sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

sobreviventes

Recebi hoje cinco exemplares de A Justa Medida, o meu romance de estreia, publicado em Portugal pela Porto Editora e que será agora retirado de venda e os exemplares sobrantes enviados para reciclagem.

Ó António, tem dó

Pois é, ainda bem que não escrevi isto. Assim poupei trabalho :)

# 5

O quinto programa deste ano da Rua do Imaginário vai para o ar sexta-feira às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Ainda que cada um destes programas possa ser ouvido isoladamente, foram todos eles planeados como um conjunto ficcional.

Pode ouvir a seguir o primeiro desses programas. Se quiser ouvir os restantes ou estabelecer contacto comigo use lnogueira1@gmail.com.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

quarto programa

O quarto programa deste ano da Rua do Imaginário vai para o ar amanhã às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Nas entradas anteriores pode encontrar mais informação.

Edgar Varese é um dos músicos que será ouvido amanhã, com Density 21.5. Mas se não quiser ouvir o programa, ouça-o a seguir. E se quiser ouvir o programa, ouça-o na mesma a seguir.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Anne Waldman

O instrumento blogue é na sua essência um diário, pessoal (/artístico) ou de viagem na net. Cheguei a Anne Waldman, e a este dizer de um poema seu, procurando informação biográfica sobre Allen Ginsberg, depois do comentário do Paulo na entrada anterior.

vida e literatura

Ontem passei os olhos por um livro com alguns poemas de Allen Ginsberg, mas foi da introdução que retive a ideia de que a vida entrava nos seus poemas como a literatura entrava na sua vida. Mais ou menos isto. O que me interessou, além do mais pela experiência que desenvolvo na Rua do Imaginário este ano.

A Rua do Imaginário vai para o ar sexta às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.
Nas entradas anteriores os textos utilizados e também o primeiro programa.
A seguir o texto a ser utilizado no próximo programa.

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4


Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, mas sabia também que ainda controlamos menos a nossa imaginação do que a nossa vontade. Por isso se admirava muito pouco, embora sempre o surpreendesse, o rumo que aquilo que escrevia podia tomar.
De onde vinham as histórias que escrevia? Por que é que acontecia o que acontecia? E aqui já não pensava apenas na escrita mas também na vida, porque ele acreditava que os mecanismos da escrita e da vida, ainda que desconhecidos, se não os mesmos, eram pelo menos idênticos, demasiado idênticos.

O próximo programa era já o quarto, e ele estava sentado a tentar escrever um primeiro esboço de um novo texto, tal como os anteriores, com cerca de quatro páginas, em Time New Romans, a dois espaços, como sempre escrevia, desde que o fizesse ao computador, claro, porque muitas vezes escrevia num qualquer papel que encontrava à mão, dependendo de onde estivesse, fosse um guardanapo ou as costas de um folheto publicitário. Eram frases breves, que lia, escutava ou apenas lhe vinham à cabeça, e que poderia talvez aproveitar mais tarde. Muitas perdiam-se. Afixava algumas na porta do frigorífico, tal como estavam, ou depois de transcritas para pequenos papéis coloridos que costumava ter sempre em casa.
Gostava muito de repetir uma afirmação, que atribuía a Gabriel Garcia Marques, mas que podia ser de outro escritor qualquer, ou até sua, que proclamava que escrever um conto era mijar no chão, enquanto escrever um romance era colar mosaicos. E esta frase dizia muito da forma como ele entendia a escrita, dizia muito da forma como ele escrevia.
Mas estou a divagar, ou contar uma história será sempre divagar? Quando ele me contava alguma coisa, muitas vezes eu dizia-lhe, mais para o picar do que por um real motivo, que ele estava a divagar, e ele respondia-me sempre com a mesma pergunta. Mas contar uma história não é sempre divagar? E riamos os dois.

O próximo programa era então o quarto e ele estava sentado a escrever um primeiro esboço do texto que utilizaria, o que começou a fazer do mesmo modo que fizera antes, pelo menos para o segundo e o terceiro, usando algumas frases que usara no anterior e que depois alterava para que se tornassem novas frases, conferindo assim, na sua opinião, alguma unidade e continuidade ao texto, mais uma questão de ritmo do que de tema, se é que o entendi, porque ele, tal como eu, sabia muito mais do que conseguia dizer, ainda que, tal como os melhores escritores, dissesse muito mais do que sabia. Ouvia Charles Mingus e repetia sem fim o primeiro tema, maravilhado que estava com ele, com aquele som meditativo e calmo mas também apaixonado, como uma oração. E ouvia-o, ouvia-o e ouvia-o. E quando chegava ao fim punha-o de novo no princípio. E pensou logo em iniciar o programa com ele.
E se começasse com Charles Mingus e Canon, poderia talvez continuar com John Coltrane, músico que aquele tema lhe recordava. E assim começou a escolher música para o novo programa, música que se compunha apenas de jazz, tal como nos anteriores programas, e chegou mesmo a escrever um alinhamento com todos os temas e tempos, como sempre fazia, mas desta vez as coisas, como muitas vezes lhe acontecia, fugiram ao seu controlo.
Mas é melhor não me antecipar. Pensou então em começar com Charles Mingus, o tema Canon, e continuar com qualquer coisa de John Coltrane, desde que não fosse Love Supreme, um tema fabuloso, mas que lhe ocuparia quase toda a hora do programa.

