quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Queda Livre (fim)

13

Tu não és capaz de amar, diz Gelo.
Talvez não seja capaz de amar, de te amar, mas desejo-te.
Desejas-me. Sim, eu sei que me desejas. Mas não me amas. Não és capaz de me amar.
E tu, tu és capaz de me amar?
Não, não sou capaz. Sou como tu. Não sou capaz de amar, conheço apenas o desejo e, mesmo assim, apenas o desejo dos outros, o desejo que provoco nos outros.
Sentes o meu desejo?
Sim, sinto o teu desejo, mas preferia o teu amor.
Mas disseste que não és capaz de amar.
Disse que não era capaz de amar, não disse que não queria amar, que não queria ser amado.
Mas eu desejo-te.
Eu sei. Eu sei. É tão cansativo ser desejado.
Mas tu fazes tudo para despertar esse desejo nos outros, diz João Oliveira, e Gelo sorri. E sorri. E sorri.

Não tem outra resposta a não ser sorrir. Há tantas perguntas para as quais a resposta só pode ser um sorriso, digamos assim, um sorriso enigmático, e nada mais.

Voltaste para ficar.
Sabes que sim.
Vais continuar a fazer o mesmo?
Sabes que sim, diz Joana, e sorri um sorriso doce, um sorriso que diz que o ama, que sempre o amará, e Joaquim sabe-o, mas não consegue retribuir o sorriso, o rosto fechado. Fechado.

Porque perguntamos ainda quando já temos a resposta? Por que perguntamos mesmo quando já sabemos a resposta? Porque não aceitamos as coisas como elas são?

As coisas são como são.
E isso quer dizer o quê?
Quer dizer isso mesmo.
Mas quem diz o que as coisas são?
Não é preciso que alguém o diga. As coisas são como são. Apenas isso.
Palavras. Mero jogo de palavras.
É exactamente isso que te estou a tentar dizer.
Que as coisas são como são!
Sim, já as palavras, são outra coisa. O que se diz das coisas é sempre outra coisa.
João Oliveira olha para Gelo e este para aquele. Quem terá dito uma coisa e outra? Quem falou o quê? Será que interessa? Talvez sim e talvez não. Mas para que não fiquem dúvidas, talvez seja melhor que o narrador o esclareça.
As coisas são como são, diz Gelo, e eu sou como sou. E sorri.

Chico fica muitas vezes calado, a fitar o seu interlocutor, o que incomoda muitos e irrita a maior parte, pouco habituados a serem ouvidos em silêncio. Fala-se de mais, diz Chico, mas a si mesmo, e fica a escutar as palavras que soam apenas em si. Gosta cada vez mais de se escutar, em silêncio. Aprendeu com o Calado, como ele lhe chama. No princípio, Chico falava muito com o Calado. Sabia então, e ainda hoje sabe, que ele não só percebe tudo o que lhe dizem, como toma sempre muita atenção ao que lhe dizem, mas, com o tempo, começou a sentir cada vez menos necessidade de falar com ele, e ficavam cada vezes a olharem-se em silêncio. Foi assim que Chico aprendeu a ouvir e, desde então, sente que aprendeu muito, aprendeu a ouvir para além das palavras. As palavras dizem muitas coisas, mas muitas vezes são como alguém que só conseguisse falar alto, tão alto que ninguém afinal conseguisse perceber o que ele dizia. O Calado não fala, não porque não consiga, mas porque deixou de acreditar nas palavras, isto pensa Chico quando olha para ele e ouve claramente o seu silêncio.

O que é o amor? Será que existe uma resposta? Cecília acha que sim. Cecília tem a certeza. Mas não é uma resposta que possa ser dada com palavras. Cecília ama Mário, logo o amor existe. Mas o que é o amor? É o que Cecília sente. Ela sente amor por Mário. Vão casar, vão ser felizes. Cecília tem a certeza, a certeza absoluta.



