domingo, 18 de janeiro de 2009

Rua do Imaginário 2 e 3

Fica aqui o texto utilizado no terceiro programa.
Se alguém quiser ouvir o segundo programa pode baixá-lo aqui nos próximos dias.
Mais qualquer coisa podem contactar-me neste e-mail: lnogueira1@gmail.com.

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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, e por isso não tentava distinguir a realidade da ficção. Ainda que soubesse que uma coisa é a realidade e outra a ficção, sabia também como elas se misturam ao ponto de muitas vezes ser praticamente impossível distinguir uma da outra.

O que lhe interessava era não só a possibilidade de a realidade influenciar a ficção, mas também, e sobretudo, arriscar-me-ia a dizer, a possibilidade de a ficção influenciar a realidade. E aqui, onde ele dizia ficção, podia dizer, e algumas vezes dizia, escrita, ou sonho, porque para ele, se essas três entidades não eram uma só, sem dúvida que as suas fronteiras eram comuns. Acho que já o disse, mas não me parece excessivo repeti-lo, ele não era um intelectual, tal como eu também não o sou, era um escritor, apenas um escritor. E nele, como em muitos escritores, a vida e a escrita confundiam-se, relacionavam-se de forma misteriosa, como afinal sempre acontece aos escritores, com maior ou menor intensidade. Como ele gostava de dizer a rir, escreve-se sempre a direito por mais tortas que sejam as linhas.

Sonha de tal modo com isso que tudo acaba por acontecer. Esta era uma das frases que li certa vez na parede da sua cozinha, escrita num pequeno papel colorido e afixado na porta do frigorífico. Não era a única que ali estava, noutros tantos papéis, mas é a única que agora recordo. Nunca eram sempre as mesmas. Mas recordo esta frase porque é uma perfeita síntese do que ele acreditava.
Sonha de tal modo com isso que tudo acaba por acontecer.
Não lhe perguntei se aquela frase era sua ou se a tinha retirado de algum livro. Se lhe tivesse perguntado talvez me respondesse, como já o fizera antes, que não sabia. Era apenas uma frase que o intrigava, e estava ali para ele a utilizar, se o momento surgisse.
A sua escrita tinha algo de colagem, era o que ele costumava dizer-me. Gostava de utilizar materiais improváveis. Às vezes pequenas frases, retiradas já nem se lembrava de onde, e que de repente lhe fazia todo o sentido entrarem numa qualquer narrativa que ele escrevia, já não as mesmas frases, mas novas frases, desfiguradas e renovados pelo novo contexto. Porque de certa forma, e julgo que não conseguirei explicar isto, ele escrevia como um músico.
Essas frases que ele destacava eram como picos numa qualquer narrativa, logo extraordinárias, mas também como nós, nós de uma rede, porque ele acreditava que existiam frases, e por isso ainda mais extraordinárias, que ligam as ficções (ou os imaginários) e que participam de várias ficções (ou de vários imaginários). Estranho, não é?
Consigo perceber mas não consigo explicar, no entanto pensem em como o mesmo facto pode ser percebido de forma diferente por várias pessoas. Ele é o mesmo facto, mas ao ser percebido por várias pessoas de forma diferente ele deixa também, de certa forma, de ser o mesmo facto, mas está lá, no centro, no exacto centro de todas as possibilidades. Eu disse que não conseguia explicar, mas a ideia de nós era mesmo essa, uma mesma frase que une várias narrativas. Uma espécie de ponto nevrálgicos do imaginário.
Mas estou já a divagar irremediavelmente.

Tinha pensado escrever de propósito um texto em que, de alguma forma, mostrasse esse estranho e enigmático relacionamento que existe entre a ficção e a realidade (ou a vida e a escrita). Tinha pensado fazer do programa esse centro ficcional a partir do qual tudo poderia acontecer, como quando acontecia quando escrevia. E se o programa era esse centro, nada mais natural do que escrever a partir da própria rádio. Era uma ideia ao mesmo tempo muito simples e muito complicada, aliás como muitos diziam da sua escrita, uma escrita aparentemente simples, mas com diversos níveis de uma misteriosa subtileza. Ele discordava, é claro e ria-se quando lhe diziam isso. Achava a sua escrita era demasiado óbvia e, por outro lado, achava que o mais importante é muitas vezes o mais simples, ou, se preferirem, o que parece mais simples.
Mas lá estou eu a divagar de novo.
Deixem-me então que me limite aos factos.