E voltou a ouvir Canon, a surpreender-se no início com o som que lhe parecia de campainhas de bicicleta, com a toada quente e no entanto lembrando o ruído dos motores que percorria todo o tema. Foi isto que escreveu no próprio texto que leu no programa onde esse tema e também um tema de John Coltrane passaram no início do programa, tal como ele planeara.


Depois é que as coisas fugiram ao seu controlo, pois nem um só dos temas que se seguiram foi dos que ele escolhera. Logo a começar por Density 21.5 de Varese, em que o compositor não hesitou em utilizar na composição o barulho das teclas do instrumento.
Depois a musica foi por aí adiante, sempre ao arrepio daquela que ele escolhera.
Não estão a compreender?
Eu a princípio também não compreendi muito bem, mas ele explicou tudo de forma tão pormenorizada e tão real que logo concordei com ele. Tinha acontecido tal e qual ele descrevera, não tive quaisquer dúvidas.
Mas era isso mesmo que me acontecia com a sua escrita. Convencia-me. Convencia-me sempre. Sobretudo pela emoção que ele sempre conferia ao que dizia e escrevia.

Talvez eu pudesse falar dele utilizando uma das suas pequenas frases, frase escrita num pequeno papel amarelo que vinha dentro de um livro que me emprestou, e que eu copiei antes de lhe devolver o livro com a frase dentro.
Uma frase que julgo ser do pintor Diego Rivera referindo-se a um dos seus mestres: “Foi ele que me ensinou a lição suprema de toda a arte – que nada pode exprimir-se sem o poder do sentimento, e que a alma de uma obra-prima reside nesta potência de emoção.”

Foi por essa altura que o convidei mais uma vez para jantar em minha casa. Ele gostava de comer e a arte de culinária não lhe era indiferente; dizia que a culinária é, se devidamente entendida, um verdadeiro acto de amor.
Não compreendia como se podia escrever com ódio. A escrita, dizia, é sempre um acto de amor, esse amor que só pode ser a determinação única de ir até ao fim. Escrever com ódio, só se for ódio sublimado em amor, pois só o amor produz boa literatura. O mesmo com o desespero.
Era o que ele me dizia enquanto esperávamos que o jantar se fizesse. Pelo menos foi o que lhe disse: “O jantar está a fazer-se. Basta esperar vinte minutos. Em lume baixo.” Uma camada de cebola, uma camada de tomate, depois o atum, e novamente cebola e tomate. Um pouco de azeite, um pouco de vinho branco, sal, pimenta, uma folha de louro, dois ou três dentes de alho e um punhado de salsa. E depois de levantar fervura, lume baixo, e fica a fazer-se.
Atum de tomatada, uma velha receita que em miúdo podia ser comida em qualquer tasco da capital do atum. Mas já não agora, que nos restaurantes parece que se perdeu a velha arte de cozinhar, quer sejam tascos quer sejam restaurantes de luxo. Talvez já não cozinhem por amor, com ele diria, o amor pela arte, o amor pela partilha. Mas estou a divagar, e mesmo que divagar seja contar uma história, convém que seja quanto baste, para usar um termo culinário. Quanto baste. Divagar quanto baste.

Ele dizia e eu concordava, cozinhar não é muito diferente de contar uma história, quando se começa, ainda que tudo esteja controlado, nunca se sabe o que pode acontecer. A diferença entre a excelência e o desastre é mínima. Mas o amor faz a diferença, disse-lhe, e ele concordou. De vez em quando, ora ele, ora eu, levantávamo-nos, tirávamos a tampa com cuidado e cheirávamos, e olhávamos e cheirávamos. Está quase, está quase, dizíamos, e bebíamos mais um gole de vinho, e falávamos e falávamos.
Cozinhar é simples, como é simples escrever, e no entanto, como é difícil controlar o resultado. Há sempre que ter um cuidado extremo com os ingredientes, com o modo de preparação, com os tempos, e, mesmo assim, tudo foge sempre ao nosso controlo, como na escrita, por mais preparados que estejamos. E foi assim, no meio do seu discurso sobre as semelhanças entre cozinhar e escrever que ele me começou a contar o que acontecera no quarto programa. E estava calmo, como se fosse natural o que acontecera. Na verdade só se exaltou um pouco quando, como muitas vezes lhe acontecia, a meio do seu relato inicial, o interrompeu abruptamente para começar a contar outra história.

