segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Queda Livre (cont.)

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Antes da primeira bica nunca acordo, dizia sempre Cecília, como uma senha, uma promessa ou um talismã, nem ela o sabe, a frase pontuada com um sorriso reflexo. Dizia-o a si mesma, dizia-o a quem estivesse com ela, dizia-o ao empregado que se afastava já mas que a brindava ainda com um sorriso. E enquanto sorvia o café em pequenos goles escaldados, pensava no dia que a esperava. A que horas tinha ela combinado encontrar-se com Mário? Às sete? Talvez devesse telefonar-lhe. Ele andava esquisito. Ou seria ela? E o trabalho? O trabalho, que se fodesse o trabalho. E ri alto. E ri por ter rido. E ri ainda mais. Ainda ri quando sai do café. Marca o número de Mário, ele responde de imediato.
“Está.”
“Sou eu.”
“Olá amor, estava a pensar em ti.”
“A que horas é que combinámos?”
“Às sete. Onde andas com a cabeça?”
“(…)”
“Vamos ver algumas coisas para a casa, lembras-te, e podemos jantar, numa qualquer das cervejarias que por ali há. Nada de vegetariano…”
E ri, mas Cecília está séria.
“Amanhã saio cedo para o congresso, não te esqueças.”

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