terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ingenuidade

Será que a palavra árvore
tem folhas e raízes?

Sento-me à sua sombra
a pensar e as raízes afundam-se
céleres no silêncio da folha.

[inédito]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

CARTA DE AMOR A OPHELIA

quando
me olhas
fervo

quando
me tocas
ardo

o teu amor
cega-me

dor intensa
corrosiva

és ácido
mais que
sulfúrico

meu pequeno
pequenininho
ninho

24.02.2012
às 6 da tarde

[inédito]

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O MEU MAIOR DESEJO



Qual é o teu maior desejo?
- perguntou,
qual poderoso génio das
mil e uma possibilidades,
e tu respondeste-lhe,
um sorriso obliquo
rasgado de luz,
que querias:
Dançar…
com uma rapariga!

Tê-la
por momentos
nos meus braços,
os corpos confundidos
mal tocando
o chão.

Tão perto e tão longe
da realidade,
tão perto e tão longe
da perfeição.

Sorrio da tua pura
e intensa sabedoria.
Sorrio contigo, sorrio
de mim mesmo.

Porque também eu sinto
que a felicidade não é mais
do que isso:
estar afinal
tão perto e tão longe
da verdadeira sabedoria,

estar afinal
tão perto e tão longe
da verdadeira
satisfação.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

DEUSA

Queria tanto
passar um dia contigo
em Vénus
com ou
sem camisa

P.S.
A poesia não se explica, eu sei, mas a duração do dia em Vénus corresponde a 243 dias na Terra.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

NO CÉU NEGRO

Não é usando o adjectivo escuro
ou obscuro
que o poema se escurece

ele possui a sua escuridão
uma noite que
o esconde e molha no céu negro

Gastão Cruz
in Escarpas 2010

lido em "Algarve - 12 Poetas a sul do Século XXI", Livros Capital

poemas aqui, aqui, e ainda um ensaio e uma entrevista

domingo, 19 de fevereiro de 2012

poemas avulsos


1.
talvez as palavras nada digam
verdade seja dita
as palavras não
têm boca
mas não é menos verdade
que se dizem
dizendo-nos

2.
queria tanto
passar um dia contigo
em Vénus
com ou
sem camisa

[inédito]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ESCRITA POR ENFORCAMENTO



1.



Quando deu entrada na prisão começou a ter sérios problemas em dormir, de tal forma que toda a noite dava voltas e mais voltas na cama. Acabou por morrer dias depois, estrangulado com os lençóis.



2.



Quando o prenderam, soube de imediato que estava em maus lençóis, mas só soube quão maus eram,
quando eles lhe apertaram o pescoço sem apelo e o asfixiaram até à morte.



3.



Foi encontrado morto na sua cela, quando ninguém estava já à espera, depois de ter ameaçado vezes sem conta que se enforcaria.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Talvez eu devesse dedicar-te este poema mas tu ias sem dúvida procurar compreender

não sei porque algumas
palavras
soam ressoam
de mais em mim
se pelo seu som se
pelo seu significado

seja como for
processo sem sentido
processo consentido
nunca
mas nunca
procuro
compreendê-lo

não há como prender
as palavras
e esperar que expliquem
o que  elas não sabem
nem nós precisamos
alguma vez de
saber e

muito menos
sim, muito
muito menos

compreender