14

Sente só, sente-se sempre muito só; mas essa solidão, embora lhe pese, é um fardo que ele carrega com um orgulho triste e desesperado. Não é fácil para ninguém ser quem se é, pelo menos é assim que ele pensa, sobretudo quando se é diferente, quando ser diferente é afinal o que faz de nós quem somos. Acordou há pouco, acorda sempre cedo, e deixa que a luz que entra no quarto o desperte pouco a pouco. Ainda tem sono, mas sabe que já não adormecerá, e deixa-se ficar na cama, os olhos semicerrados, pensando em tudo e em coisa nenhuma. Está nu e tem plena consciência do seu corpo duvidoso, da sua sexualidade ambígua, da certeza da sua diferença. Criou essa diferença, acentua-a, usa-a. Não é uma coisa nem outra e, no entanto, é isso que ele é. Homens e mulheres sentem-se atraídos por ele, pela contradição entre os seios perfeitos e o pénis que ostenta sem vergonha. Quando se despe em público, sente o desejo dos homens e das mulheres, esse desejo que faz o seu sucesso. Olham-no com estranheza, alguns até com desprezo, mas todos o olham com desejo, com o mesmo desejo que ele não conhece a não ser nos outros. João Oliveira deseja-o, mas não o ama, e no entanto isso quase que não o incomoda, quase que não lhe dói, uma vez que João Oliveira não conhece o amor, conhece apenas o desejo, e mesmo assim apenas de uma forma perturbada e sublimada. Passa a mão pelos seios, sente-lhes a perfeição da forma e a maciez da pele, perfeição só perturbada pelo corte no mamilo direito, que lhe dá uma estranha forma de fruto demasiado maduro. Passa a mão pelo pénis erecto, sente-o duro, sente a sua urgência de carne. Não sente desejo ou, se o sente, não é em si, mas nos outros, o desejo dos outros. É esse desejo que o faz despir-se em público, é esse desejo que o faz ser quem é.

Abre-lhe a porta e regressa para a sala, para a mesa redonda, perto da janela, e fica ali, as mãos apoiadas no tampo, de costas voltadas para a entrada a olhar para fora. Ele entra, e olha-a por momentos, breves momentos, muito perto dela, até que as suas mãos lhe tocam as ancas, sobem-lhe a saia, baixam-lhe as cuecas, e ela o sente dentro dela, a entrar e a sair dela, de cá para lá, determinado mas sem pressas. Apoia-se mais sobre o tampo, oferecendo resistência, e depois dobra-se, os seios espalmados, a cabeça repousando sobre a mesa. Ele não pára, está excitado, excitado por ela se ter submetido, excitado por a ter sentido logo húmida, logo disposta, logo aberta para ele, como se o esperasse, como se lhe tivesse pedido que viesse, e, no entanto, fora o contrário, exactamente o contrário, ela tinha-lhe pedido, sim, tinha-lhe pedido que nunca mais a procurasse, que nunca mais, nunca mais, e isso excita-o, excita-o ainda mais, e quer fodê-la, e fode-a, e quer humilhá-la, e diz, puta, grande puta, muito gostas tu de ser fodida, muito gostas tu, e fode-a, e olha pela janela, onde uma vizinha estende a roupa, do outro lado da rua, e bastaria olhar em frente e poderia vê-los, e ele diz, puta, grande puta, gostava que todos vissem como és, e não pára, de cá para lá, dentro e fora, fora e dentro, e repete, puta, grande puta, gostas de ser fodida, não é, gosta de ser fodida, e fode-a e fode-a. Ela sente-o dentro de si, sente o seu desejo e a sua raiva, e isso excita-a, excita-a ainda mais, abre os olhos e vê a vizinha do outro lado, e quase lhe apetece que ela olhe e a veja assim, a ser fodida, assim, a ser fodida, mas soergue-se, levanta-se, ele a entrar e sair de dentro dela, ele a fodê-la, sempre a fodê-la, e vai ajoelhar-se no sofá, ali mesmo ao lado, mas já abrigada de olhares indiscretos. Ele ainda a fode, fode-a sempre, e diz, ainda diz, puta, grande puta, e ela diz-lhe, sabes, sabes que é a última vez, e ele ouve-a, e sabe, mas não lhe responde, fode-a e fode-a e fode-a, puta, grande puta. A última vez, a última vez, a última vez.