Vê lá que me diz assim: Então tu afinal trabalhas?
E eu respondi-lhe: Sim, trabalho. Não sabias?
E atalha ele: Pensava que vivias da escrita.
E como me calei, ele insistiu: Pensava que vivias da escrita.
E eu, tão parvo, ainda lhe disse que em Portugal eram poucos os que viviam da escrita. Viver da escrita.
E exaltava-se, e repetia. Viver da escrita. Viver da escrita.
Eu não quero viver da escrita, quero é viver para a escrita.
E começou um interminável diálogo que me afastou afinal do que verdadeiramente me interessava: o relato do que lhe acontecera no quarto programa daquele ano em que decidira começar a fazer programas de rádio como um todo e com uma intenção artística, isto para usar a fórmula que ele mesmo utilizou.

Começou o programa com o tema Cânon, de Charles Mingus, e continuou com Coltrane, mas quando esperava ouvir Eric Dolphy e o tema Densities, que segundo alguns guarda ecos de Density 21.5 de Varese, eis que se faz ouvir esse mesmo tema, sim, o de Varese. Claro que julgou que se tinha enganado, mas na mão tinha a caixa do cedê de Eric Dolphy, de onde tinha tirado o disco que colocara no leitor. E as faixas eram diferentes, lembrou-se logo disso, ele que tinha uma memória terrível e que trocava tudo, nomes, títulos, datas, lembrou-se logo disso e, na verdade, quando tirou o disco verificou que era mesmo o disco de Eric Dolphy, apesar de a música que se ouviu, e podia prová-lo, tinha a gravação do programa, ter sido a de Varese. E disse os nomes todos certos, isto apesar da sua memória terrível, o que me espantou ainda mais. Aliás, era ele mesmo que dizia a brincar, que era por causa da sua má memória que se tornara ficcionista, como tinha uma má memória só lhe restava imaginar.

E depois foi por adiante, disse-me ele, depois do Varese nada do que eu planeara e coloquei se fez ouvir. De cada vez era sempre algo diferente. Sempre algo diferente. Na maior parte era música que eu tenho, mas que não tinha levado, e nalguns casos até música que eu não conhecia.
É verdade, disse-me ele, foi estranho, muito estranho, mas a partir de certa altura até me diverti. E não parecia incomodado nem preocupado com aquele acontecimento no mínimo estranho. É verdade que ele nunca procurava explicações, mas confesso que duvidei da sua sanidade mental.
Claro que me estragou tudo o que tinha programado, disse-me ainda, e decidi ler o texto apenas no intervalo das músicas, que nunca sabia quais eram. Até tinha medo de ouvir o que vinha seguir. Fosse como fosse continuei a colocar a música que programara mas nem uma vez acertei e, ainda mais curioso, nem uma vez a seguir aos dois primeiros temas se voltou a ouvir jazz. A certa altura até tinha medo de falar, não se começasse a ouvir outra coisa. Outras palavras. Outra pessoa.

Foi isto que ele contou que acontecera no quarto programa. Na altura apenas pensei, ainda que por um momento, se ele não estaria doido, mas agora percebo que foi o princípio do que viria a acontecer-lhe, ainda que mesmo hoje não tenha qualquer explicação para o sucedido.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Rua do Imaginário 2 e 3

Fica aqui o texto utilizado no terceiro programa.
Se alguém quiser ouvir o segundo programa pode baixá-lo aqui nos próximos dias.
Mais qualquer coisa podem contactar-me neste e-mail: lnogueira1@gmail.com.

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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso que ele acreditava, e por isso não tentava distinguir a realidade da ficção. Ainda que soubesse que uma coisa é a realidade e outra a ficção, sabia também como elas se misturam ao ponto de muitas vezes ser praticamente impossível distinguir uma da outra.

O que lhe interessava era não só a possibilidade de a realidade influenciar a ficção, mas também, e sobretudo, arriscar-me-ia a dizer, a possibilidade de a ficção influenciar a realidade. E aqui, onde ele dizia ficção, podia dizer, e algumas vezes dizia, escrita, ou sonho, porque para ele, se essas três entidades não eram uma só, sem dúvida que as suas fronteiras eram comuns. Acho que já o disse, mas não me parece excessivo repeti-lo, ele não era um intelectual, tal como eu também não o sou, era um escritor, apenas um escritor. E nele, como em muitos escritores, a vida e a escrita confundiam-se, relacionavam-se de forma misteriosa, como afinal sempre acontece aos escritores, com maior ou menor intensidade. Como ele gostava de dizer a rir, escreve-se sempre a direito por mais tortas que sejam as linhas.

