sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

conversas 2

Daqui a pouco, muito pouco, a Rua do Imaginário à conversa com João Saraiva (Sir Aiva).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

reflexo



Escrever

Dizes-me que escrevo com uma simplicidade desconcertante.
Agrada-me.
Comove-me.
É isso mesmo que procuro.
Ser simples.
Desconcertar.
Ai quem me dera escrever com a simplicidade desconcertante de uma flor!


Luís Ene



aqui

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

balanço e antevisão

A conversa com Carlos Norton à volta do formato de programa de autor correu bem, e o pontapé de saída está dado. Estas conversas acontecerão quinzenalmente,a próxima será dia 27 e contará com a presença de João Saraiva (Sir Aiva).

Amanhã um programa calmo, de que destaco a leitura do meu conto preferido de Eça de Queiroz e um cheirinho de som com tom.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

conversas na rua do imaginário

Amanhã, sexta-feira 13 (lagarto, lagarto, lagarto) começará na Rua do Imaginário uma série de conversas (e não entrevistas, note-se bem) que pretende ter como ponto de partida a discussão sobre a rádio como um meio criativo e de acesso do indivíduo à radiodifusão. No centro da discussão estará assim o formato de autor.

Os convidados serão (pelo menos inicialmente) autores de programas da Rua, rádio que mantém (ainda que não em exclusivo) programas de autor.

A primeira conversa será com Carlos Norton.

Ouça hoje a sua Sopa da Pedra : a Música Tradicional Europeia num Programa de Autor da RUA.FM 102.7. Todas as Quintas das 8 às 9 da noite.

Ouça amanhã a Rua do Imaginário, uma hora de palavras.

# 6 - texto base

[Reparo agora que não tinha colocado o texto do 6.º programa, 6.º de uma série concebida como um todo. Como aqui coloquei os anteriores faz todo o sentido que coloque também este. De notar que são apenas o textos base e não dispensam a audição dos programas que oportunamente tentarei colocar aqui e que entretanto serão de novo emitidos, quinzenalmente.

Reparo também que não dei nome a este conjunto de programas. Eu sei que existe um filme com esse nome, mas acho que não ficaria mal A Verdade da Mentira. Ou então A verdade da ficção... Ou simplesmente, como o próprio programa, Rua do Imaginário. Sim, é isso, Rua do Imaginário.]

Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação, por isso, quando ouvimos ou contamos uma história, o mais importante não é se ela é real ou imaginada, mas se é verdadeira.
Todas as histórias se baseiam em factos e na experiência pessoal daqueles que as contam, mas só são verdadeiras as histórias em que se quis dizer a verdade, a verdade tal qual os seus autores a conceberam.
Ao escrever esta história, quis dizer a verdade, aquela verdade que está para além dos factos e das palavras, a verdade que só em nós mesmos podemos encontrar. Por isso espero que percebam que disse a verdade mesmo quando inventei, sobretudo quando inventei, ainda que nada tenha sido verdadeiramente inventado. Contei o que sentia, nada mais, e deixei que a história se contasse a si mesma.

O melhor é mesmo ir já direito ao fim, que talvez muitos de vós tenham já antecipado. Talvez seja a melhor forma de perceberem que o fim, qualquer fim, não é mais do que um princípio, um novo princípio, porque depois de vos contar o fim, de modo breve e conciso, vou ainda continuar um pouco mais, e continuar a contar o que afinal vos quero contar e de que esta história é apenas o princípio, o princípio que nunca vos conseguirei contar até ao fim.

Mas se já anteciparam o fim desta história também poderão continuar a contar o que ficará por contar, pois já se viu que têm o que é preciso: são capazes de imaginar. E se não conseguiram antecipar o fim desta história, não desesperem, na verdade baste que o imaginem, estou certo que são capazes de o fazer, e o fim que imaginarem será o fim desta história e afinal de todas as histórias porque, se pensarem bem nisso, nenhuma história termina alguma vez, pois de cada vez que é contada começa de novo, seja qual for o fim.

