quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

# 6 - texto base

[Reparo agora que não tinha colocado o texto do 6.º programa, 6.º de uma série concebida como um todo. Como aqui coloquei os anteriores faz todo o sentido que coloque também este. De notar que são apenas o textos base e não dispensam a audição dos programas que oportunamente tentarei colocar aqui e que entretanto serão de novo emitidos, quinzenalmente.

Reparo também que não dei nome a este conjunto de programas. Eu sei que existe um filme com esse nome, mas acho que não ficaria mal A Verdade da Mentira. Ou então A verdade da ficção... Ou simplesmente, como o próprio programa, Rua do Imaginário. Sim, é isso, Rua do Imaginário.]

Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação, por isso, quando ouvimos ou contamos uma história, o mais importante não é se ela é real ou imaginada, mas se é verdadeira.
Todas as histórias se baseiam em factos e na experiência pessoal daqueles que as contam, mas só são verdadeiras as histórias em que se quis dizer a verdade, a verdade tal qual os seus autores a conceberam.
Ao escrever esta história, quis dizer a verdade, aquela verdade que está para além dos factos e das palavras, a verdade que só em nós mesmos podemos encontrar. Por isso espero que percebam que disse a verdade mesmo quando inventei, sobretudo quando inventei, ainda que nada tenha sido verdadeiramente inventado. Contei o que sentia, nada mais, e deixei que a história se contasse a si mesma.

O melhor é mesmo ir já direito ao fim, que talvez muitos de vós tenham já antecipado. Talvez seja a melhor forma de perceberem que o fim, qualquer fim, não é mais do que um princípio, um novo princípio, porque depois de vos contar o fim, de modo breve e conciso, vou ainda continuar um pouco mais, e continuar a contar o que afinal vos quero contar e de que esta história é apenas o princípio, o princípio que nunca vos conseguirei contar até ao fim.

Mas se já anteciparam o fim desta história também poderão continuar a contar o que ficará por contar, pois já se viu que têm o que é preciso: são capazes de imaginar. E se não conseguiram antecipar o fim desta história, não desesperem, na verdade baste que o imaginem, estou certo que são capazes de o fazer, e o fim que imaginarem será o fim desta história e afinal de todas as histórias porque, se pensarem bem nisso, nenhuma história termina alguma vez, pois de cada vez que é contada começa de novo, seja qual for o fim.

O sexto programa decorreu, posso afirmá-lo, no dia e à hora marcada. Ele chegou à rádio cerca de dez minutos antes e esperou pela sua vez dentro do estúdio, como fazia muitas vezes. O autor do programa anterior confirma-o. O programa foi emitido em directo. O director da rádio é categórico. Ninguém o viu sair da rádio, apesar de terem estado sempre pessoas no seu interior. Pelo menos um colaborador esteve na sala de entrada durante todo o tempo do programa e não o viu sair, admitindo no entanto que tal poderia ter acontecido, ainda que fosse pouco provável, pois ainda que se tivesse distraído, a verdade é que ele nunca saía sem se despedir de quem ali estava. O autor do programa seguinte já não o encontrou no estúdio, quando ali chegou, cerca de cinco minutos antes do fim, e foi ele que colocou no ar o fecho do programa. Num dos leitores estava um disco a tocar. Em cima da mesa estava o texto lido naquele programa, bem como toda a música utilizada. E um livro aberto num poema que não foi lido durante o programa. O que pôde ser foi confirmado com a audição posterior do programa. Estes são os factos.

O seu telefone passou a estar sempre indisponível e não me abriu a porta, das duas ou três vezes que toquei à sua campainha. Quando me dirigi à rádio e perguntei por ele, disseram-me que nunca mais tinha aparecido, o que os tinha surpreendido muito pois, como me disseram, não fazia o seu género. Tinham-lhe tentado telefonar-lhe mas o seu telefone estava sempre indisponível, e ficaram à espera que ele explicasse o que tinha acontecido, mas ele nunca os contactou e não voltou a aparecer. Ninguém o tinha voltado a ver mas não se tinham preocupado muito com isso, se lhe tivesse acontecido algo de mal, certamente teriam sabido, mais tarde ou mais cedo, e a verdade é que ali na rádio ninguém o conhecia muito bem.

Já passou mais de um ano desde o seu último programa e nunca mais soube nada sobre o meu amigo. Nesse sexto programa a sua voz deixou de se ouvir perto dos quarenta e cinco minutos e, a partir, daí, ficou a tocar o mesmo álbum até ao fim, o que nunca antes acontecera. Não sei se tal facto tem algum significado, mas o álbum era o mesmo que ele tinha passado já anteriormente no programa quase na totalidade, separado por pequenos contos, e que um jovem autor de um outro programa tinha referido ser um dos seus álbuns preferidos. Tirando essa particularidade de se ter calado cerca dos quarenta e cinco, o programa em nada diferia dos anteriores, em que muitas vezes deixara tocar um mesmo álbum durante muito tempo. E o que dissera naquele programa também não fora nada de extraordinário. Falara do real e da ficção, falara de princípios e de fins, divagara afinal, como divagavam sempre os seus textos, mas era ele mesmo que se interrogava muitas vezes sobre se contar uma história não seria sempre divagar.

É verdade que podia ter feito muito mais. Podia ter perguntado por ele no seu local de trabalho, podia ter perguntado por ele aos vizinhos, podia ter dado conta do seu desaparecimento à polícia, ainda que anonimamente, mas a verdade é que não fiz nada disso, a verdade é que nunca mais soube dele nem ele me contactou, e mesmo alguns seus conhecidos, a quem perguntei por ele, limitaram-se a dizer que há muito não tinham notícias suas.
E o tempo foi passando e a situação manteve-se, nunca mais o vi nem tive notícias suas. Tanto quanto sei, o meu amigo desapareceu certo dia durante um programa de rádio, o sexto de uma série de novos programas, concebidos com um todo e com uma intenção artística, e nunca mais o vi ou tive notícias suas.

Conto esta história até onde quero contá-la, que isto fique bem claro. Poderia continuar a contá-la, mas decidi parar, e faço-o porque é assim que sinto esta história, uma história cujo fim deve ficar por imaginar. Escrevia-a assim, incompleta, para que ele um dia a complete, se quiser. Porque esta história é e não é minha.
Até lá, quem quiser que a complete. É fácil, muito fácil, basta imaginar.
Mas não se esqueçam de dizer a verdade, a vossa verdade, porque se assim não o fizerem, de nada vos servirá imaginar.

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