casos até música que eu não conhecia.
É verdade, disse-me ele, foi estranho, muito estranho, mas a partir de certa altura até me diverti. E não parecia incomodado nem preocupado com aquele acontecimento no mínimo estranho. É verdade que ele nunca procurava explicações, mas confesso que duvidei da sua sanidade mental.
Claro que me estragou tudo o que tinha programado, disse-me ainda, e decidi ler o texto apenas no intervalo das músicas, que nunca sabia quais eram. Até tinha medo de ouvir o que vinha seguir. Fosse como fosse continuei a colocar a música que programara mas nem uma vez acertei e, ainda mais curioso, nem uma vez a seguir aos dois primeiros temas se voltou a ouvir jazz. A certa altura até tinha medo de falar, não se começasse a ouvir outra coisa. Outras palavras. Outra pessoa.
Foi isto que ele contou que acontecera no quarto programa. Na altura apenas pensei, ainda que por um momento, se ele não estaria doido, mas agora percebo que foi o princípio do que viria a acontecer-lhe, ainda que mesmo hoje não tenha qualquer explicação para o sucedido.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Rua do Imaginário 2 e 3
Fica aqui o texto utilizado no terceiro programa.
Se alguém quiser ouvir o segundo programa pode baixá-lo aqui nos próximos dias.
Mais qualquer coisa podem contactar-me neste e-mail: lnogueira1@gmail.com.
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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, e por isso não tentava distinguir a realidade da ficção. Ainda que soubesse que uma coisa é a realidade e outra a ficção, sabia também como elas se misturam ao ponto de muitas vezes ser praticamente impossível distinguir uma da outra.
O que lhe interessava era não só a possibilidade de a realidade influenciar a ficção, mas também, e sobretudo, arriscar-me-ia a dizer, a possibilidade de a ficção influenciar a realidade. E aqui, onde ele dizia ficção, podia dizer, e algumas vezes dizia, escrita, ou sonho, porque para ele, se essas três entidades não eram uma só, sem dúvida que as suas fronteiras eram comuns. Acho que já o disse, mas não me parece excessivo repeti-lo, ele não era um intelectual, tal como eu também não o sou, era um escritor, apenas um escritor. E nele, como em muitos escritores, a vida e a escrita confundiam-se, relacionavam-se de forma misteriosa, como afinal sempre acontece aos escritores, com maior ou menor intensidade. Como ele gostava de dizer a rir, escreve-se sempre a direito por mais tortas que sejam as linhas.
Sonha de tal modo com isso que tudo acaba por acontecer. Esta era uma das frases que li certa vez na parede da sua cozinha, escrita num pequeno papel colorido e afixado na porta do frigorífico. Não era a única que ali estava, noutros tantos papéis, mas é a única que agora recordo. Nunca eram sempre as mesmas. Mas recordo esta frase porque é uma perfeita síntese do que ele acreditava.
Sonha de tal modo com isso que tudo acaba por acontecer.
Não lhe perguntei se aquela frase era sua ou se a tinha retirado de algum livro. Se lhe tivesse perguntado talvez me respondesse, como já o fizera antes, que não sabia. Era apenas uma frase que o intrigava, e estava ali para ele a utilizar, se o momento surgisse.
A sua escrita tinha algo de colagem, era o que ele costumava dizer-me. Gostava de utilizar materiais improváveis. Às vezes pequenas frases, retiradas já nem se lembrava de onde, e que de repente lhe fazia todo o sentido entrarem numa qualquer narrativa que ele escrevia, já não as mesmas frases, mas novas frases, desfiguradas e renovados pelo novo contexto. Porque de certa forma, e julgo que não conseguirei explicar isto, ele escrevia como um músico.
Essas frases que ele destacava eram como picos numa qualquer narrativa, logo extraordinárias, mas também como nós, nós de uma rede, porque ele acreditava que existiam frases, e por isso ainda mais extraordinárias, que ligam as ficções (ou os imaginários) e que participam de várias ficções (ou de vários imaginários). Estranho, não é?
Consigo perceber mas não consigo explicar, no entanto pensem em como o mesmo facto pode ser percebido de forma diferente por várias pessoas. Ele é o mesmo facto, mas ao ser percebido por várias pessoas de forma diferente ele deixa também, de certa forma, de ser o mesmo facto, mas está lá, no centro, no exacto centro de todas as possibilidades. Eu disse que não conseguia explicar, mas a ideia de nós era mesmo essa, uma mesma frase que une várias narrativas. Uma espécie de ponto nevrálgicos do imaginário.
Mas estou já a divagar irremediavelmente.