O sexto programa decorreu, posso afirmá-lo, no dia e à hora marcada. Ele chegou à rádio cerca de dez minutos antes e esperou pela sua vez dentro do estúdio, como fazia muitas vezes. O autor do programa anterior confirma-o. O programa foi emitido em directo. O director da rádio é categórico. Ninguém o viu sair da rádio, apesar de terem estado sempre pessoas no seu interior. Pelo menos um colaborador esteve na sala de entrada durante todo o tempo do programa e não o viu sair, admitindo no entanto que tal poderia ter acontecido, ainda que fosse pouco provável, pois ainda que se tivesse distraído, a verdade é que ele nunca saía sem se despedir de quem ali estava. O autor do programa seguinte já não o encontrou no estúdio, quando ali chegou, cerca de cinco minutos antes do fim, e foi ele que colocou no ar o fecho do programa. Num dos leitores estava um disco a tocar. Em cima da mesa estava o texto lido naquele programa, bem como toda a música utilizada. E um livro aberto num poema que não foi lido durante o programa. O que pôde ser foi confirmado com a audição posterior do programa. Estes são os factos.

O seu telefone passou a estar sempre indisponível e não me abriu a porta, das duas ou três vezes que toquei à sua campainha. Quando me dirigi à rádio e perguntei por ele, disseram-me que nunca mais tinha aparecido, o que os tinha surpreendido muito pois, como me disseram, não fazia o seu género. Tinham-lhe tentado telefonar-lhe mas o seu telefone estava sempre indisponível, e ficaram à espera que ele explicasse o que tinha acontecido, mas ele nunca os contactou e não voltou a aparecer. Ninguém o tinha voltado a ver mas não se tinham preocupado muito com isso, se lhe tivesse acontecido algo de mal, certamente teriam sabido, mais tarde ou mais cedo, e a verdade é que ali na rádio ninguém o conhecia muito bem.

Já passou mais de um ano desde o seu último programa e nunca mais soube nada sobre o meu amigo. Nesse sexto programa a sua voz deixou de se ouvir perto dos quarenta e cinco minutos e, a partir, daí, ficou a tocar o mesmo álbum até ao fim, o que nunca antes acontecera. Não sei se tal facto tem algum significado, mas o álbum era o mesmo que ele tinha passado já anteriormente no programa quase na totalidade, separado por pequenos contos, e que um jovem autor de um outro programa tinha referido ser um dos seus álbuns preferidos. Tirando essa particularidade de se ter calado cerca dos quarenta e cinco, o programa em nada diferia dos anteriores, em que muitas vezes deixara tocar um mesmo álbum durante muito tempo. E o que dissera naquele programa também não fora nada de extraordinário. Falara do real e da ficção, falara de princípios e de fins, divagara afinal, como divagavam sempre os seus textos, mas era ele mesmo que se interrogava muitas vezes sobre se contar uma história não seria sempre divagar.

É verdade que podia ter feito muito mais. Podia ter perguntado por ele no seu local de trabalho, podia ter perguntado por ele aos vizinhos, podia ter dado conta do seu desaparecimento à polícia, ainda que anonimamente, mas a verdade é que não fiz nada disso, a verdade é que nunca mais soube dele nem ele me contactou, e mesmo alguns seus conhecidos, a quem perguntei por ele, limitaram-se a dizer que há muito não tinham notícias suas.
E o tempo foi passando e a situação manteve-se, nunca mais o vi nem tive notícias suas. Tanto quanto sei, o meu amigo desapareceu certo dia durante um programa de rádio, o sexto de uma série de novos programas, concebidos com um todo e com uma intenção artística, e nunca mais o vi ou tive notícias suas.

Conto esta história até onde quero contá-la, que isto fique bem claro. Poderia continuar a contá-la, mas decidi parar, e faço-o porque é assim que sinto esta história, uma história cujo fim deve ficar por imaginar. Escrevia-a assim, incompleta, para que ele um dia a complete, se quiser. Porque esta história é e não é minha.
Até lá, quem quiser que a complete. É fácil, muito fácil, basta imaginar.
Mas não se esqueçam de dizer a verdade, a vossa verdade, porque se assim não o fizerem, de nada vos servirá imaginar.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

# 6 e último

O sexto e último programa de uma série iniciada este ano e concebida como uma obra de arte radiofónica (uma espécie de folhetim radiofónico questionador) acontecerá hoje.