Sonha de tal modo com isso que tudo acaba por acontecer. Esta era uma das frases que li certa vez na parede da sua cozinha, escrita num pequeno papel colorido e afixado na porta do frigorífico. Não era a única que ali estava, noutros tantos papéis, mas é a única que agora recordo. Nunca eram sempre as mesmas. Mas recordo esta frase porque é uma perfeita síntese do que ele acreditava.
Sonha de tal modo com isso que tudo acaba por acontecer.
Não lhe perguntei se aquela frase era sua ou se a tinha retirado de algum livro. Se lhe tivesse perguntado talvez me respondesse, como já o fizera antes, que não sabia. Era apenas uma frase que o intrigava, e estava ali para ele a utilizar, se o momento surgisse.
A sua escrita tinha algo de colagem, era o que ele costumava dizer-me. Gostava de utilizar materiais improváveis. Às vezes pequenas frases, retiradas já nem se lembrava de onde, e que de repente lhe fazia todo o sentido entrarem numa qualquer narrativa que ele escrevia, já não as mesmas frases, mas novas frases, desfiguradas e renovados pelo novo contexto. Porque de certa forma, e julgo que não conseguirei explicar isto, ele escrevia como um músico.
Essas frases que ele destacava eram como picos numa qualquer narrativa, logo extraordinárias, mas também como nós, nós de uma rede, porque ele acreditava que existiam frases, e por isso ainda mais extraordinárias, que ligam as ficções (ou os imaginários) e que participam de várias ficções (ou de vários imaginários). Estranho, não é?
Consigo perceber mas não consigo explicar, no entanto pensem em como o mesmo facto pode ser percebido de forma diferente por várias pessoas. Ele é o mesmo facto, mas ao ser percebido por várias pessoas de forma diferente ele deixa também, de certa forma, de ser o mesmo facto, mas está lá, no centro, no exacto centro de todas as possibilidades. Eu disse que não conseguia explicar, mas a ideia de nós era mesmo essa, uma mesma frase que une várias narrativas. Uma espécie de ponto nevrálgicos do imaginário.
Mas estou já a divagar irremediavelmente.

Tinha pensado escrever de propósito um texto em que, de alguma forma, mostrasse esse estranho e enigmático relacionamento que existe entre a ficção e a realidade (ou a vida e a escrita). Tinha pensado fazer do programa esse centro ficcional a partir do qual tudo poderia acontecer, como quando acontecia quando escrevia. E se o programa era esse centro, nada mais natural do que escrever a partir da própria rádio. Era uma ideia ao mesmo tempo muito simples e muito complicada, aliás como muitos diziam da sua escrita, uma escrita aparentemente simples, mas com diversos níveis de uma misteriosa subtileza. Ele discordava, é claro e ria-se quando lhe diziam isso. Achava a sua escrita era demasiado óbvia e, por outro lado, achava que o mais importante é muitas vezes o mais simples, ou, se preferirem, o que parece mais simples.
Mas lá estou eu a divagar de novo.
Deixem-me então que me limite aos factos.

Foi no final do ano que ele decidiu fazer o seu programa de rádio em novos moldes.
E fez o primeiro programa do ano segundo esse novo modelo.
E fez o segundo programa ainda segundo esse novo modelo.
Programas concebidos como um todo e com uma intenção artística, como ele afirmou no início e no final de cada um deles, recitando como uma fórmula: o programa de hoje foi concebido como um todo e com uma intenção artística.
E apesar de ter pensado (ou temido) que as estratégias utilizadas se esgotassem no primeiro programa, fez ainda um segundo e começou a preparar-se para um terceiro programa.
Lembro-me que o encontrei por essa altura à saída da rádio, ia eu para a esquadra da polícia buscar o meu carro, que a polícia gentilmente me rebocara, não porque estivesse mal estacionado, mas porque tinha a porta e o vidro abertos. Ele ia na mesma direcção e acompanhou-me aqueles poucos metros. Fiz o primeiro programa porque tinha de ser, disse-me ele, fiz o segundo programa porque o melhor da vida vem sempre aos pares, e vou fazer o terceiro porque não há duas sem três. E ria-se à gargalhada, a sua tão conhecida e inconveniente gargalhada.
“E os próximos programas?”, perguntei-lhe eu.
“Quanto aos próximos, logo se vê, mas tu sabes que eu gosto de ir até ao fim”, respondeu-me ele sem deixar de rir.

Para o terceiro programa, em vez de começar pelo texto, começou pela música. Não porque tivesse escolhido assim, apenas porque aconteceu. Tinha toda aquela música de jazz que encontrara e não parava de a ouvir. Quando escolheu música para o segundo programa sobrou-lhe logo, por assim dizer, música para o terceiro programa, porque escolheu logo alguns dos músicos que mais gostava e de entre eles algumas músicas bem ao seu gosto, músicas dolentes, melancólicas, com os instrumentos em solos longos e intensos. Tal e qual como ele gostava.

Às vezes ficava horas a tentar estabelecer paralelos entre diversos temas, ouvindo-os obsessivamente, um a um, uma e outra vez, até quase não conseguir distingui-los. Foi o que lhe aconteceu daquela vez, e quando deu por si tinha já mais de uma hora de música. Nove temas de jazz. Mais um programa só com jazz. E pensou nessa altura se o jovem com nome de pássaro não iria aborrecer-se por estar a utilizar duas vezes seguidas só jazz, porque afinal o programa de jazz era dele e não seu, mas tinha tanto jazz que seria burrice sua se não o utilizasse. No próximo, o quarto, se o fizesse, utilizaria talvez outra música. E depois tinha a certeza que ele não se importaria que fizesse dois programas seguidos só com jazz, ainda que viesse a saber, o que duvidava.

