quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

vida e literatura

Ontem passei os olhos por um livro com alguns poemas de Allen Ginsberg, mas foi da introdução que retive a ideia de que a vida entrava nos seus poemas como a literatura entrava na sua vida. Mais ou menos isto. O que me interessou, além do mais pela experiência que desenvolvo na Rua do Imaginário este ano.

A Rua do Imaginário vai para o ar sexta às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Nas entradas anteriores os textos utilizados e também o primeiro programa.
A seguir o texto a ser utilizado no próximo programa.

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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, mas sabia também que ainda controlamos menos a nossa imaginação do que a nossa vontade. Por isso se admirava muito pouco, embora sempre o surpreendesse, o rumo que aquilo que escrevia podia tomar.
De onde vinham as histórias que escrevia? Por que é que acontecia o que acontecia? E aqui já não pensava apenas na escrita mas também na vida, porque ele acreditava que os mecanismos da escrita e da vida, ainda que desconhecidos, se não os mesmos, eram pelo menos idênticos, demasiado idênticos.

O próximo programa era já o quarto, e ele estava sentado a tentar escrever um primeiro esboço de um novo texto, tal como os anteriores, com cerca de quatro páginas, em Time New Romans, a dois espaços, como sempre escrevia, desde que o fizesse ao computador, claro, porque muitas vezes escrevia num qualquer papel que encontrava à mão, dependendo de onde estivesse, fosse um guardanapo ou as costas de um folheto publicitário. Eram frases breves, que lia, escutava ou apenas lhe vinham à cabeça, e que poderia talvez aproveitar mais tarde. Muitas perdiam-se. Afixava algumas na porta do frigorífico, tal como estavam, ou depois de transcritas para pequenos papéis coloridos que costumava ter sempre em casa.
Gostava muito de repetir uma afirmação, que atribuía a Gabriel Garcia Marques, mas que podia ser de outro escritor qualquer, ou até sua, que proclamava que escrever um conto era mijar no chão, enquanto escrever um romance era colar mosaicos. E esta frase dizia muito da forma como ele entendia a escrita, dizia muito da forma como ele escrevia.
Mas estou a divagar, ou contar uma história será sempre divagar? Quando ele me contava alguma coisa, muitas vezes eu dizia-lhe, mais para o picar do que por um real motivo, que ele estava a divagar, e ele respondia-me sempre com a mesma pergunta. Mas contar uma história não é sempre divagar? E riamos os dois.

O próximo programa era então o quarto e ele estava sentado a escrever um primeiro esboço do texto que utilizaria, o que começou a fazer do mesmo modo que fizera antes, pelo menos para o segundo e o terceiro, usando algumas frases que usara no anterior e que depois alterava para que se tornassem novas frases, conferindo assim, na sua opinião, alguma unidade e continuidade ao texto, mais uma questão de ritmo do que de tema, se é que o entendi, porque ele, tal como eu, sabia muito mais do que conseguia dizer, ainda que, tal como os melhores escritores, dissesse muito mais do que sabia. Ouvia Charles Mingus e repetia sem fim o primeiro tema, maravilhado que estava com ele, com aquele som meditativo e calmo mas também apaixonado, como uma oração. E ouvia-o, ouvia-o e ouvia-o. E quando chegava ao fim punha-o de novo no princípio. E pensou logo em iniciar o programa com ele.
E se começasse com Charles Mingus e Canon, poderia talvez continuar com John Coltrane, músico que aquele tema lhe recordava. E assim começou a escolher música para o novo programa, música que se compunha apenas de jazz, tal como nos anteriores programas, e chegou mesmo a escrever um alinhamento com todos os temas e tempos, como sempre fazia, mas desta vez as coisas, como muitas vezes lhe acontecia, fugiram ao seu controlo.
Mas é melhor não me antecipar. Pensou então em começar com Charles Mingus, o tema Canon, e continuar com qualquer coisa de John Coltrane, desde que não fosse Love Supreme, um tema fabuloso, mas que lhe ocuparia quase toda a hora do programa.

