sábado, 10 de janeiro de 2009

idem, aspas

O segundo programa da Rua do Imaginário deste ano já foi, com repetição no próximo domingo, às 12 horas, aqui.
A seguir o texto que lhe serviu de base.
O primeiro programa pode ser ouvido duas entradas abaixo.

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Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação, mesmo quando o percebemos como real. Pelo menos era isso que ele acreditava, ainda que se interrogasse muitas vezes onde acabava e começava a ficção, porque se tudo é ficção, nem por isso o real é uma coisa e a ficção uma outra coisa.

Onde começa e acaba a ficção? Que relacionamento estabelece com o real? Como se determinam (se é que se determinam) e se influenciam (se é que se influenciam)? Estas e outras eram as questões que lhe colocava o próprio acto de escrever. Estas e outras eram as questões que lhe surgiam no próprio acto de escrever.

Escrever não era para ele apenas o acto em si, facilmente identificado no tempo e no espaço, porque quando escrevia toda a sua vida girava em volta do que estava a escrever, mesmo quando não estava, de facto, a escrever. Mas é claro que quando se sentava a escrever, tudo o que tinha pensado anteriormente, tudo o que lhe passara antes pela cabeça, estava ali. Se tivesse sorte, claro!

Mas deixem-me retomar a história que vos quero contar, sem perder muito tempo com deambulações que certamente só conseguiriam maçar-vos e fazê-los deixar de me escutar.
Foi então no final do ano que ele tomou a decisão que viria a alterar por completo a sua vida: ia fazer algo de novo com o seu programa de rádio. Estava cansado do programa, se não mudasse qualquer coisa que lhe despertasse o entusiasmo então seria melhor acabar de vez com ele.

Há cerca de dois anos que todas as semanas fazia o programa, primeiro acompanhado, e depois sozinho. Mas debatia-se com muitas dúvidas, falta de meios e de apoio. Por isso pensava em acabar com o programa que, nos últimos tempos, consistia na leitura de textos literários com música à mistura.

Lia sobretudo prosa, mas também lhe acontecia ler poesia, poemas que o intrigavam, como lhe aconteceu com os poemas de Graça Pires.

E foi no final do ano, altura em que é sempre difícil não fazer balanços e tomar resoluções que ele teve afinal a ideia e tomou uma decisão.

A ideia que ele tinha tido era simples, ainda que, pensou ele, de difícil execução. Mas fez o primeiro programa do ano segundo esse novo modelo e, ainda que tivesse pensado que seria o único, deu por si a conceber a segunda edição do programa sob os mesmos moldes.
Um programa concebido como um todo e com uma intenção artística, foi o que ele disse, e repetiu, um programa concebido como um todo e com uma intenção artística.
E apesar de ter pensado (ou temido) que as estratégias utilizadas se esgotassem no primeiro programa, constatou com facilidade que tal não se verificara. Podia continuar a tecer a realidade com a ficção, podia continuar a imaginar e a instigar os seus ouvintes a imaginarem também.

O que ele tinha pensado era simples, escrever de propósito um texto para o programa, em que, de alguma forma, mostrasse esse estranho e enigmático relacionamento que existe entre a ficção e a realidade. Fazer do programa esse centro ficcional a partir do qual tudo poderia acontecer. E começou a acontecer. Começou realmente a acontecer.

Primeiro, quando se preparava para ouvir a repetição do programa, e estava a escrever isso mesmo, eis que o programa repetido foi, não aquele que esperava, mas um programa anterior. Ficou um pouco incomodado. Depois, depois saiu e encontrou, junto dos contentores do lixo, uma caixa de cartão cheia de cedês. Lembrou-se de imediato do seu maluco de estimação, como ele lhe chamava, que andava ao lixo, como lhe tinha dito ainda uns dias antes. Trouxe a caixa para casa, tinha cerca de trinta discos, todos de jazz, uma colecção daquelas que se vendem nas papelarias, em fascículos. Estava a acontecer, tinha começado a acontecer.