Pode ouvir a seguir o primeiro programa dessa série. Se quiser ouvir os restantes ou estabelecer contacto comigo use lnogueira1@gmail.com.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

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Charles Bukowski
The Laughing Heart

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is a light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

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O CORAÇÃO QUE RI

A tua vida é a tua vida
Não a deixes ser dividida em submissão fria.
Está atento
Há outros caminhos,
Há uma luz algures.
Pode não ser muita luz mas
vence a escuridão.
Está atento.
Os deuses oferecer-te-ão hipóteses.
Conhece-las.
Agarra-las.
Não podes vencer a morte mas
podes vencer a morte em vida, às vezes.
E quanto mais o aprendes a fazê-lo,
mais luz haverá.
A tua vida é a tua vida.
Memoriza-o enquanto a tens.
És magnífico.
Os deuses esperam por se deliciarem
em ti.

Charles Bukowski
(Tradução de Tiago Nené)

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vários poemas em português de Charles Bukowski aqui

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domingo, 1 de fevereiro de 2009

# 5

Tudo o que é percebido por cada um de nós é, em maior ou menor medida, produto da nossa imaginação e, no entanto, vivemos, a maior parte das vezes, de forma tão pouco imaginativa. Esta falta de imaginação de todos os dias, a que muitas vezes ele chamava tristeza, a que ele muitas vezes chamava desespero, preocupava-o, não só porque a considerava generalizada, mas porque a sentia a ganhar espaço em si, ao ponto de lhe ser cada vez mais difícil viver, de o simples facto de viver lhe exigir cada vez mais esforço, quando ele afinal acreditava exactamente no contrário, acreditava que a felicidade não devia exigir qualquer esforço.

Quando se conta uma história, há sempre um momento em que é preciso fazer um ponto da situação pois, tal como na vida, essa é a única forma de continuar ou até terminar, mas é preciso não esquecer que terminar uma história é permitir que uma outra história comece.

Ele tinha chegado ao quarto programa dessa nova série e interrogava-se até quando continuaria. E não era porque fosse muito difícil fazê-lo. É claro que lhe exigia algum esforço, mas não era nada por aí além. A questão que se lhe colocava, que sempre se lhe colocava, era uma questão de sentido. Faria sentido continuar? Até quando? Mas a verdade é que não estava com cabeça para pensar nisso, e nessas ocasiões fazia-lhe sempre mais sentido continuar do que parar, fazia-lhe sempre mais sentido deixar-se ir do que tomar uma decisão. Deixa-te ir, dizia-me sempre ele quando eu me queixava de que tudo me era cada vez mais difícil. Deixa-te ir. Deixa-te ir. E às vezes acrescentava, segue o teu coração, e ria, de mim e de si mesmo, porque não acreditava em dar conselhos, por mais sábios que fossem.

Deixa-te ir. Deixa-te ir. É isso que eu digo e repito a mim mesmo quanto escrevo. Deixa-te ir. Deixa-te levar pela escrita. Deixa-te levar por aquilo que em ti desconheces. Entre a cabeça e o coração escolhe sempre o coração. O teu coração sabe melhor do que tu o que sabe a tua cabeça. E aqui já não falo da escrita mas da vida, ainda que em mim as duas se misturem de tal forma que penso muitas vezes que são uma coisa só. Mas divago e, ainda que esta seja a única forma de contar uma história, de vez em quando é preciso voltar ao ponto de partida para de novo partir e seguir em frente. Às vezes, estar em silêncio e falar é uma e a mesma coisa, sobretudo quando falamos de mais, que não é mais do que uma forma impura de estar em silêncio.

Tenho então vindo a contar o que aconteceu ao meu amigo, escritor como eu, depois que decidiu renovar a forma como fazia o programa de rádio que colocava no ar há cerca de dois anos; tenho tentado dar conta, programa a programa, das dificuldades que sentiu e da forma como as resolveu. Tenho contado de menos, é quase certo que sim, mas a verdade é que considero muito mais importante o que não se diz, o que se deixa ao leitor completar, o que se deixa ao leitor imaginar. Por isso nunca referi o seu nome, embora o pudesse fazer com facilidade. Por isso o referi como escritor, ainda que seja mais como homem do que como escritor que quero falar dele. Porque a verdade é que se queremos contar uma história temos sempre de contar outra: as histórias, como a realidade, apenas se oferecem de forma indirecta, como reflexos de algo que está sempre além.