E voltou a ouvir Canon, a surpreender-se no início com o som que lhe parecia de campainhas de bicicleta, com a toada quente e no entanto lembrando o ruído dos motores que percorria todo o tema. Foi isto que escreveu no próprio texto que leu no programa onde esse tema e também um tema de John Coltrane passaram no início do programa, tal como ele planeara.


Depois é que as coisas fugiram ao seu controlo, pois nem um só dos temas que se seguiram foi dos que ele escolhera. Logo a começar por Density 21.5 de Varese, em que o compositor não hesitou em utilizar na composição o barulho das teclas do instrumento.
Depois a musica foi por aí adiante, sempre ao arrepio daquela que ele escolhera.
Não estão a compreender?
Eu a princípio também não compreendi muito bem, mas ele explicou tudo de forma tão pormenorizada e tão real que logo concordei com ele. Tinha acontecido tal e qual ele descrevera, não tive quaisquer dúvidas.
Mas era isso mesmo que me acontecia com a sua escrita. Convencia-me. Convencia-me sempre. Sobretudo pela emoção que ele sempre conferia ao que dizia e escrevia.

Talvez eu pudesse falar dele utilizando uma das suas pequenas frases, frase escrita num pequeno papel amarelo que vinha dentro de um livro que me emprestou, e que eu copiei antes de lhe devolver o livro com a frase dentro.
Uma frase que julgo ser do pintor Diego Rivera referindo-se a um dos seus mestres: “Foi ele que me ensinou a lição suprema de toda a arte – que nada pode exprimir-se sem o poder do sentimento, e que a alma de uma obra-prima reside nesta potência de emoção.”

Foi por essa altura que o convidei mais uma vez para jantar em minha casa. Ele gostava de comer e a arte de culinária não lhe era indiferente; dizia que a culinária é, se devidamente entendida, um verdadeiro acto de amor.
Não compreendia como se podia escrever com ódio. A escrita, dizia, é sempre um acto de amor, esse amor que só pode ser a determinação única de ir até ao fim. Escrever com ódio, só se for ódio sublimado em amor, pois só o amor produz boa literatura. O mesmo com o desespero.
Era o que ele me dizia enquanto esperávamos que o jantar se fizesse. Pelo menos foi o que lhe disse: “O jantar está a fazer-se. Basta esperar vinte minutos. Em lume baixo.” Uma camada de cebola, uma camada de tomate, depois o atum, e novamente cebola e tomate. Um pouco de azeite, um pouco de vinho branco, sal, pimenta, uma folha de louro, dois ou três dentes de alho e um punhado de salsa. E depois de levantar fervura, lume baixo, e fica a fazer-se.
Atum de tomatada, uma velha receita que em miúdo podia ser comida em qualquer tasco da capital do atum. Mas já não agora, que nos restaurantes parece que se perdeu a velha arte de cozinhar, quer sejam tascos quer sejam restaurantes de luxo. Talvez já não cozinhem por amor, com ele diria, o amor pela arte, o amor pela partilha. Mas estou a divagar, e mesmo que divagar seja contar uma história, convém que seja quanto baste, para usar um termo culinário. Quanto baste. Divagar quanto baste.

Ele dizia e eu concordava, cozinhar não é muito diferente de contar uma história, quando se começa, ainda que tudo esteja controlado, nunca se sabe o que pode acontecer. A diferença entre a excelência e o desastre é mínima. Mas o amor faz a diferença, disse-lhe, e ele concordou. De vez em quando, ora ele, ora eu, levantávamo-nos, tirávamos a tampa com cuidado e cheirávamos, e olhávamos e cheirávamos. Está quase, está quase, dizíamos, e bebíamos mais um gole de vinho, e falávamos e falávamos.
Cozinhar é simples, como é simples escrever, e no entanto, como é difícil controlar o resultado. Há sempre que ter um cuidado extremo com os ingredientes, com o modo de preparação, com os tempos, e, mesmo assim, tudo foge sempre ao nosso controlo, como na escrita, por mais preparados que estejamos. E foi assim, no meio do seu discurso sobre as semelhanças entre cozinhar e escrever que ele me começou a contar o que acontecera no quarto programa. E estava calmo, como se fosse natural o que acontecera. Na verdade só se exaltou um pouco quando, como muitas vezes lhe acontecia, a meio do seu relato inicial, o interrompeu abruptamente para começar a contar outra história.