O que ele mais apreciava no acto de escrever era que quando começava nunca sabia onde ia chegar. O próprio acto de escrever abria o caminho que antes não existia. E todo o universo parecia conjugar-se para que isso fosse possível. Parecia começar a existir em função do que ele escrevia. Era extraordinário.

Porque a ficção tem essa propriedade, quando contamos uma história, ela tem tendência para continuar. Se não queres que aconteça, nunca comeces uma história, nunca imagines o que pode vir a acontecer, porque a ficção uma vez posta em movimento encontra sempre o seu caminho. E o seu caminho nem sempre é o caminho que queríamos, mas passa a ser, pois só assim chegaremos ao fim.

Estava já decidido, ou quase decidido, a fazer um segundo programa nos mesmos moldes. Tinha já pensado no texto, na acção, estabelecera várias possibilidades. Uma delas era colocar o sujeito da acção a interrogar-se sobre o seu próprio programa (tal como ele se interrogava) e a ouvi-lo a repetição (tal como ele próprio pretendia fazer), mas eis que a rádio repete outro programa que não aquele que queria ouvir, quebrando dessa forma o paralelismo que ele pretendia entre a realidade e a ficção.
Aborrecido porque não tinha podido ouvir o programa, aborrecido por ter passado outro programa, eis que sai de casa para dar uma volta – o que sempre o acalma – e encontra a caixa com a colecção de jazz.
Ora uma das coisas que o tinham preocupado era que tinha pouca música, e agora tinha cerca de trinta músicos, cerca de 30 horas de música, e de jazz, de que tanto gostava.
E isso convenceu-o a fazer outro programa nos moldes anteriores. E teria apenas jazz, a música mesmo que tinha encontrado e que ia referir no texto que leria. Sim, sem dúvida. E se a maior parte das pessoas que depois o ouviu nem percebeu o que se estava a passar, ele sim, ele sabia, e isso divertia-o. A realidade e a ficção começavam a dança que ele tão bem conhecia e que tanto o fascinava.

A ficção não se exerce no vazio, embora muitas vezes os escritores se admirem – e eu acho que se admiram sempre – com a faculdade que a escrita lhe dá de saberem muitas coisas que não sabiam e que de outra forma nunca saberiam. E na verdade, talvez tudo o que se escreva como ficção seja sempre ficção, por mais raízes que tenha na realidade. Basta que ao leitor lhe parece credível, apenas isso.
Quando ele escreveu que encontrara a caixa com a colecção de jazz, qualquer pessoa que o lesse não tinha a menor possibilidade de saber se ele encontrara a caixa ou apenas escrevera que o fizera. Estão a perceber o que eu quero dizer? Tenho a certeza que sim, tenho a certeza que sabem, ainda que talvez não saibam que sabem.

Quando planeava o próximo programa pensou no que acontecera no anterior. Uma das coisas que o surpreendera, que sempre o surpreendia, era como os textos escritos para serem lidos em silêncio suportavam muito mal serem lidos em voz alta. Pelo menos ele sentia sempre a necessidade, ao ler um texto, fosse de quem fosse, de repetir certas frases, certas ideias, uma vez que ao ler-se um texto escrito se pode voltar sempre a ele, mas o mesmo não se verifica num texto que é apenas ouvido. Por isso ele repetira certas frases, certos fragmentos, ainda que tivesse escrito aquele texto com a intenção de ser lido.
Com o programa aprendera, ou passara a acreditar, na leitura em voz alta de todos os seus textos como forma de os aperfeiçoar, mas isso era outra coisa, uma coisa diferente, ainda que o importante, no fundo, seja sempre encontrar o ritmo certo. Como na música, como no jazz, como em muito do jazz que ele adorava. Como aqueles músicos que agora ali estavam a para tocar para si.

É fácil imaginá-lo a ouvir toda aquela música que lhe caíra assim nas mãos, a ouvir disco atrás de disco, uma faixa aqui e outra ali, e depois seleccionar algumas e tentar escutá-las do princípio ao fim. É fácil, é muito fácil imaginar, mais fácil do que julga a maior parte das pessoas.

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