domingo, 1 de fevereiro de 2009

# 5

Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação e, no entanto, vivemos, a maior parte das vezes, de forma tão pouco imaginativa. Esta falta de imaginação de todos os dias, a que muitas vezes ele chamava tristeza, a que ele muitas vezes chamava desespero, preocupava-o, não só porque a considerava generalizada, mas porque a sentia a ganhar espaço em si, ao ponto de lhe ser cada vez mais difícil viver, de o simples facto de viver lhe exigir cada vez mais esforço, quando ele afinal acreditava exactamente no contrário, acreditava que a felicidade não devia exigir qualquer esforço.

Quando se conta uma história, há sempre um momento em que é preciso fazer um ponto da situação pois, tal como na vida, essa é a única forma de continuar ou até terminar, mas é preciso não esquecer que terminar uma história é permitir que uma outra história comece.

Ele tinha chegado ao quarto programa dessa nova série e interrogava-se até quando continuaria. E não era porque fosse muito difícil fazê-lo. É claro que lhe exigia algum esforço, mas não era nada por aí além. A questão que se lhe colocava, que sempre se lhe colocava, era uma questão de sentido. Faria sentido continuar? Até quando? Mas a verdade é que não estava com cabeça para pensar nisso, e nessas ocasiões fazia-lhe sempre mais sentido continuar do que parar, fazia-lhe sempre mais sentido deixar-se ir do que tomar uma decisão. Deixa-te ir, dizia-me sempre ele quando eu me queixava de que tudo me era cada vez mais difícil. Deixa-te ir. Deixa-te ir. E às vezes acrescentava, segue o teu coração, e ria, de mim e de si mesmo, porque não acreditava em dar conselhos, por mais sábios que fossem.

Deixa-te ir. Deixa-te ir. É isso que eu digo e repito a mim mesmo quanto escrevo. Deixa-te ir. Deixa-te levar pela escrita. Deixa-te levar por aquilo que em ti desconheces. Entre a cabeça e o coração escolhe sempre o coração. O teu coração sabe melhor do que tu o que sabe a tua cabeça. E aqui já não falo da escrita mas da vida, ainda que em mim as duas se misturem de tal forma que penso muitas vezes que são uma coisa só. Mas divago e, ainda que esta seja a única forma de contar uma história, de vez em quando é preciso voltar ao ponto de partida para de novo partir e seguir em frente. Às vezes, estar em silêncio e falar é uma e a mesma coisa, sobretudo quando falamos de mais, que não é mais do que uma forma impura de estar em silêncio.

Tenho então vindo a contar o que aconteceu ao meu amigo, escritor como eu, depois que decidiu renovar a forma como fazia o programa de rádio que colocava no ar há cerca de dois anos; tenho tentado dar conta, programa a programa, das dificuldades que sentiu e da forma como as resolveu. Tenho contado de menos, é quase certo que sim, mas a verdade é que considero muito mais importante o que não se diz, o que se deixa ao leitor completar, o que se deixa ao leitor imaginar. Por isso nunca referi o seu nome, embora o pudesse fazer com facilidade. Por isso o referi como escritor, ainda que seja mais como homem do que como escritor que quero falar dele. Porque a verdade é que se queremos contar uma história temos sempre de contar outra: as histórias, como a realidade, apenas se oferecem de forma indirecta, como reflexos de algo que está sempre além.

Ele tinha pensado fazer do seu programa de rádio, durante algum tempo, uma espécie de centro ficcional em que tudo se confundiria ao ponto de quem o ouvisse ser incapaz de perceber onde começava e acabava a ficção. Por isso a voz do narrador se confundia com a sua, por isso muito do que ele era e do que lhe acontecera era atribuído à personagem. Por outro lado, a própria música apresentada encontrava a sua razão de ser no texto que era lido, como se o ilustrasse, como se tudo estivesse a acontecer naquele momento. Podia explicar muito melhor, narrar tudo com minúcia, mas o melhor será ouvir um desses programas, ou então imaginá-lo, o que talvez seja melhor.

Ele foi então tecendo a realidade com a ficção, à procura do que percebeu ser, a partir de determinada altura, uma resposta para si mesmo, algo que lhe permitisse continuar. E aqui eu deveria talvez falar da sua vida, das dificuldades que atravessava, mas mais uma vez prefiro que usem a vossa imaginação, que imaginem um homem à procura de algo que lhe permita começar de novo e que confiem na vossa imaginação.

Foi no quarto programa, segundo ele, que as coisas lhe fugiram ao controlo, de forma misteriosa, o que no entanto não pareceu incomodá-lo. A partir de um certo momento a música que se ouviu deixou de ser a música que ele escolhera e que insistia em colocar, sem que para isso existisse uma qualquer explicação. Ele colocava um disco, escolhia uma faixa, e o que se ouvia era uma outra faixa de um outro disco qualquer. É claro que não havia maneira de provar o que ele dizia, nem ele o tentou fazer, pois na altura estava sozinho na rádio e a audição do programa nada podia esclarecer. Ainda lhe perguntei se não estava preocupado com o que acontecera, mas ele respondeu-me com uma frase curta e um sorriso: Fosse essa a maior das minhas preocupações. E depois começou a falar de outra coisa qualquer.

“Então no quinto programa não aconteceu nada?”, perguntei-lhe alguns dias depois de ele ter passado na rádio, e ele repetiu num eco:”Não aconteceu nada?”
“Sabes o que eu quero dizer, não aconteceu nada de extraordinário?”, insisti, e ele de novo repetiu num eco:”Nada de extraordinário?”
Perguntei-lhe um pouco irritado se já não se lembrava do que acontecera no seu último programa, e ele respondeu-me que se lembrava muito bem, e que desta vez nada acontecera de semelhante, e olhou-me como se estivesse prestes a revelar-me algo ainda mais extraordinário, mas afinal nada disse e ficou apenas a olhar-me.

No quinto desses programas a música que se ouviu foi a que ele planeara, e isso pareceu ao meu amigo tão extraordinário quanto a mim me parecera extraordinário que no programa anterior tivesse acontecido exactamente o contrário. E se antes, quando ele me contara o que acontecera no quarto programa, duvidara da sua sanidade mental, agora ainda duvidei mais, mas ele falou-me longamente de como não devemos perder a capacidade de nos maravilharmos com as coisas simples da vida, e parecia tão seguro de si e do que dizia, e tão feliz, que eu pensei que se tinha enlouquecido, então melhor para ele, porque pela primeira vez desde há muito tempo transbordava de um entusiasmo puro e tranquilo que me recordou uma frase de Raul Brandão que em tempos ele me mostrara: “Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura até de uma pedra.”

Vivemos com pouca imaginação, disse-me ele, e repetiu antes de se afastar, vivemos com pouca imaginação, como se essa frase banal tivesse um significado não só óbvio mas também extraordinário. Na altura não dei grande importância a essa frase, mas hoje, talvez porque tenha sido a última que me dirigiu, dou por mim a repeti-la muitas vezes sem uma razão aparente. Vivemos com pouca imaginação.

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