domingo, 30 de novembro de 2014

3 Poemas

Talvez


talvez não adiante chorar
talvez não adiante rir mas
seja como for
chora quando te apetecer
ri quando tiveres vontade
prova o doce
prova o amargo
saboreia-os
é tudo o que podes fazer
por isso faz
faz o melhor que puderes
faz o melhor que souberes

*

O Lado Negro do Poema


quero ser a escuridão
na tua vida
a sombra em que repousas
da tirania da luz
a treva em que mergulhas
para te sentires só
o lado negro
da página em branco
em que todo poema
se escreve

*

Incapacidade Temporária


tem cuidado muito cuidado
não procures em tudo
um sentido

resiste ao canto surdo 
das sereias que te
encantam

talvez o seu mistério
seja não existir 
mistério algum

garantem-te sempre
que todos os caminhos
vão dar a Roma

mas talvez tu queiras
chegar a outro lado
qualquer

tem cuidado muito cuidado
avança sempre por tua
conta e risco




quinta-feira, 27 de novembro de 2014

INTERVALO


Fico em silêncio para melhor te ouvir
Fecho os olhos para melhor te ver
Estou só mas sinto-me acompanhado


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ENIGMA

Porque em tudo
procuras um sentido
quando és tu que dás
um sentido a tudo?

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SAIL AWAY


dou
um passo em frente
dois passos atrás
e avanço de lado
como quem falha
o alvo
o olhar pousado
na linha do horizonte
e digo a mim mesmo
que é assim a vida
e digo a mim mesmo
faz-te à vida Luís
faz-te à vida que a morte
não espera



domingo, 9 de novembro de 2014

O homem e a árvore

O homem olhou a árvore e pensou:
esta árvore existe, não tenho qualquer dúvida,
mas será que tem consciência de si?
Para sua surpresa, a árvore respondeu-lhe:
tu tens consciência de ti, não duvido,
mas será que existes mesmo?

ego

ego
tudo é ego
ego cego
ego que rego
ego que nunca nego
ego lego
ego tego
ego ego ego

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Imagem

Escrevo:

disponho palavras num desenho
simples
como pedras de calçada

guardo duas ou três
para vos atirar
à cabeça.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

[...]

Não compreendo, dizia ele, o olhar pousado com espanto no quadro.
Não tens de compreender, precisas apenas de sentir. Não sentes nada?
Ele olhou-a e o seu olhar mostrava o mesmo espanto silencioso que dispensara ao quadro.
A arte pode compreender-se, como se compreende algo de que se conhece os pressupostos e os processos, mas também se pode sentir, sem que nada se saiba, e essa é a força da arte, disse ela convicta, como se constatasse um mero facto.
Ele sorriu e sorria ainda quando olhou de novo o quadro.
Sentimos tanto mais a arte, sobretudo a contemporânea, quanto menos a tentamos compreender, quanto mais nos despimos dos nossos preconceitos.
Ele continuou a olhar o quadro, um sorriso de espanto no rosto moreno. Ela olhou-o ainda por momentos, depois os seus olhares encontraram-se no quadro.
Deram as mãos e ficaram a olhar o quadro, o mesmo sorriso misterioso no rosto.

AS PALAVRAS

As palavras nunca são simples
quando se trata de palavras
até a palavra simples
é complicada

As palavras nunca se calam
quando se trata de palavras
até a palavra silêncio
fala de mais