Ele tinha pensado fazer do seu programa de rádio, durante algum tempo, uma espécie de centro ficcional em que tudo se confundiria ao ponto de quem o ouvisse ser incapaz de perceber onde começava e acabava a ficção. Por isso a voz do narrador se confundia com a sua, por isso muito do que ele era e do que lhe acontecera era atribuído à personagem. Por outro lado, a própria música apresentada encontrava a sua razão de ser no texto que era lido, como se o ilustrasse, como se tudo estivesse a acontecer naquele momento. Podia explicar muito melhor, narrar tudo com minúcia, mas o melhor será ouvir um desses programas, ou então imaginá-lo, o que talvez seja melhor.

Ele foi então tecendo a realidade com a ficção, à procura do que percebeu ser, a partir de determinada altura, uma resposta para si mesmo, algo que lhe permitisse continuar. E aqui eu deveria talvez falar da sua vida, das dificuldades que atravessava, mas mais uma vez prefiro que usem a vossa imaginação, que imaginem um homem à procura de algo que lhe permita começar de novo e que confiem na vossa imaginação.

Foi no quarto programa, segundo ele, que as coisas lhe fugiram ao controlo, de forma misteriosa, o que no entanto não pareceu incomodá-lo. A partir de um certo momento a música que se ouviu deixou de ser a música que ele escolhera e que insistia em colocar, sem que para isso existisse uma qualquer explicação. Ele colocava um disco, escolhia uma faixa, e o que se ouvia era uma outra faixa de um outro disco qualquer. É claro que não havia maneira de provar o que ele dizia, nem ele o tentou fazer, pois na altura estava sozinho na rádio e a audição do programa nada podia esclarecer. Ainda lhe perguntei se não estava preocupado com o que acontecera, mas ele respondeu-me com uma frase curta e um sorriso: Fosse essa a maior das minhas preocupações. E depois começou a falar de outra coisa qualquer.

“Então no quinto programa não aconteceu nada?”, perguntei-lhe alguns dias depois de ele ter passado na rádio, e ele repetiu num eco:”Não aconteceu nada?”
“Sabes o que eu quero dizer, não aconteceu nada de extraordinário?”, insisti, e ele de novo repetiu num eco:”Nada de extraordinário?”
Perguntei-lhe um pouco irritado se já não se lembrava do que acontecera no seu último programa, e ele respondeu-me que se lembrava muito bem, e que desta vez nada acontecera de semelhante, e olhou-me como se estivesse prestes a revelar-me algo ainda mais extraordinário, mas afinal nada disse e ficou apenas a olhar-me.

No quinto desses programas a música que se ouviu foi a que ele planeara, e isso pareceu ao meu amigo tão extraordinário quanto a mim me parecera extraordinário que no programa anterior tivesse acontecido exactamente o contrário. E se antes, quando ele me contara o que acontecera no quarto programa, duvidara da sua sanidade mental, agora ainda duvidei mais, mas ele falou-me longamente de como não devemos perder a capacidade de nos maravilharmos com as coisas simples da vida, e parecia tão seguro de si e do que dizia, e tão feliz, que eu pensei que se tinha enlouquecido, então melhor para ele, porque pela primeira vez desde há muito tempo transbordava de um entusiasmo puro e tranquilo que me recordou uma frase de Raul Brandão que em tempos ele me mostrara: “Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura até de uma pedra.”

Vivemos com pouca imaginação, disse-me ele, e repetiu antes de se afastar, vivemos com pouca imaginação, como se essa frase banal tivesse um significado não só óbvio mas também extraordinário. Na altura não dei grande importância a essa frase, mas hoje, talvez porque tenha sido a última que me dirigiu, dou por mim a repeti-la muitas vezes sem uma razão aparente. Vivemos com pouca imaginação.