É Cecília? É Joana? É Virgínia? Que importância tem isso? E ele, quem é ele? Mas isso ainda tem menos importância. Não percebem? E no entanto é fácil, muito fácil. E difícil, muito difícil.

Mais tarde, muito mais tarde, ele escreverá um poema sobre aquele dia, sobre aquele amor breve e intenso, mas será muito mais tarde, quando finalmente o conseguir dizer, e não será um poema sobre aquele dia, mas um poema sobre o amor, sobre o único amor que conhece, o amor terno e triste que sente por todos as mulheres que amou, ou, o que para ele é o mesmo, por todas as mulheres que nunca foi capaz de amar verdadeiramente, a não ser desta forma, distante e longínqua, que é a única de que é capaz. Ela nunca lerá o poema ou, pelo menos, ele não lhe dará nunca a ler o poema, nem mesmo lhe dirá que o escreveu, que o escreveu para ela, porque embora tenha pensado muitas vezes fazê-lo, ele sabe que não o escreveu para ela, escreveu-o para si, escreveu-o porque acredita no amor, acredita na sua possibilidade.

Quem é ele? Uma das personagens? O narrador? O autor ele mesmo? Que importa isso? Não percebem? E no entanto é fácil, muito fácil. E difícil, muito difícil.

João Oliveira deseja Gelo, deseja-o muito. Gostaria de o desenhar, de o pintar, de o esculpir, mas as suas mãos querem tocá-lo, querem acariciá-lo, insistentemente, directamente, só assim as suas mãos, os olhos, os seus lábios, todo o seu corpo se saciaria e, no entanto, sabe que não o fará, sabe que só muito mais tarde o fará, quando for capaz de o desenhar, de o pintar, de o esculpir, e não agora, não agora, e pensa matá-lo, pensa fazê-lo sofrer, pensa e não pensa, atormentado pelo desejo que ele lhe desperta, um desejo tão forte e tão insaciável como nunca sentiu, como nunca mais sentirá.

Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz alguém, se é homem ou mulher o narrador não sabe nem lhe interessa, e muito menos quem é, que isso não é importante, isso não tem qualquer importância. Não percebem? O que é importante não são as coisas mas as relações entre elas, as relações que se criam entre as coisas.

Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz Cecília.
Cabrão, cabrão, grande cabrão diz João.
Cabrão, cabrão, grande cabrão, diz ele a si mesmo.
E as palavras assim ditas, assim repetidas, nunca dizem o mesmo mas falam afinal da mesma coisa. Não percebem? Não tem importância, não tem importância nenhuma.



15

Cecília sai do café e desce a avenida em direcção à estação de metro. Não olha para as lojas de móveis e de electrodomésticos. Recordará o homem, imóvel, calado, que encontrou ali uma vez? É a mesma mulher e no entanto é outra, diz a si própria. Pensa no que estará Mário a fazer e quase que lhe telefona, mas desiste. Ele que fique sossegado, diz ela, lá onde está, a trezentos quilómetros de distância, no seu novo trabalho. No fim-de-semana irá ter com ele, e em breve ficarão juntos de vez. Já estão casados, amam-se, são felizes; as coisas vão dar certo, ela tem a certeza, a certeza absoluta.





— Já foste amada? Já foste amada incondicionalmente?
— Não sei? Penso que sim... Mas acredito que é mais importante perguntar se já amámos. Se continuamos a ser capazes de amar. Os outros. Nós mesmos.

— Não concordas?
— Haverá maior tristeza que amar e não ser amado?
— Sim. Muito mais triste é nunca ter amado. Tenho pena de quem nunca amou. É como se nunca ter vivido.

— Algumas pessoas nunca serão capazes de amar. Dentro delas existe um vazio que nunca conseguem preencher.
— Não é o meu caso! Eu sou capaz de amar!!
— Às vezes chego a duvidar, apesar de tudo o que te ouvi. Precisas tão desenfreadamente que te amem... fazes disso uma exigência feroz... não sei...

— Estás a ouvir-me?
— Sim.
— Não fiques zangado comigo. Digo o que penso. Sou assim mesmo.
— Um dia ainda vou encontrar o amor. O amor perfeito.

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