sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

ainda radio arte

Hoje, às 19 horas, farei um segundo programa da série iniciada no dia 2 deste mês, que pode ser ouvido em directo aqui. Segue-se o texto utilizado no primeiro programa, que pode ouvir na entrada anterior.

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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso o que ele acreditava, ainda que se interrogasse muitas vezes onde começava e acabava a ficção. Era uma pergunta a que nunca conseguia responder e que, no entanto, tinha sempre vontade em responder.

Acreditava, se bem percebi, na existência de um mundo exterior, mas também acreditava que a forma como ele é visto e entendido é sempre um produto, em maior ou menor medida, da imaginação humana. Assim, o que o intrigava era a forma como esses dois mundos, igualmente poderosos, o mundo como ele é, e o mundo tal como ele é percebido, se relacionavam e influenciavam, porque ele acreditava que nenhum desses mundos era estanque, e essa era afinal a sua questão, a questão da qual nascia todo um conjunto de questões, todas elas de duvidosa resposta.

Não quero que fiquem com a impressão que ele era um pensador, um filósofo, pois não poderiam estar mais enganados se assim o pensassem, e o melhor é eu desfazer desde já essa ilusão. Ele era apenas um escritor, e mesmo dessa condição duvidava muitas vezes, apesar de acreditar que era um daqueles homens que pensam o mundo em forma de ficção.

Mas deixem-me começar pelo princípio, antes que comece a maçar-vos com as minhas inevitáveis deambulações, porque também eu, tal como ele, sou escritor e escrevo, tal como ele, usando a minha imaginação, mas tentando sempre que o resultado dessa imaginação seja o mais real possível, e com isso não quero dizer que imite a realidade, mas que a ficção, tal como ele acreditava, é a única forma de criação do real.

Foi no final do ano que ele tomou a decisão que viria a alterar por completo a sua vida. Claro que ele não fazia a mínima ideia que assim seria, na altura era apenas mais uma decisão, uma decisão que em nada parecia ser capaz de alterar a sua vida. Nem sequer era uma grande decisão, ainda que daquelas que se tomam habitualmente no final de cada ano e se esquecem poucos dias depois. Era apenas uma pequena decisão, uma decisão de todos os dias, como escolher o alinhamento do programa de rádio que colocava no ar todas as semanas há cerca de dois anos. Na verdade até tinha a ver com esse programa

Estava cansado do programa, como estava cansado de muitas coisas, e apesar de pensar muitas vezes que tal não dependia inteiramente de si, acreditava também no contrário, acreditava que havia nele um cansaço de viver, um cansaço que o impedia de viver plenamente.

Cada vez mais, só se sentia realmente vivo quando escrevia e, no entanto, escrevia cada vez menos. E foi por essa altura que a ideia lhe surgiu, estava ele a escolher, de entre a sua reduzida discoteca, e como ouvia sempre a mesma música a variedade não era muita, e isso preocupava-o.

Passava horas a ouvir o mesmo álbum, repetido até à exaustão, sobretudo quando escrevia e, se vos parece estranho, saibam que deixava com frequência de ouvir a música e era como se nunca a tivesse ouvido, tanto que quando se forçava a ouvir uma faixa do princípio ao fim, admirava sempre como era nova.

É fácil imaginá-lo a parar de escrever, escolher uma faixa de qualquer álbum que ouvia no momento a tentar escutá-la do princípio ao fim, como se fosse a primeira vez.

Neste momento, tenho a certeza, já acreditam neste homem que vos descrevi sumariamente, e com acreditar quero dizer que já lhe deram existência, que ele já existe para vocês, e para isso foi suficiente que eu descrevesse duas ou três das suas características. Porque na verdade é assim que habitualmente vemos os outros e até nós mesmos, a partir de duas ou três características que identificamos e destacamos. E funciona, funciona sempre, desde que consigamos traçar características que sejam capazes de definir o indivíduo, que sejam, de certa foram, exageradas mas decisivas, que o distingam facilmente dos outros.

Não sei se me estou a conseguir fazer entender, sou em muitos aspectos como o escritor de que vos quero falar, sei muitas coisas mas nunca quando as tento explicar, e isto para mim é, de certa forma, parte da beleza e do mistério do mundo. Mas voltemos ao escritor que descrevi, voltemos ao exacto momento em que ele escolhia a música para mais um programa. Estão a imaginá-lo? Como é que ele é? Como está vestido? Será que isso tem alguma importância? Primeiro escolhia os textos para ler, só depois tentava escolher a música, para separar os textos nuns casos, para lhes servir de fundo noutros. Escolhida a música lia então os textos, confrontando ambos.

Naquele dia os textos que o ocupavam eram de Robert Walser e ele tinha escolhido um único álbum para os acompanhar, música de filmes por um dos seus compositores preferidos. Mas depois teve a ideia de fazer outra coisa. Por que não ler António Maria Lisboa? Uma vez tinha começado a escrever um texto que usava como título de cada capítulo um verso de um dos seus poemas. E depois havia também aquele jovem poeta, como ele gostava de o interpelar, que nunca se cansava de elogiar o tão esquecido poeta. É verdade que ele prefere ler prosa, mas seria fácil fazer qualquer coisa com poemas do António Maria Lisboa, dizê-los e separá-los com música.

Estão a imaginá-lo a escolher os poemas, a juntar-lhe música?

Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação. Pelo menos era isso o que ele acreditava, ainda que se interrogasse muitas vezes onde começava e acabava a ficção. Era uma pergunta a que nunca conseguia responder e que, no entanto, tinha sempre vontade em responder.

Foi numa das vezes em que preparava o programa que lhe surgiu a ideia. Não lhe surgiu de repente, ou não lhe surgiu sozinha, porque primeiro ponderou apenas a possibilidade de deixar de fazer o programa. Uma das suas características era essa de colocar constantemente sem dúvida o que fazia, característica que ele considerava, ao mesmo tempo, a sua maior virtude e o seu maior defeito. Estávamos no final do ano, tinha acabado de fazer o último programa do ano, quando pensou se não seria melhor terminar o programa de uma vez por todas. E estava já a terminar com o programa quando pensou. E se eu fizesse algo novo?

O que ele mais apreciava no ato de escrever era que quando começava nunca sabia onde iria chegar, mas sabia que a partir do momento em que começava, todo o universo parecia conjugar-se para que lhe fosse possível continuar. Esse salto no escuro era para ele a própria essência do acto de escrever, uma aventura maravilhosa que lhe parecia em tudo muito mais maravilhosa que a aventura da vida, se não por outro motivo, porque tudo parecia fazer sentido, tudo à sua volta parecia girar em torno do acto de escrever. E ele quase ficava cego com tanta luz.

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