Tinha pensado escrever de propósito um texto em que, de alguma forma, mostrasse esse estranho e enigmático relacionamento que existe entre a ficção e a realidade (ou a vida e a escrita). Tinha pensado fazer do programa esse centro ficcional a partir do qual tudo poderia acontecer, como quando acontecia quando escrevia. E se o programa era esse centro, nada mais natural do que escrever a partir da própria rádio. Era uma ideia ao mesmo tempo muito simples e muito complicada, aliás como muitos diziam da sua escrita, uma escrita aparentemente simples, mas com diversos níveis de uma misteriosa subtileza. Ele discordava, é claro e ria-se quando lhe diziam isso. Achava a sua escrita era demasiado óbvia e, por outro lado, achava que o mais importante é muitas vezes o mais simples, ou, se preferirem, o que parece mais simples.
Mas lá estou eu a divagar de novo.
Deixem-me então que me limite aos factos.
Foi no final do ano que ele decidiu fazer o seu programa de rádio em novos moldes.
E fez o primeiro programa do ano segundo esse novo modelo.
E fez o segundo programa ainda segundo esse novo modelo.
Programas concebidos como um todo e com uma intenção artística, como ele afirmou no início e no final de cada um deles, recitando como uma fórmula: o programa de hoje foi concebido como um todo e com uma intenção artística.
E apesar de ter pensado (ou temido) que as estratégias utilizadas se esgotassem no primeiro programa, fez ainda um segundo e começou a preparar-se para um terceiro programa.
Lembro-me que o encontrei por essa altura à saída da rádio, ia eu para a esquadra da polícia buscar o meu carro, que a polícia gentilmente me rebocara, não porque estivesse mal estacionado, mas porque tinha a porta e o vidro abertos. Ele ia na mesma direcção e acompanhou-me aqueles poucos metros. Fiz o primeiro programa porque tinha de ser, disse-me ele, fiz o segundo programa porque o melhor da vida vem sempre aos pares, e vou fazer o terceiro porque não há duas sem três. E ria-se à gargalhada, a sua tão conhecida e inconveniente gargalhada.
“E os próximos programas?”, perguntei-lhe eu.
“Quanto aos próximos, logo se vê, mas tu sabes que eu gosto de ir até ao fim”, respondeu-me ele sem deixar de rir.
Para o terceiro programa, em vez de começar pelo texto, começou pela música. Não porque tivesse escolhido assim, apenas porque aconteceu. Tinha toda aquela música de jazz que encontrara e não parava de a ouvir. Quando escolheu música para o segundo programa sobrou-lhe logo, por assim dizer, música para o terceiro programa, porque escolheu logo alguns dos músicos que mais gostava e de entre eles algumas músicas bem ao seu gosto, músicas dolentes, melancólicas, com os instrumentos em solos longos e intensos. Tal e qual como ele gostava.
Às vezes ficava horas a tentar estabelecer paralelos entre diversos temas, ouvindo-os obsessivamente, um a um, uma e outra vez, até quase não conseguir distingui-los. Foi o que lhe aconteceu daquela vez, e quando deu por si tinha já mais de uma hora de música. Nove temas de jazz. Mais um programa só com jazz. E pensou nessa altura se o jovem com nome de pássaro não iria aborrecer-se por estar a utilizar duas vezes seguidas só jazz, porque afinal o programa de jazz era dele e não seu, mas tinha tanto jazz que seria burrice sua se não o utilizasse. No próximo, o quarto, se o fizesse, utilizaria talvez outra música. E depois tinha a certeza que ele não se importaria que fizesse dois programas seguidos só com jazz, ainda que viesse a saber, o que duvidava.
Já há algum tempo que não o via, ao jovem com nome de pássaro que, para além dessa característica, tinha a de mudar de aspecto com muita frequência e de forma radical, pois acontecia-lhe muitas vezes quase não o conhecer quando o via de novo. Ora tinha o cabelo comprido ora tinha curto. Ora tinha longas barbas ora aparecia escanhoado. Parecia sempre diferente, pelo menos para ele, que o via poucas vezes e com grandes intervalos, mas se o tivesse de descrever era assim que o descreveria. E não se esforçaria nem por momento a defender a sua visão como realidade, pois sabia que era apenas assim que ele o via. E no entanto, se o escrevesse, seria real.
Decidiu-se então, ao contrário do que habitualmente fazia, e fizera no primeiro e no segundo programa, a escrever o texto do terceiro programa em cima da música já escolhida, música de Eric Dolphy, Chet Baker (que adorava), Charlie Mingus e Miles Davies.
