segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Variações




O piano aprendeu a calar-se perante a majestosa imponência do mar. Só a pianista, tão silenciosa quanto ele, era capaz de lhe emprestar a sua voz.

A pianista tinha uma filha, mas o piano não era o pai, por muito que lhe custasse. Talvez por isso o seu som fosse sempre triste, ainda que apaixonado.

Quando ela morreu, o piano morreu também. Ainda se suspeitou de suicídio, mas, fosse como fosse, todos sabiam que tinha sido o desgosto que o matara.

A pianista trocou teclas por sexo, antecipando-se à sua neta que muitos anos mais tarde trabalharia numa linha erótica.

O piano era a voz do silêncio, poema materializado dos seus sonhos e das suas angústias. Com o piano ela aprendeu a falar, com o piano ele aprendeu a calar-se.


Ele não era pianista e ela de certeza não era um piano, no entanto as mãos dele no corpo dela despertavam uma música sublime.



quarta-feira, 24 de setembro de 2014

EXERCÍCIOS DE ESCRITA




I

 

desenho palavras

alinhando longas linhas

estranhas formas regulares

de curvas e arestas

improváveis

que se prolongam

repetidamente

no silêncio

 

II

 

as palavras brilham

de forma desigual

no negrume uniforme

do silêncio primordial

recordando-me que

de noite nem todas

as palavras são

pardas

 

II

 

queria escrever um

poema

em que as palavras

imóveis

corressem em todas

as direções

poema atravessado

por ventos

por marés

poema atravessado

pelos sonhos perturbados

dos homens

que vivem

sós
 
 

 

 
 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

POEMA QUE QUIS SER ENSAIO E QUASE SE ESQUECIA DE SER POEMA



 Ia escrever

O teu corpo nu

é bosque rio montanha

solo fértil

Mas ele é muito mais

e muito menos do que quis dizer

Por isso recomeço e escrevo

O teu corpo nu

é promessa de bosque

de rio de montanha

de solo fértil

E sinto agora que disse muito mais

e muito menos

do que queria dizer
 
 

TODO O POEMA


Todo o poema

é uma contida contenção

uma tensão de uma tensão

de uma tensão

 

Todo o poema

é uma repetida conversão

uma versão de uma versão

de uma versão

 

Todo o poema

é uma canção continuada

um nada de um nada

de um nada




 
 
 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

EM CONSTRUÇÃO


No exato momento em que estas palavras

Mancham o branco da minha imaginação

Agulhas profundas de serenidade e de dor

Abrem-se estreitas portas giratórias

Que me levam ora ao paraíso ora ao inferno

Num jogo de acasos a que não sou alheio
 
 



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Poema Óbvio

A ingratidão dói-me!
Mas a ingratidão não é pé nem mão
É antes uma pedra que se atira ao coração como uma seta afiada a um alvo
Por isso me desvio torno-me etéreo 
A arte salvar-me-à!

DECLARAÇÃO

Para os devidos efeitos
deixem-me que vos diga
de uma vez por todas que
se ser poeta é escrever poemas
então eu não sou poeta
porque eu não escrevo poemas
os meus poemas escrevem-se

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

segunda-feira, 1 de setembro de 2014