Já há algum tempo que não o via, ao jovem com nome de pássaro que, para além dessa característica, tinha a de mudar de aspecto com muita frequência e de forma radical, pois acontecia-lhe muitas vezes quase não o conhecer quando o via de novo. Ora tinha o cabelo comprido ora tinha curto. Ora tinha longas barbas ora aparecia escanhoado. Parecia sempre diferente, pelo menos para ele, que o via poucas vezes e com grandes intervalos, mas se o tivesse de descrever era assim que o descreveria. E não se esforçaria nem por momento a defender a sua visão como realidade, pois sabia que era apenas assim que ele o via. E no entanto, se o escrevesse, seria real.

Decidiu-se então, ao contrário do que habitualmente fazia, e fizera no primeiro e no segundo programa, a escrever o texto do terceiro programa em cima da música já escolhida, música de Eric Dolphy, Chet Baker (que adorava), Charlie Mingus e Miles Davies.
Escrito esse texto bastaria adequá-lo à música, bastaria lê-lo, repetindo aqui e ali algumas frases, alguns fragmentos, desconstruindo e reconstruindo o texto, por assim dizer, como gostava de fazer com alguns poemas, como os de Cesariny, a que dizia prestarem-se excepcionalmente a esse exercício. E muitas vezes lia dessa forma os poemas de Cesariny, mas apenas em casa, quando estava sozinho e só ele ouvia a sua voz, porque na rádio, apesar de sozinho, podiam escutá-lo.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

não há duas sem três

O terceiro programa de uma nova série na Rua do Imaginário já está preparado e irá para o ar amanhã às sete horas. Pode ouvir a RUA em 102.7 FM (no Algarve) ou aqui.

Mais detalhes nas entradas anteriores, incluindo a possibilidade de ouvir o programa de 2 de Janeiro.

sábado, 10 de janeiro de 2009

idem, aspas

O segundo programa da Rua do Imaginário deste ano já foi, com repetição no próximo domingo, às 12 horas, aqui.
A seguir o texto que lhe serviu de base.
O primeiro programa pode ser ouvido duas entradas abaixo.

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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação, mesmo quando o percebemos como real. Pelo menos era isso que ele acreditava, ainda que se interrogasse muitas vezes onde acabava e começava a ficção, porque se tudo é ficção, nem por isso o real é uma coisa e a ficção uma outra coisa.

Onde começa e acaba a ficção? Que relacionamento estabelece com o real? Como se determinam (se é que se determinam) e se influenciam (se é que se influenciam)? Estas e outras eram as questões que lhe colocava o próprio acto de escrever. Estas e outras eram as questões que lhe surgiam no próprio acto de escrever.

Escrever não era para ele apenas o acto em si, facilmente identificado no tempo e no espaço, porque quando escrevia toda a sua vida girava em volta do que estava a escrever, mesmo quando não estava, de facto, a escrever. Mas é claro que quando se sentava a escrever, tudo o que tinha pensado anteriormente, tudo o que lhe passara antes pela cabeça, estava ali. Se tivesse sorte, claro!

Mas deixem-me retomar a história que vos quero contar, sem perder muito tempo com deambulações que certamente só conseguiriam maçar-vos e fazê-los deixar de me escutar.
Foi então no final do ano que ele tomou a decisão que viria a alterar por completo a sua vida: ia fazer algo de novo com o seu programa de rádio. Estava cansado do programa, se não mudasse qualquer coisa que lhe despertasse o entusiasmo então seria melhor acabar de vez com ele.

Há cerca de dois anos que todas as semanas fazia o programa, primeiro acompanhado, e depois sozinho. Mas debatia-se com muitas dúvidas, falta de meios e de apoio. Por isso pensava em acabar com o programa que, nos últimos tempos, consistia na leitura de textos literários com música à mistura.

Lia sobretudo prosa, mas também lhe acontecia ler poesia, poemas que o intrigavam, como lhe aconteceu com os poemas de Graça Pires.

E foi no final do ano, altura em que é sempre difícil não fazer balanços e tomar resoluções que ele teve afinal a ideia e tomou uma decisão.

A ideia que ele tinha tido era simples, ainda que, pensou ele, de difícil execução. Mas fez o primeiro programa do ano segundo esse novo modelo e, ainda que tivesse pensado que seria o único, deu por si a conceber a segunda edição do programa sob os mesmos moldes.
Um programa concebido como um todo e com uma intenção artística, foi o que ele disse, e repetiu, um programa concebido como um todo e com uma intenção artística.
E apesar de ter pensado (ou temido) que as estratégias utilizadas se esgotassem no primeiro programa, constatou com facilidade que tal não se verificara. Podia continuar a tecer a realidade com a ficção, podia continuar a imaginar e a instigar os seus ouvintes a imaginarem também.