Escrito esse texto bastaria adequá-lo à música, bastaria lê-lo, repetindo aqui e ali algumas frases, alguns fragmentos, desconstruindo e reconstruindo o texto, por assim dizer, como gostava de fazer com alguns poemas, como os de Cesariny, a que dizia prestarem-se excepcionalmente a esse exercício. E muitas vezes lia dessa forma os poemas de Cesariny, mas apenas em casa, quando estava sozinho e só ele ouvia a sua voz, porque na rádio, apesar de sozinho, podiam escutá-lo.
Se alguém quiser ouvir o segundo programa pode baixá-lo aqui nos próximos dias.
Mais qualquer coisa podem contactar-me neste e-mail: lnogueira1@gmail.com.
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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, e por isso não tentava distinguir a realidade da ficção. Ainda que soubesse que uma coisa é a realidade e outra a ficção, sabia também como elas se misturam ao ponto de muitas vezes ser praticamente impossível distinguir uma da outra.
O que lhe interessava era não só a possibilidade de a realidade influenciar a ficção, mas também, e sobretudo, arriscar-me-ia a dizer, a possibilidade de a ficção influenciar a realidade. E aqui, onde ele dizia ficção, podia dizer, e algumas vezes dizia, escrita, ou sonho, porque para ele, se essas três entidades não eram uma só, sem dúvida que as suas fronteiras eram comuns. Acho que já o disse, mas não me parece excessivo repeti-lo, ele não era um intelectual, tal como eu também não o sou, era um escritor, apenas um escritor. E nele, como em muitos escritores, a vida e a escrita confundiam-se, relacionavam-se de forma misteriosa, como afinal sempre acontece aos escritores, com maior ou menor intensidade. Como ele gostava de dizer a rir, escreve-se sempre a direito por mais tortas que sejam as linhas.
Sonha de tal modo com isso que tudo acaba por acontecer. Esta era uma das frases que li certa vez na parede da sua cozinha, escrita num pequeno papel colorido e afixado na porta do frigorífico. Não era a única que ali estava, noutros tantos papéis, mas é a única que agora recordo. Nunca eram sempre as mesmas. Mas recordo esta frase porque é uma perfeita síntese do que ele acreditava.
Sonha de tal modo com isso que tudo acaba por acontecer.
Não lhe perguntei se aquela frase era sua ou se a tinha retirado de algum livro. Se lhe tivesse perguntado talvez me respondesse, como já o fizera antes, que não sabia. Era apenas uma frase que o intrigava, e estava ali para ele a utilizar, se o momento surgisse.
A sua escrita tinha algo de colagem, era o que ele costumava dizer-me. Gostava de utilizar materiais improváveis. Às vezes pequenas frases, retiradas já nem se lembrava de onde, e que de repente lhe fazia todo o sentido entrarem numa qualquer narrativa que ele escrevia, já não as mesmas frases, mas novas frases, desfiguradas e renovados pelo novo contexto. Porque de certa forma, e julgo que não conseguirei explicar isto, ele escrevia como um músico.
Essas frases que ele destacava eram como picos numa qualquer narrativa, logo extraordinárias, mas também como nós, nós de uma rede, porque ele acreditava que existiam frases, e por isso ainda mais extraordinárias, que ligam as ficções (ou os imaginários) e que participam de várias ficções (ou de vários imaginários). Estranho, não é?
Consigo perceber mas não consigo explicar, no entanto pensem em como o mesmo facto pode ser percebido de forma diferente por várias pessoas. Ele é o mesmo facto, mas ao ser percebido por várias pessoas de forma diferente ele deixa também, de certa forma, de ser o mesmo facto, mas está lá, no centro, no exacto centro de todas as possibilidades. Eu disse que não conseguia explicar, mas a ideia de nós era mesmo essa, uma mesma frase que une várias narrativas. Uma espécie de ponto nevrálgicos do imaginário.
Mas estou já a divagar irremediavelmente.
Tinha pensado escrever de propósito um texto em que, de alguma forma, mostrasse esse estranho e enigmático relacionamento que existe entre a ficção e a realidade (ou a vida e a escrita). Tinha pensado fazer do programa esse centro ficcional a partir do qual tudo poderia acontecer, como quando acontecia quando escrevia. E se o programa era esse centro, nada mais natural do que escrever a partir da própria rádio. Era uma ideia ao mesmo tempo muito simples e muito complicada, aliás como muitos diziam da sua escrita, uma escrita aparentemente simples, mas com diversos níveis de uma misteriosa subtileza. Ele discordava, é claro e ria-se quando lhe diziam isso. Achava a sua escrita era demasiado óbvia e, por outro lado, achava que o mais importante é muitas vezes o mais simples, ou, se preferirem, o que parece mais simples.
