domingo, 27 de março de 2011

Regra da proporcionalidade

Dou o meu passeio diário
fechado em mim mesmo
desatento

esmago
sem quase dar por isso
um pacato formigueiro

é então que penso que
fechado em si mesmo
desatento

Deus não é
muito diferente de mim
apenas bastante maior

Nada

Eu no meu corpo como o tigre no seu bafo.
O mundo leva iguais a jaula e a casa.
Somos a vida que não é,
Fora não ser a morte.
Nem mesmo nada somos:
Estamos no que fomos
À espera do que importe.

Não se pode sair, e entrar já não:
Nada já deu entrada ao só nascido
Que é esse mesmo Nada:
Pelo que Nada não é nada,
Mas é nada Em Deus que tudo gera.
Eu na minha alma como o bafo no seu tigre.

Vitorino Nemésio

quinta-feira, 24 de março de 2011

À esquerda do poema

Há muitas coisas que
quase mal imaginamos,
e no entanto,
nem por um momento
duvidamos
que são.
Nisso estamos de acordo,
tu e eu.
Mas enquanto tu
lhe chamas fé,
eu chamo-lhe
falta de visão.

quarta-feira, 23 de março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

‎[para ser lido em voz alta, pausada e intensamente]

se eu quisesse
eu podia,
separar o corpo
da mente.
assim,
de um momento para o outro,
de repente.
se eu quisesse
eu podia,
mas pergunto-me
onde é que eu
afinal ficaria.
separado o corpo
da mente,
o que de mim
restaria?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Nove anos depois...

N


Divorciaram-se e mudaram ambos de sexo. Nove anos depois encontraram-se e voltaram a casar. Há coisas que nunca mudam.


N


Nove anos depois de se ter apaixonado, continuava apaixonado. Manteve esse segredo até à morte.


N


Regressou nove anos depois. Estava tudo na mesma. Até ele era o mesmo.


N


A guerra terminou nove anos depois. Já ninguém se lembrava por que tinha começado.



N


Um dia resolveu colocar-se numa das entradas da cidade com um cartaz que dizia estar farto de tudo. Nove anos depois ainda ali estava. Só se foi embora quando lhe ergueram no local uma estátua em tamanho natural.

terça-feira, 15 de março de 2011

Amor mais que perfeito


Permaneceram fiéis,

um ao outro e a si mesmos,

amando-se à distância,


num absoluto respeito

pelas juras que então tinham proferido.

Apenas sabiam do amor


que continuava vivo neles,

desconhecendo por completo

o que acontecera ao outro.


A verdade é que não só não sabiam

um do outro como tudo fizeram

para nunca mais se encontrarem.