O que ele tinha pensado era simples, escrever de propósito um texto para o programa, em que, de alguma forma, mostrasse esse estranho e enigmático relacionamento que existe entre a ficção e a realidade. Fazer do programa esse centro ficcional a partir do qual tudo poderia acontecer. E começou a acontecer. Começou realmente a acontecer.

Primeiro, quando se preparava para ouvir a repetição do programa, e estava a escrever isso mesmo, eis que o programa repetido foi, não aquele que esperava, mas um programa anterior. Ficou um pouco incomodado. Depois, depois saiu e encontrou, junto dos contentores do lixo, uma caixa de cartão cheia de cedês. Lembrou-se de imediato do seu maluco de estimação, como ele lhe chamava, que andava ao lixo, como lhe tinha dito ainda uns dias antes. Trouxe a caixa para casa, tinha cerca de trinta discos, todos de jazz, uma colecção daquelas que se vendem nas papelarias, em fascículos. Estava a acontecer, tinha começado a acontecer.

O que ele mais apreciava no acto de escrever era que quando começava nunca sabia onde ia chegar. O próprio acto de escrever abria o caminho que antes não existia. E todo o universo parecia conjugar-se para que isso fosse possível. Parecia começar a existir em função do que ele escrevia. Era extraordinário.

Porque a ficção tem essa propriedade, quando contamos uma história, ela tem tendência para continuar. Se não queres que aconteça, nunca comeces uma história, nunca imagines o que pode vir a acontecer, porque a ficção uma vez posta em movimento encontra sempre o seu caminho. E o seu caminho nem sempre é o caminho que queríamos, mas passa a ser, pois só assim chegaremos ao fim.

Estava já decidido, ou quase decidido, a fazer um segundo programa nos mesmos moldes. Tinha já pensado no texto, na acção, estabelecera várias possibilidades. Uma delas era colocar o sujeito da acção a interrogar-se sobre o seu próprio programa (tal como ele se interrogava) e a ouvi-lo a repetição (tal como ele próprio pretendia fazer), mas eis que a rádio repete outro programa que não aquele que queria ouvir, quebrando dessa forma o paralelismo que ele pretendia entre a realidade e a ficção.
Aborrecido porque não tinha podido ouvir o programa, aborrecido por ter passado outro programa, eis que sai de casa para dar uma volta – o que sempre o acalma – e encontra a caixa com a colecção de jazz.
Ora uma das coisas que o tinham preocupado era que tinha pouca música, e agora tinha cerca de trinta músicos, cerca de 30 horas de música, e de jazz, de que tanto gostava.
E isso convenceu-o a fazer outro programa nos moldes anteriores. E teria apenas jazz, a música mesmo que tinha encontrado e que ia referir no texto que leria. Sim, sem dúvida. E se a maior parte das pessoas que depois o ouviu nem percebeu o que se estava a passar, ele sim, ele sabia, e isso divertia-o. A realidade e a ficção começavam a dança que ele tão bem conhecia e que tanto o fascinava.

A ficção não se exerce no vazio, embora muitas vezes os escritores se admirem – e eu acho que se admiram sempre – com a faculdade que a escrita lhe dá de saberem muitas coisas que não sabiam e que de outra forma nunca saberiam. E na verdade, talvez tudo o que se escreva como ficção seja sempre ficção, por mais raízes que tenha na realidade. Basta que ao leitor lhe parece credível, apenas isso.
Quando ele escreveu que encontrara a caixa com a colecção de jazz, qualquer pessoa que o lesse não tinha a menor possibilidade de saber se ele encontrara a caixa ou apenas escrevera que o fizera. Estão a perceber o que eu quero dizer? Tenho a certeza que sim, tenho a certeza que sabem, ainda que talvez não saibam que sabem.

Quando planeava o próximo programa pensou no que acontecera no anterior. Uma das coisas que o surpreendera, que sempre o surpreendia, era como os textos escritos para serem lidos em silêncio suportavam muito mal serem lidos em voz alta. Pelo menos ele sentia sempre a necessidade, ao ler um texto, fosse de quem fosse, de repetir certas frases, certas ideias, uma vez que ao ler-se um texto escrito se pode voltar sempre a ele, mas o mesmo não se verifica num texto que é apenas ouvido. Por isso ele repetira certas frases, certos fragmentos, ainda que tivesse escrito aquele texto com a intenção de ser lido.
Com o programa aprendera, ou passara a acreditar, na leitura em voz alta de todos os seus textos como forma de os aperfeiçoar, mas isso era outra coisa, uma coisa diferente, ainda que o importante, no fundo, seja sempre encontrar o ritmo certo. Como na música, como no jazz, como em muito do jazz que ele adorava. Como aqueles músicos que agora ali estavam a para tocar para si.

É fácil imaginá-lo a ouvir toda aquela música que lhe caíra assim nas mãos, a ouvir disco atrás de disco, uma faixa aqui e outra ali, e depois seleccionar algumas e tentar escutá-las do princípio ao fim. É fácil, é muito fácil imaginar, mais fácil do que julga a maior parte das pessoas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

ainda radio arte

Hoje, às 19 horas, farei um segundo programa da série iniciada no dia 2 deste mês, que pode ser ouvido em directo aqui. Segue-se o texto utilizado no primeiro programa, que pode ouvir na entrada anterior.