Foi no final do ano que ele decidiu fazer o seu programa de rádio em novos moldes.
E fez o primeiro programa do ano segundo esse novo modelo.
E fez o segundo programa ainda segundo esse novo modelo.
Programas concebidos como um todo e com uma intenção artística, como ele afirmou no início e no final de cada um deles, recitando como uma fórmula: o programa de hoje foi concebido como um todo e com uma intenção artística.
E apesar de ter pensado (ou temido) que as estratégias utilizadas se esgotassem no primeiro programa, fez ainda um segundo e começou a preparar-se para um terceiro programa.
Lembro-me que o encontrei por essa altura à saída da rádio, ia eu para a esquadra da polícia buscar o meu carro, que a polícia gentilmente me rebocara, não porque estivesse mal estacionado, mas porque tinha a porta e o vidro abertos. Ele ia na mesma direcção e acompanhou-me aqueles poucos metros. Fiz o primeiro programa porque tinha de ser, disse-me ele, fiz o segundo programa porque o melhor da vida vem sempre aos pares, e vou fazer o terceiro porque não há duas sem três. E ria-se à gargalhada, a sua tão conhecida e inconveniente gargalhada.
“E os próximos programas?”, perguntei-lhe eu.
“Quanto aos próximos, logo se vê, mas tu sabes que eu gosto de ir até ao fim”, respondeu-me ele sem deixar de rir.

Para o terceiro programa, em vez de começar pelo texto, começou pela música. Não porque tivesse escolhido assim, apenas porque aconteceu. Tinha toda aquela música de jazz que encontrara e não parava de a ouvir. Quando escolheu música para o segundo programa sobrou-lhe logo, por assim dizer, música para o terceiro programa, porque escolheu logo alguns dos músicos que mais gostava e de entre eles algumas músicas bem ao seu gosto, músicas dolentes, melancólicas, com os instrumentos em solos longos e intensos. Tal e qual como ele gostava.

Às vezes ficava horas a tentar estabelecer paralelos entre diversos temas, ouvindo-os obsessivamente, um a um, uma e outra vez, até quase não conseguir distingui-los. Foi o que lhe aconteceu daquela vez, e quando deu por si tinha já mais de uma hora de música. Nove temas de jazz. Mais um programa só com jazz. E pensou nessa altura se o jovem com nome de pássaro não iria aborrecer-se por estar a utilizar duas vezes seguidas só jazz, porque afinal o programa de jazz era dele e não seu, mas tinha tanto jazz que seria burrice sua se não o utilizasse. No próximo, o quarto, se o fizesse, utilizaria talvez outra música. E depois tinha a certeza que ele não se importaria que fizesse dois programas seguidos só com jazz, ainda que viesse a saber, o que duvidava.

Já há algum tempo que não o via, ao jovem com nome de pássaro que, para além dessa característica, tinha a de mudar de aspecto com muita frequência e de forma radical, pois acontecia-lhe muitas vezes quase não o conhecer quando o via de novo. Ora tinha o cabelo comprido ora tinha curto. Ora tinha longas barbas ora aparecia escanhoado. Parecia sempre diferente, pelo menos para ele, que o via poucas vezes e com grandes intervalos, mas se o tivesse de descrever era assim que o descreveria. E não se esforçaria nem por momento a defender a sua visão como realidade, pois sabia que era apenas assim que ele o via. E no entanto, se o escrevesse, seria real.

Decidiu-se então, ao contrário do que habitualmente fazia, e fizera no primeiro e no segundo programa, a escrever o texto do terceiro programa em cima da música já escolhida, música de Eric Dolphy, Chet Baker (que adorava), Charlie Mingus e Miles Davies.
Escrito esse texto bastaria adequá-lo à música, bastaria lê-lo, repetindo aqui e ali algumas frases, alguns fragmentos, desconstruindo e reconstruindo o texto, por assim dizer, como gostava de fazer com alguns poemas, como os de Cesariny, a que dizia prestarem-se excepcionalmente a esse exercício. E muitas vezes lia dessa forma os poemas de Cesariny, mas apenas em casa, quando estava sozinho e só ele ouvia a sua voz, porque na rádio, apesar de sozinho, podiam escutá-lo.

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