Mas lá estou eu a divagar de novo.
Deixem-me então que me limite aos factos.
Foi no final do ano que ele decidiu fazer o seu programa de rádio em novos moldes.
E fez o primeiro programa do ano segundo esse novo modelo.
E fez o segundo programa ainda segundo esse novo modelo.
Programas concebidos como um todo e com uma intenção artística, como ele afirmou no início e no final de cada um deles, recitando como uma fórmula: o programa de hoje foi concebido como um todo e com uma intenção artística.
E apesar de ter pensado (ou temido) que as estratégias utilizadas se esgotassem no primeiro programa, fez ainda um segundo e começou a preparar-se para um terceiro programa.
Lembro-me que o encontrei por essa altura à saída da rádio, ia eu para a esquadra da polícia buscar o meu carro, que a polícia gentilmente me rebocara, não porque estivesse mal estacionado, mas porque tinha a porta e o vidro abertos. Ele ia na mesma direcção e acompanhou-me aqueles poucos metros. Fiz o primeiro programa porque tinha de ser, disse-me ele, fiz o segundo programa porque o melhor da vida vem sempre aos pares, e vou fazer o terceiro porque não há duas sem três. E ria-se à gargalhada, a sua tão conhecida e inconveniente gargalhada.
“E os próximos programas?”, perguntei-lhe eu.
“Quanto aos próximos, logo se vê, mas tu sabes que eu gosto de ir até ao fim”, respondeu-me ele sem deixar de rir.
Para o terceiro programa, em vez de começar pelo texto, começou pela música. Não porque tivesse escolhido assim, apenas porque aconteceu. Tinha toda aquela música de jazz que encontrara e não parava de a ouvir. Quando escolheu música para o segundo programa sobrou-lhe logo, por assim dizer, música para o terceiro programa, porque escolheu logo alguns dos músicos que mais gostava e de entre eles algumas músicas bem ao seu gosto, músicas dolentes, melancólicas, com os instrumentos em solos longos e intensos. Tal e qual como ele gostava.
Às vezes ficava horas a tentar estabelecer paralelos entre diversos temas, ouvindo-os obsessivamente, um a um, uma e outra vez, até quase não conseguir distingui-los. Foi o que lhe aconteceu daquela vez, e quando deu por si tinha já mais de uma hora de música. Nove temas de jazz. Mais um programa só com jazz. E pensou nessa altura se o jovem com nome de pássaro não iria aborrecer-se por estar a utilizar duas vezes seguidas só jazz, porque afinal o programa de jazz era dele e não seu, mas tinha tanto jazz que seria burrice sua se não o utilizasse. No próximo, o quarto, se o fizesse, utilizaria talvez outra música. E depois tinha a certeza que ele não se importaria que fizesse dois programas seguidos só com jazz, ainda que viesse a saber, o que duvidava.
Já há algum tempo que não o via, ao jovem com nome de pássaro que, para além dessa característica, tinha a de mudar de aspecto com muita frequência e de forma radical, pois acontecia-lhe muitas vezes quase não o conhecer quando o via de novo. Ora tinha o cabelo comprido ora tinha curto. Ora tinha longas barbas ora aparecia escanhoado. Parecia sempre diferente, pelo menos para ele, que o via poucas vezes e com grandes intervalos, mas se o tivesse de descrever era assim que o descreveria. E não se esforçaria nem por momento a defender a sua visão como realidade, pois sabia que era apenas assim que ele o via. E no entanto, se o escrevesse, seria real.
Decidiu-se então, ao contrário do que habitualmente fazia, e fizera no primeiro e no segundo programa, a escrever o texto do terceiro programa em cima da música já escolhida, música de Eric Dolphy, Chet Baker (que adorava), Charlie Mingus e Miles Davies.
Escrito esse texto bastaria adequá-lo à música, bastaria lê-lo, repetindo aqui e ali algumas frases, alguns fragmentos, desconstruindo e reconstruindo o texto, por assim dizer, como gostava de fazer com alguns poemas, como os de Cesariny, a que dizia prestarem-se excepcionalmente a esse exercício. E muitas vezes lia dessa forma os poemas de Cesariny, mas apenas em casa, quando estava sozinho e só ele ouvia a sua voz, porque na rádio, apesar de sozinho, podiam escutá-lo.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
não há duas sem três
O terceiro programa de uma nova série na Rua do Imaginário já está preparado e irá para o ar amanhã às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Mais detalhes nas entradas anteriores, incluindo a possibilidade de ouvir o programa de 2 de Janeiro.
Mais detalhes nas entradas anteriores, incluindo a possibilidade de ouvir o programa de 2 de Janeiro.
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