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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso o que ele acreditava, ainda que se interrogasse muitas vezes onde começava e acabava a ficção. Era uma pergunta a que nunca conseguia responder e que, no entanto, tinha sempre vontade em responder.

Acreditava, se bem percebi, na existência de um mundo exterior, mas também acreditava que a forma como ele é visto e entendido é sempre um produto, em maior ou menor medida, da imaginação humana. Assim, o que o intrigava era a forma como esses dois mundos, igualmente poderosos, o mundo como ele é, e o mundo tal como ele é percebido, se relacionavam e influenciavam, porque ele acreditava que nenhum desses mundos era estanque, e essa era afinal a sua questão, a questão da qual nascia todo um conjunto de questões, todas elas de duvidosa resposta.

Não quero que fiquem com a impressão que ele era um pensador, um filósofo, pois não poderiam estar mais enganados se assim o pensassem, e o melhor é eu desfazer desde já essa ilusão. Ele era apenas um escritor, e mesmo dessa condição duvidava muitas vezes, apesar de acreditar que era um daqueles homens que pensam o mundo em forma de ficção.

Mas deixem-me começar pelo princípio, antes que comece a maçar-vos com as minhas inevitáveis deambulações, porque também eu, tal como ele, sou escritor e escrevo, tal como ele, usando a minha imaginação, mas tentando sempre que o resultado dessa imaginação seja o mais real possível, e com isso não quero dizer que imite a realidade, mas que a ficção, tal como ele acreditava, é a única forma de criação do real.

Foi no final do ano que ele tomou a decisão que viria a alterar por completo a sua vida. Claro que ele não fazia a mínima ideia que assim seria, na altura era apenas mais uma decisão, uma decisão que em nada parecia ser capaz de alterar a sua vida. Nem sequer era uma grande decisão, ainda que daquelas que se tomam habitualmente no final de cada ano e se esquecem poucos dias depois. Era apenas uma pequena decisão, uma decisão de todos os dias, como escolher o alinhamento do programa de rádio que colocava no ar todas as semanas há cerca de dois anos. Na verdade até tinha a ver com esse programa

Estava cansado do programa, como estava cansado de muitas coisas, e apesar de pensar muitas vezes que tal não dependia inteiramente de si, acreditava também no contrário, acreditava que havia nele um cansaço de viver, um cansaço que o impedia de viver plenamente.

Cada vez mais, só se sentia realmente vivo quando escrevia e, no entanto, escrevia cada vez menos. E foi por essa altura que a ideia lhe surgiu, estava ele a escolher, de entre a sua reduzida discoteca, e como ouvia sempre a mesma música a variedade não era muita, e isso preocupava-o.

Passava horas a ouvir o mesmo álbum, repetido até à exaustão, sobretudo quando escrevia e, se vos parece estranho, saibam que deixava com frequência de ouvir a música e era como se nunca a tivesse ouvido, tanto que quando se forçava a ouvir uma faixa do princípio ao fim, admirava sempre como era nova.

É fácil imaginá-lo a parar de escrever, escolher uma faixa de qualquer álbum que ouvia no momento a tentar escutá-la do princípio ao fim, como se fosse a primeira vez.

Neste momento, tenho a certeza, já acreditam neste homem que vos descrevi sumariamente, e com acreditar quero dizer que já lhe deram existência, que ele já existe para vocês, e para isso foi suficiente que eu descrevesse duas ou três das suas características. Porque na verdade é assim que habitualmente vemos os outros e até nós mesmos, a partir de duas ou três características que identificamos e destacamos. E funciona, funciona sempre, desde que consigamos traçar características que sejam capazes de definir o indivíduo, que sejam, de certa foram, exageradas mas decisivas, que o distingam facilmente dos outros.

Não sei se me estou a conseguir fazer entender, sou em muitos aspectos como o escritor de que vos quero falar, sei muitas coisas mas nunca quando as tento explicar, e isto para mim é, de certa forma, parte da beleza e do mistério do mundo. Mas voltemos ao escritor que descrevi, voltemos ao exacto momento em que ele escolhia a música para mais um programa. Estão a imaginá-lo? Como é que ele é? Como está vestido? Será que isso tem alguma importância? Primeiro escolhia os textos para ler, só depois tentava escolher a música, para separar os textos nuns casos, para lhes servir de fundo noutros. Escolhida a música lia então os textos, confrontando ambos.

Naquele dia os textos que o ocupavam eram de Robert Walser e ele tinha escolhido um único álbum para os acompanhar, música de filmes por um dos seus compositores preferidos. Mas depois teve a ideia de fazer outra coisa. Por que não ler António Maria Lisboa? Uma vez tinha começado a escrever um texto que usava como título de cada capítulo um verso de um dos seus poemas. E depois havia também aquele jovem poeta, como ele gostava de o interpelar, que nunca se cansava de elogiar o tão esquecido poeta. É verdade que ele prefere ler prosa, mas seria fácil fazer qualquer coisa com poemas do António Maria Lisboa, dizê-los e separá-los com música.