Vê lá que me diz assim: Então tu afinal trabalhas?
E eu respondi-lhe: Sim, trabalho. Não sabias?
E atalha ele: Pensava que vivias da escrita.
E como me calei, ele insistiu: Pensava que vivias da escrita.
E eu, tão parvo, ainda lhe disse que em Portugal eram poucos os que viviam da escrita. Viver da escrita.
E exaltava-se, e repetia. Viver da escrita. Viver da escrita.
Eu não quero viver da escrita, quero é viver para a escrita.
E começou um interminável diálogo que me afastou afinal do que verdadeiramente me interessava: o relato do que lhe acontecera no quarto programa daquele ano em que decidira começar a fazer programas de rádio como um todo e com uma intenção artística, isto para usar a fórmula que ele mesmo utilizou.

Começou o programa com o tema Cânon, de Charles Mingus, e continuou com Coltrane, mas quando esperava ouvir Eric Dolphy e o tema Densities, que segundo alguns guarda ecos de Density 21.5 de Varese, eis que se faz ouvir esse mesmo tema, sim, o de Varese. Claro que julgou que se tinha enganado, mas na mão tinha a caixa do cedê de Eric Dolphy, de onde tinha tirado o disco que colocara no leitor. E as faixas eram diferentes, lembrou-se logo disso, ele que tinha uma memória terrível e que trocava tudo, nomes, títulos, datas, lembrou-se logo disso e, na verdade, quando tirou o disco verificou que era mesmo o disco de Eric Dolphy, apesar de a música que se ouviu, e podia prová-lo, tinha a gravação do programa, ter sido a de Varese. E disse os nomes todos certos, isto apesar da sua memória terrível, o que me espantou ainda mais. Aliás, era ele mesmo que dizia a brincar, que era por causa da sua má memória que se tornara ficcionista, como tinha uma má memória só lhe restava imaginar.

E depois foi por adiante, disse-me ele, depois do Varese nada do que eu planeara e coloquei se fez ouvir. De cada vez era sempre algo diferente. Sempre algo diferente. Na maior parte era música que eu tenho, mas que não tinha levado, e nalguns casos até música que eu não conhecia.
É verdade, disse-me ele, foi estranho, muito estranho, mas a partir de certa altura até me diverti. E não parecia incomodado nem preocupado com aquele acontecimento no mínimo estranho. É verdade que ele nunca procurava explicações, mas confesso que duvidei da sua sanidade mental.
Claro que me estragou tudo o que tinha programado, disse-me ainda, e decidi ler o texto apenas no intervalo das músicas, que nunca sabia quais eram. Até tinha medo de ouvir o que vinha seguir. Fosse como fosse continuei a colocar a música que programara mas nem uma vez acertei e, ainda mais curioso, nem uma vez a seguir aos dois primeiros temas se voltou a ouvir jazz. A certa altura até tinha medo de falar, não se começasse a ouvir outra coisa. Outras palavras. Outra pessoa.

Foi isto que ele contou que acontecera no quarto programa. Na altura apenas pensei, ainda que por um momento, se ele não estaria doido, mas agora percebo que foi o princípio do que viria a acontecer-lhe, ainda que mesmo hoje não tenha qualquer explicação para o sucedido.

3 comentários:

  1. por acaso, ando a ler uma biografia sobre o Allen Ginsberg e estou achar fascinante a forma como se organizou aquele grupo Beat à volta dele.

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  2. e qual é essa biografia? :)

    parece-me uma personagem fascinante, sobretudo se pensarmos no tempo em que viveu.

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  3. o autor chama-se Barry Miles e o livro chama-se «Allen Ginsberg». Não deve haver versão portuguesa mas aconselho muito o livro. Uma das personagens mais fascinantes é o William Burroughs, que vestia fato e gravata todos os dias para ir ler para o pátio de casa, e que matou a mulher a querer imitar o Guilherme Tell.
    O livro explica, para além da biografia do Ginsberg e dos amigos, da forma como ele escrevia os poemas. Ah, a edição é da Virgin.

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