quinta-feira, 29 de maio de 2014

Emily Dickinson

Afraid!  Of whom am I afraid?
Not Death -- for who is He?
The Porter of my Father's Lodge
As much abasheth me!
 
Of Life?  'Twere odd I fear [a] thing
That comprehendeth me
In one or two existences --
As Deity decree --
 
Of Resurrection?  Is the East
Afraid to trust the Morn
With her fastidious forehead?
As soon impeach my Crown!
 
Ter medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!

LÊ QUE TE FAZ BEM

Muito para LER

segunda-feira, 26 de maio de 2014

BOM E EXPRESSIVO

Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: — Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído,
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra...
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...

Alexandre O'Neill, in 'De Ombro na Ombreira'

domingo, 25 de maio de 2014

Alberto Caeiro



Se Eu Pudesse Trincar a Terra Toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz. ...
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXI"
Heterónimo de Fernando Pessoa

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sexta-feira, 23 de maio de 2014

INFORMAÇÕES INÚTEIS

TUDO O QUE PRECISAS SABER SOBRE MUROS

Os muros têm tendência para se fecharem sobre si mesmos e isolarem-se do mundo.
Os muros têm corações de pedra, mas também têm sentimentos. Movem-se sempre de lado, mas olham-nos sempre de frente.
Os muros raramente se vão abaixo: possuem uma moral elevada e uma disciplina firme. Podem esticar-se e quase tocar o céu, mas são incapazes de saltar.
Ao contrário do que se pensa os muros não têm lado de dentro e lado de fora, mas apenas lado de cá e lado de lá.
Os muros gostam de proteger, gostam de ouvir, mas a sua verdadeira vocação é separar. Não admira assim que os muros tenham muitos inimigos.
A melhor maneira de deitar um muro abaixo é nunca o levantar.


PEQUENO ENSAIO SOBRE A PERSISTÊNCIA

As águias são injustamente consideradas arrogantes. A verdade é que estão apenas habituadas a olhar de alto.
Os crocodilos são animais tristes. Ninguém com uma boca tão grande pode ser feliz.
Os camelos são animais afáveis e prestáveis, ainda que de tão persistentes nessas qualidades se possam tornar muito aborrecidos e até importunos.
Os camaleões são de uma timidez atroz. Detestam dar nas vistas e fazem tudo para passarem despercebidos.
Os papagaios são repetitivos, toda a gente o sabe. O que poucos sabem é que os papagaios são muito persistentes.
Toda a repetição tem algo de persistência, ainda que poucas vezes assim seja.
Os caracóis são tão lentos que passam por persistentes.


A VERDADEIRA NATUREZA DAS PEDRAS

As pedras detestam estar sós. Viajam muito, quase sempre em negócios e raramente por prazer.
As pedras são todas muito seguras de si, com excepção óbvia das pedras de gelo.
Mais do que vira-casacas as pedras são polivalentes: com pedras se levantam muros, com pedras se atinge a polícia. As pedras que rolam são muitas vezes eléctricas.
As pedras são, todas elas extremamente sensíveis, mas também extremamente introvertidas. Por isso é que nada dizem, por isso é que poucos conhecem a sua verdadeira natureza.
As pedras não têm pontaria nenhuma. Quando se atira uma pedra nunca se sabe onde ela irá acertar.


TODA A REALIDADE É FICÇÃO

Quase todas as formigas são excelentes escritores, mas a sua letra é tão sumida que nada diz.
Existem muitos macacos, mas poucos são verdadeiros. A maior parte são de imitação.
A sabedoria das pedras não depende da sua capacidade de falar mas da nossa capacidade de ouvir. Por isso é que há pedras e há calhaus.
Há mil e uma razões para se gostar de Portugal. Uma delas é sem dúvida essa de Queirós.