Estão a imaginá-lo a escolher os poemas, a juntar-lhe música?

Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso o que ele acreditava, ainda que se interrogasse muitas vezes onde começava e acabava a ficção. Era uma pergunta a que nunca conseguia responder e que, no entanto, tinha sempre vontade em responder.

Foi numa das vezes em que preparava o programa que lhe surgiu a ideia. Não lhe surgiu de repente, ou não lhe surgiu sozinha, porque primeiro ponderou apenas a possibilidade de deixar de fazer o programa. Uma das suas características era essa de colocar constantemente sem dúvida o que fazia, característica que ele considerava, ao mesmo tempo, a sua maior virtude e o seu maior defeito. Estávamos no final do ano, tinha acabado de fazer o último programa do ano, quando pensou se não seria melhor terminar o programa de uma vez por todas. E estava já a terminar com o programa quando pensou. E se eu fizesse algo novo?

O que ele mais apreciava no ato de escrever era que quando começava nunca sabia onde iria chegar, mas sabia que a partir do momento em que começava, todo o universo parecia conjugar-se para que lhe fosse possível continuar. Esse salto no escuro era para ele a própria essência do acto de escrever, uma aventura maravilhosa que lhe parecia em tudo muito mais maravilhosa que a aventura da vida, se não por outro motivo, porque tudo parecia fazer sentido, tudo à sua volta parecia girar em torno do acto de escrever. E ele quase ficava cego com tanta luz.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

arte radio

Há cerca de dois anos que realizo (produzo) um programa de rádio (um programa de autor) na Rádio Universitária do Algarve (RUA). Numa primeira fase a Rua do Imaginário foi sobretudo um programa de entrevistas (um convidado a descobrir, mais as suas escolhas de leitura e de música), depois passou a ser sobretudo um programa de leituras em voz alta. Agora, no primeiro programa do ano, resolvi fazer algo diferente, um programa de rádio concebido com uma intenção artística (como uma obra de arte). Mas o melhor será ouvir, do princípio ao fim.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

excitação primeira

Em (pequena) entrevista à Minguante, João Tordo define os escritores como
homens ou mulheres para quem o mundo se apresenta em forma de ficção, grande parte do tempo. Que pensam em forma de ficção.
Confesso que me deixou a pensar...

sábado, 3 de janeiro de 2009

escrever (por necessidade)

Escrevo muitas vezes a partir de frases que li, ouvi ou apenas me ocorreram. Ou talvez seja melhor dizer que sinto muitas vezes a compulsão de escrever a partir de frases (pequenas frases) que li, ouvi ou apenas me ocorreram (sem mais nem menos), e de que não me consigo livrar a não ser escrevendo um texto.

Já tenho escrito para justificar uma frase que me ocorreu [as palavras não dizem o mundo, dizem o nosso desejo de dizer o mundo], a partir de uma frase que li [os homens bons não escrevem bons poemas] e quase desaparece ou mesmo de uma frase que ouvi [não sei dançar, mas tenho entusiasmo] e que desapareceu de um todo.

E isto são apenas exemplos recentes, de que ainda guardo a memória.


Em silêncio

para dizer
que o céu é azul
que os corpos se movem no espaço
que doce é a tua boca
e amargo o teu desprezo

para dizer tudo isto
bastam-me os sentidos

as palavras
não dizem o mundo

dizem o desejo
de dizer o mundo

-->

[há pessoas assim]

há pessoas assim

acreditam no trabalho assalariado e no consumo
desenfreado
exercem a democracia da mesma forma
que jogam na lotaria
desprezam os outros tanto quanto
se amam a si próprias
defendem a guerra mas
apenas a favor da paz
citam amiúde livros
que nunca leram
sabem tudo sobre todas
as coisas

há pessoas assim
muitas pessoas assim

mas nunca uma vez que fosse
uma pessoa assim

e isso deve ter
algum significado

escreveu um bom poema

--->

[Não sei escrever um bom poema]

Não sei escrever um bom poema
acho que nunca saberei como.
cada vez estou mais convencido
que os bons poemas se escrevem sozinhos.
com um pouco de vontade sem dúvida
com muito entusiasmo e sobretudo
com bastante perplexidade.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O regresso

Falava há pouco com o Fernando Dinis, que me dizia que regressara ao seu blogue, mas com um registo mais intimista, e apeteceu-me logo regressar também, num registo que ainda não sei qual é, mas que passará por falar das minhas dúvidas e perplexidades ligadas ao acto de escrever.
Recuperei o nome de um anterior blogue, logo um duplo regresso, o meu e o de um dos meus blogues.
E já agora, escrevi um romance, nunca publicado, com o mesmo título desta entrada.