Quem se olha num espelho nunca pergunta se é ele que é real. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

POEMA TRICOTADO


Explicar o poema é negá-lo
impedi-lo de iluminar os
recantos mais recônditos
da nossa turva existência
É necessário aceitá-lo
deixar que ele cresça em nós
como uma planta exótica
que nos fascina e incomoda
Só aceitando o seu mistério
com toda a humildade e orgulho
pés firmemente ancorados no chão
coração em vigoroso descompasso
Será afinal possível compreendê-lo

POEMA CORPO


O poema não tem corpo
O poema é ele mesmo
um corpo
Pode ter cabeça tronco membros
Pés para andar
Mãos que nos acariciam
Mas se fosse só uma palavra
Mesmo assim respiraria
E o seu bater seria sempre
O bater de um coração


PS.

Mais tarde ou mais cedo, o que me dizem, o que escuto, entra no que escrevo. Às vezes dou conta disso, outras nem tanto. Uma palavra, uma frase, pede outras palavras, outras frases, e torna-se o centro exigente de um texto; ou então uma frase, uma palavra, uma ideia que julgava esquecida, entra de rompante num texto que não provocou e faz dele a sua casa. Desta feita foi o segundo caso.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

3 POEMAS PORTUGUESES

ÊXTASE

acordo adormeço acordo
O Infante D. Henrique olha-se
no espelho azul do mar
Salazar está sentado numa cadeira
suspensa no tempo que perdemos
Salgueiro Maia assoma-se à janela
triste do futuro adiado
O meu fato cinzento tem um rasgão
atravessado no peito

No meu país tudo aconteceu  há
muito muito tempo e ainda está
tudo a acontecer
nada está esquecido
nada é lembrado
no meu país tudo acontece e não
acontece
ao mesmo tempo
no mesmo lugar

Por isso escrevo cada vez mais
branco sobre branco
os dedos nus tocando de leve
a superfície vaga do sonho
perdido no lado de dentro
do lado do fora
e de novo adormeço
de novo acordo
e de novo adormeço


ERA UMA VEZ UM PAÍS

fomos sempre um país possível
cedo nos habituámos a ser assim
ou assado
tanto nos fazia
éramos um país possível
até que um dia sonhámos juntos
um país novo
fomos realistas
quisemos o impossível
quisemos um país impossível
foi isso que desejámos
foi isso que obtivemos
um país impossível
impossível de suportar
impossível de viver
impossível de se renovar
quando é que o sonho se tornou
pesadelo?
vivemos hoje no mesmo impossível
país possível de sempre
quando é que vamos acordar?
quando é que de novo
pediremos o impossível?
quando é que começaremos
a construir o possível
país impossível
que existe e está ainda
à nossa espera?


POEMA EM CONSTRUÇÃO

Em mim eu guardo a alegria de Abril
faca de dois gumes
pau de dois bicos
metáfora estafada
cegueira que me permite
ver o que perdemos todos os dias
memória que me aproxima
e me afasta dos outros e de
mim mesmo
mistério íntimo intransmissível
inútil
ouro dos tolos
ressaca furiosa
sangue que me corre nas veias
palavrão gritado com raiva e com dor
com amor

Em mim eu guardo intacta
a alegria de Abril
bandeira puída
que ainda agito com orgulho
com desespero
com toda a estúpida intensidade
do meu ser
fui Abril e Abril fez-me assim
pleno desta alegria triste que é saber
que um mundo melhor é possível
que um mundo melhor só
depende de nós
que a poesia é a vida que
a nós mesmos recusamos
ténue linha que nos desafia

Em mim eu guardo intacta e dura
a alegria de Abril
sonho sonhos mil
mil sonhos esqueço mil sonhos adio
em mim Abril são todos os meses do ano
em mim Abril é esta alegria que me entristece
em mim Abril é esta tristeza que me enternece

Em mim eu guardo intacta e pura
a alegria de Abril
envelhecida ano após ano
em cascos de mágoa e de dor
doce vinho triste que estou certo
um dia todos hão-de beber
e então
só então
serei completamente

feliz